Spellbook Of Lost Souls
4 Capítulo 4 - Centauro e Sonhos
O centauro olhava-os sorridente. Ele ergueu um dos braços, o que segurava o arco. Com o outro, puxou uma flecha dourada, vinda de um pequeno saco lotado em suas costas. As orelhas pontudas estremeceram e os olhos vermelhos fitaram um por um.
– Qualquer que seja o movimento e estão mortos – anunciou ele, pondo a flecha dourado encaixada com o arco. – Ora, ora. Vejo que o poderoso Dan está aqui... por que?
Dan não respondeu. Apenas encarava a criatura na porta. O Sol já não comandava o céu. Estava agora um clima nublado, com fortes ventos. Vez ou outra, as nuvens dissipavam-se, mas estavam aumentando bastante em número.
– Responda, bastardo! – ordenou o centauro, batendo as pernas dianteiras no assoalho, que balançou. Haru estava estático, não conseguia nem piscar. Jasm olhava para o chão, pronta para pegar seu arco a qualquer momento. Mas tinha que esperar...
– O que te importa?
– O que te importa. – zombou, – Você se lembra do meu irmão? Lembra bem dele?
Dan fitou o chão. Os olhos lacrimejaram brevemente, mas ele segurou as lágrimas.
– Eu me lembro bem dele. Poderia estar com ele agora. – disse o centauro, raivoso, – mas não posso, não é?
– Que foi, quer me pegar?
Dan desafiou a criatura, que se surpreendeu com a ousadia. O guerreiro ficou fitando-o, com ódio por longos segundos. Haru sabia que a qualquer momento, um confronto seria inevitável. Os dois se fuzilavam com os olhos.
– Sabe o que eu vou fazer? – indagou o centauro, trêmulo de raiva, mirando o arco na cabeça de Dan.
De repente, Jasm agarrou a arma presa em suas costas com uma mão. A criatura tentou virar o arco para ela, porém ela já estava armada. No momento em que a flecha dourado deslizou pelo ar numa alta velocidade, todos se abaixaram.
– Morra! – berrou Jasm, lançando uma flecha com o seu arco repleto de curvas nas pontas. O golpe desferido acertou a perna direita da criatura, que cambaleou para trás, desaparecendo de vista.
– Rápido, subam as escadas e pulem pela janela. Ela é virada para os fundos. Eu cuido dele. – explicou Dan, empurrando as costas dos parceiros e indicando a escada. Haru subiu correndo três por vez, enquanto Jasm estava em sua cola.
Dan ficou esperando o centauro aparecer na porta, com o machado gigantesco em mãos. Porém isso não aconteceu: um barulho ensurdecedor indicou que o centauro havia quebrado a parede de trás da residência. Dan não teve tempo de se virar. O inimigo veio galopeando e atingiu duas pancadas firmes no peito do guerreiro. Ele caiu deslizando, enquanto percebia novos movimentos do adversário.
– Eu vou vingar o meu irmão, filho da puta! – gritou a criatura, saltando e tentando atingir o rosto de Dan, que ergueu o machado e se protegeu. As patas pressionaram e ele quase não resistiu. Mas com bastante esforçou, rolou seu corpo para o lado, fazendo o centauro pisar no machado e arrancar-lhe de suas mãos.
– Droga... – sussurrou Dan, desarmado.
No instante em que virou a cabeça para o centauro, viu uma flecha dourada atingi-lo como um raio na barriga. Dan sentiu o sangue escorrendo em seu abdômen e gritou: aquilo havia doído demais.
O centauro guardou o arco em suas costas, junto da sacola de flechas. Pegou o machado que estava abaixo de suas patas e girou sobre os dedos. Era formidável. Ele riu.
– Então, vou me vingar com a arma que matou meu irmão. Ora, ora. – gargalhou, segurando a arma com uma mão e aproximando-se.
Ele estava cada vez mais perto, apenas alguns centímetros... Dan ouviu o ar sendo divido em dois pela força da arma. Sentiu a centímetros de seu corpo indefeso e teve uma idéia quase na velocidade da luz.
Seus braços moveram-se até o abdômen e ele retirou a flecha urrando de dor. Tinha três pontas, que rasgaram mais ainda sua pele na saída. Mas ele não podia perder tempo sentido dor. Colocou a flecha entre seu pescoço e o machado, com o objetivo de ganhar tempo. Claro que a flecha não seguraria a arma, mas lhe daria uma oportunidade.
