Spies Of Washington State
1 Capítulo 1 - Epílogo
Eram duas horas da manhã. Da próxima vez que sairia me lembraria de me vestir com casacos mais quentes. Dia cinco de março de dois mil e treze, aniversário de vinte e três anos de Ivy, uma amiga que conheci antes de entrar para a academia. Que academia é essa? Bem, por mais clichê que soe, é uma academia de espiões. Academy Spies of Washington. Nunca se sabe se o presidente está mesmo seguro, certo? Somos treinados em diversas áreas que incluem informática, lutas, armamento, um pouco de medicina, psicologia... Ninguém sabe exatamente aonde a academia se localiza, mas a nossa entrada fica nos arredores da Casa Branca, camuflado por algumas árvores e por aqueles portões imensos. Comecei a ser treinada lá por volta dos dezenove anos e estou no penúltimo ano, com vinte e dois anos. Ivy também está no meu ano e nos conhecemos no fim do terceiro ano no colegial. Ela tem um jeito meio ácido, mas, com o tempo, você aprende a lidar com ela e vê a pessoa maravilhosa que ela é. E não fui só eu quem viu isso. Nossa outra amiga se chama Olivia. Olivia Urie, ou Liv, como ela prefere ser chamada. Essa já é mais soltinha, chega a ser chamada de doidinha pelas costas por algumas pessoas e, aqui entre nós, eu até concordo às vezes. Apesar disso, ela é uma boa pessoa para se desabafar e é simplesmente leal até o túmulo. Estávamos as três – sem o namorado da Liv! – em um karaokê bar comemorando com Ivy até essa hora da manhã sendo que, todos os dias, temos de acordar por volta das cinco da manhã para ir à academia.
– Poxa, só mais um pouquinho, vai – dizia Liv, manhosa, tentando me convencer a ficar mais ali as escutando berrar ao microfone – Deixa de ser marrenta!
– Vai sair cedo no meu aniversário, Faith? Pensei que você me amasse – e Ivy ajudava.
Acabei ficando três horas mais. E bebi mais. E cantei – não preciso mencionar que foi um desastre, certo? – até minha cabeça latejar.
Na outra manhã eu senti o peso disso. Acordei com a mesma roupa que havia ido ao bar e com maquiagem no rosto. Minha cabeça parecia ser uma granada aberta, prestes a explodir. Pelo menos atrasada eu não estava. Livrei-me das roupas, tomei um banho, tirei aquelas manchas dos meus olhos e tomei algumas aspirinas. Respirei fundo. Pelo menos sabia que a academia tinha paredes à prova de som, não ia ter que ensurdecer-me com os barulhos de tiros em todos os lugares e, pela primeira vez, dei graças aos céus que tínhamos aulas de Hacker. Odiava treinar aquilo, era ridículo. Segurança nacional não depende de sites, depende de estratégias bem boladas e de agentes especiais competentes.
Vesti as roupas pretas obrigatórias da academia, uma bota igualmente preta e um casaco por cima. Segundo meu celular, havia um tempo sobrando, mas eu resolvi ir caminhando devagar. A Casa Branca não é exatamente perto do meu apartamento, só que Washington é realmente bonita pela manhã. Tirando os carros de pessoas irritadas indo para seus trabalhos, é bonita.
Pus-me a andar na direção da academia, já me cansando só de pensar em ficar na frente de um computador. Peguei um metrô e rapidinho já estava dentro do corredor aonde eu esperava as garotas chegarem conversando com Luke, o namorado da Liv.
– Oi – disse ele baixinho segurando quatro copos de café.
Sentei-me no chão gelado ao lado dele e apertei o casaco contra o corpo. Luke era um cara legal, ele fazia um bem danado a Liv. Ouvi algumas conversas dos dois no telefone e, sinceramente, o sorriso bobo e apaixonado que se estampa no rosto dela me deixa muito, muito feliz.
– Bom dia – respondi, pegando um dos copos e jogando uma nota de um dólar para ele – Te pago o resto depois, só tenho isso hoje.
E lancei um olhar que, se eu fosse ele, aceitaria a nota na hora. E ele aceitou. Da última vez que ele rejeitou, ganhou alguns tabefes bem dados.
– E aí, como foi a festa ontem? Se embebedaram e dormiram na rua? – disse soltando uma risadinha depois.
– Há, há, engraçadíssimo – dei um sorriso falso e beberiquei o café – Ficamos no karaokê até às duas da manhã – suspirei
Ele franziu o cenho. Dava para ver que estava pensando em como Liv estaria, bebendo até as duas da manhã em um karaokê. Fala sério, por mais que você confie em alguém, sempre vai desconfiar quando se fica até as duas bebendo com as amigas.
– Tenho pena de quem estava lá.
– E eu também – ouvimos a voz de Liz e erguemos a cabeça. Ele sorriu, eu pisquei várias vezes.
Por que diabos ela estava com uma voz animada, com um rosto animado e sem nenhum sinal de que acordou com dor de cabeça ou dormiu pouco? Tombei minha cabeça de lado enquanto os dois deram um selinho. Ela estava como todos os dias. Já tinha bebido algumas vezes com ela – todas as vezes que tinha bebido, na verdade – e ela sempre parecia jovial no outro dia. E eu sempre tentava achar algum sinal de sono no rosto dela.
– Que foi, resto de aborto? – sorriu.
– Nada – balancei a cabeça, sentindo uma dor aguda novamente que me fez fazer uma careta.
Me levantei e balancei as pernas, ouvindo-as estralar. Bebi mais um pouco de café e fui caminhar pelo corredor deixando os dois a sós. Não havia nada de diferente ali em quatro anos. As paredes e chão eram brancos com luzes acesas o tempo inteiro e as portas também eram brancas com os nomes das salas nas placas para identificá-las.
– Perdida? – ouvi uma voz atrás de mim e me virei.
Thomas Rickman. Um moreno extremamente sensual e idiota. Foi com ele que eu aprendi que, quanto mais bonita a pessoa é, menos cérebro ela tem.
– Quem, você do seu bando? – respondi franzindo o cenho. Ele estava sempre acompanhado por amigos bobocas que riam de tudo que ele falava.
– Não, Fadinha, você do seu curso de moda. A Academy Spies of Washington é só para quem tem estômago forte, gracinha – disse ele pegando o copo de café da minha mão e tomando um pouco.
– Na verdade – tomei meu copo – é pra quem tem cérebro.
– Então o que você está fazendo aqui, mesmo? – piscou várias vezes com um sorrisinho irritante no rosto.
Eu juro que ia dar um soco nele. Já estava me preparando para levantar meu punho.
– Faith – ouvi a voz de Ivy, minha salvadora.
Virei-me, atirando meu copo na direção de certa pessoa e saí em direção a Ivy. Ela estava um pouco menos jovial que Liv mas com quase a mesma cara de sono que eu estava.
– Tava dando moral para aquele idiota por quê? – ela disse, cruzando os braços.
– Ah, Ivy, anda logo – empurrei-a na direção da porta da sala dos computadores.
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