Spellbook Of Lost Souls
6 Capítulo 6 - Invocações
Notas iniciais
Os três baixinhos continuavam a olhá-los. Estavam com sorrisos sádicos, maléficos, revelando os dentes amarelos e mal-escovados. Nas mãos, armas com um cabo grosso, no final redondo, onde havia várias partes pontiagudas, como espinhos negros.
– O que querem? – perguntou Dan, ofegante. Ele já segurava o seu machado, quase lhe arrancando de suas costas. Os homens riram novamente.
– Que acha?
Dois movimentaram-se. Uma manobra de ataque rápida e certeira. Duas pancadas que fizeram a perna de Dan começar a sangrar. Haru arregalou os olhos e moveu seu braço para frente. A lâmina encostou-se ao peito do terceiro homem. Haru abaixou-se e lhe aplicou uma rasteira.
Os dois atacantes baixaram a guarda e Dan conseguiu dominá-los com a força dos braços musculosos. Cada um agarrou um atacante até ficaram todos sem saída.
– Quais são as suas ordens? – perguntou Dan, baixando os olhos com cuidado para observar o machucado. Apenas uma marca de sangue na calça surrada, não havia sido muito profundo.
– Vá à merda. – xingou o que parecia ser o líder. Cabelos negros até os pés, presos num rabo de cavalo. Os outros eram ruivos e pareciam gêmeos. O líder havia sido pego por Haru.
– Vai ser pior parta vocês. – ameaçou Jasm, estendendo uma fina adaga na mão direita e apontando para a região intima dos pequenos homens. Um dos gêmeos apavorou-se. – Escolham de que maneira iram nos falar.
– Ei, sua vida, vem aqui dar uma lambida!
O líder sacou uma pequena pedra ao seu lado. Grande o suficiente para bloquear a pancada que Haru lhe desferiu. O mesmo recuou, enquanto os gêmeos ainda estavam nos braços de Dan e Jasm.
– Quer a morte desses dois? – perguntou Dan, ríspido. – eu sei torturar muito bem antes de matar, amigo. Iram sofrer.
– São descartáveis.
– Descartáveis? – perguntou o gêmeo mais apavorado. A raiva dominou este sentimento, assim como todo seu minúsculo corpo. Os músculos ficaram tensos.
– Exatamente. Vocês dois não tinham importância para nada, nem para mim e muito menos para o Lorde Thár. Eu sou a estrela aqui que ninguém quer jogar fora. – bradou, inchando o peito. Clava em mãos, pronta para ser usada.
– Por que se acha tão imponente assim com seu mestre, idiota?
– Apenas por que eu herdo uma das genéticas mais importantes. É uma genética poderosa e rara. Experimentem um pouco dela. Avances Iuhof! – disse o anão e em menos de cinco segundos, o chão começou a tremer.
Todos recuaram, receosos do que poderia vir na seqüência. O que Haru, Dan, Jasm e os gêmeos viram foi, no mínimo, assustador: de fendas na terra, começaram a surgir corpos trêmulos, com partes feitas com carne podre, outras com ossos saltados para fora. Olhos caídos das órbitas. Morto-vivos.
Jasm abafou um grito horripilante. Dan lançou o gêmeo para trás e a moça o agarrou com o outro braço. O guerreiro ergueu seu machado e fitou Haru, como se o chamasse para a batalha. O jovem correspondeu o pedido e ficaram lado a lado, observando o que seriam adversários muito fortes. O líder acompanhava os acontecimentos atrás de suas invocações, desenhando um sorriso amarelo pela face enrugada.
– Sofram.
Eram três mortos-vivos. Três criaturas horripilantes que quase rastejavam ao encontro dos guerreiros. Haru segurou firme o cabo de sua espada cintilante. Estava pronto para qualquer ataque, para qualquer coisa que tivesse que fazer, mesmo que em milésimos de segundo. De repente, não mais que de repente, foi tomado por uma adrenalina incrível: começou.
Os mortos-vivos atacaram com força. Eram muito velozes, apesar das aparências. Usavam as mãos apodrecidas que pareciam duas clavas prontas para matar.
– Vamos! – exclamou Dan, atirando seu corpo para o lado. Haru imitou o gesto e golpeou a perna completamente bamba de um dos mortos-vivos. Ele caiu, sem controle, porém, ao chocar-se contra o solo marcado por diversos buracos, girou seu corpo no chão e agarrou a cabeça frágil de Haru. Começou a apertá-la com tanta força, que o jovem acabou largando a arma.
Dan só percebeu o ocorrido segundos depois, quando se defendeu de um golpe forte, que endereçava sua cabeça. Viu o companheiro no chão, urrando de dor e quando pensou em ajudá-lo, assustou-se com algo: um vulto, rasgou a cabeça do atacante e pegou os braços de Haru. Era Jasm. Dan deu dois passos para trás e girou nos calcanhares, cuidadoso. Os dois anões estavam mortos.
