Spellbook Of Lost Souls

1 Capítulo 1 - Prólogo


Notas iniciais
Primeiro capítulo: prólogo. Introdução a história. Espero que gostem.
Qualquer erro, me avisem xD

A lua conquistava os céus de outono. Ela guerreava com as nuvens acinzentadas que deslizavam, cobrindo-a juntamente das pequenas estrelas cintilantes. Porém, suas poderosas armas destruíam as fracas adversárias, que caíam sobre seus pés, sangrando. A lua estava completamente redonda, iluminando todo o povoado de Haru.

As pessoas dormiam infelizes, há alguns dias, depois da declaração de guerra, feita pelo maior ditador da região: Lorde Novák Thar. Seus exércitos eram invencíveis, mais de um milhão de guerreiros rezava a lenda. Seus domínios estavam localizados além das Montanhas Sangrentas e parecia interminável, seguindo os desbravadores.

A lua venceu uma nova batalha contra uma desordeira nuvem, gigantesca, que avançou com ferocidade, interrompendo a lua de iluminar os povoados da região de Kar.

Apenas um barulho ecoava na noite...

– Vamos, vamos. – gritou um homem, erguendo seu machado gigantesco sobre a cabeça. Ele tinha cabelos castanhos que desciam pelo pescoço e terminavam em seus ombros curvados. Os músculos grandes davam a impressão de que ele era um gigante, porém sua estatura era mediana. Os olhos negros cintilavam sobre a única luz daquela noite.

Guerreiros mal encarados as suas costas caminharam, subindo uma breve colina coberta por terra e sangue. Corpos caídos davam um ar de inferno àquele lugar, que já era quente suficiente. Depois de um monte de sangue derramado, um curto espaço tomado por grama localizava-se com uma bandeira cravada.

– Bosta. – disse o mesmo homem de antes, que já baixara o machado gigantesco. Os cabelos esvoaçavam com a brisa daquela noite. Seus olhos fitaram a bandeira e logo depois à sua esquerda. Na descida da colina, criaturas extremamente fortes olhavam para o capitão do esquadrão C. Sorriam maliciosamente, empunhando espadas afiadas e trabalhadas. Não tinha escudos e havia pelos por todo o rosto. Não eram humanos, pelo menos não pareciam. Tinham narizes espetacularmente grandes e finos e seu peito era inflamado, o que lhes dava um ar de superioridade.

O silêncio tomou conta de todos. Inclusive das criaturas, que pararam de rir em voz alta. Uma dela destacou-se na multidão de pelo menos duzentas e mostravam a espada muito maior que a dos companheiros. A mesma era banhada a ouro, de cima a baixo e eram do tamanho de um tronco de árvore.

– Ora, ora. – disse o homem em voz baixa, virando levemente o rosto para seus trezentos e cinqüenta homens, que prestavam a maior atenção possível. No momento em que o líder fez esse gesto, quarenta imediatamente desceram ao chão e rastejaram para a direita, onde os monstros não conseguiam enxergá-los. Com cuidado, puxaram arcos maiores do que os mesmo.

– Continua a se opor ao Lorde Thar, Dan? – indagou a voz do líder dos monstros. Era extremamente grossa.

Dan não respondeu, apenas fitou os adversários, esperando o momento certo para agir. Seus quarenta guerreiros ainda rastejavam, buscando a melhor posição combinada. Quando finalmente a atingiram, Dan pôde responder.

– Sim. – disse com rispidez, segurando firmemente o machado. Ele parecia se tornar mais pesado a cada instante de silêncio. Os monstros não pareciam ter a vontade de atacar. A impressão era de que esperavam um ataque.

Dan fitou o peito deles. Havia uma armadura natural, a pele deles. Mais forte do que aço. Os pelos cessavam nessa região e voltavam a aparecer apenas na cintura. As pernas fortes lembravam um touro, porém tinham quatro dedos sem unhas.

– Então você vai morrer, junto de seu exército. – disse o monstro, sua voz tornando-se mais grossa a cada sílaba. – Prepara-se, humano.

