Spiritum

1 Dia um> Quarta-feira


Notas iniciais
Bem, esse é meu primeiro capítulo... Ou será que devo dizer que é o primeiro dia de minha narrativa? Bem, não sei bem. Apenas espero que vocês gostem. ♥

Silêncio.

Bem, não tento silêncio assim, já que o som do passar de páginas era frequente. Mais frequente do que eu queria, porque até um barulho singelo como esse era capaz de me tirar do sério e me desconcentrar de minha tarefa.

Ah, se era.

Enfiei o último livro de minha lista debaixo do braço e caminhei até o balcão da bibliotecária, que esboçou um gentil sorriso de reconhecimento. Coloquei os livros no local indicado e respirei fundo, esticando meus braços.

“Olá, Violet! Bom te ver novamente.” Disse Sra. Goodman, que era a bibliotecária havia quase seis meses. “Só esses essa semana, querida?”

“Ei, Sra... Ahn, ei Babs.” Murmurei, lembrando-me de última hora que ela odiava ser chamada de senhora. “Por enquanto sim... Mas sexta-feira venho buscar mais. Não é porque as férias de verão começaram que eu tenho que dar mole, certo?”

Ela riu levemente e assentiu, logo estendendo a mão para que eu entregasse o meu cartão à ela. Assim que o fiz, ela começou a fazer o registro dos livros, mais devagar que o normal, já que parecia estar sem seus óculos... O que certamente me fez ficar ainda mais impaciente.

Recostei-me de costas no balcão e passei a mão em meus cabelos, num ato nervoso. E nesse mesmo momento, um cara gigantesco (tipo, gigantesco mesmo) entrou na Biblioteca carregando uma câmera que parecia ser três vezes mais cara que meu carro. E olha que ele era um modelo clássico raríssimo.

Então ele a posicionou entre duas estantes, que eram as estantes exatas em que eu havia visto meu primeiro fantasma. É, é isso aí: fantasma. Eu vejo fantasmas desde uns seis ou sete meses atrás, mas não de maneira maravilhosa como Meg Cabot retratou em seus livros, até porque, pelo o que eu saiba, não existe nenhum fantasma de um cara gato morando em meu quarto.

Talvez alguns com aparência assustadora aparecessem de vez em quando, mas nem um razoavelmente bonitos. Nem de longe. E de repente como o cara chegou, de repente ele saiu, deixando a câmera para trás. O que certamente fez com que minha curiosidade superasse todos os meus receios.

“Eu já volto.” Disse para Sra. Goodman, que assentiu brevemente.

Caminhei cautelosamente em direção à câmera, sempre mantendo o olhar na porta, apenas para tentar disfarçar caso o cara chinês gigantesco voltasse à aparecer. Assim que cheguei no aparelho, vi que realmente parecia ser algo muito caro e que ela estava ligada. E gravando.

Estranho. O que diabos haveria para se gravar em uma biblioteca?

Afastei os cabelos que insistiam em cair em meus olhos e circundei a câmera, tomando o cuidado de não aparecer na lente... E enquanto fazia isso, um grande ranger me fez saltar, pois soava como se alguém estivesse empurrando algo pesado de madeira. Ao erguer meus olhos para descobrir a origem do som, foi como se tudo começasse a passar em câmera lenta.

As duas estantes pesadas repletas de livros que me cercavam estavam desabando em cima de mim e quando fechei meus olhos para sentir o impacto que provavelmente me mataria, ele não veio. Na verdade, apenas fui empurrada para a janela atrás das estantes... Que caiam sobre o mesmo cara gigantesco que havia colocado a câmera ali.

Demorei um segundo pra começar a gritar por socorro.

“Droga! Alguém me ajude, tem um cara ali debaixo!” Algumas pessoas sacaram seus celulares, logo falando com as pessoas da emergência e quando eu me movi para levantar as estantes, alguns caras dali vieram me ajudar.

E assim que elas haviam saído de cima do cara gigantesco, soltei um palavrão em voz baixa. Ele não parecia tão machucado assim... Só tinha um corte na face direita e sua perna estava dobrada num ângulo estranho que me embrulhou o estômago. Os paramédicos chegaram e rapidamente colocaram o cara gigante na maca.

