Spider-Damn 3
1 Capítulo Único
Spider-Damn 3
Polêmica. A melhor palavra para definir o que gerou o filme mais esperado de 2007. A mais nova aventura do nosso amado “Cabeça de Teia” no cinema dividiu opiniões. Alguns adoraram, achando o melhor da trilogia, outros definiram como bom, um grupo à parte apenas rotulou de regular e já um outro (aliás, um bom percentual do público, eu presumo) deixou as salas de exibição querendo seu dinheiro de volta. Para um melhor aprofundamento nessa questão, eu, humilde ficwriter e fã do “Amigão da Vizinhança” (alcunha bizarramente traduzida como “O Amigo de Sempre” na dublagem), fui entrevistar o consagrado diretor de trashs dos anos 80 e homem por trás do novo filme: S.A.W. Reimi.
GOLDFIELD: Caro senhor Reimi, apesar de várias críticas favoráveis, esse terceiro filme do Spidey não agradou tanto quanto os anteriores. O que tem a dizer sobre isso?
REIMI: Engano seu! Todos adoraram o filme! Ele tem efeitos especiais, danças do Peter, lições de moral e um roteiro que liga todos os personagens! Não tem erro!
GOLDFIELD: Quanto ao roteiro, diretor, uma reclamação feita por muitos é que ele tem coincidências demais, a maioria delas extremamente forçadas...
REIMI, rindo: Na verdade, as próprias reclamações são em si coincidências, meu rapaz! O filme é ótimo!
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Peter Parker e Mary Jane Watson, os dois pombinhos mais carismáticos do universo cinematográfico da Marvel (ao menos nos dois filmes anteriores do Spidey), estão deitados sobre uma grande teia de aranha presa a algumas árvores ao redor, admirando o céu noturno estrelado. Num dado momento, a mocinha ruiva diz meigamente:
– Sabe de uma coisa? Eu gostaria de cantar no palco para o resto da minha vida... Com você na primeira fila.
– Eu estarei lá... – responde Peter sorrindo.
Mas, após alguns segundos pensando, o nerd completa:
– Isso é, se o dinheiro der, não é, Mary Jane? Os lugares na primeira fila são os mais caros! Vida de estudante é uma dureza, ainda mais a de um estudante que é super-herói nas horas vagas!
Mary Jane faz uma careta e volta a olhar para as estrelas. Nisso, sem mais nem menos, um pequeno meteoro (ou seria aerólito?) cai justamente bem perto de onde o casal está, sem que, no entanto, este perceba o que havia ocorrido. Logo depois uma misteriosa gosma preta sai da rocha ainda flamejante, ao mesmo tempo em que alguns arbustos próximos se mexem, e do meio deles sai o Chapolin Colorado.
– Uma coincidência pode ocorrer em qualquer lugar do mundo! – diz ele num tom esnobe.
Mal ele termina a frase, outro meteorito cai ali perto, e os dois namorados continuam totalmente alheios ao fato.
– Duas coincidências podem ocorrer em qualquer lugar do mundo! – insiste Chapolin, irredutível.
Em seguida, uma violenta chuva de meteoros em chamas no melhor estilo “Smallville” se abate sobre Manhattam, ao final da qual o super-herói mexicano, olhando para a paisagem de prédios destruídos, diz tranqüilamente:
– Cinco mil e quinhentas e setenta e duas coincidências podem ocorrer em qualquer lugar do mundo... Mas na dúvida é melhor eu voltar logo para o meu programa!
E sai correndo dali.
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GOLDFIELD: Outro ponto muito discutido a respeito do roteiro foi o uso de retcon, diretor. Esse recurso consiste em explicar algo num filme mexendo em eventos de filmes anteriores, e segundo muitos empobrece o enredo. O senhor fez isso em Spider-Man 3 ao retomar e modificar a morte do Tio Ben. Que tem a falar?
REIMI: Eu dei a brecha para isso desde o primeiro filme, meu amigo! Se você prestar atenção, aquele ladrãozinho que roubou o dinheiro da luta nunca é mostrado atirando no Tio Ben! De início eu tinha pensado em colocar o Mysterio como verdadeiro assassino dele, depois considerei seriamente o Abutre, porém no final optei pelo choroso e maleável Homem-Areia!
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Cena em preto e branco. O bom e velho Tio Ben (autor da sábia lição acerca de poder e responsabilidade) está em seu carro aguardando pacientemente o sobrinho, que pensa ter passado o dia na biblioteca. Súbito, alguém o arranca de dentro do veículo, o cano de uma arma apontada para seu rosto.
– O que você quer, meu rapaz? – pergunta o idoso, suplicante.
– Me diga uma coisa, velho! – sorri o bandido, engatilhando o revólver com um olhar insano. – Você já dançou com o demônio sob a luz do luar?
– Quê?
