Spielvan II - O Retorno
2 CAP. 02 – O RAPTO DE HIKARI
Notas iniciais
Nave Gâmedes.
— Maldição! Ele conseguiu escapar! — o General Deslock bradou, entrando em um enorme salão onde outrora ficava a sala do trono do Império.
— Alguma coisa os salvou. Temos que descobrir o quê. — Lay, que já estava ali, murmurou, pensativa, enquanto olhava alguns dados que colhera enquanto estava na cidade do Planeta Clean.
— Precisamos achar um ponto fraco, um meio de pegá-los sem que haja possibilidade de defesa! — o General continuava bradando, aparentemente sem se importar com o que acontecia ao seu redor.
— Teria sido mais fácil se não fosse por... — Lay começou, mas foi bruscamente interrompida pelo General, que de repente passou a prestar atenção ao que ela fazia.
— Espere um pouco! O que é isto? — ele perguntou, mostrando interesse pelos dados que a aliada observava.
— Hum... São apenas alguns dados que colhi na cidade do Planeta Clean...
— Hum... Deixe-me ver isso...
E Lay passou os registros para ele. Ele analisou e se deparou com uma espécie de artigo sobre o mais novo “cérebro” do Planeta Clean: Hikari, a jovem filha do renomado cientista Dr. Paul, que, apesar da tenra idade, já demonstrava potencial para trilhar com sucesso o mesmo caminho do pai. No artigo, figurava uma imagem da garota, que o General logo reconheceu como sendo a garota que ajudara o cientista a escapar da invasão ao laboratório. Então, os dois vilões simultaneamente pensaram a mesma coisa. Mas o General foi quem primeiro falou:
— Talvez possamos usá-la para os nossos intentos...
— Ela é bem jovem, será mais fácil lidar com ela do que com o cientista. Sem falar que será um baque muito maior para Spielvan.
— Hum... Então é o que iremos fazer.
— Mas tem uma coisa que me intriga... — Lay falou, pensativa — Quando atacamos Spielvan e Diana, eles não se converteram. Por quê será?
— Hum... Creio que possa ser devido à explosão que ocorreu quando da desativação da nave Gâmedes.
— A explosão?!
— É apenas uma teoria, mas talvez eles não possam mais se converter. De qualquer maneira, vamos averiguar isso.
— Certo. — Lay respondeu, pegando uma parte dos dados que o General já havia olhado.
E os dois continuaram com a análise dos dados recolhidos.
Nave Deffender.
A nave seguia voando baixo, à procura de uma fonte de energia para se abastecer. Spielvan e Diana estavam sozinhos na cabine, pilotando a nave. Ainda estavam um tanto chocados com tudo aquilo. Então Diana comentou:
— Eu ainda não acredito que estamos novamente pilotando Deffender...
Spielvan permanecia calado, sério. A sensação ruim que vinha sentindo agora começava a fazer sentido, mas, nem mesmo em seus piores pesadelos, ele podia esperar viver aquilo novamente. A invasão, a destruição de tudo aquilo que ele conhecia e amava, a dor de ver sua família ser desagregada de forma brutal e violenta... Tudo isso ainda mexia com ele de uma forma indescritível, e, para piorar, desta vez, sua irmãzinha também corria perigo, mesmo sem saber o que era exatamente tudo aquilo.
— Spielvan? — Diana o chamou, percebendo-o demasiadamente quieto.
— Hã?! — o rapaz “acordou”. E, olhando para ela, falou, se desculpando — Ah... Desculpe, Diana. Eu estava distraído.
A amiga logo percebeu o que se passava com ele e, com um olhar terno, falou:
— Spielvan... — ela pegou a mão dele que estava sobre o painel de controle da nave e a segurou com firmeza, dizendo — Não se preocupe. Já os vencemos uma vez, lembra? Vamos conseguir de novo, pode ter certeza. — e abriu um sorriso encorajador.
Spielvan ficou olhando para ela, até que a expressão em seu rosto se anuviou. Então ele respondeu, devolvendo o sorriso:
— Está certo. Obrigado, Diana.
Diana apenas acenou positivamente em resposta. E os dois voltaram sua atenção para o painel de controle, atentos a qualquer sinal de uma fonte de energia compatível com a que alimentava a nave se aproximando.
