Splintered
2 Before: Chapter 2
Notas iniciais
Notou distraída, como o vento estava rebelde. Soprava seu cabelo na cara, varria as folhas do chão e gelava seu rosto. A morena se recordou de repente que tinha guardado uma boina felpuda com detalhes em preto e branco na mochila. Abriu a bolsa de alça transversal, guardando com carinho a flor que antes decorava seu cabelo dentro do livro que leria mais tarde. Depois pegou a boina, ajeitando-a na cabeça para que cobrisse as orelhas e o cabelo não ficasse na cara.
Percebeu também que a maior parte das casas em sua rua já estavam decoradas para o Halloween; com pequenas caveiras sorridentes na porta, lanternas de aboboras, fantasminhas e bruxas narigudas em painéis artesanais. O Halloween sempre foi sua época favorita do ano, gostava do clima e das musicas. Quando pequena adorava vestir fantasias para sair assustando criancinhas menores e até mesmo alguns adultos, podia pregar peças em pessoas que não gostava e ainda de brinde ganhava doces! Nem mesmo no natal ela se divertia tanto. Seus pais geralmente compravam doces no começo do ano, para dar tempo de passar do prazo de validade. Eles adoravam imaginar causar problemas gastrointestinais naqueles pestinhas.
Quando passou pela casa de numero oitenta e três no final da sua rua, Alice apressou o passo. Torcendo internamente para que ele não a visse, mas foi em vão.
— Oi, Alice! — cumprimentou Melvin Highson de uma forma um pouco abobalhada enquanto tropeçava em sua direção.
O garoto de catorze anos gorducho, sardento e ruivo parecia ter uma paixonite pela Brandon mais nova. Alice se sentia desconfortável com isso, principalmente porque o garoto parecia persegui-la. Sempre estava no quintal para saudá-la quando ia e voltava da escola e algumas vezes ela via pela janela do quarto ele olhar fixamente para sua casa, o que era meio bizarro. O resto da família constituída pelo pai e pela mãe era igualmente obesa. Clara Highson era aquela espécie de mãe coruja super protetora, tratava o garoto como um ser frágil que a qualquer instante iria quebrar. Ditava-lhe como se vestir, o que ver, ouvir e comer e beber. Porque segundo a mulher seu ’’anjinho era muito especial e por isso merecia mais atenção’’
O garoto não tinha nenhum amigo e sequer freqüentava a escola, não era a toa que estava virando um projeto de Stalker. A família Highson tinha dinheiro, e parecia querer seguir a risca o manual de boa vizinhança, o que irritava muito Carmem Brandon. Ela costumava a chamá-los de Pigson’s e odiava a forma em que eles eram tão prestativos e perfeitinhos, se oferecendo para cortar a grama ou levando tortas de amoras nos finais de semana, que na maioria das vezes acabava no lixo. No halloween Carmem sempre fazia algum tipo de travessura para atazanar aquela família, como queimar o jardim premiado da Sra. Highson ou esconder um peixe morto dentro do carro deles.
Alice forçou um sorriso e acenou com a cabeça enquanto praticamente corria para longe dali. Melvim corou passando a mão pelo cabelo oleoso, parecendo constrangido. Naquele momento ele parecia mais do que nunca fazer juz ao apelido que sua mãe dera, com a pele rosada e o suor escorrendo como lagrimas pelo meio da testa. Que nojo.
A família Brandon era um pouco anti-social e esquisitona em vista pelo resto da cidade, desde que chegaram ao Mississippi há seis anos. Eles não conversavam com as pessoas, permanecendo com os rostos sérios e austeros. Como Alice havia dito, eram como a família Adams da vida real. Sua família era uma das mais antigas e importantes no seu mundo, sendo considerada uma linhagem nobre e puro sangue. Bom quase totalmente puro sangue. O que significa que tinham dinheiro o bastante para viverem confortavelmente em casa.
Mas seus pais não eram os típicos ‘’dondocos’’, na qual existia aos montes na sua comunidade. O Sr. e Sra. Brandon eram advogados de uma importante firma mundana, uma das poucas profissões onde não importa o que aconteça alguém sempre se ferra. Dava para entender o porque ele apreciavam tanto apesar de estar em contato com os humanos, pensou Alice. Finalmente se tornou possível ver a construção larga de três andares que identificava a instituição de ensino. Construída por tijolos vermelhos, possuía janelas de vidros sobrepostas em tiras.
