Spellbook Of Lost Souls
5 Capítulo 5 - Kyo
Notas iniciais
– Como assim? Você teve uma espécie de... premonição? – indagou Dan preocupado e assustado. Jasm corria de um lado para o outro, arrumando as camas, as malas, tudo. Apagando inclusive a fogueira.
– Não sei, é como se eu estivesse lá, escutando a conversa deles. – disse Haru, com as mãos na cabeça. Estava com uma dor na testa como se uma faca estivesse lhe perfurando os neurônios. Ele levantou-se, olhou de um lado para o outro. Procurava o homem.
– Droga... – disse Dan, virando as costas para o garoto e pegando o machado que estava ao seu lado da cama. A arma reluziu e foi posta na bainha, localizada atrás de Dan. Ele começou a ajudar Jasm, que estava quase terminando.
"Adeus..."
Haru continuava a se lembrar de toda a cena. O pequenino lhes entregando e sendo morto por aquele homem... ele media, no mínimo, dois metros e meio e parecia ter uma velocidade inexplicável. Onde estaria agora? Já estava vindo, a procura deles? Já estava os observando de longe, esperando para atacar?
O jovem corria-se por dentro com as perguntas. Como a ajudá-lo também, organizando a mochila e guardando a água coletada em Hanglt. A espada batia contra o seu corpo, avisando que estava pronta paras ser utilizada. Parecia estar chamando o seu nome, parecia estar observando-o...
Haru começou a pensar naquele instante em que enfrentara o centauro. Aquela coisa estranha que lhe acontecera. O que fora aquilo? Sua mente vagava pelas imensas possibilidades, cada uma mais insana do que a anterior.
– Vamos.
A palavra de Dan ecoou nos ouvidos do garoto e eles iniciaram a caminhada.
– É o seguinte. – disse o líder, – vamos dar um pique até aquelas arvores, para escaparmos desse campo aberto. Vamos indo o máximo que der pro lá, sempre cuidando o tal homem. Jasm, você observa nossas costas. Haru, sempre dos lados e eu na frente. Boa sorte.
Os três saíram correndo, o máximo que conseguiam. Haru ofegante, quase parou no início, mas a sua sobrevivência estava em jogo. Apesar de cansado, sabia que a situação necessitava um esforço imenso, um esforço que naquele momento, seu corpo adquiria.
Os três avistaram uma árvore a três metros e correram até ela. Havia mais um emaranhado de troncos e folhas verde-escuras, situadas nos galhos grossos e encurvados da árvore. Ambos caminharam furtivamente e se esconderam atrás do tronco.
–Vêem alguém?
A voz de Dan ecoou no silêncio da noite. Todos ficaram observando o antigo acampamento. Haru via o Sol começando a nascer, os raios iniciando um processo de iluminação no sofrido planeta Terra. Jasm deu um passo para a esquerda, buscando uma visão mais ampla. Não havia um movimento sequer, apenas alguns pássaros e esquilos, os primeiro, dando rasantes pelo pequeno campo que dividia a espécie de bosque da cidade de Hanglt.
Eles voltaram a caminhar, sem nenhuma palavra dita. Os corpos erguendo-se sobre os campos cobertos por uma grama molhada, graças ao sereno. A terra úmida grudava nos calçados dos três, que tinham dificuldades para se locomover certos instantes.
– Acho que... não conseguirá nos pegar mais. – disse Dan, aliviado. Os três ficaram em um círculo e logo depois olharam para trás. As árvores tinham tapado a visão. Não enxergavam mais nada, a não ser troncos. Apenas um pequeno pedaço do muro, longínquo.
– Não temos mais visão. – comentou Jasm, ofegante, enquanto chegava o arco e as flechas que carregava junto ao corpo. O cabelo azul ondulava pelos seus ombros e os peitos saltavam para fora do sutiã quase.
Eles viraram para frente. Observaram ainda algumas árvores e uma breve descida. A caminhada foi retomada, o Sol já inundando a paisagem.