Súbito, o diretor Tim Burton chega correndo vindo de uma calçada e, desesperado, impede que o criminoso siga em frente com seu ato vil exclamando:
– Filme errado, cara, filme errado! Neste exato momento você deveria estar disparando contra o casal Wayne no meu filme!
– Puxa, é mesmo! – lembra o meliante, batendo uma mão na testa. – Desculpa aí, velho!
– Não foi nada! – responde o tio de Peter, voltando para dentro do carro sem se incomodar.
– Senhor Parker, não se esqueça de avisar o S.A.W. Reimi que ele precisa pagar meus royalties por usar a idéia de um vilão principal ter matado o ente querido do protagonista! – pede Tim antes de desaparecer pela rua junto com seu ator.
– OK, OK...
Assoviando, Tio Ben passa então a esperar que o bandido correto apareça. Sem demora outra pessoa bate com uma arma no vidro do veículo. Desta vez é Flint Marko, o Homem-Areia, que rapidamente pede desculpas pelo atraso e também arranca o idoso para fora.
– O que você quer, meu rapaz? – a fala é repetida.
– Eu só quero o carro, senhor, apenas o carro! – explica o assaltante, tenso.
– Meu filho, largue essa arma e vá para casa! – pede Parker, segurando os ombros de Flint.
– Não dá, cara! – grita Marko num ataque histérico, caindo sentado e chorando. – Minha mulher me traiu com o Metamorfo, da DC!
– Como é que é? – Tio Ben arregala os olhos.
– Pois é... Ela disse que eu só posso me transformar em areia, enquanto ele é capaz de assumir a forma de qualquer elemento da tabela periódica! O maldito é mais quente na cama do que eu!
Sem poder se controlar, Tio Ben apoiou as mãos sobre o capô do carro e começou a gargalhar. Irritado, Flint se levantou e, com a cara amarrada, voltou a mirar com o revólver no idoso, que mesmo assim não parou de rir, apontando agora um dedo indicador para o infeliz mutante traído.
– Velho filho da mãe!
E o tiro veio. Ben Parker caiu morto.
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GOLDFIELD: Além de tudo isso, a história é corrida e vários sub-plots têm soluções simples e bobas, como a passagem de Harry Osborn para o lado do bem nas cenas finais!
REIMI: Ora, até na vida real existem pessoas com grande poder de persuasão, meu caro!
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Harry Osborn estava confuso e, sem dúvida alguma, furioso. Há pouco Peter viera pedir sua ajuda para resgatar Mary Jane das mãos do Homem-Areia e do vilão-simbionte-que-não-tem-o-nome-pronunciado-no-filme. Foi quando, repentinamente, o riquinho metido a vingador high-tech acabou abordado por seu fiel mordomo:
– Se me permite dizer, senhor, eu vi coisas nesta casa das quais nunca falei... Na noite em que seu pai morreu, eu limpei seus ferimentos... E as lâminas que perfuraram o corpo dele eram de seu próprio planador. Eu sei que você está tentando defender a honra de seu pai, mas não há dúvida de que ele mesmo se matou. Eu amei seu pai, assim como eu amo você, Harry... Assim como seus amigos o amam...
BLINK! Houve um verdadeiro estralo na mente do filho de Norman Osborn que, apenas ouvindo aquelas palavras vindas do empregado, esqueceu-se imediatamente de qualquer outro fato ou evidência que pudesse incriminar o Homem-Aranha e se viu livre de qualquer ímpeto de vingança. Disposto de repente a ajudar seu amigo na batalha contra os dois vilões, disse, prestes a sair correndo:
– Muito obrigado pela informação, mas agora tenho que ir!
– Espere! – pediu o mordomo. – Ainda preciso lhe dizer outras coisas que sei! Você sabia que o secretário-geral da ONU é na verdade um alienígena disfarçado que pretende destruir a humanidade numa guerra nuclear?
– Não! – surpreendeu-se Harry, detendo-se imediatamente. – Conte-me essa história direito!
(Duas horas depois...)
– E foi assim que Atlântida emergiu novamente e se tornou a ilha de Manhattam, onde moramos hoje! – explicou o empregado. – Sob o Empire State há uma colônia de gnomos amarelos que se alimentam do lixo jogado pelos usuários do metrô!
– Minha nossa! – sorriu Osborn, maravilhado e incomparavelmente convencido em relação àquelas infindáveis e coerentes afirmações. – Eu nunca acreditaria nisso tudo se as palavras tivessem saído de outra boca!
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GOLDFIELD: Bem, deixando agora o roteiro um pouco de lado, há críticas no tocante às interpretações. Peter Parker, sob influência do uniforme negro, acabou se tornando um “emo” com direito a franja e danças ridículas ao invés de um indivíduo cruel e vingativo. O senhor concorda?
REIMI: Quem você acha que perturba mais as pessoas ao redor? Um “emo” ou uma pessoa cruel e vingativa?
