Spiritus ― Os Elementares
4 Capítulo 4 — Ganho O Meu Transmorfo
EU NÃO SABIA O QUE O GRANDE SPIRITUS FAZIA ALI.
Não era para ele estar ali, na verdade. Era para ele estar em sua Ilha, não ali, diante de nós. Mas nenhum de nós quatro (Barry, Carlos, Danilo e eu) fizemos objeção a isso. Muito pelo contrário, continuamos ajoelhados em forma de reverência ao Grande Spiritus.
O.K., na verdade, eu saiba. Aquilo significava que já estava na hora de eu ir embora para a missão. O Grande Spiritus não nos visitaria para outra coisa a não ser isso. Mas eu pensava que ele me daria mais tempo para me adaptar aos meus novos poderes e não somente dois dias — se for contar o dia em que fui Escolhido. Eu só tinha um dia como Elementar. E aquilo não era o suficiente para eu aprender a lidar com esse meu novo poder.
— Levantem-se — disse Grande Spiritus.
Nós quatro nos levantamos e olhamos para o grande Leão que estava diante de nós. Eu estava com certo medo de olhá-lo e eu não sabia bem a causa disso. Talvez porque os olhos vermelhos e intimidadores de Grande Spiritus fossem difíceis de encarar, ou simplesmente por eu ter sido Escolhido como o Elementar da Ilha da Água por ele. É, talvez seja por isso.
— Um paço à frente, Thayer, por favor — disse Grande Spiritus.
Eu hesitei por um instante e o grande Leão sorriu para mim.
— Não tenha medo, Thayer. Está tudo bem — disse ele gentilmente.
Respirei fundo e dei um paço à frente, ficando bem a frente dele.
— Algo errado, senhor? — perguntei.
Grande Spiritus olhou em meus olhos e eu não consegui desviar de seu olhar. Ele sorriu para mim.
— Sempre tão educado, Thayer... — observou ele e aquilo me fez corar. — Mas, não. Não por enquanto. Eu vim para outra coisa.
Ele me encarou.
— Eu fiz algo errado? — perguntei apontando para mim mesmo com certo medo.
Eu podia jurar que aquele rosnado do Grande Spiritus era uma risada, mas eu resolvi não perguntar.
— Mas é claro que não, Thayer — disse ele em meio ao rosnado/riso e balançando a cabeça em negativa. — Meu propósito é outro.
— O quê então, senhor? — perguntei curioso.
Apesar de eu não ser uma pessoa curiosa, eu queria saber tudo o que o Grande Spiritus tinha a respeito de mim — se é que sua chegada ali era a respeito a mim. Bem, entendam quando eu digo que aquilo me deixou curioso, porque, quando você está prestes a ir a uma missão suicida, tudo que possa ser uma simples e minúscula ajuda, lhe desperta um interesse que até mesmo você nunca imaginou ter na vida.
— Se incomoda de me emprestar seu amigo por algumas horas, Carlos e Danilo? — perguntou Grande Spiritus para eles dois.
Eu ouvi alguns “ahn” de hesitação por parte deles e quase ri. Eu sabia que nenhum deles tinha tido contato direto com o Grande Spiritus na vida (ninguém tinha há mais de quatrocentos anos) e ter um diálogo, mesmo que tinha sido apenas uma pergunta, por parte do Grande Spiritus, já era de intimidar.
— Não, senhor — disse Danilo.
— N-não, s-senhor... — gaguejou Carlos.
— Muito bem, obrigado — disse Grande Spiritus educadamente.
Um pequeno silêncio se prolongou. Vi Grande Spiritus virar a cabeça para onde meu irmão se encontrava.
— E você, Barry? — perguntou ele. — Se incomodaria de me emprestar seu irmão por algumas horas?
Não ouvi a resposta de meu irmão de imediato. Eu sabia que ele tinha hesitado. Barry podia estar sendo durão em relação a me deixar ir a essa missão porque ele não tinha escolha (ninguém tinha), mas eu sabia que por dentro ele estava totalmente devastado. Barry, apesar de ser tão durão, tinha coração mole.
— Não, senhor — disse Barry.
Grande Spiritus assentiu para meu irmão.
— Siga-me, Thayer, por favor — foi tudo o que o Grande Spiritus disse antes de virar as costas para todos nós.
Comecei a segui-lo...