– Será que retornou? – indagou Haru de repente, – será que retornou para sua cidade, quando não nos achou?
As palavras saíram desesperadas de sua boca. Os olhos fitavam Jasm e Dan, que não responderam por alguns segundos. Deviam estar pensando, pensando numa resposta para dar. Haru abaixou a cabeça e fitou a grama, que em certos momentos, desaparecia, para dar lugar à vários grãos de terra pequeninos, que pareciam formiguinhas minúsculas.
– Provavelmente. – opinou Dan, avistando o final do bosque.
– E agora?
– Bem... vamos caminhar e ao entardecer armamos um acampamento. – disse ele, gesticulando com a mão. Os olhos voltaram-se para cima e observou uma pequena faixa de água, correndo entre pedras gigantes. Só podia ser um rio. Um sorriso foi esboçado em sua face e os cabelos começaram a balançar com um leve vento no bosque.
Jasm também viu e quase saiu correndo. Haru foi o último.
– Água! – exclamou feliz.
Todos assentiram, maravilhados.
– Ela pode ser boa para beber. – disse Dan, alargando os passos. Eles foram descendo em degraus de pedra até chegarem à margem do rio, cercada por grandes pedras. Subiram numa delas e enfiaram as faces na água que estava escorrendo. Haru saciou sua sede demoradamente enquanto os outros já foram preparando o acampamento.
– Pensei que íamos caminhar mais. – disse Haru, surpreso.
Havia uma espaço perfeito, entre a água e as pedras, para se colocar as barracas.
– Não, acho melhor ficarmos aqui. – disse decidido o líder, com os cabelos castanhos desgrenhados, face cansada. – Ninguém conseguirá nos enxergar. – terminou, decido.
Haru foi até a margem novamente, com dois galões vazios para encher. Ele ficava observando os peixes nadando tranqüilos, vivendo as suas vidas ali, o tempo inteiro flutuando e nadando com destreza. Inveja-os naquele momento.
Dan foi até uma árvore do bosque para pegar lenha enquanto Jasm tentava pescar os peixinhos para comê-los à noite. Ele usava uma pequena rede de um lado, para enganá-los. A rede estava presa com dois pedaços de pedra pequeninos e ficava na esquerda, enquanto ela segurava outra na direita, assim, os peixes fugiam da esquerda e acabavam presos na dela.
Eles notaram que já três da tarde quando conseguiram fazer os peixes. Dan pegou lenha para pelo menos três dias. O fogo crepitava, da mesma maneira que na noite anterior. Sentados em volta do fogo, pensavam no que tinham se metido.
– Dan. – chamou Haru, com o olhar vidrados em três peixes, debatendo-se na panela, tentando escapar de um destino irreparável. – O que aconteceu comigo ontem? O que foi aquilo? Eu estava possuí...
– Não. – apressou-se a dizer Dan, incomodado com a insinuação.
Ele levantou-se e observou por cima de uma pedra muito larga. O bosque estava completamente silencioso.
– Então o que foi?
Haru estava desesperado de respostas. Estava cansado de ficar o dia todo raciocinando sobre acontecimentos anteriores. Estava farto. Ele lançou uma olhar sério para o homem de pé, que voltou a sentar-se, esticando as pernas próximos as chamas.
– Bem... aquilo não foi exatamente uma possessão. – disse Dan, suspirando. – Isso se chama Kyo.
– Kyo? – perguntou o garoto. Essa palavra parece absurdamente familiar. Já vira ou ouvira em algum lugar, mas a sua memória não conseguia recordar onde ou por quem.
Dan pegou um graveto e foi até uma parte de areia, bem na margem. Começou a fazer vários riscos, formando desenhos e explicações.
– Sabe, o Kyo é uma espécie de poder, um poder que evolui suas capacidades físicas numa situação de extremo perigo, raiva ou adrenalina. Essa energia é como se fosse um monstro, que fica desacordado no corpo, mas pode acordar e destruir tudo a qualquer instante. – disse Dan, mostrando um dos desenhos, que simbolizava um animal abrindo o peito de um homem com suas garras e botando a cabeça para fora.