– Tem algum ferimento? – indagou o guerreiro, fitavam os dois mortos-vivos à sua frente. Pareciam analisá-lo. Pareciam estar planejando o próximo movimento.
– Não, estou bem. – disse o jovem, passando a mão sobre os vergões que o ataque lhe provocara.
– Permaneça deitado. – ordenou a mulher, erguendo o arco que carregava nas costas e já preparando para três disparos em seqüência. – Dan, – chamou, – o melhor jeito é decapitá-los. Para isso, tente o atingir abaixo do coração. Provoca-lhes uma dor terrível. Com guarda baixa...
– ...aniquilamos eles. – completou o guerreiro, – sempre pensei que havia outro modo de...
Foi surpreendido novamente por um ataque. Os dois zumbis haviam arrancado o fêmur do companheiro caído, que estava próximo deles e agora vinham para a luta. Tentavam acertar a cabeça de Dan com o ataque, mas o guerreiro esquivou. O contra-ataque foi tentar acerta-lo abaixo do coração. Sem sucesso algum.
O homem flexionou os joelhos, lhe dando impulso. Tivera uma idéia.
Conseguiu postar-se atrás dos zumbis. Rapidamente agarrou um. Jasm entendeu o que queria e mirou com o seu arco. Três disparos certeiros onde ela indicara. O morto-vivo urrou de dor, dando a oportunidade perfeita para o machado de Dan decapita-lo. Restava um apenas.
Ao tentar retornar à sua posição original, Dan foi atingido violentamente no peito. O baque fez com que ele perdesse o equilíbrio, caindo no chão duro. O riozinho corria mais agitado ao lado.
– Merda! – xingou Jasm, erguendo e mirando novamente. Errou o disparo.
A criatura postou-se em cima do adversário, batendo em seu rosto com o fêmur. A proteção utilizando os braços de Dan era ridícula. Estava em mais lençóis e seria difícil a moça ajudá-lo. Jasm desistiu das tentativas falhas de disparar com o arco. Sacou a adaga e correu.
Haru assistia a tudo, apavorado. Aquela criatura havia lhe feito algo, pois ele tinha dificuldades imensas para respirar. Tentava agarrar a terra e rastejar até o rio, tentar beber água, levantar-se, porém nada disso tinha força para fazer. Elevou as mãos trêmulas à garganta. Sentia as marcas daqueles dedos imundos, que o tinham machucado. O que havia feito? Por que estava com esta imensa dificuldade para respirar?
O anão estava de pé. A face já se encontrava pálida. Seus guerreiros tinham sido derrotados. Necessitava de um plano B, de algo que pudesse derrotá-los. O medo lhe tomou conta. Não sabia mais o que fazer até a idéia de irromper a mente.
Dan estava quase desmaiando. Não entrava mais ar. Estava roxo. Foi quando sentiu seu corpo ser roubado. Algo o amarrou em seu interior. Algo escuro. Ele foi jogado em um canto e sentiu algo tomar o controle. Kyo.
Uma força tremenda correu por cada músculo, por cada milímetro de seu corpo. Agarrou os braços da criatura e lançou-a ao ar. Jasm parou. Evantou a cabeça para olhar o morto-vivo voando em sua direção. Tratou de lançar a adaga ao chão e levantar o arco, que não havia deixado sua mão esquerda. Duas flechas estavam postadas para a tentativa. Mirou. Era um segundo. Uma tentiva que teria. Porém, foi interrompida.
Dan lançou-se ao ar, como um pássaro em liberdade. Voou na direção da presa e decepou-o. Sangue jorrou, a cabeça, de carne podre e ossos, deslizou pelo ar e chocou-se contra o solo. Dan pousou, espumando. A raiva lhe corrompera.
– Cacete, – berrou o anão, indignado. Olhos vermelhos e saltados das órbitas minúsculas, – Cacete! Vocês vão pagar, filhos da mãe! Aetuoh!
A ordem fez todos tremerem. Mais uma invocação do mago-anão? Isso não acabaria bem. Dan agarrou firme o machado. Jasm recuou alguns passos, para checar a situação do companheiro caído. Haru já conseguia respirar. Levantou-se, porém voltou a deitar-se no chão. Suas pernas doíam como se estivessem sendo Arrancadas com a força de um braço.
– Fique longe. A coisa pode ficar feia. – aconselhou a moça de cabelos azuis, tornando-a a encarar o anão. Novamente fendas abriam-se no solo. A terra ia movendo-se com velocidade. Um buraco gigantesco foi aberto com facilidade. Dele uma enorme criatura saiu, imponente.
Pinças gigantescas saíram do solo, seguidas por um corpo divido em diversos segmentos. Patas batiam na terra, fazendo um som desagradável. De repente, uma cauda saltou do chão, sendo a última parte da criatura. Ela tinha um ferrão amedrontador.
– Um escorpião?