— Senhor? — ouvi a voz de meu irmão chamar o Grande Spiritus.
Grande Spiritus e eu viramos para encarar Barry. Eu lancei um olhar para meu irmão que dizia “o que é que você está fazendo?”, mas ele me ignorou por completo, focou seu olhar em Grande Spiritus.
— Sim, Barry? — disse Grande Spiritus.
— Ele... ele... — meu irmão tomou fôlego. — Thayer não irá partir agora, irá? — perguntou Barry, olhando o chão.
Virei-me para olhar Grande Spiritus, prendi a respiração, e, jogando a cabeça de lado, o grande Leão sorriu para meu irmão.
— Não, Barry — disse o Leão.
Soltei o ar e vi meu irmão fazer o mesmo assim que voltei a olhar para Barry.
— Thayer e eu teremos um momento de conversa — continuou o Leão. — É só isso? — perguntou o grande Leão.
Meu irmão assentiu para ele.
— Sim, senhor — disse Barry.
— Ótimo — disse Grande Spiritus. — Se nos derem licença... — Grande Spiritus se virou para mim. — Vamos, Thayer? — ele sorriu para mim amigavelmente.
Olhei para meu irmão e meus amigos e assenti para eles, e eles assentiram para mim. Voltei-me para encarar o grande Leão nos olhos e assenti para ele também.
— Sim, senhor — disse eu.
Ele sorriu e assentiu para mim, e nós dois fomos caminhando em direção ao norte da Ilha da Água.
Eu não sabia até quando iríamos andar naquele deserto de gelo. Tínhamos passado pelo Centro e pela Capital, onde todos os habitantes haviam se curvado para ele e me cumprimentado com o nosso cumprimento da Ilha da Água, e continuamos a seguir em direção ao norte. Eu pensei que ele iria me levar para o nosso vulcão, onde tinha o Templo da Água, mas não. Grande Spiritus desviou do vulcão e seguiu em linha reta depois.
O Leão seguia calma e tranquilamente e eu ia bem ao seu lado. O gelo parou de cercar as redondezas de onde eu morava e de perto do vulcão e o clima começou a esquentar. Algumas árvores silvestres e algumas conhecidas começaram a surgir em nosso campo de visão, juntamente com alguns animais.
Agora dava para saber para onde o grande Leão me levava; Grande Spiritus me levava para as florestas da Ilha da Água, o que eu achei bastante esquisito, porque parecia que só tínhamos andado questão de minutos e não horas — eram necessárias horas de viagem de onde eu morava para ir até nossas florestas. Mas eu não liguei. Por mais estranho que parecia, eu me sentia bem naquele local. Eu nunca tinha pisado nas terras das florestas da Ilha da Água, aquela era a primeira vez e era incrível.
Ao adentrar mais na floresta, vi árvores maiores do que seis metros de altura, grossas e milhares iguais. Tinha coqueiros, bananeiras e outros pés de frutas que você poderia imaginar. Algumas plantas exóticas que eu já tinha comprado para minha avó no mercado que tínhamos na Capital para os seus chás. Sons de animais silvestres e não silvestres tinha chegado aos meus ouvidos e aquilo, por alguma razão, me fez rir.
Eu sempre gostei de animais. Sempre. Eu sempre quis ter um cachorro ou gato em casa, mas meu irmão, infelizmente, era alérgico há pelos de animais, então minhas tentativas de trazer cães ou gatos eram totalmente inúteis. Quando Barry me viu triste, ele disse que não era por mal, mas era que sua alergia era forte e eu não queria arriscar a saúde dele.
Grande Spiritus não dizia nada ao caminhar entre as árvores e plantas e eu também não me atrevi a falar com ele, pois eu tinha medo de que Grande Spiritus pudesse achar um enorme tagarela. Então eu permaneci completamente quieto. Principalmente quando a nossa caminha começou a ser uma subida; tinha começado a ser exaustiva, a caminhada.
Mas chegou um momento em que ele parou e virou sua cabeça para trás, olhou para mim e sorriu. Quando eu cheguei perto dele e olhei para onde ele tinha olhado, eu não acreditei naquilo.