Enquanto isso, em outra parte da nave, Dr. Paul cuidava da filha mais velha, Helen, com a ajuda da filha caçula. Ele estava muito preocupado, mas ao mesmo tempo, estava muito intrigado com tudo aquilo. Aquela sensação de dejá-vu ainda persistia, deixando-o muito confuso. As palavras do General Deslock ainda ecoavam em sua mente: “Você não se lembra de mim, mas com certeza sua filha lembra, não é mesmo, Helen?”. Ele se perguntava: “O que significa isso? Quem serão estes seres e de onde será que Helen os conhece? E, principalmente, por quê eu deveria lembrar-me deles? Jamais os vi em toda minha vida... Apesar desta sensação estranha de já tê-los visto em algum lugar...”. E olhava para a jovem deitada, inconsciente, numa espécie de maca tecnologicamente preparada para situações daquela natureza, enquanto ponderava sobre aquela situação totalmente fora do comum. Até que a voz da filha caçula o tirou de seu devaneio:
— Será que ela vai ficar boa, papai?
— Hum... Sim, Hikari, eu acredito que ela vai se recuperar. Só precisa descansar um pouco.
— Que bom! — a garota exclamou, contente. E, repentinamente assumindo um ar sério, perguntou — O que será que aqueles seres queriam, papai?
— Eu... eu não faço idéia, filha... Não faço idéia... — o cientista respondeu, pensativo.
E os dois ficaram em silêncio, olhando para a jovem deitada, cada um perdido em seus pensamentos.
Nave Gâmedes.
O General Deslock continuava analisando os registros, ao lado de sua aliada, Lay. Eles procuravam algum trunfo que pudessem utilizar contra Spielvan, já que a última investida não lograra êxito. Haviam descoberto a respeito da irmã caçula do jovem guerreiro, a garota-gênio Hikari, e planejavam raptá-la, como fizeram no passado com o pai e a irmã mais velha dele, mas precisavam descobrir uma forma de fazer isso sem nenhuma falha. E também havia o questionamento que Lay fizera mais cedo: por quê, ao serem atacados, nem Spielvan, Diana ou mesmo Helen se converteram? Se eles tivessem usando as armaduras Clean Metal no momento do ataque, como seria de se esperar, os soldados não teriam a menor chance. Mas nenhum dos três fez menção de ativar a conversão. Lutaram apenas com o que tinham, como se nunca tivessem sequer ouvido falar nessa alternativa. Até que o General, impaciente por não encontrarem nada de útil, exclamou, irritado:
— Maldição! Não há nada que nos interesse nestes registros! — e largou os papéis em cima de Lay, indo em direção ao local onde ficava o trono da Rainha Pandora.
— Acalme-se, General. Talvez se investigarmos com um pouco mais de critério, possamos encontrar algo realmente interessante... — Lay replicou, pegando os papéis e observando-os novamente com mais critério. E um brilho surgiu em seus olhos ao se deparar com “algo” interessante. E ela chamou — General! Veja isto!
— O que é agora? — perguntou o General, ainda irritado, olhando para ela.
— Acabei de encontrar este registro. — respondeu ela, estendendo um tipo de microchip para ele. E arrematou — Parece que tem a ver com a nave de Spielvan.
— Deixe-me ver isto. — o General falou, tomando o chip das mãos dela e colocando-o no computador.
E, na tela do mesmo, apareceram vários gráficos. Eram os registros obtidos pela rainha Pandora após o que teria sido a última investida de Water contra os heróis cleanianos. Segundo tais registros, o Cruzador Espacial Deffender fora seriamente avariado por um ataque inimigo de origem desconhecida, pouco antes da investida de Spielvan contra a nave Gâmedes. Aparentemente, a maior avaria teria sido justamente no sistema de conversão, que ficou quase que sem energia após o ataque, só podendo ser utilizada mais uma vez, vez esta que teria sido justamente a última luta contra a Rainha Pandora, que culminou na explosão da nave Gâmedes e o fim do Império Water. O General, após ver isto, exclamou, exultante:
— Ah!! Finalmente, teremos uma chance de vencer Spielvan!! Sem o sistema de conversão, ele e aquelas duas não serão páreo para o nosso exército!!