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Após intensa luta no esconderijo do novo Duende Verde, Peter Parker, após dar uma formidável surra em Harry Osborn que lhe provocou vários ferimentos, havia encurralado o inimigo junto a uma parede. Cheio de fúria, o ex-amigo do Aranha indagou:
– Você vai me matar como fez com meu pai? Você o tirou de mim! Ele me amava!
– Não, ele te desprezava. Você era uma vergonha para ele.
– Você o matou! Você é um assassino!
Abalado por aquela afirmação, Peter, com os olhos marejados, ameaçou soluçar, dizendo:
– Eu já estou cheio de tentar te convencer...
– Oh, será que o Emo-Aranha vai chorar? – riu o outro rapaz, divertindo-se à beça.
Parker apenas sentou-se no chão e, cobrindo a face com as mãos, começou a derramar lágrimas copiosamente. Rindo ainda mais, Harry ergueu-se o observando. Num dado momento o herói ergueu a cabeça, berrando:
– Já tentei cortar meus pulsos, mas só saiu teia ao invés de sangue!
– Chora, Emo!
E com um forte tapa na nuca do chorão, a luta foi vencida pelo Duende Verde.
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GOLDFIELD: Ainda não chegamos ao fundo do poço, diretor. A maior decepção do filme, sem qualquer dúvida, foi o Venom, que nem sequer teve seu nome pronunciado, aparecendo quase no final e ainda por cima morrendo de maneira idiota. Algo a declarar?
REIMI: Nesse ponto sou obrigado a concordar em parte com você. No início eu não queria colocar o Venom no filme de jeito nenhum, pois eu o odeio. Mas devido à insistência que recaiu sobre mim, resolvi incluí-lo para agradar os fãs. Não entendo porque o resultado foi o inverso...
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Uma igreja praticamente vazia. Com o semblante abatido, o fotógrafo Eddie Brock entra e se ajoelha num dos bancos, olhando fixamente para o crucifixo no altar. Com as mãos unidas, ele começa a rogar a Deus:
– É o Brock, Senhor. Edward Brock Jr. Estou aqui hoje rebaixado e humilhado para pedir-lhe uma coisa...
Uma pausa. Eddie respira fundo e prossegue:
– Eu quero que o Senhor faça com que o público goste do Venom deste filme. Eu sei que ele é magrelo, se refere a si no singular, não tem voz grossa nem língua pegajosa e que vai morrer no fim, mas eu lhe imploro... Faça com que gostem! Não tenho culpa se investiram mais dinheiro nos efeitos especiais do Homem-Areia e nem pelo fato do diretor detestar o personagem! Daqui a poucos instantes ouvirei o sino bater e me transformarei no vilão... Espero que o Senhor quebre esse galho para mim!
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REIMI: Porém, você precisa reconhecer que o filme transmite belas lições, principalmente para as crianças e adolescentes que apreciam filmes de pancadaria...
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– Flint Marko, o homem que matou Tio Ben... – disse Peter, sentado diante de Tia May. – Ele foi morto ontem à noite.
– Minha nossa... – espantou-se a senhora. – O que aconteceu?
– O Homem-Aranha o matou.
– O Homem-Aranha? Eu não entendo, o Homem-Aranha não mata pessoas. O que houve?
– Bem, ele... Eu pensei que isso faria você se sentir bem. Ele merecia, não?
– Eu acredito que não cabe a nós decidir quando uma pessoa deve viver ou morrer!
– Tia May, ele matou o Tio Ben!
– A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena!
Peter calou-se, olhando para o chão. Pouco depois reconheceu:
– É uma bela frase... Onde a aprendeu?
– Foi num programa de humor mexicano... Agora não me lembro o nome...
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GOLDFIELD: Já é o suficiente, senhor Reimi. Muito obrigado pela oportunidade.
REIMI: Sou eu quem deve agradecer, e ao mesmo tempo lamentar que um filme tão bom tenha sido recebido de forma tão ruim. Vamos incluir mais personagens, lições e danças na rua no próximo, aí quem sabe...
GOLDFIELD: Até mais, passar bem!
(...)
Vendo-se sozinho na sala, S.A.W. Reimi retira uma máscara sintética do rosto, revelando sua verdadeira identidade... J. J. Jameson!
– Meu grande plano para acabar de vez com a reputação do Homem-Aranha está saindo melhor que a encomenda! Com esse terceiro filme e as continuações que virão, mostrarei que esse criminoso não é somente uma ameaça à sociedade, mas também à sétima arte, ha, ha, ha, ha!
FIM
Luiz Fabrício de Oliveira Mendes – “Goldfield”.
Comentário do autor: Fic escrita numa tarde de domingo para aqueles que, como eu, acharam Spider-Man 3 a grande decepção de 2007. Não sei se ficou muito engraçada, já que essa história serviu mais como um desabafo. Comentem ^^
Abraços a todos o/
- Goldfield.
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