No momento do choque, Dan atirou seu corpo para trás, encostando-se à parede. A flecha agüentou o necessário para ele escapar da morte, depois quebrou. O centauro ainda se recuperava do ataque mal sucedido quando viu a perna direita de Dan acertar-lhe a sua, que havia levado a flechada de Jasm. A criatura sucumbiu diante de seu peso, pois não conseguia mais se apoiar em tal perna. Dan tentou desferir um soco na cabeça, mas levou uma pancada no peito, caindo novamente no chão.
Haru e Jasm adentraram a porta, tentando pegar a criatura por trás. Não iriam deixar Dan ali, sozinho. Óbvio que não. Haru desembainhou a espada e ergueu sobre sua cabeça, fazendo-a descer com destreza e velocidade. A criatura então virou o rosto para a espada que vinha em sua direção. Os olhos vermelhos agora estavam brancos e brilhavam quase que cegando quem os olhasse.
Mesmo assim, Haru continuou com o movimento. A espada ia avançando rapidamente a cada segundo e ao ouvir o barulho da pancada, comemorou. Estava tudo terminado. Porém, algo se ergueu sobre a sua estatura baixa.
O centauro segurava a espada com as duas mãos, os olhos ainda brancos e a boca aberta, com os dentes à mostra.
– Ta querendo morrer, pirralho? – perguntou, irritado.
– Cala a boca! – gritou Jasm levantando o arco e mirando a cabeça do outro. A flecha foi disparada como um tiro, mas um erro de cálculo fez com que tomasse uma direção completamente errada.
As mãos do centauro agarraram a garganta do garoto e momentos depois ele estava sendo arremessado no ar, batendo contra a escada e caindo ao lado dela. Os olhos fecharam e ele quase não conseguiu suportar a dor nas costas. Tentou levantar-se, mas a pancada havia dizimado a força dos membros inferiores.
Ele apenas ouviu o barulho de uma voz feminina gritando e uma pancada seca. Ouviu também berrando e se levantando para tentar enfrentar a criatura.
– Bosta... –sussurrou, preocupado, enquanto dobrava a perna para tentar se levantar. A sua espada caiu das mãos do centauro e começou a deslizar pelo chão. Haru conseguiu vê-la com o canto do olho. Estava próxima. Pelos sons, parecia que Dan combatia a criatura e estava bem na situação.
Ele rastejou até a arma sem que ninguém percebesse. Agarrou-a com a mão direita e se apoiou num móvel tombado para erguer-se de pé. Ele olhou então que Dan estava apanhando. O centauro havia um prendido no chão e agora o espancava com as mãos fortes, pisoteando-o também com as patas grossas e musculosas. Haru viu Jasm caída, com sangue escorrendo de sua boca. Ele sentiu algo queimar por dentro de seu corpo. Uma raiva se apoderara de sua mente, mas ela foi se dissipando, à medida que o jovem sentia-a migrar para o seu corpo. A energia foi tomando-o por completo. Sentiu sua mente se esvaziar e seus olhos se fecharem. Mas ele continuava a agir, sem controle do próprio corpo. Seu pescoço ficou mais grosso e ele engordou.
No instante seguinte, estava correndo para ajudar Dan. Era como se ele tivesse preso no próprio corpo, que agora, outra pessoa, outra coisa comandava. Ele assistia tudo, mas não conseguia impedir nada.
A espada que segurava na mão direita foi movendo-se com velocidade para frente e atingiu o peito da criatura, que urrou, saltando contra o inimigo. Mas Haru havia ganhado mais agilidade também e conseguiu enquadrar o corpo para a direita, escapando das patas mortais.
– Mas... o que...? – estranhou o centauro, virando-se de costas e tentando dar um coice com as patas traseiras. Haru se abaixou e cortou as pernas da frente. Ele caiu, batendo de cara no solo duro. Sentiu o sangue irromper de suas pernas cortadas e berrou de dor. Não conseguiu mover um músculo mais. O corpo parecia estar paralisado, enquanto via o líquido vermelho formar uma poça no chão.