— Sim, mas primeiro temos que encontrá-l os. — Lay replicou, com ar sério.
— Hum... Isso não vai ser problema. — O General respondeu, saindo logo em seguida.
Lay ficou observando o General sair do salão, um tanto intrigada com a resposta dele, mas, assim que ele passou pela porta, simplesmente deu de ombros e continuou analisando os dados em suas mãos.
Caminhando pelos corredores da nave, o General se dirigia até um dos laboratórios, onde havia vários soldados Clow trabalhando. Ao entrar, foi abordado por um deles, que lhe entregou uma espécie de prancheta. O General olhou e fez um sinal com a cabeça, demonstrando estar satisfeito com o que via. Então se dirigiu a um dos computadores e ficou olhando o monitor, onde apareciam imagens típicas de radar, com um ponto intermitente se movendo lentamente pela tela.
Nave Deffender.
Um barulho soou na cabine da nave, chamando a atenção de seus dois ocupantes. O radar acabara de detectar uma forte emissão de energia compatível com a que procuravam próximo dali. Spielvan e Diana então prepararam a nave para pousar no local, felizes por terem finalmente encontrado uma fonte de energia tão abundante em tão pouco tempo. Ao chegarem ao local indicado, viram que se tratava de uma mina de duraniun! Era um vale um pouco extenso rodeado por montanhas repletas deste raro metal. Então pousaram a nave, providenciando logo a recarga das células de energia, sem notarem a aproximação de várias pequenas naves, que pousaram ao redor do vale, por trás das montanhas.
Enquanto Spielvan e Diana cuidavam do processo de recarga da nave e o Dr. Paul continuava cuidando de Helen, que ainda não havia acordado, Hikari resolveu sair para ver a mina de perto. Ela estava curiosa, pois já ouvira falar a respeito do duraniun, mas jamais o tinha visto em sua forma bruta. Não avisou a ninguém dentro da nave que iria sair, pois não considerou isso necessário. Ela se pôs a subir uma das montanhas, maravilhada com o brilho do metal que transparecia sob o solo rochoso, sem perceber que estava sendo observada por estranhos seres ocultos, posicionados próximo dali. E, em sua pequena expedição, acabou se afastando demasiado da nave. Depois de um tempo, estava do outro lado da montanha. Ao se dar conta disso, preparou-se para voltar, mas foi surpreendida com a aparição de um bando de soldados Clow ali. Ela correu, tentando fugir, mas eles a alcançaram e a agarraram antes que chegasse ao topo da montanha.
E, no interior da nave, ninguém ainda havia dado pela falta da garota. O cientista continuava cuidando da filha mais velha, que ainda estava descansando. Nisso, ela acordou, perguntando:
— Aah... Onde... onde estou?...
— Você está bem, Helen? Pode se levantar? — o cientista perguntou, um tanto preocupado, ao ver que a filha despertara.
— Eu... acho que sim... — ela respondeu, tentando se levantar.
Conseguiu se sentar com a ajuda do pai. Foi então que olhou ao redor e ficou como que estranhando o local. E falou:
— Engraçado... Parece que estou no interior de Deffender...
— Então você também sabia sobre esta nave, Helen? — o cientista ficou sério de repente.
— Hã?! — a jovem olhou espantada para ele. Neste instante, recordou-se vagamente de ter escutado a irmãzinha mencionar algo sobre Deffender, antes de perder novamente os sentidos. Aí, ela percebeu o que estava acontecendo e se deu conta que não estava sonhando ou coisa do tipo, e perguntou — Então tudo aquilo... aconteceu?
— Se você está se referindo à invasão no laboratório e toda aquela destruição... — o cientista falou, com ar extremamente sério. Para ele, as coisas estavam começando a se encaixar, apesar de ainda faltar muito para que ele possa compreender tudo o que estava acontecendo. E, depois de uma pausa, respondeu — Sim, Helen, aconteceu.
A jovem empalideceu ao ouvir aquilo. Nisso, Spielvan e Diana, depois de iniciarem o processo de recarga da nave, apareceram ali, para saber se Helen estava bem, e encontraram pai e filha se encarando, ele extremamente sério, ela um tanto lívida e apreensiva. E Spielvan perguntou, estranhando o clima um tanto tenso que pairava ali:
— O que houve?