– Todas as pessoas têm esse tal de Kyo?
– Na verdade não, – disse com clareza, – a maioria ao tem, mas alguns são abençoados por esse poder. Seu irmão, por exemplo, foi um deles. Quando ele explodia, transformava metade de seu corpo em um tigre, pois seu ataque era mortal e veloz. – disse Dan, recordando os bons e velhos tempos. – Ele ficou algum tempo treinando para controlar este poder e no final, conseguiu. Conseguia transformar-se na hora que quisesse e usar a energia quando bem entendesse.
Haru observava, sorrindo.
– Sabe, vocês adquiriam o Kyo no momento em que estavam no útero de sua mãe, mas você nunca tinha demonstrado situações de real perigo ou raiva, por isso nunca despertara o poder.
– Mas, eu já tive momentos de adrenalina. – comentou Haru, confuso. Como nunca tinha despertado se já tinha tido momentos para isto? Nem Dan sabia. Ele caminhou, pensativo de um lado para o outro.
– Então... provavelmente... – tentava formular uma frase, enquanto caminhava, – bem, não sei, mas tenho uma idéia. Quem sabe a adrenalina só sirva quando seja experimentada com os outros dois desencadeadores. – disse.
– Entendo... – analisou Haru, sentado na grama, enquanto observa ao homem voltando a se sentar no chão. – Então, como meu irmão se transformava num tigre...
–...você também se transformará. – completou Dan, com um sorriso breve estampado na face rígida. Ele prendeu os cabelos, ficando com uma parte parecendo uma "flecha", apontada para trás.
– Vocês possuem um Kyo? – Haru estava bastante curioso. Os olhos fitavam Jasm e Dan, respectivamente, a cada dois segundos alternando.
– Na verdade, eu posso me transformar em um urso, mas nunca consegui tal façanha. Male mal tenho energia para aumentar minhas habilidades. – disse ele, seriamente, – porém, só e manifestam quando preciso realmente para uma forma digna. Como se regulassem o quão certo é o que estou fazendo. – explicou passando a mão pelo queixo e sentindo alguns fios de barba nascendo. Ambos fitaram Jasm, que estava com os olhos fechados, respirando fundo.
– Eu não.
As palavras saíram tristes, infelizes de seus lábios carnudos. Os olhos ergueram-se até os amigos.
– Mas qual é o problema? Você é a pessoa mais inteligente que já conheci e uma médica espetacular! – ele mostrava alguns curativos que só havia percebido minutos antes. Devia ter sido feito logo após a batalha com o centauro. Dan também tinha e sorriu para Jasm.
– Eu sei! – gritou ela, apressada, quando lágrimas irrompiam de seus olhos grandes e esbranquiçados. – Mas, fui criada num ambiente em que, quem não possuía Kyo era lixo. – as bochechas dela pareciam estar completamente queimadas. A cor vermelha as tomava com violência.
– Como assim?
– Minha família. Praticamente todos possuem Kyo exceto eu e meu irmão menor. Sempre fomos tratados como inferiores. Meus pais nos odiavam, mas nunca disseram uma palavra. Apesar disso, – ela precisou de uma pausa para respirar melhor e conter as lágrimas, – sempre houve diferença no modo de tratar, sabem, apanhávamos por qualquer coisa, sempre éramos culpados. – disse ela, sem conseguir mais pronunciar mais nada.
Os homens ficaram quietos, observando a grama. Não queriam fazer esforço para mudar o lugar em que olhavam então permaneceram imóveis.
– Quando nos mudamos para Haru, tudo ficou pior. Meu pai começou a voltar bêbado e nos bater por lhe darmos "oi". Eu tive que morar com a minha tia e nunca mais vi meus pais. – terminou ela, como se tivesse retirado uma pedra de duas toneladas do peito. Nunca tinha contado a ninguém sobre aquilo e essa história lhe incomodava há anos e anos.