Os companheiros dele riram, batendo as espadas no chão com ferocidade. O esquadrão C parecia estar aterrorizado. Como enfrentar tais criaturas? Haveria pesadas baixas, com certeza. Até mesmo Dan estava com muito medo. Medo de perder seus amigos, companheiros, que lutariam ao seu lado até a morte. Os quarenta formaram uma fila, escondendo-se sobre uma leve elevação, suficiente para que os inimigos, embaixo deles, não vissem nada.

– Vai ser tão engraçado quando você cair sobre os meus pés. – disse Dan, provocando, – implorando pela sua vida. Sabe o que farei? Cortarei a sua garganta.

Um dos monstros pôs-se a frente, entre dentes, empunhando a espada e fazendo menção de atacar. Mas ele foi acalmado pelo líder.

– E eu – murmurou, – arrancarei suas tripas.

No exato momento em que a última palavra foi dita, os quarenta guerreiros do esquadrão C levantaram-se. Em suas mãos, os arcos maiores do que os próprios corpos estavam erguidos, com flechas grossas e tomados na ponta por um líquido roxo-vivo. As flechas voaram sobre os céus, cortando o ar com imensa velocidade e indo na direção do grupo de monstros. As cabeças dos mesmos estavam fitando o céu. Por causa da escuridão, quase não enxergavam o ataque de seus adversários.

– Vão! – berrou Dan, indicando com o machado a descida da colina em que seu esquadrão estava. Os destemidos guerreiros saltaram e avançaram sobre o terreno desgastado. Ergueram suas armas e partiram para o ataque.

– Merk, aqui! – berrou um, indicando três monstros que vinham ao seu encontro.

O choque foi terrível e barulhento. As flechas atingiram no mínimo dez alvos, que tombaram com facilidade. O líquido penetrou em seus corpos, fazendo com que seus órgãos se deteriorassem, principalmente os pulmões. Morreram asfixiados. Os outros guerreiros tiveram pesadas baixas nos primeiros segundos. Seus ataques camuflados por causa das flechas não tiveram resultados. Os trinta primeiro foram decapitados pelas espadas gigantescas dos inimigos. Dan veio no meio e começou a batalhar contra dois adversários ao mesmo tempo.

– Vamos ver quem é que manda, otários. – murmurou ele, erguendo o machado e saltando, o que lhe permitiu escapar de um poderoso golpe. Seus braços moveram-se para a direita, atingindo a perna de um monstro.

– Filho da...! – exclamou ele, porém sua voz foi morrendo, até ele cair de joelhos.

Dan teve que virar-se rapidamente para escapar de um novo golpe. Seu machado foi posto em suas costas, chocando-se contra a espada e impedindo de ser mutilado. Em seguida, num movimento de inteligência, girou com habilidade e arrancou os pés do outro com facilidade. O chão estremeceu com sua queda. O sangue escorria e o osso extremamente grosso ficava para fora do corpo peludo. Urrava de dor.

– Socorro!

Os arqueiros haviam sido alcançados. Um combate corpo-a-corpo era tudo que não queriam. Sem tempo de recarregar as flechas foram levantados com a força das criaturas. Pelo menos cinco morreram na primeira investida.

O Esquadrão C teve que recuar um pouco para salvá-los. Três usaram escudos para se proteger dos golpes, parando a investida veloz. Os arqueiros, assim, recuaram ainda mais, o que lhes deu o precioso tempo de colocar as flechas nos arcos.

– Muito bem! – elogiou Dan, ao acertarem cinco flechas entre os olhos das criaturas.

A batalha continuava intensa, vinte minutos depois. Havia ainda combatentes dos dois lados, ambos lutando com habilidade e força. Ambos estavam dispostos a morrer por seus ideais. A lua estava soberana sobre os céus e apenas observava o confronto.

– Mais para a direita! – rosnou um arqueiro para seu amigo, que errara o alvo por centímetros. No lance seguinte, conseguiu atingir o alvo e urrou de felicidade.