— Acredito que esta seja uma boa hora para esclarecermos algumas coisas. — o cientista respondeu, num tom de voz grave e sem mudar sua expressão ou desviar o olhar.
— Papai... — Helen simplesmente falou, sem sair do estado em que se encontrava.
Spielvan e Diana se entreolharam, com ar de espanto, e depois voltaram a olhar para frente, sem entender o que estava acontecendo ali, até que o cientista falou, olhando para o filho:
— Aquele ser bizarro, ao adentrar o laboratório, agiu como se me conhecesse. Ou melhor, como se eu devesse conhecê-lo, o que só seria possível se eu já o tivesse visto, o que, até onde eu me lembre, nunca aconteceu. No entanto, Helen demonstrou saber bem quem ou o quê ele é, e o que pretende aqui. — fez uma pausa enquanto olhava para Diana, e, por fim, voltava a olhar para a filha mais velha. E arrematou — E agora tem esta nave. Jamais ouvi falar dela, e vocês agem como se já a conhecessem de longa data.
Os dois recém-chegados continuavam a olhar com cara de espanto, até que a “ficha” de Spielvan caiu. Seu pai estava começando a perceber o que acontecia ali. Não se lembrava, claro, já que, “tecnicamente”, nunca havia passado por aquela situação e, portanto, não tinha como reter na memória nenhuma lembrança daqueles tempos difíceis, mas ele não era considerado o mais brilhante cientista do Planeta Clean por nada. O rapaz suspirou, entendendo que não poderia poupá-lo da dor de saber o que realmente aconteceu naquela época, do motivo de eles três terem se ausentado por tanto tempo, a ponto de, ao voltarem, quase não serem reconhecidos pelos próprios pais.
Diana, como se soubesse o que se passava na mente do amigo, olhou para ele com um olhar terno, enquanto pousava a mão sobre seu ombro, numa atitude de encorajamento. Helen apenas baixou o rosto, entristecida.
— Devo presumir, pela reação de vocês, que esta não é uma estória fácil de ser contada... — o cientista falou, vendo a reação dos três.
— Err... Sabe o que é, Dr. Paul, é que ... — Diana começou, um tanto hesitante, mas foi interrompida por Spielvan, que falou:
— Não, Diana. Ele tem o direito de saber a verdade.
— Spielvan... — Helen olhou espantada para o irmão.
— Uma hora o passado volta... por mais que tentamos esquecê-lo. — Spielvan respondeu, com um semblante profundamente triste. E, com um suspiro cansado, arrematou — Ele sempre volta...
Diana apenas anuiu, compreendendo.
— Mas, Spielvan... Tem certeza? — Helen perguntou.
O olhar que o irmão lhe lançou, cheio de determinação, foi resposta suficiente para Helen, que acenou, concordando. E Spielvan perguntou, se dirigindo ao pai:
— Papai, qual é a última lembrança que possui da nossa família reunida, antes do nosso reencontro próximo ao mar?
— Hã?! — o cientista se espantou com a pergunta um tanto inusitada. E, fazendo uma careta como que tentando se lembrar de algo, respondeu — Hum... Creio que minha última lembrança seja... do seu aniversário de 6 anos, Spielvan. Depois disso, vocês desapareceram misteriosamente, e o tempo passou sem que voltassem ou dessem quaisquer notícias. — soltou um suspiro — Continuamos nossas vidas, sem nos esquecermos de vocês, mas não tínhamos mais nenhuma esperança de que voltassem um dia. Mas, por que me pergunta isso?
“Pouco tempo antes da invasão...”, Spielvan refletiu, também se lembrando. E respondeu:
— A verdade, papai, é que não “desaparecemos”, como vocês pensaram todos esses anos. Muita coisa aconteceu, mas apenas nós três lembramos-nos de tudo perfeitamente.
— Bom, então o quê realmente aconteceu? Qual a ligação entre vocês, esta nave e os seres estranhos que invadiram nosso planeta? — o cientista perguntou, olhando seriamente para os três.