Também tinha a estatua de metal de Margareth Wade, importante jogadora de basquete que ali já estudara. Aquilo certamente era uma forma de encorajar o time de basquete de que eles poderiam chegar longe. Os humanos realmente eram muito iludidos, pensou ao revirar os olhos. A placa de boas vindas já se tornara visível aos seus olhos, dizendo:’’ Cleveland High School, home of the wildcats’’. Reprimiu um grunhido. Odiava muito o fato do mascote da escola ser o mesmo que o daquele filme idiota, High school musical. Como se não bastasse isso, sua escola em dois anos se uniria a East Side High School, então ai sim ela teria motivos para se preocupar com adolescentes cantando e dançando pelos corredores.
O estacionamento estava quase todos cheio, com carros de diversos tipos e cores, alguns mais novos e mais legais que outros. Alice também tinha um carro, um porche turbo amarelo canário que ganhou de aniversario aos dezesseis anos, mas quase nunca usou. Os humanos eram irritantemente curiosos, e realmente não queria as pessoas cochichando ou tentando puxar assunto consigo por meio disso.
Foi naquele momento que uma Harley Davidson atravessou o local, o motor potente causando lhe arrepios na espinha, antes de estacionar em um local vago. Outros dois carros pararam perto, um jipe monstruoso e um volvo reluzente. O coração dela acelerou enquanto observava embasbacada, o motociclista tirar lentamente o capacete da cabeça. Madeixas loiras e encaracoladas se revelaram, dando um ar angelical que contrastava perfeitamente com o rosto másculo e viril que em nada combinavam com a sua idade.
Jasper Whitlock Hale. Alice se lembrava que o havia visto pela primeira vez, duas semanas após se mudar para a cidade. Com o porte atlético e sorriso charmoso, ele ajudava a professora com suas coisas como um perfeito cavalheiro. Sua respiração ficara presa na garganta, enquanto sua boca ficara repentinamente seca e o coração acelerado. Foi como se estivesse presa em uma espécie de transe, onde ela não conseguia desviar os olhos. Alice também viu quando uma loira grandalhona, que ela descobriu mais tarde se chamar Nettie Banner, deu em cima dele na sua frente. No entanto de forma cortês ele afirmou que já tinha namorada. Infelizmente ela estava ocupada demais tentando fechar a boca, antes que literalmente começasse a babar, para absorver essa ultima informação.
Depois que ele se foi Alice se auto-recriminou pela sua atitude, ele era um humano e portanto ela deveria desprezá-lo, cumprindo com o seu dever em tornar a vida de todos esses seres desprezíveis o mais árdua possível. Naquele mesmo dia, Nettie acabou ‘’acidentalmente’’ enroscando os longos cabelos no secador de mão, o que a obrigou a cortar o cabelo bem curto. Depois disso a jovem Brandon se convenceu de que seria melhor se manter longe do rapaz, assim a estranha empatia que passou a nutrir sumiria. Mesmo assim ela não conseguiu reprimir de pensar nele ao menos cinco vezes ao dia e reunir informações sobre o mesmo.
Era dois anos mais velho que ela, tinha uma irmã gêmea chamada Rosálie; uma loira alta e curvilínea de parar o transito. Os dois moravam com a tia desde os oito anos. As fofocas que corriam sobre isso afirmavam que o pai deles era um presidiário e mãe havia morrido por dividas de drogas. Ela sabia que não devia confiar em informações tão sensacionalistas vindo de adolescentes cruéis mas não se surpreenderia se estivessem certos; conhecia o bastante do mundo para saber que as pessoas em geral poderiam ser bem estúpidas.
Mas nada daquilo serviu para acabar com o encanto que Alice tinha por ele.
No ano seguinte ela se sentira eufórica por finalmente cair na sala dele, embora soubesse que deveria evitá-lo. Era contraditório porque o que deveria fazer era reprimir o que sentia, mas ao invés disso ela estava era alimentando esse sentimento. Tinha sorte dos pais não terem descoberto, ou a mandariam em um vôo direto para Volterra onde passaria o resto da sua vida trancafiada, sem contar que isso poderia acarretar em punição para o resto da sua família por não terem conseguido educá-la corretamente segundo as leis e tradições da sua comunidade. No seu mundo era proibido qualquer tipo de empatia sentida pelos humanos.