Dan e seu esquadrão avançavam sobre os inimigos. Os números dos dois lados diminuíam conforme os minutos passavam para Dan sentia estar em vantagem. O rosto sujo de sangue ergueu-se para observar a cena. Cinco arqueiros restavam e eles continuavam a lançar flechas, porém com mais cuidado. Poderiam acertar um amigo. Combatentes tentavam encurralar os monstros, mas apresentavam dificuldades. Os mesmo recuavam um pouco cada vez que isso acontecia.

– Rápido! – disse um guerreiro, vendo a oportunidade muito próxima. Mas errou o movimento e não percebeu o inimigo as suas costas. Levou uma pancada certeira na cabeça e sucumbiu sobre o peso da arma, caindo de joelhos no chão. Um corte profundo se abrira entre seus cabelos negros e o sangue começara a escorrer pelo seu dorso. Os olhos perderam o brilho e o corpo caiu no chão. Dan sentiu um profundo ódio. Aquele era o seu melhor amigo, Isakk.

– Filho da puta! – bradou Dan, correndo sem se importar quem est6ava próximo. O monstro riu, porém não teve escapatória. O machado do homem entrou em seu ombro e rasgou-lhe com ferocidade. A fera não se abateu apenas com isso e tentou provocar o mesmo ferimento de Isakk em Dan. A habilidade do líder era tremenda, que num movimento apenas escapou do ataque e decapitou o outro.

Mais cinco minutos se passaram. Os humanos sofreram novas baixas e Dan estava tendo que lutar quase que sozinho. Os arqueiros haviam morrido por ter avançado demais e agora restavam apenas dez, contra vinte e dois. A vantagem do esquadrão havia se exterminado e o líder dos monstros agora tentava arrancar a vida de Dan.

– Você caíra – berrou, revelando os dentes podres. A espada-tronco foi erguida no ar e logo desceu, como uma guilhotina, sobre o peito do homem. A brisa foi rasgada e o choque ocorreria a qualquer instante. Dan tentava proteger-se, em milésimos de segundos e o óbvio aconteceu: Ele foi atingido no peito direito. A espada foi deslizante enquanto abria sua pele, porém ele saltou para trás, parando abruptamente com o golpe.

O monstro levantou os braços, comemorando. Dan foi rolando pelo chão, aturdido, enquanto sentia uma dor imensa e via o sangue sair de sua pele aberta. Abafou um grito de dor e percebeu que os monstros comemoravam.

– Acabe com ele! – gritou um, enlouquecido.

Os humanos tentavam achar forças para continuar lutando, mas estavam esgotados. Agora, com o ferimento de Dan, tudo estava, finalmente, terminado.

– Ajudem! – disse outro, que estava sendo atacados por três humanos, os únicos que tinham a energia suficiente para combater.

– Depois eu liquido com este fracote. – disse o líder, apontando para o trêmulo Dan. No momento em que ninguém mais o observava, foi rastejando pelo chão. A terra entrava em seus olhos e boca. Ao olhar para o chão, percebeu que estava deixando um rastro de vermelho. Teve que ergueu seu corpo e ir caminhando, corcunda, enquanto amarrava um pedaço de sua camiseta rasgada para cobrir o ferimento.

Ele encontrou uma descida, e foi escorregando por ela, tentando fazer o mínimo barulho. Os monstros estavam ocupados travando uma luta com os três humanos que continuavam. O restante já estava morto, por causa de sua fadiga.

"Por favor..." implorava Dan, tentando encontrar algum lugar para se esconder. De repente, observou ao longe um pequeno buraco. Suas pernas movimentaram-se automaticamente até o encontro de tal coisa. Ele passou por algumas plantas desérticas até chegar ao lugar. Ele era suficientemente grande para caber seu corpo, porém teria que ser rápido e se cobrir de terra.

As mãos batiam no chão e empurravam montes de terra. Dan teve que fechar os olhos tampar o nariz, fechar a boca... para não ingerir os pequenos "grãos" que estava sendo postos sobre seu corpo. A camiseta estancara um pouco o sangue e o único problema em relação a isso era a possível infecção que ele sofreria.