Bem diante de nós, a floresta terminava e começava uma espécie de terra molhada com pedrinhas ao chão e tinha um rio enorme, aonde a correnteza da água descia para a direção à minha esquerda. Grande Spiritus começou a andar e, quando olhei de onde vinha à correnteza do rio, vi uma enorme cachoeira — quando digo enorme, não é uma coisa de apenas cinco metros, eu queria dizer que tinha mais do que quinze metros, se duvidasse. A água que caia da cachoeira formava uma grande piscina e descia logo em seguida para o rio, era totalmente limpa e a brisa que vinha dela era bem gelada, o que refrescava naquele calor que ali fazia. Tinha algumas pedras que só fazia a paisagem da cachoeira ser mais linda.
Sorri para a brisa e fui molhar meus pés e minhas mãos na grande piscina que a cachoeira fazia. Mas me lembrei de que estava saindo sem permissão do Grande Spiritus, então me voltei para ele completamente sem graça e ele riu para mim.
— Pode ir — disse ele ainda sorrindo.
Sorri de volta para o Leão de olhos vermelhos, corri para a piscina da cachoeira, mergulhando nela sem me importar com a temperatura gélida da água.
A sensação era ótima. Ter a água passando por minha pele e sentir a temperatura gélida dela era perfeito para mim. Eu nunca tinha notado, mas eu me sentia bem melhor na água do que em terra firme. Mas, depois que eu notei que tinha que voltar a respirar, eu experimentei uma coisa: respirei ali embaixo.
Era a mesma coisa que respirar na superfície. Quando a água entrou em meus pulmões, era a mesma coisa que oxigênio. Nenhum habitante da Ilha da Água sabia respirar debaixo da água e eu tampouco sabia que os Elementares de minha Ilha pudessem também. Mas, sabendo ou não, aquilo era ótimo.
Vejam, é um humano!, disse alguém perto de mim.
Virei-me para encarar a voz, já formando correntes de água em volta de minhas mãos, pronto para um combate. Mas eu só vi.. peixes. Um cardume bem grande de peixes do tamanho da palma de minha mão. Eram criaturas fofas.
Eu não sabia dizer qual espécie daqueles peixes se pareciam com os de antigamente, pois eles eram completamente diferentes do que habitavam no antigo mundo. Eram peixes-focas (uma mistura de focas com peixes). Eles eram pequenos, tinham guelras para respirarem, barbatanas de peixinhos, mas tinha o focinho de focas e a cauda de focas. Criaturas completamente inofensivas e adoráveis de nossa Ilha, mas não era possível criá-los; eram criaturas da natureza.
— Vocês quase me matam de susto — falei para mim mesmo e ri, liberando as correntes de água que tinham se formado em minhas mãos.
Ainda bem que o senhor desfez a corrente de água, disse um dos peixes-focas.
Não queremos ser jogados correnteza à abaixo, disse um segundo
Nadamos muito para poder chegar aqui em cima, disse um terceiro.
— Espere um minutinho aí... — levantei o indicador para eles. — Vocês conseguem me entender? — perguntei completamente incrédulo.
Claro que conseguimos entendê-lo, senhor, disse primeiro peixe-foca, dono da primeira voz que eu ouvi debaixo da água.
— Mas... como? — perguntei perplexo.
O senhor é um Elementar, disse o segundo peixe-foca.
Então isso diz que o senhor pode falar com qualquer criatura marinha, disse o terceiro.
— Bacana! — falei excitado.
Eles produziram um som que eu deduzi ser uma risada.
— Bem, eu adoraria ficar aqui embaixo e conversar com vocês, mas tenho que voltar — falei. — O Grande Spiritus me aguarda lá em cima.
O cardume todo começou a nadar por todas as direções, provocando um alvoroço engraçado, como se fosse uma dança engraçada entre os peixes-focas.
Incrível!, disse o primeiro peixe-foca.
Bastante!, disse o segundo.
Diga ao Grande Spiritus que mandamos lembranças?, perguntou o terceiro.
— Pode deixar — sorri para eles.
Até mais, senhor, disse o primeiro peixe-foca.
— Até mais — acenei com a mão para eles.
Vamos, pessoal, disse o primeiro peixe-foca. Vamos voltar correnteza à abaixo.
E o cardume se foi e eu ri comigo mesmo.
Era totalmente incrível saber que dali por diante eu poderia conversar com qualquer criatura marina e que eu respirava debaixo d’água. Eu queria testar mais daquelas habilidades incríveis, mas o que eu tinha dito aos peixes-focas era verdade. O Grande Spiritus estava lá em cima e me esperando, e eu embaixo d’água conversando com peixes; eu tinha que voltar à superfície.