De qualquer forma esse fato não mudou muita coisa, Alice queria conversar com ele mas seu respeito pelas suas tradições e por não saber exatamente como fazer isso a impediram. Sempre que Jasper falava consigo, paralisava e invés de gaguejar como uma pessoa normal, ela despejava uma enxurrada de palavras rápidas que acabavam perdendo sentido enquanto sua língua enrolava, algumas vezes até se tornava rude. As pessoas costumavam zombar dela por isso, mas Jasper não. Ele só sorria gentilmente ou gargalhava por achar engraçado sua capacidade de vomitar palavras a esmo. Isso fazia o pequeno coraçãozinho dela se aquecer de forma agradável.
Os dois realmente não trocavam mais do que algumas palavras com o conteúdo escolar durante o ano, mas já era o suficiente para que ela começasse a sonhar acordada com possíveis situações que os fariam se aproximar, ou até mesmo ela confessando seu amor por ele e o mesmo dizendo que era recíproco. Seriamos como Romeu e Julieta, um amor proibido e épico, pensara ela. Por ele, Alice teria coragem de ir contra as leis arcaicas de seu povo, sem se importar como a imagem da sua família seria mais suja ainda, tudo para viver o amor da sua vida. Se tornaria uma revolucionaria, quem sabe. E todos se lembrariam dela por uma coisa boa que fez.
A gloria do primeiro nos torna tão cegos e tolos! Alice deveria ter se lembrado que esta historia não acaba em um final feliz, o seu também não acabou. A cerca de oito meses atrás, quando saia da escola, se deparou com uma cena que lhe roubou o fôlego e partiu seu coração em minúsculos caquinhos que a cortaram. Jasper estava parado no meio do estacionamento beijando de forma voraz uma garota de cabelos escuros e cacheados. Um beijo como aqueles em que ela sonhara varias vezes protagonizar, um verdadeiro beijo de cinema que arrancava assobios e incentivos das outras pessoas presentes.
Foi verdadeiramente difícil passar por aquela cena como se ela não estivesse acontecendo, principalmente porque suas pernas tinham virado geléia e havia algo que a sufocava na garganta. Mas ela o fez e sequer derramou uma lagrima ao executar esse gesto de descaso. Mas mesmo assim suas emoções influenciaram na sua magia, que transformou aquele céu azul em cinzento transbordando em chuva, como se aquelas gotas fossem suas lagrimas. Mais tarde, imaginou como aquele beijo deveria ter se tornado ainda mais cinematográfico com aquilo, e desejou do fundo do seu coração que eles pegassem uma pneumonia.
Porque naquele momento tudo o que ela sentia era um vazio profundo e opressor enquanto andava pela chuva. A água caindo pelo seu rosto e grudando o cabelo e a roupa no corpo; aquele dia não estava previsto para nenhum fenômeno climático e por isso ela não levou um guarda chuva. Sua pose indiferente não durou muito, assim que chegou em casa ela se trancou no banheiro do seu quarto onde desabou chorando copiosamente. A chuva como se refletisse isso aumentou de intensidade batendo contra o telhado dos Brandon’s com força e relampeando. Alice tinha ouvido quando Jasper informou ter uma namorada, mas só chegou a digerir isso depois.
No inicio tinha achado que ele mentira só para se livrar de Netttie de uma forma mais gentil e fácil, afinal ela era feia e gorda demais para ficar com ele. Sem contar que Alice nunca tinha o visto com outra garota que não fosse sua irmã, então ela concluiu que se fosse verdade ele já deveria ter terminado com quem quer que fosse. Mas não, como fora tola em acreditar que poderia viver um conto de fadas. Era até melhor que fosse por forma de rejeição, desta forma não causava mais danos a ninguém que não fosse a si mesma. E pelo resto do dia Alice permaneceu trancada no quarto sofrendo seu luto pela morte de algo que nunca aconteceu.
Alice não era uma pessoa de guardar magoa então ela conseguiu voltar com a sua rotina, mesmo que com grande esforço. Por precaução ela se tornou mais fechada e quando Jasper vinha falar com ela, pedindo algo emprestado Alice somente entregava o que quer que fosse e se virava para o outro lado.
Piscando rapidamente algumas vezes para voltas a realidade, Alice se deparou com a cena de uma morena caminhando como se estivesse em um desfile no estacionamento, observando com visível desgosto a trajetória da garota até Jasper e tascar-lhe um beijo voraz. Desviou os olhos, incomodada. Poderia fazer quase um ano mais ainda era doloroso.