– Bosta! – exclamou, ao ouvir um barulho de passos. Os últimos homens já deviam estar mortos, ou presos. Agora, as criaturas procuravam Dan, que estava agradecendo a Deus pelo olfato delas ser muito ruim.

– Ei, seu viadinho. Venha me enfrentar! – berrava o líder, furioso, erguendo a espada-tronco e batendo contra o chão com força. O rosto enfurecido estava com os pelos levemente arrepiados. No peito, onde estava a armadura natural, havia uma mancha de sangue, não dele, mas de um adversário, assim como no seu braço e perna esquerda. A espada estava tingida de vermelho por causa de todas as pessoas que ele havia matado.

– Covarde! – gritava outro, correndo de um lado para o outro.

Dan não respirava mais. O corte profundo doía, porém sentia outra dor. Uma dor sem cura. Havia abandonado seus amigos, seus parceiros. Deixara guerreiros bravos e destemidos, que deram suas vidas por ele, para trás. Não acreditava no que havia feito. Seu desejo era saltar do buraco e entregar sua miserável vida para aqueles monstros. Provavelmente sofreria muito... nada mais do que o merecido.

Dan moveu o braço, mas milésimos depois desistiu.

– Você viu? – indagou um monstro, de repente. – Ali, no chão!

Dan congelou. Sua garganta deu um nó. Estaria morto a qualquer momento. Ouviu os passos de duas criaturas se aproximando com cuidado.

– Onde? – indagou o líder, ferozmente.

– Ali! – indicou o monstro com seu dedo gorducho. A mão tremia assustadoramente só de pensar que poderia ter achado Dan. Seria recompensado, com toda a certeza.

– Onde mesmo?

Dan segurava a respiração. A terra parecia se mexer, mas ele não conseguia mais distinguir de onde vinham os passos. Era um tremor constante, que não parava nunca. O líder deles parecia estar correndo de um lado para o outro, procurando a localização do movimento.

– Você é louco? Não está aqui! – bradou, pisando forte sobre a terra. O líder bufou de leve.

– Mas... mas... – tentava justificar o soldado.

– Mas um cacete.

– Senhor, eu juro que vi algo...! – exclamou o soldado, desafiante.

O lide pisou na terra e Dan ficou mais apavorado do que nunca. Havia localizado o passo novamente. Estava bem perto dele. Se a criatura andasse um tantinho mais para o lado, estaria morto. Não daria tempo de...

– CALA A BOCA! – berrou a voz do líder, interrompendo os pensamentos de Dan. O mesmo tentou respirar calmamente, sem fazer muitos movimentos.

– Por favor... eu... – choramingava o soldado. Porém sua voz morreu na garganta do tamanho de uma televisão. Mesmo que tivesse voz, não conseguiria dizer mais nenhuma palavra. A espada gigantesca do líder rasgou a carne da "televisão", invadindo o pescoço da vitima como se fosse um tigre abocanhando a presa.

– Alimente-se.

A espada de repente estendeu-se na ponta. Ela ficou grossa, muito grossa. Estava tão grossa quanto o tronco de árvore. A lâmina desapareceu. Uma pequena boca surgiu na ponta e dois olhos abriram-se com cuidado, apreensivos, observando o ambiente. Eram completamente laranjas e a boca possuía dentes grandes e afiados, pretos.

– Alimente-se.

A espada ficou inquieta e quem a segurava movimentou-se até o corpo caído da criatura morta. A boca foi rasgando a carne, engolindo com facilidade. Porém, ela continuava do mesmo jeito.

Ao término da refeição, em que sobrara apenas o tronco, a mesma começou a falar com uma voz rouca e esganiçada.

– Obrigado.

– De nada.

A espada voltou a transformar, voltando a ficar com a aparência normal, como antes. A lâmina voltou mais afiada e ela pareceu crescer alguns centímetros.

– Senhor, eu ainda acho isso bizarro. – informou um dos soldados, com os olhos arregalados. A bainha de sua arma reluzia com a luz da lua.

– Não me interessa o que pensa. Sada é a melhor espada que existe. – disse ele, irritado, – Com certeza.