Voltei para a superfície segundos depois de ter aquele pensamento.
Já submerso, olhei para o grande Leão que estava sentado sobre as patas traseiras bem no mesmo lugar em que eu tinha o visto pela última vez e ele sorriu para mim. Enrubesci. Era totalmente desconfortável ver um sorriso sincero daquele Leão.
— Desculpe a demora, senhor — disse eu.
— Bobagem — disse ele ainda sorrindo para mim. — Se divertiu lá embaixo?
Ri de lado e assenti com a cabeça.
— Sim, senhor — falei. — Ah, os peixes-focas mandaram lembranças.
Ele sorriu.
— Ah, os peixes-focas... — refletiu ele. — Criaturas adoráveis. Tão gentis e educadas...
— Concordo plenamente com o senhor — falei assentindo com a cabeça.
Tirei toda a água que tinha ficado comigo e joguei-as para as plantas próximas de nós, o que me fez ficar completamente seco. Incluindo minhas roupas. Incrível!
— Senhor? — disse eu.
O Grande Spiritus parou de encarar o céu e me olhou.
— Sim, Thayer? — disse ele.
— Bem, ahn... os outros Elementares da Ilha da Água conseguiam falar com criaturas marinhas?
— Sim — disse-me ele. — Uma habilidade que concedo somente para os meus Escolhidos. Assim como os das outras Ilhas. Os Elementares da Ilha do Fogo pode falar com os dragões e não se queimam ao fogo. Os da Ilha da Terra podem falar com qualquer criatura ande pela terra e podem levitar qualquer coisa. Os da Ilha do Ar pode falar com qualquer ave e sabem voar.
— Desculpe, senhor... — disse eu. — Dragões? Realmente existem dragões na Ilha do Fogo?
— Sim, Thayer — disse ele sorridente. — São bem comuns nas montanhas de lá.
— Mas e a Ilha da Luz e a Ilha das Trevas? — quis saber.
Grande Spiritus fitou o céu ensolarado acima de nós.
— Bem, eles são... interessantes — disse ele em tom pensativo. — A Ilha da Luz não tem aversão à luz nenhuma. Eles podem olhar para luz com facilidade e seus olhos não se irritam, e produzem sua luz própria. Os habitantes da Ilha das Trevas enxergam em completa escuridão; enxergam como se estivesse claro e eles produzem a própria trevas e escuridão.
Assenti para ele.
— Sabe, Thayer — continuou ele —, eu poderia tirá-los do mapa agora mesmo se eu quisesse e era o certo a se fazer.
— Senhor? — disse em sem entender e cheguei mais perto dele.
— Muitos não sabem, mas quando Trevas tentou reinar, a Ilha da Luz tinha começado a se aliar a ele. Muitos inocentes das duas Ilhas tiveram o azar de terem sido forçados a trabalhar para Trevas e alguns morrerem ao se recusarem — ele me olhou e eu podia jurar que ele tinha ficado completamente triste. — Eu podia ter transportado os habitantes inocentes para as outras Ilhas e mudar os seus elementos, mas todos se recusaram.
“Se eu os banissem deste mundo, tudo seria mais fácil”, Grande Spiritus voltou a fitar o céu ensolarado. “Não haveria a tentação das Trevas com a Luz, não teria guerra entre essas duas Ilhas que eram, e sempre foram, rivais até eras atrás”.
Grande Spiritus se deitou no chão e fez um gesto para que eu me sentasse ao seu lado, e me sentei logo em seguida.
— Mas por que o senhor não os baniu? — perguntei.
— Porque eu acredito em perdão, Thayer — disse ele. — Acredito em paz, em esperança, em amor. Trevas não tinha amor e nem paz em seu coração e por isso começou àquela guerra. Ele não acreditava que o novo mundo poderia ser controlado por um Leão velho como eu — ele riu.
Ri com ele.
— Bobagem — falei ainda rindo. — O senhor não parece tão velho.
— Você é muito gentil, Thayer. Muito obrigado — ele deu uma piscadela para mim, o que era chocante vindo de um Leão. — Mas tenho mais de cinquenta mil de anos.