Depois daquele fatídico dia não demorou muito para que Alice descobrisse quem era a felizarda que obtinha o que ela desejava. Jasper havia tido três namoradas durante esses cinco anos que estudava na escola, segundo as fontes de fofoca da escola, populares da qual ela não fazia o menor esforço de guardar o nome, porque naquela época tinha certeza que não passavam de boatos.
Mas o de Maria Houston, foi o único que ela não conseguiu esquecer afinal, ela foi protagonista da cena que estilhaçou o seu coraçãozinho. Era masoquista, mas Alice fez uma busca geral sobre a garota. Por isso descobriu que ela tinha a idade de Jasper, longos cabelos castanhos escuros e cacheados, pele queimada pelo sol e corpo voluptuoso. Maria era descendente de espanhóis e a líder do grêmio estudantil. Ela era basicamente perfeita, e Alice queria muito ódia-la, embora não conseguisse. Ódio era um sentimento muito forte e negativo para uma pessoa como Mary Alice Brandon sentir.
Maria parecia até amigavel, era muito simpática e nunca lhe atazanara de forma alguma mas ainda existia algo que fazia a jovem Brandon ficar desconfortável na presença dela. Não encontrou explicações, talvez os seus santos simplesmente não batessem, mas sempre achou toda essa gentileza dela forçada demais, falsa demais. Talvez fosse mesmo coisa de sua cabeça. Obrigando seus olhos a pousarem em qualquer outro lugar, Alice observou os irmãos igualmente charmosos de Jasper, praticamente pousarem em frente a seus carros como se estivessem em uma seção de fotos.
Se é que ’’irmão’’poderia ser uma boa classificação a se definir, estava mais para primos/irmãos/cunhado(a)/namorada(o) se fosse considerar todas as relações que interligavam aquele grupo seleto. A Sra. Cullen tinha dois filhos biológicos, Emmett e Edward, mas ainda sim não hesitou em receber a guarda dos sobrinhos depois que sua irmã veio a falecer. Um gesto muito nobre e compreensivo, pensara Alice, principalmente considerando o quanto uma criança gastava por si só.
Mas os Cullen eram quase tão ricos quanto os Brandon’s, que diferente destes não esbanjavam. Afinal dar carros novos em folha para vários adolescentes, alguns sendo inclusive importados, era praticamente limpar a bunda com dinheiro. Esme Cullen era uma restauradora de casas muito procurada por todo o país por conta de seu exímio trabalho. Carlisle Cullen era um neurocirurgião que provavelmente poderia estar trabalhando em um grande hospital em Los Angeles ou New York ganhando muito mais rios de dinheiro. Mas eles diziam que gostavam da tranqüilidade que uma cidade mediana poderia proporcionar.
Emmett era o mais velho com dezenove anos assim como os gêmeos, corpo largo e musculoso de quem praticava musculação em academia e fazia parte do time de football americano, o que de fato era verdade. O cabelo curto e crespo preto, olhos azuis meio pequenos e enorme sorriso com covinhas que mais o assemelhava a uma criança absurdamente grande. Emmett era o típico palhaço da turma, bem humorado e sempre com uma resposta maliciosa na ponta da língua que faria qualquer vovó de setenta anos corar. Bom uma coisa que Alice poderia garantir era que as aulas nunca eram monótonas a seu lado. Nas poucas vezes em que fizeram trabalhos juntos em sala de aula, ele sempre lhe arrancara risos com seu lado extrovertido. Alice e ele seriam uma dupla imbatível se ela não se forçasse a vestir a mascara de garota calada e anti-social. A esquisita.
Já Edward era diferente. Era alto para a idade, com o corpo magro mas definido. Com cabelos acobreados e desalinhados que de certa forma lhe eram um charme, tinha olhos de uma cor verde esmeralda incomum e assim como Alice era considerado quase um garoto prodígio por estar em seu Senior Year com apenas dezessete anos. Edward era um daqueles músicos torturados que andam meio maltrapilhos e escrevem canções com a ajuda de álcool, embora não tivesse idade o suficiente para consumir esse tipo de coisa. Não que o impedisse. No entanto ele ainda podia ser considerado um nerd, de acordo com sua freqüência de faltas e histórico exemplar.
Mas apesar de tudo isso ele era muito legal com Alice. No começo a jovem Brandon achava que ele sentia certa obrigação em trocar algumas palavras com ela, considerando que ele era representante de classe e ela a vice. Depois ela percebeu que não era bem por isso. Os dois se entendiam muito bem apesar das personalidades distintas, talvez ela fosse uma dos seus únicos amigos verdadeiro considerando que só se aproximavam daquela família por interesse ou para aumentar a popularidade. Ele conhecia um pouco da verdadeira personalidade de Alice e achava curioso como aquela pequena criaturinha se transformava em outra ao conversar sobre seus gostos. Mas nunca fez nenhuma pergunta a respeito, provavelmente pensava que ela só era reservada como ele.