Essa parte certamente pareceu correr, o que me agradou... E me irritou ao mesmo tempo. Um leve cutucão em meu ombro me fez virar e deuses, um cara alto e loiro encarava-me, sua expressão nada amigável. Nada amigável mesmo.

“Você. Seu nome?” Ele indagou.

“Ahn, Violet Spiegelman.” Retruquei, confusa.

“Foi você que o Lin salvou?”

“Lin?”

“O cara que acabou de ser levado pro hospital.”

“Ahn, sim, acho que sim.”

“Você me deve dez mil dólares pela câmera quebrada e um novo assistente. Como acredito que você não será capaz de realizar nenhum de meus pedidos, você se tornará minha nova assistente e trabalhará para pagar pela câmera e para substituir Lin até que ele seja capaz de voltar ao trabalho. Caso não aceite, terei que processá-la por tentativa de assassinato e destruição de propriedade particular.”

“Desculpe... O que diabos você quis dizer com me processar?”

“Você quase matou meu assistente por sua imprudência... Posso usar isso numa corte e tenho absoluta certeza de que o juiz ficará ao meu favor. E ao considerar seu estado, não acredito que você tenha a capacidade de arcar com um processo milionário.”

Na verdade eu tinha... Mas ele realmente não precisava saber disso. Ainda mais um cara que julgava uma garota em moletons e jeans de pobre.

“E eu tenho outra escolha além de trabalhar com você ou ser processada?”

“Certamente não tem.”

“Bem... Então temo dizer que você conseguiu uma nova assistente.” Disse entredentes, encarando o homem leonino com toda minha irritação... Coisa que ele não pareceu perceber.

Ele tirou um cartão do bolso e o entregou à mim, antes de se retirar, aparentemente indo atrás do assistente ferido. E num ato muito infantil de minha parte, ergui o dedo indicador para ele, recebendo um olhar engraçado de alguns dos alunos que ali estavam.

“O que foi? Esse cara é arrogante demais.” Murmurei, antes de retirar-me do lugar.

Estava agradecendo aos deuses mentalmente por não ter sido levada numa maca, porque seria extremamente humilhante ser arrastada por aí com um colar cervical, sendo que nada havia acontecido comigo graças à aquele cara gigantesco.

Geladeira Chinesa parecia ser um bom apelido.

Quando havia chegado em meu carro, finalmente parei para examinar o cartão:

"CAPS

Centro de Atividade Paranormal Spiritum

Sebastian Hellström"

O mal-estar que tomara conta de mim fora tão grande que eu nem me dei ao trabalho de terminar de ler o cartão... No que diabos eu havia acabado de me meter? Até um processo milionário parecia ser melhor do que me envolver com lunáticos. Mas o cara loiro (presumi que fosse Sebastian) não parecia ser louco. Narcisista, mas não louco.

E bem, eles trabalhavam com o paranormal... Eu via o paranormal. Talvez pudesse ser um trabalho interessante, no final das contas. Tudo bem que teria que ignorar o fato de que talvez Sebastian pudesse ser mais irritante do que eu pudesse lidar, mas ainda assim...

Entrei no carro, logo dando partida. Liguei numa estação qualquer no rádio obsoleto e tentei relaxar em meu caminho para casa... Só agora dando conta de que eu havia abandonado meus livros lá, o que significava que ou eu dava a volta ou retornava pela manhã.

Como eu realmente precisava de um relaxante banho, decidi que voltaria no outro dia. Ou talvez nem voltasse... Dependia do rumo que meu novo trabalho tomaria. Tudo dependia dos porém. Coisa que meio que me incomodava, já que eu estava acostumada a sempre ter controle sobre tudo o que ocorria em minha vida.

E eu apenas tinha aquela leve impressão de que as coisas não seriam mais assim.

Assim que chegara em casa, que se resumia à um minúsculo apartamento num bairrozinho qualquer, com dois quartos e dois banheiro, uma sala de estar razoavelmente grande, uma ótima cozinha e o mais importante: uma garagem, estacionei o carro em minha vaga regular e rapidamente subi as escadas para meu apartamento. Estava prestes à entrar no lugar quando só então notei a grande caixa que ocupava meu caminho. Franzindo o cenho, me abaixei para pegá-la e finalmente entrei em casa.