Jasm foi deitar-se, enquanto os outros ficaram sentados, conversando mais um tempo. Haru tirava suas dúvidas de tudo. Eles ficaram mais de uma hora e meia ali, vezes pegando uns peixinhos, vezes bebendo água... mas tudo mudou.
Ouviram um barulho de galhos se quebrando. Os dois tiveram o impulso de se atirarem no chão. As faces se encararam. Havia vozes, atrás das pedras. E não estavam longes.
– Bosta, e agora?
– Vou espirar.
Dan rastejou pelo chão, tentando fazer o menor barulho possível. Os olhos ergueram-se de leve e ele apoiou as mãos no chão. Ele foi devagar, tentando subir até o final da pedra gigantesca. Após alguns segundos, conseguia ver algo ao longe.
Uma pessoa alta, berrava com três homens gordos, munidos de clavas redondas, com espinhos. As barbas iam, no mínino, até os pés e os olhos eram tão pequenos, que pareciam pontinhos luminosos. Todos estavam de cabeças baixas, enquanto levavam um chingão.
– Desculpe, senhor. – disse um, o do meio, enquanto ajoelhava em frente ao alto. Os outros o imitaram. O alto tinha poucos cabelos, um nariz do tamanho de uma vela grande e uma pele cortada a cada dois centímetros. Suas cicatrizes localizavam-se, inclusive, atrás das orelhas pontudas e com carne caída.
– O que farei com vocês agora? – perguntou o alto, caminhando para a direita e esquerda, pensativo. Ele fitou os três parados a sua frente, todos suplicando pelas suas vidas.
– Senhor...
– Cala a boca.
A voz saiu ríspida e furiosa. Fuzilou os ouvidos de todos, que agora choramingavam, quase deitados sobre os pés de seu senhor. O alto apenas olhava para eles como vermes.
– Vocês podem se redimir. Tragam-me o garoto e terão a glória eterna.
Todos assentiram e rapidamente saíram correndo. Dan teve que saltar para o chão novamente. Eles começaram a ouvir os passos cada vez mais próximos e tiveram que ficar grudados na pedra, encolhidos.
– Sente algo?
– Não, e você?
– Também não.
Os passos foram ficando distantes, mas logo retornaram. Agora o outro estava e bateu a clava contra a pedra em que Dan e Haru estavam encolhidos. Ela era alta e por muito difícil de vê-los.
– Que acha de bebermos água?
Haru congelou. Olhou para o lado e Dan rezava baixinho, de olhos fechados, enquanto já pegava na espada. Os três homens ficaram pensativos.
– Não, precisamos achar logo o garoto, depois bebemos água.
Ambos largaram o ar do pulmão com tranqüilidade, alívio. Só ficaram se perguntando como os homens não viram a barraca...
Ao olhar para o lado, Jasm encontrava-se encostada na pedra. Eles quase saltaram para frente, assustados, mas a moça pôs as mãos delicadas em suas bocas, calando-os instantaneamente.
Quando não se ouvia mais passos, se levantaram.
– Como...? – a voz de Haru saiu meio esganiçada.
– Eu estava acordada, quando ouvi vozes e você ali fora, comecei a arrumar as coisas. Vocês estavam com a atenção muito ocupada. – disse ela, orgulhosa, – nem me perceberam.
Eles sorriram.
– E agora?
– Bem, vamos continuar com o acampamento aqui. – disse Dan, dando uma espiada por cima da pedra e não vendo mais ninguém. – Espere...
Ouviram-se três pancadas fortes na pedra e homens baixos saltaram sobre elas, caindo na grama e na areia da margem do rio. Eram eles. Os mesmo de antes. Rugiam e sorriam, enquanto Haru, Dan e Jasm erguiam suas armas.
– Enganamos vocês, huh? – provocou um, – você são burros mesmo. Agora, garoto, prepare-se, pois o seu destino será cruel e doloroso, com Lorde Thár.
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