Spielvan e Diana então começaram a contar o que acontecera na primeira invasão do Império Water ao Planeta Clean; o rapto do cientista e da filha Helen; a devastação do planeta e morte de todos os que viviam nele, com exceção deles quatro; a perseguição até o Planeta Terra; a batalha que se estendeu daí até a aparente aniquilação do Império com a morte da Rainha Pandora; e, por fim, como eles se depararam com o Planeta Clean totalmente restaurado, tal qual como era antes da invasão, com todos os seus habitantes vivos, como se o Império Water jamais houvesse aparecido ali. E Helen relatou tudo o que acontecera com eles enquanto estavam sob o domínio de Water. Após ouvir tudo, o cientista estava hiper-chocado. Ele balbuciou:
— Então... foi isso?... Por isso eles voltaram...
— Parece que eles querem o Dr. Bio de volta. — Diana comentou.
— Mas não o terão! Eu não permitirei isso! — Spielvan retrucou, cerrando os punhos, irritado.
— É claro que não. Não podemos deixar que eles consigam reerguer o Império Water. — Diana respondeu, tentando acalmá-lo.
E um silêncio sepulcral tomou conta do recinto. Apenas se ouvia o barulho dos computadores da nave funcionando e a respiração dos quatro. Até que, de repente, Helen fez uma careta de preocupação e perguntou:
— Onde está Hikari?
— Hã?! — Os outros se espantaram.
Eles olharam ao redor e não viram a garota. Resolveram procurá-la pela nave, mas não a encontraram em parte alguma.
Nisso, no outro lado da montanha, Hikari estava em sérios apuros, aprisionada pelos soldados Clow. Então, o General Deslock apareceu ali, acompanhado por Lay, e, se aproximando da garota, falou, com um leve ar de deboche:
— Hum... Então esta menina é o mais novo “cérebro” do Planeta Clean? — e soltou uma gargalhada sarcástica.
— Realmente... Ela é bem jovem... — Lay comentou, observando-a.
— O quê vocês querem com o meu pai? — Hikari perguntou, tentando se soltar.
— Hmm... Creio que, se ela for tão inteligente e esperta como dizem, não precisaremos mesmo do Dr. Paul. — o General falou, se dirigindo à aliada.
— É verdade. Ela poderá muito bem nos ajudar com a reconstituição do Império, e nossa vingança contra Spielvan. — Lay respondeu.
A garota se alarmou ao ouvir o nome do irmão, e se debateu mais ainda, na tentativa de se soltar. Até que conseguiu, e logo se pôs a correr em direção à nave. Mas, logo que chegou ao topo da montanha, foi novamente pega pelos soldados Clow. E, vendo que não conseguiria se libertar novamente, ela se pôs a gritar bem alto, na esperança que a nave captasse o som de sua voz apesar da distância e a reconhecesse, disparando o alarme para os tripulantes.
E foi o que aconteceu. O sistema de reconhecimento de voz da nave captou o grito da garota, o reconheceu e interpretou como um sinal de alerta, e de imediato acionou o sistema de alarme, emitindo um som que ecoou por toda a nave, chamando a atenção dos quatro cleanianos, que ainda procuravam pela garota. Spielvan e Diana, ao ouvirem o som, foram dar uma olhada no que ocorria lá fora e viram, através de um dos monitores, que a área onde a nave estava pousada estava repleta de soldados Clow, cercando-a. Uma mirada mais atenta e perceberam, entre eles, ou mais exatamente, no alto de uma das montanhas que cercavam aquele vale, o General Deslock e Lay, acompanhados por dois soldados Clow, que mantinham uma garota como refém. Ao ver quem era a refém, Spielvan arregalou os olhos e exclamou:
— Essa não! Hikari!
— O quê??! — Diana olhou, espantada, e também viu a garota sendo mantida presa pelos soldados Clow, próximos à Lay e ao General Deslock. E perguntou — Mas o que ela estava fazendo lá fora?
— Temos que salvá-la! — Spielvan exclamou, se pondo a correr em direção à saída.
Diana foi atrás dele. Helen e Dr. Paul também olharam e foram atrás, mas não saíram da nave. Dr. Paul ainda estava um tanto chocado com tudo o que acabara de ouvir, e se sentia culpado por ter causado tanto mal, mesmo que forçadamente, ou inconscientemente, à sua família, e a tantos outros seres pelo espaço afora.