Todas as criaturas que restaram da batalha reuniram-se em frente ao líder. Eram quinze, contando com o capitão.

– Pelo visto o covarde já fugiu daqui. – estava completamente desapontado. Não acreditava que seu inimigo pudesse ser tão covarde. – Vamos retornar ao nosso antigo posto e esperar reforços. Ghrillm! – chamou, de repente, – avise-o de nossa situação ao Lorde. Conte tudo a ele, porém exalte meu bom desempenho.

Ghrillm era um pouco menor que todos, mas parecia bem forte. Sua espada possuía uma leve curva na ponta que cintilava mais ainda por causa da Lua cheia. Ele assentiu e saiu correndo numa velocidade impressionante, passando pelos campos de terra desocupados.

– Muito bem. Retornemos. – disse o líder, indicando que o seguissem.

Dan respirava melhor, apesar de a terra estar quase invadindo o seu nariz. Foi ouvindo os passos se distanciarem até haver um silêncio irritante. Seu braço levantou-se com dificuldade, abrindo espaço entre a terra. Conseguiu desvencilhar-se dela, levantando os dois membros. Logo depois, agarrou o chão dos lados e forçou o peito para frente. A cabeça foi rasgando a terra e finalmente, estava observando os campos. Os monstros não apareciam mais no seu campo de visão.

Com esforço, ficou de pé e tentou se limpar um pouco, apesar da enorme sujeira. Limpou as pálpebras e abriu os olhos. Moveu suas pernas para frente, numa corrida tranqüila. Olhou, então, os corpos caídos no chão. Mortos. Uma lágrima escorreu de seus olhos e foi cavalgando pela face. Outras vieram logo depois, quando Dan fixou-se em seus amigos perfurados e mutilados.

– Não... – gemeu ele, levando as mãos ao rosto. Não conseguia acreditar.

O resto da noite ele passou caminhando pelos campos, no sentido contrário ao que viera. Sempre pensando no que acontecera. Na morte de seus parceiros e na sua covardia. Queria suicidar-se, mas não isso não faria com que ele se redimisse. Precisava fazer algo para acabar com aquela guerra. Precisava encontrar o precioso... não, era impossível.

A lua já dava espaço para o Sol, que nascia radiante sobre os campos de areia. Alguns raios já atingiam a região de Kar com violência, fazendo Dan apertar as pálpebras para conseguir enxergar o caminho. Exausto, avistou de longe um muro alto de pedras, no mínimo gigantes. A cada dez metros do muro havia uma torre de vigília, porém nenhuma estava ocupada. Dan moveu-se, desesperado para chegar em casa. Para chegar ao povoado de Haru.

Ele ofegava. Faltavam apenas alguns metros, já conseguia avistar o portão também feito com pedras grandes e brancas, uniformes. Ele se abria no meio e movia-se para trás, revelando uma grande cidade. Mas Dan não o via se abrir.

– Bosta. – disse em voz baixa, observando três homens correrem em sua direção empunhando lanças afiadas, feitas de madeira com uma lâmina extremamente afiada na ponta. Eles empunhavam com as duas mãos e tinham um pequeno escudo preso nos dos antebraços, algo muito útil.

– É o Dan! – berrou um, surpreso.

– Temos que checar. – disse o mais forte.

Eles usavam capacetes e armaduras prateadas. Não havia uma parte do corpo descoberta, apenas os olhos e a boca. O peito estufado mostrava um dragão verde, símbolo de Haru.

– Sou eu. – murmurou Dan, respirando aliviado por chegar.

– Cadê seu Esquadrão? – indagou o mais forte, temendo o pior.

Dan não respondeu, apenas baixou a cabeça.

– Humpf... eu sabia. Eu sabia. – disse o homem, irritado, – eu disse que Dan falharia. Eu disse, não disse?

– Disse. – confirmou o parceiro da direita. O da esquerda assentiu, enquanto Dan caminhava mais para perto e ia em direção ao portão. Naquele instante, a vergonha que sentia de si mesmo intensificou-se. Ele sentia-se como o pior homem do mundo.