Atirei-me no sofá e rasguei a embalagem de papel pardo, extremamente curiosa. Logo em cima, havia um pequeno bilhete. Um dos mais irritantes, devo acrescentar. Ah, se devo.

Violet N. Spiegelman,

Você certamente deve estar confusa em relação à minha empresa, certo? Ou talvez nem tanto, já que é possível ver em seus olhos que assim como eu, você enxerga coisas que não são deste mundo.

Mas ainda assim, gostaria de esclarecer algumas coisas antes de você começar amanhã (às 08 horas em ponto)... Especialmente em relação ao que você irá fazer no CASP.

Nesta caixa, você encontrará algumas informações como história da empresa, alguns dos casos com quais trabalho desde os meus dezenove anos e algumas informações básicas em relação as coisas com que lidamos: fantasmas, mas especialmente os demônios.

Apenas espero que você não tenha medo do escuro... Ou das coisas escondidas neles.

Sebastian Hellström.

Revirei os olhos e resistindo à minha curiosidade, decidi que seria mais adequado preparar-me para uma leitura desse tipo... Especialmente para todas as loucuras que eu tinha mais que certeza que teriam lá. Então deixei a caixa ainda fechada sobre o sofá e corri para o banheiro, logo abrindo as torneiras de minha banheira vitoriana que havia conseguido numa barganha.

Coloquei uma música qualquer para tocar em meu celular enquanto observava a banheira se encher de água morna. Na verdade, fazia isso para tentar me distrair do problema em que havia me metido. Quer dizer, num dia lá estava eu, uma universitária comum e mais tarde eu havia me tornado uma assistente para um cara loiro e esquisito.

Ou talvez nem tão esquisito assim, já que ele era terrivelmente bonito com seus cabelos loiros e compridos, os olhos verdes enigmático e os lábios suaves... Não que eu estivesse reparando nem nada do tipo, mas as coisas ficavam bem evidentes em alguém do porte dele.

Quando a banheira estava cheia (d’água e de espuma com cheiro de orquídeas, do jeito que eu adorava), rapidamente me despi e entrei na água morna, soltando um suspiro de satisfação. Prendi meus cabelos num coque frouxo e fechei os olhos, mergulhando numa composição qualquer de Tchaikovsky.

E foi nesse momento que o fantasma de Margaret Jacobsen surgiu, exibindo um sorriso astuto em seus lábios finos. Coisa que certamente não me surpreendeu, já que minha mãe adotiva tinha essa mania de aparecer nos momentos em que eu mais queria relaxar.

“E aí, Vives.” Ela murmurou, chamando-me pelo apelido que eu certamente odiava... Coisa que ela fazia para me irritar.

“E aí, Margo. Qual a boa?” Falei, revirando os olhos.

“A boa é que você vai trabalhar com um dos caras mais odiados do lado de cá do mundo. Sério, garota, você tem alguma ideia de quantos fantasmas ele mandou embora da terra? Sem contar os demônios e todo esse blá blá blá.” Ela bateu palmas umas três vezes, realmente parecendo orgulhosa. “Não sei como você consegue ficar calma.”

“Simples: não pensando no problema da maneira que ele exige.” Suspirei pesadamente. “Mas não dá pra fazer isso com você aqui... Inclusive, que história é essa dele ser o cara mais odiado do... Ahn, do seu mundo?”

“Não está mais aqui quem disse. Ciao, Vives.” E então ela rapidamente sumiu, para minha completa irritação.

Bufei altamente e fechei meus olhos, tentando controlar minha irritação e minha curiosidade. Margareth sempre teve essa mania de me dizer as coisas pela metade, exatamente como fazia quando estava viva... Talvez por saber que eu não suportava isso, ela meio que tinha tomado como foco de vida me irritar.

Coisa que eu estava aprendendo a começar a lidar quando ela partiu desta para uma melhor.

Notas finais
E foi isso! Espero que vocês tenham gostado. (Se é que alguém leu)Se algum leitor surgir, logo logo posto outro capítulo/dia. Beijossss ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.