Spielvan e Diana saíram da nave correndo em direção aos vilões, dispostos a lutarem para salvar Hikari. Entretanto, o exército de soldados que cercavam a nave os interceptaram, impedindo-os de avançarem. E o General ordenou:
— Soldados, ataquem!
E a luta começou. Spielvan e Diana se viram novamente na mesma situação crítica de instantes atrás: sozinhos, desprotegidos, sem poderes e tendo que enfrentar dezenas de soldados Clow armados até os dentes. E, desta vez, não haveria nada que pudesse ajudá-los. Helen, que continuava próxima à nave, não poderia ajudá-los por mais que quisesse, pois estava ocupada tentando deter o avanço dos soldados ao redor da nave, onde seu pai estava. A nave, estando em pleno processo de recarga de energia, não poderia protegê-lo, sendo assim, sobrava para a bela cleaniana tentar impedir que os soldados o pegassem.
No alto da montanha, presa pelos dois soldados, Hikari apenas podia assistir àquela terrível cena: os irmãos e a amiga sendo massacrados. Não suportando mais aquilo, ela pediu:
— Por favor, parem com isso! Eu faço o que quiserem, mas parem com essa luta!
— Hum... Não se preocupe, menina. Você vai mesmo fazer o que quisermos. Mas, primeiro, teremos nossa vingança contra Spielvan. — Lay, que estava parada ao lado dela, assistindo à luta, respondeu, com um sorriso maquiavélico.
A garota se irritou com isso e começou a se debater, gritando:
— Parem! Parem com isso agora!
Lay também se irritou e, virando-se para ela, largou-lhe um bofetão que quase a derrubou. Hikari se aquietou, mas encarou a vilã com os olhos faiscando de raiva. Lay apertou o queixo dela e sibilou, lançando-lhe um olhar ferino:
— Você fique quietinha ou faremos com que não nos aborreça mais, e vai ser de um jeito que você não vai gostar nem um pouco, entendeu?
E largou grosseiramente o queixo da garota, voltando sua atenção para a luta que se desenrolava no pé da montanha, onde os heróis continuavam em clara e inegável desvantagem.
Spielvan, se vendo naquela situação complicada ao extremo, sentiu uma imensa fúria tomar conta de si e, se erguendo, reagiu de forma explosiva, derrubando alguns soldados, para espanto de todos ali. E, quase que por puro instinto, fez um movimento com os braços e bradou:
— Conversão!!!
Mas nada aconteceu. E os soldados avançaram novamente, conseguindo derrubá-lo. O General, vendo isso, falou, com ar vitorioso:
— Então estávamos certos. Spielvan não pode mais se converter. A vitória é nossa!!!
Já Hikari, que continuava aprisionada, assistindo à luta, sentiu uma enorme tristeza e desejou com todas as suas forças poder ajudar o irmão. Ela não sabia a quê o General se referia, mas sentia de alguma forma que esta poderia ser a única chance de Spielvan vencer a luta. Ele não podia desistir, tinha que tentar novamente, tentar até conseguir. Então ela gritou, pedindo com todas as suas forças:
— Não desista, Spielvan!!!!
— Spielvan!!!! — Diana exclamou, sendo aprisionada por um bando de soldados.
— Spielvan!!!!!! — Helen também exclamou, tentando se livrar de outro bando. As duas tentavam encorajá-lo a continuar, pois havia uma mínima chance de, ao completar o processo de recarga da nave, o sistema de conversão voltar a funcionar, e elas sabiam disso, assim como sabiam que, naquele momento, era Spielvan quem estava mais apto a ativá-lo.
Spielvan estava caído no chão, quase sem forças. Tentou se erguer, ao ouvir os gritos das irmãs e da amiga, mas não conseguiu. Em sua mente, os gritos ecoavam, mesclados a uma seqüência de flashes de momentos marcantes de um passado que ele desejava, acima de tudo, esquecer. Todas as lembranças daquela época, a infância bruscamente interrompida pela tragédia, as batalhas para libertar o pai e a irmã mais velha das mãos daqueles monstros, tudo isso, aliado à visão daquele campo de batalha, aumentaram vertiginosamente seu ódio e sua fúria. Tirando forças do fundo de sua alma, ele se ergueu e novamente movimentando os braços, bradou:
— CONVERSÃO!!!!!!