Jasm e Dan estavam com os olhos saltados. Dan havia recuperado-s. Com seguia controlar muito bem seu Kyo.
– Mate-os, meu filho. – disse o anão, com um sorriso discreto, estendendo a mão sobre seu corpo e apontando para os dois. O animal olhou para o anão e pareceu assentir. Logo depois girou o corpo e deparou com seus adversários.
– Merda... a coisa vai ficar feia. Haru, saia daqui! – berrou Dan, recuando alguns passos. O animal foi os seguindo, calmamente e então, deu o bote.
As pinças passaram a milímetros dos guerreiros. Bateram contra o chão, mas não descansaram. Ambas moveram-se em um ataque fortíssimo, que atingiu Jasm. A moça caiu, rolando pela terra e sentindo a água gélida do rio atingir seu corpo. As pinças voltaram, com o objetivo de segura-la. Obtiveram êxito.
– Jasm!
Dan levantou-se com dificuldade, levantou o machado acima da cabeça e desferiu um golpe poderoso, porém, o escorpião era rápido demais. Demais. Ergueu a mulher com a pinça e recuou na hora exata. A sua cauda começou a tremer perigosamente.
“Ele vai matá-la a qualquer instante!” pensou Dan. Precisava de um plano. Porém, em milésimos de segundos, não conseguia analisar alguma idéia. Não conseguia tê-la, na verdade. Sua reação foi partir para o ataque, tentar entreter o bicho com a sua força. Precisava impedir a cauda de mover-se contra a companheira.
Deu vários passos para frente. Usou o machado para um ataque rápido, parado pela pinça livre do escorpião. O mesmo apertou ainda mais Jasm.
– Ai! – gemeu ela.
Dan correu na direção do animal novamente. Desferiu três pancadas fortes com a arma que utilizava, no entanto, o escorpião evadiu todas elas. Sua velocidade superava os limites. Dan já começava a dar a batalha como encerrada. Viu então a cauda mover-se um pouco. Iria matá-la. Teve que saltar veloz, pousando no dorso do escorpião.
O animal iniciou uma série de movimentos circulares, tentando derrubar o atacante. Teve inclusive que parar a movimentação da cauda, com medo de causar um ferimento a si próprio.
– Agora você me paga, filho da mãe!
O machado deslizou, cortando o ar com extrema velocidade. Os segundos pareciam séculos. O machado viajava pelos ares. Seu objetivo? Abrir a cabeça do escorpião.
A milímetros do alvo, algo de errado. Dan foi chicoteado pela cauda, que o atirou para baixo. Ele bateu a cabeça no dorso do animal e escorregou, chocando-se contra o solo duro. Viu então a cauda vindo em sua direção. Sem escapatória. A morte seria muito rápida.
Não tinha mais esperanças. Reconhecia que estes seriam seus minutos finais. A cauda movimentava-se muito rapidamente.
Dan apenas pensava em todo o seu passado. Apenas lembrava-se das coisas que gostaria de esquecer. Do pai que havia lhe abandonado, da mãe violenta, que o espaçou quase até a morte aos cinco anos, da terrível batalha que tivera dez anos antes... porém, sua mente vagava pelos momentos bons também. Lembrava-se do seu grande amor, Murehy, uma moça loira, de olhos celestes que namorara alguns anos antes, lembrava-se dos seus amigos. De tudo que havia feito com eles. De todas as conquistas que tivera.
Lágrimas irrompiam seus olhos. O tempo parecia ter parado. A mente dele continuava a vagar.
“ – Você quer casar comigo? – perguntou Dan, com um joelho sobre o piso. Na mão, um lindo anel verde, que lembrava várias cobras deslizantes.
– É sério? – perguntou a moça, os olhos tremeluzindo. Dan confirmou. – Mas é claro! – aceitou na hora, abraçando seu homem.”
A cauda estava mais e mais próxima. Dan já tinha até fechado os olhos, para não ver o quão próxima a arma letal ficaria dele.
“Dan corria. Ofegava. Uma leve garoa caía sobre a sua cabeça. Junto com a água da chuva, misturavam-se lágrimas. Uma dor profunda se abatera sobre o corpo do guerreiro. Dobrou duas ruas e encontrou um pequeno monte de gente. Estavam em um círculo, observando algo. O coração saltou de sua garganta.
Correu mais ainda. Abriu espaço entre a multidão e viu, estatelada no chão, Murehy. Os olhos celestes vidrados, vários cortes, inclusive no pescoço. Caiu no chão, inconsolável, tremendo enquanto urrava.”
A morte de Meruhy quase acabara com ele. Uma depressão profunda quase arrancou sua vida! Mas ele se recuperou. Começou a subir de escalão no exército da vila até tornar-se comandante do Esquadrão C, dizimado pela tropa de minotauros. O que estaria acontecendo em Haru? A guerra já estava acontecendo no meio da cidade? Não sabia dizer.
– Fim da linha... – murmurou.
– Não!
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