– O rei quer te ver, meu caro. – informou o da esquerda, solenemente. – Queria ter uma conversa com o resto do esquadrão, porém, sobrou apenas você, não é? – disse em tom de zombaria.

– Queria ver você naquele campo de batalha, fitando aquelas criaturas bizarras arrancarem suas tripas e matarem os seus preciosos amigos, seu verme. – disse, mostrando os dentes, enquanto indicava com o dedo o machucado em seu peito. A camiseta estava cheia de sangue, mas o mesmo já havia parado de sair.

– Aposto que iria ter um resultado melhor que você, idiota.

Os dois se encararam e um soldado teve que separá-los. Dan virou o rosto e caminhou até o portão. Os guardas abriram-no para que o guerreiro pudesse adentrar a vila. Quando as pedras romperam-se e recuaram, ele viu as casas maravilhosas, pessoas correndo e brincando, comerciantes, lojas, prédios, crianças brincando. Sua atmosfera mudou. Aquele lugar era incrível e ele parecia ter esquecido todo o acontecido de horas anteriores. O Sol já estava bem alto e iluminava a cidade.

Alguns homens observavam Dan, curiosos e impressionados. Viam nele um herói. Sabiam que tinha grande habilidade e era um dos principais guerreiros de Haru. Porém, não fizeram menção de ir cumprimentá-lo, nem nada. Dan sabia que o respeito era muito grande e eles não se atreveriam a incomodá-lo.

– Eu te levo até o rei. – informou o guarda da direita, que seguira o guerreiro.

– Tudo bem. – concordou, seriamente.

Seu machado parecia mais pesado que nunca na caminhada. As costas de Dan doíam, assim como seu machucado. Os braços pareciam estar estourados e sua força, desaparecido.

O caminho foi longo. Eles entraram em diferentes ruas que o guerreiro já conhecia, porém, subiram um morro desconhecido. Curvando-se para frente, Dan teve que fazer um esforço enorme para mover-se. Quase não se agüentava mais de pé quando atingiu o pico da "montanha". Localizou então uma residência de três andares, composta de duas torres com bandeiras gigantescas, da cor verde. Elas possuíam um dragão cuspindo fogo, com asas esbranquiçadas e dentes demasiado grandes. Havia centenas de janelas e uma porta banhada a ouro. Em frente ao castelo, um jardim bonito e bem cuidado se localizava, com jardineiros cuidando de suas plantas e flores. Um lago pequeno com um chafariz em forma de golfinho estendia-se a direita, enquanto a esquerda estava localizado um pomar com várias árvores grandes e espaçosas, de folhas verdes tanto claras quanto escuras.

– Siga o caminho pelo meio do jardim. – informou o guarda, voltando a descer pelo morro para tomar seu posto nos muros de proteção.

Dan caminhou numa pequena calçada de pedras acinzentadas. Uma pequena proteção de ferro separava as duas partes do jardim do caminho. Dan olhou para a direita e viu cinco jardineiros cuidando de uma planta gigantesca, que estava tentando comê-los. Uma carnívora, ou algo do tipo, pensou. Logo virou o rosto para a esquerda, observando um anão carregar uma flor cinza e amarela, que se movia freneticamente para frente e para trás. Ele nem conseguia imaginar que horas atrás estava lutando num campo de batalha, com criaturas muito parecidas com os minotauros, das lendas.

Depois de ultrapassar os jardins, localizou o lago grande, com peixes saltando e uma criatura vermelha nadando. Era longa e parecia um graveto mil vezes maior. Dois homens jogavam migalhas de pão para os habitantes do lago e alimentarem enquanto outro, menor e com cabelos escuros, lançava com sua mão direita filhotes de tartaruga para o animal vermelho. Dan não suportou a visão e ajeitou sua cabeça para frente. Seus olhos encontraram a porta banhada a ouro.

Ele bateu cinco vezes na mesma. Ouviu passos apressado girarem nove chaves e destrancarem a porta.

– Oh. – disse uma voz feminina, vinda de uma mulher lindíssima. Seus cabelos loiros eram curtos e bem cuidados, pele impecável e olhos azuis penetrantes.