O olhei com os olhos arregalados, mas depois voltei para minha expressão normal.
— É, bem... o senhor é um pouquinho só mais velho que todos nós — falei aproximando o dedo indicador da mão direita do polegar.
Ele deu uma gargalhada engraçada para um Leão — mesmo eu não tendo visto em minha vida um leão dar gargalhada antes. Sorri com isso. Ao menos eu conseguia fazê-lo rir, pensei. Bem, era bem melhor vê-lo rindo do que totalmente triste.
Grande Spiritus ficou olhando para o céu e fechou os olhos, aproveitando o momento quando uma brisa fresca passou por nós. Fiz o mesmo. Ali estava quente e aquela brisa realmente nos refrescava. Mas abri os olhos e ele me olhou logo em seguida.
— Temos trabalho a fazer, Thayer — disse ele.
— Sim, senhor — falei assentindo e pondo-me de pé.
O Leão se colocou de quatro patas.
— Primeiro, precisamos ir para a floresta — disse-me ele.
Franzi a testa.
— A floresta, senhor? — perguntei.
Ele assentiu para mim.
— Precisamos encontrar o seu Transmorfo — disse ele sorrindo gentilmente.
— Ah... — foi só o que eu disse.
Transmorfos são criaturas que — propriamente dizendo — se transformam em qualquer animal que elas quiserem. Nunca se sabe exatamente a aparência real de um Transformo, pois ele sempre está em forma de alguma criatura. São criaturas imprevisíveis, sensíveis, sempre estão fugindo ou procurando uma forma de afastar os humanos de perto deles e se ofendem fácil — nunca ofende um Transmorfo ou o assuste; pode ser a última coisa que fará na vida.
Grande Spiritus começou a seguir caminho de volta para a floresta e eu o segui. Ele não foi rapidamente para lá e nem lentamente, ele seguiu em um ritmo que o fazia observar tudo o que estava a alcance de seus olhos, o que fazia exatamente o mesmo para mim.
Eu podia ver todas as plantas novas e diferentes do novo mundo. Ouvir o som dos macacos, aves, répteis e todos os outros animais que podiam produzir som. E alguns insetos e aracnídeos (eu odiei e morri de pavor na parte em que ele me fez passar por uma teia de aranha, mas eu não cheguei a mencionar isso). As árvores gigantes que fazia o ambiente ali ser mais limpo eram incríveis de se ver — coqueiros, manguezais e outros pés de frutas também estavam presentes.
— Mas porque tenho que ter um Transmorfo, senhor? — perguntei assim que passamos por cima de um tronco de uma árvore enorme que estava caído.
— Ele pode ser sua única companhia em sua nova jornada — disse-me ele sem tirar os olhos da sua frente. — E, além do mais — ele virou para me olhar —, são criaturas adoráveis quando se tem uma amizade com elas. São extremamente fieis — ele deu uma piscadela para mim.
Tá aí uma coisa que eu não sabia sobre os Transmorfos: fieis. Para mim sempre foram histéricos e imprevisíveis.
Eu já tinha visto um Transmorfo antes. Uma garota da escola tinha levado um que ela tinha conseguido se conectar com ele (ele estava assumindo a forma de uma doninha), mas assim que ele viu tanta gente por perto, se assustou de tal maneira que ele se transformou em um pássaro e fugiu. Segundo a garota, ele nunca mais voltou.
Grande Spiritus parou de caminhar e me coloquei a seu lado. Ele olhou para os galhos de algumas árvores, não tão grandes, lá em cima e, quando eu as olhei, tinha centenas de Transmorfos lá. Como sei? Simples: os Transmorfos têm olhos dourados e eram coloridos. Eles viviam em grupo e as características eram essas: olhos dourados e sempre mudavam de cor, continuamente. Então, de onde eu estava, dava para deduzir que eram eles, porque, juntos, todos trocavam de cor e parecia um arco-íris que se mexia.
Eles eram lindos de longe — não que não fossem de perto —, e quase nos enganava de seu jeito estranho de ser. Eles estavam assumindo a forma de lêmures que não passavam da altura de meu antebraço.
— Está vendo eles? — perguntou Grande Spiritus.
Confirmei com a cabeça.
— Sim, senhor — disse eu.
— Um deles irá descer se você for gentil e educado como é comigo — o grande Leão olhou para mim. — Por que não pega uma fruta e lhes oferece? — ele sorriu gentilmente para mim.