Neste instante, algo surpreendente aconteceu. Uma sombra consideravelmente grande cobriu o campo de batalha, afastando os soldados que cercavam Spielvan. Todos olharam para cima (com exceção de Spielvan, que permanecia na posição em que ficara) e se surpreenderam ao ver uma enorme nave sobrevoando o local. Era Deffender!
E, no interior da nave, um impressionado Dr. Paul olhava para os controles da mesma, que se auto-acionaram, e para um dos monitores, onde estavam impressas as seguintes frases: “Processo de recarga concluído com sucesso. Sistema de conversão ativada.”.
Tudo ocorreu muito rápido. A nave, parada exatamente acima de onde estava Spielvan, liberou sobre ele uma chuva de minúsculas partículas brilhantes que se cristalizaram em seu corpo. Ao final, quando todos puderam ver o que tinha acontecido, o guerreiro cleaniano estava totalmente coberto por uma reluzente armadura metálica. O General e Lay mal podiam acreditar. Spielvan conseguira se converter!
O guerreiro cleaniano, após se apresentar como Guerreiro Dimensional Spielvan, empunhou sua pistola Laser Slace e se pôs a atirar nos soldados que o rodeavam, acertando-os e também libertando Diana e Helen. As duas, ao se verem livres, exclamaram em sincronia, também movimentando os braços:
— Conversão!!!!
E o ocorrido de instantes atrás se repetiu, mas, desta vez, a “chuva cintilante” incidiu apenas sobre elas, cristalizando-se em seus corpos e dando forma a duas armaduras metálicas femininas idênticas, exceto por um detalhe: a de Diana possuía um coldre contendo uma pistola similar à que Spielvan empunhava. Após se apresentarem como Lady Diana e Lady Helen, esta, aproveitando o momentâneo estado de torpor dos vilões, tirou de não-se-sabe-onde uma espécie de bastão com duas pontas curvas e afiadas, e o arremessou contra o pequeno grupo que se encontrava no alto da montanha, exclamando:
— Helen Cutter!!!
E o tal bastão foi girando pelo ar, tal qual um disco, e atingiu certeiramente os dois soldados Clow que mantinham Hikari prisioneira, decepando-os, e, como um bumerangue, voltou prontamente para as mãos da guerreira. A garota, ao se ver livre, de imediato começou a correr na direção dos três cleanianos, mas, neste instante, Lay saiu de seu estado de torpor e a agarrou pela cintura, impedindo sua fuga. O General, também se recompondo, olhou para elas e falou:
— Lay, leve a garota para o castelo. Eu cuido das coisas por aqui.
— Certo! — a vilã respondeu, com um aceno. Então chamou alguns soldados Clow que sobreviveram ao contra-ataque repentino e saiu de lá correndo com a garota esperneando em seus braços e gritando pelo irmão.
— Hikari!!!!!! — Spielvan gritou, ao ver a menina sendo carregada dali por Lay.
Ele logo se pôs a correr atrás dela, seguido por Lady Diana e Lady Helen. Porém, mal deram dois passos, quando tiveram que recuar para não serem atingidos por uma saraivada de tiros vindos do alto da montanha. Era o General, que estava disposto a impedir que os três guerreiros perseguissem Lay e resgatassem Hikari. E ele falou:
— Não deixarei que passem daqui. A garota é nossa!!
— Nunca!! — Spielvan respondeu, irado.
E voltou a avançar, mas um grupo de soldados Clow apareceu e se pôs no caminho, para impedi-lo de seguir. Eles partiram para o ataque, mas Lady Diana, mais que prontamente, empunhou sua pistola Laser Slace e começou a alvejá-los. E falou, se dirigindo ao amigo:
— Vá, Spielvan! A gente cuida das coisas por aqui. Vá e salve Hikari!
Lady Helen acenou, reforçando o que acabara de ser dito pela amiga. E Spielvan, com um aceno em resposta, se pôs novamente a correr na direção para onde Lay havia fugido. O General atirou novamente, tentando acertá-lo, mas Spielvan deu um salto e chamou:
— Metal Cycle!!!!
E, do interior de Deffender, saiu uma espécie de motocicleta alada que veio voando na direção do guerreiro cleaniano. Ele a montou ainda no ar, e, ao pousar no chão, já estava do outro lado da montanha, seguindo em perseguição à vilã, que corria em direção ao castelo, a enorme nave Gâmedes, levando consigo a jovem Hikari.