– Quero ver o rei Alquies. – informou Dan, cordialmente, enquanto fazia uma breve reverência.

– Ele também quer ver o senhor. – disse a moça, sorrindo para o homem, que retribuiu. – E eu também... quer dizer, pode entrar.

Dan adentrou num salão maravilhosamente grande e iluminado. Lustres feitos de esmeraldas e diamantes estavam presos no teto completamente pintado. As paredes verdes cintilavam com a luz, mostrando uma combinação de pedras preciosas verdes, as esmeraldas do lustre e ouro. Havia três sofás ligeiramente velhos, mas com uma pintura perfeita. Desenhos de autores perfeccionistas também tomavam as almofadas reluzentes.

Dan não tinha palavras.

– Venha. – chamou ela, indicando com a mão esquerda as escadas brilhantes logo à frente.

– Obrigado. – agradeceu Dan, subindo tranquilamente as escadas. Estava usando seus últimos pingos de energia. Suas pernas não agüentavam mais. Quando encontrou o topo da escadaria, deparou-se com um corredor escuro, que foi se acendendo conforme o guerreiro passava. Havia lampiões em seu lado e um tapete cinza levava ao final do corredor, até uma porta.

A mão girou a maçaneta com cuidado e ele se deparou com um homem baixinho, de pé. Estava esperando Dan há alguns segundos e ficou muito feliz em vê-lo. Os cabelos grisalhos caíam sobre seu pescoço gordo. Ele era todo gordo, na verdade. A barriga era bastante elevada, assim como o peito. O nariz crescia para os lados e a boca caracterizava-se apenas por um fino traço abaixo da narina. As sobrancelhas grossas se ergueram ao ver Dan. Ele abraçou fortemente.

– Dan! – exclamou, sorrindo, – vocês voltaram então? Seu Esquadrão está lá fora?

– Não, senhor. – retorquiu o guerreiro, corando. Seus olhos fecharam-se por alguns instantes.

– Sente-se, sente-se – apressou a dizer o rei, – quer cerveja? Explique-me o que aconteceu.

Dan pegou um gole de cerveja e bebeu. Logo depois, contou nos mínimos detalhes como foi a batalha, que eles haviam sido dizimados e que Dan conseguira sobreviver escondendo-se como um covarde. Disse também as características das criaturas que enfrentaram e o rei ouvia com muito gosto e apreensão.

– Minotauros? Pareciam minotauros?

– Mais ou menos. Eram um pouco diferentes do que conhecemos através das lendas antigas de Haru. – explicou Dan, bebendo mais um gole de cerveja.

– Vejo que estamos em tremenda desvantagem – disse o rei, levantando-se de sua cadeira e caminhando de um lado para o outro. – Se continuarmos assim, perderemos a guerra, Dan.

– Eu sei. – concordou ele, friamente.

– O garoto está pronto.

– O que?

– O garoto está pronto.

Dan não acreditou. O garoto, enfim, estava pronto. Depois de dois anos treinando sem parar, havia chegado à hora.

– Você vai mandá-lo a procura? – indagou Dan, incrédulo, enquanto percebia o rei parar para fixar os olhos em sua face surpresa.

– Sim, irei mandá-lo. – disse o rei, assentindo com a cabeça gorducha e levantando a mão por alguns instantes, para informar que havia mais. – Não só ele.

Dan não entendeu. Ficou olhando para o rei, que voltou a andar de um lado para o outro, indo da cadeira até a janela, da janela até a cadeira.

– Como assim "Não só ele"?

– Tenho outra pessoa, outro alguém que irá com ele, o ajudará nessa busca difícil. – respondeu Alquies, com cuidado. Seus olhos fitaram o rosto de Dan novamente. – E essa pessoa, é você Dan.

– O que? Você quer que eu ajude o garoto a encontrar o Spellbook of Lost Souls? – perguntou Dan, surpreso. Um pouco de medo surgiu em seu rosto. Ele sabia tudo que teria que passar nos próximos dias.

– Isso mesmo. Vocês partem amanhã.

Notas finais
O que acharam?