Assenti para ele sorrindo e me virei para as árvores que nos cercavam para analisar quais eram os seus frutos.
Tinham magnas, uvas, cocos, bananas, amoras e muitas outras frutas. Mas, com eles eram criaturas pequenas — ao menos estavam assumindo o corpo de criaturas pequenas —, resolvi pegar uvas, pois era uma das frutas que eram mais consumidas em minha Ilha.
Fui até o pé de uva e, formando uma pequena foice de gelo em minha mão, cortei as uvas de seu pé e agrupei-as em minha mão. Voltei para perto de Grande Spiritus e ele sorria para mim.
— Bom saber que você é um excelente dominador, Thayer — disse ele. — Isso prova que fiz a Escolha certa.
Enrubesci completamente sem graça com o seu elogio. Assim, era bom, mas eu não era realmente acostumado com todos me elogiando e principalmente por minhas técnicas de dominação da água.
— Obrigado, senhor — disse eu ainda vermelho.
Ele sorriu, voltou a olhar os Transmorfos e depois voltou a me olhar.
— Agora vá achar o seu Transmorfo — disse ele e fez um gesto com a cabeça para os Transmorfos, me encorajando.
Assenti para ele.
Dei alguns passos a frente, mas os Transmorfos partiram do galho de onde estavam e foram para o galho ao lado, completamente com medo. Ri deles, mas não desisti. Andei para até perto da árvore em que eles estavam, com cautela, estiquei minha mão que continha as uvas para que eles pudessem ver as frutas em minha mão em forma de oferenda. Eles não tinham fugido, mas me estudavam com curiosidade e tampouco se mexeram.
Cautelosamente, peguei uma uva de minha mão e a pus na boca, mastigando e sorrindo para as criaturas Transfórmicas. Todos voltaram para o galho de onde estavam, mas um tinha ficado e me olhava com curiosidade.
Sorri para ele e levantei mais minha mão com uvas. A criatura, curiosa, desceu pelo tronco da árvore em que estava e chegou bem pertinho de minha mão. O Transmorfo em forma de lêmure esticou a mãozinha para pegar uma das uvas e, lentamente, levei minha mão para mais perto dele para que ele pudesse pegar quantas uvas quisesse.
Ele pegou, com cautela, uma uva de minha mão e comeu. Sorri ao vê-lo comer a uva e o lêmure fez o mesmo que eu: sorriu. Seu sorriso era fofo e engraçadinho. Mas, após engolir a uva, o Transmorfo curvou a cabeça diante de mim e me olhou profundamente com seus olhos dourados. Curvei minha cabeça da mesma forma que ele tinha curvado a dele e, no segundo em que eu levantei a cabeça, o Transmorfo pulou da árvore para o meu ombro.
No momento em que ele tinha tocado minha pele, eu senti um pequeno choque. Era como se, através daquele choque, eu e o Transmorfo estivéssemos ligados de alguma maneira, como se ele tivesse sido preparado para mim; como se estivesse esperando para que nos encontrássemos. Quando finalmente olhei para ele, ele me olhava rindo com seus olhos dourados, fechadinhos em duas pequeninas fendinhas. Totalmente fofo.
Mas ele não era mais um lêmure e nem brilhava. Agora ele era um furão branco e de olhos dourados, e que não parava de tirar uvas de minha mão e cheirar meu ouvido. Era realmente engraçado. Cocei sua cabeça e ele pareceu gostar, pois fechou os olhos e sorria.
Virei-me para onde Grande Spiritus estava e fui até ele.
Ele estava sentado sobre as patas traseiras e sorria para mim.
— Vejo que encontrou o seu novo amiguinho — disse ele ainda sorrindo.
Sorri de volta.
— Sim, senhor — disse eu. — Parece que... não sei dizer. É como se ele estivesse esperando por mim o tempo todo e eu por ele.
— Isso se chama Ligação, Thayer — disse-me o Leão. — Vocês dois se Ligaram e agora ele é seu. Somente seu e de mais ninguém.
— Entendi — falei assentindo para ele.
Ele sorriu de volta.
— Agora, Thayer, precisamos ir para o seu treinamento oficial.
Assim que Grande Spiritus disse aquilo, eu o olhei e seu sorriso tinha desaparecido.
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