Lay, percebendo que estava sendo seguida, mandou os soldados que estavam com ela atacarem Spielvan, ao que foi prontamente obedecida. Ele, pilotando a moto alada, os alvejou com tiros laser disparados das laterais da moto, sem se deter. Quando finalmente a alcançou, porém, era tarde. Lay já estava ativando o portal para entrar na nave Gâmedes, levando consigo a menina. Spielvan só teve tempo de gritar:
— Não!!! Hikari!!!!!!!!!!!!!!!
E, sem poder fazer nada, viu a nave decolar e partir em direção ao espaço. Então ele desmontou da moto e reverteu a transformação, caindo de joelhos no chão, desolado. Minutos depois, Lady Diana e Lady Helen chegaram, encontrando-o nesse estado, e logo entenderam o que houve. Então reverteram a transformação e Diana falou, olhando para o céu:
— Eles a levaram...
— Spielvan... — Helen olhou para o irmão, preocupada.
Nisso, ouviram um barulho vindo do alto, detrás deles. Eles olharam e viram Deffender, sobrevoando a área, se aproximando dali. Então a nave pousou e o Dr. Paul apareceu na entrada, dizendo:
— Vamos atrás deles, resgatar Hikari.
— Hã?!
— Com esta nave, os alcançaremos com certeza. Vamos, temos que nos apressar!
— Está certo. Vamos nessa! — Diana exclamou em resposta, se dirigindo à nave.
Helen acenou concordando e voltou a olhar para o irmão. Spielvan estava calado, parecia estar ainda processando tudo o que acontecera. Até que olhou para a nave, depois para a irmã e, por fim, para o pai e a amiga, que os esperavam na entrada. E, com ar determinado e punhos cerrados, falou:
— Eles vão se arrepender amargamente de terem se metido com a gente de novo. Vamos nessa!!
E, com a ajuda da irmã, foi conduzindo Metal Cycle para o interior da nave, embarcando junto. Assim, com todos dentro da nave, Deffender partiu em perseguição ao Castelo Gâmedes pelo espaço afora.
Nave Gâmedes.
No antigo salão do trono, Lay conversava com o General Deslock (ele voltou para a nave antes de esta alcançar o espaço) sobre a jovem prisioneira:
— Agora poderemos obter o controle do Planeta Terra mais facilmente. — o General falou, com ar confiante.
— Hum... Mas antes precisamos encontrar uma maneira de convencer a garota a colaborar. — Lay replicou, um tanto contrariada.
— Certo... Acho que deveríamos mostrar um pouco do nosso poderio a ela. Mostrar o que poderá acontecer a ela se continuar com a recusa em colaborar.
— Ou podemos agir de forma menos incisiva... Afinal, mesmo sendo um prodígio, ainda é uma criança, e existem muitas formas eficazes de se lidar com crianças em situações como essa.
— Humpf! E o que sugere então, Lay?
— Vamos ver... Hum... — a vilã pôs a mão no queixo, enquanto caminhava de um lado a outro do salão, com ar pensativo. Até que de repente parou e fez uma careta de “eureka!”. E exclamou — É isso! Já sei o que vamos fazer!
— Como assim?
— Não precisaremos amedrontá-la, só precisaremos conduzi-la para que faça o que nós queremos, e eu já sei como faremos isso. — Lay respondeu, com um sorriso matreiro.
— Hã?! Por acaso está pensando em...? — o General perguntou, com um tom de voz significativo.
Mas Lay não respondeu de imediato. Apenas continuou com o sorriso matreiro estampado no rosto. E o General, parecendo entender o que se passava na mente dela, também se calou e voltou sua atenção para os monitores que mostravam o espaço lá fora. Então, a nave entrou no mesmo vórtex dimensional que a trouxera ali.
Nisso, em uma cela suspensa em meio a um enorme vazio, ainda no interior da nave, a jovem Hikari despertava, logo percebendo a situação em que estava. Triste e amedrontada, ela se sentou num canto da cela, abraçou as próprias pernas e se pôs a chorar, chamando baixinho pelo irmão, mas já sem muitas esperanças de que ele a viesse salvar.
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