Muitas vezes os dois passavam o intervalo inteiro na biblioteca jogando xadrez ou damas. Ela até tentava trapacear usando suas visões mas era como se ele pudesse ler sua mente, antecipando todos os seus passos. Isso a fez questionar se havia sangue mágico diluído nas veias daquela família, possivelmente transmitido de alguns ancestral. Já tinha notado também o quanto Jasper parecia influenciar as pessoas com as suas palavras quase como se pudesse manipular suas emoções. Bruxos que se relacionavam com humanos algumas vezes só eram deserdados se possuíssem herança, sendo exilados da comunidade mágica assim como tinha seus poderes bloqueados pelos Volturis, o que não tornava essa possibilidade totalmente impossível.
No começo, depois daquele dia fatídico; Alice tentou se forçar a gostar de Edward, ele a conhecia, falava com ela e a entendia. Muitos relacionamentos amorosos se iniciavam com uma simples amizade então porque não? Depois de algumas semanas percebeu como aquilo era idiota; Edward era seu amigo ela não podia simplesmente fazer isso porque eram amores diferentes, não havia aquela paixão que lhe deixava de pernas moles ou lhe roubava o fôlego. E então ela se conformou com a sua própria situação; era jovem e tinha toda uma vida pela frente para esquecer sua paixonite por um humano. E se tudo desse certo dali a três dias, nunca mais precisaria ver a cara de nenhum deles.
O sinal estridente e irritante finalmente bateu anunciando o inicio da primeira aula. Alice capturou seu celular dentro da bolsa colocando os fones de ouvido e apertando play para musica ’’London queen’’ da Charlie XCX a um volume que em muito tempo de uso poderia causar-lhe dor de cabeça. Mas quem se importa? Ninguém falava consigo mesmo por isso era útil ter esse pequeno aparelhinho para lhe distrair. Alice caminhou até o bloco B para a sala 3 onde teria sua primeira aula do dia, no caso trigonometria. Seus passos eram largos e fluidos como se deslizasse sobre patins. Era um costume fortemente adquirido da época em que ainda freqüentava as aulas de balé aos oito anos.
Até que ela boa nesse tipo de coisa ao contrario da prima que era um desastre total. No entanto fora com esse objetivo que seus pais a matricularam nas aulas de balé. Naquela idade Alice já demonstrava grande diferença de personalidade com relação ao resto da família, era agitada demais, tagarela demais, amigável demais. Os bruxos em geral eram criaturas serias e até um pouco calculistas, a criação rígida implicava isso. Por isso temendo por desastres futuros o Sr. E Sr. Brandon matricularam a pequena nas aulas para que pudesse causar acidentes que ‘’parecessem’’ acidentais mesmo que de fato não fossem. E Alice era péssima nesse tipo de coisa.
Podia imaginar como isso frustrava seus pais. Mais teve um dia em especial que uma coleguinha invejosa tentou humilhá-la chamando-a de esquisitona e puxando-lhe o cabelo. O sangue dela ferveu por um instante e seu poder saiu pela culatra. Ao tentar tirar as mãos de Abigail de seu cabelo, acabou por empurrá-la com força demais o que fez com que a perna da garota batesse no bebedouro; causando uma torção que a impediu de dançar na apresentação de fim de ano. É claro que a culpa acabou recaindo sobre a pequena Brandon, que assistiu a conversa entre a professora e seus pais, estarrecida, ela tinha certeza que ficaria de castigo ao julgar pela postura deles.
Mas isso não aconteceu. Assim que saíram do estúdio seus pais sorriram abraçando-a e dizendo que estavam muito orgulhosos dela naquele momento. Alice até mesmo ganhara um enorme sorvete do sabor que desejava escolher, mas nem o gosto doce do sorvete de leite condensado com calda de caramelo fez com que ela se sentisse menos culpada pelo que tinha provocado. Abigail era irritante mas Alice sabia o quanto ela tinha se esforçado para ser a dançarina principal, e agora esse papel seria designado a ela como substituta. Caso a garotinha esnobe soubesse desse fato faria um escândalo, e apesar de se sentir mal Alice não pode deixar de sorrir ao imaginar a imagem.
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