Haru caiu de quatro, cuspindo sangue pela boca. A espada também caiu no chão. Dan e Jasm, apesar de machucados, cuidavam as reações seguintes do garoto, que apenas caiu no chão, as pálpebras deslizando para baixo e fechando seus olhos. Havia recuperado o controle, entretanto, não conseguiu reunir forças para se manter acordado.
***
Haru acordou. Estava deitado num saco de dormir marrom, olhando para a Lua. Ele ficou intrigado. Não sabia onde estava e o que acontecera com ele. Foi se lembrando então daquela situação estranha, daquela sensação de estar preso no seu corpo, observando alguém controlá-lo. Ele sentiu os cabelos negros sendo levemente tocados pela brisa da noite clara. Ele observou agora as estrelas cintilantes, desprovidas de rara beleza.
– Ele realmente é igual ao irmão. – explicou Dan, para Jasm, que estavam sentados em uma fogueira, preparando um pedaço de carne para comer. Haru ficou quieto, apenas ouvindo o que falariam a seu respeito. Fechou os olhos e fingiu estar dormindo.
Dan descansou o machado ao seu lado e continuou.
– Aquilo... aquilo foi impressionante. – disse, com clareza, enquanto Haru ouvia o fogo crepitar. – Uma vez, fui a uma batalha, junto do Mark.
Haru ouviu o nome do irmão e apurou os ouvidos, chegando um pouco mais perto dos dois, para ouvir o que diriam em seguida.
– E ele ficou fora de si, exatamente como Haru hoje. Ele saiu correndo quase na velocidade da luze matou, no mínino, vinte inimigos em cinco segundos. – disse Dan, que sempre mantinha o tom impressionado em relação as habilidades de qualquer um, – Mark tinha controle sobre aquilo. Ele podia parar quando quisesse, mas Haru... Haru hoje não conseguiu isso. Só parou por que estava exausto.
Jasm escutava sempre assentindo. Os cabelos azuis estavam sujos e poeira e ela tinha pequenos machucados.
– Sim...
– Obrigado por curar meus machucados e os do garoto. – agradeceu Dan, suspirando.
– Esse é o meu trabalho! – exclamou ela, feliz por ter ajudado. Pegou o arco e começou a passar um pequeno pano branco sobre ele, deixando-o mais brilhante do que nunca.
– Boa-noite. – cumprimentou Haru, levantando-se, enfim. – Onde estamos?
– Estamos próximos ao povoado. – explicou, indicando os muros logo atrás deles. Haru ficou pegou a espada que estava ao seu lado. Encontrava-se suja de sangue. Ele pegou algo em sua mochila e pingou três gotas. Depois, esfregou com um pedaço de pano.
– Por que o centauro nos atacou?
A pergunta de Haru saiu veloz de sua boca e Dan ficou pensativo. Também estava em dúvida sobre isso. Ele pôs a mão no queixo e massageou-o, enquanto pensava. Os olhos brilhavam à luz da lua e das estrelas. O rosto estava tão sujo quanto Jasm.
– Boa pergunta – disse, sabiamente, – provavelmente, tal criatura nos atacou por pertencer ao exército de Thár. Essa é a única explicação plausível. – expressou sua opinião, observando a imensa faixa de terra às suas costas, de onde vieram pelo dia.
– Mas... os centauros nunca participaram do exército de Thár. – indagou Jasm.
– Pelo que sei, Thár está avançando...
– Avançando? – Haru não conseguiu deixá-lo terminar sua fala, a pergunta saiu subitamente de sua boca.
– Sim, avançando. Está ganhando territórios. Os centauros sempre estavam próximos do reino dele... quem sabe... – ele não precisou terminar a frase. Todos ficaram em silêncio, observando os céus ou os muros da cidade abandonada. Os olhos já cansados.
Haru pegou um pedaço de carne e devorou-o em menos de dez segundos. Em seguida, entrou no saco de dormir e caiu no sono. Mesmo depois de ter ficado tanto tempo desacordado, continuava exausto.
"Haru caminhava, em silêncio por uma rua deserta. Não sabia onde estava e por que estava ali. Apenas observava as casas sujas, destruídas, com sangue e madeiras misturados no chão. Pessoas encontravam-se jogadas nas calçadas, sem pernas, sem braços, sem mãos... estavam mutiladas, gemendo de dor, enrolando-se em si próprias e mordendo a língua com a maior força possível. Elas estavam encapuzadas e os cabelos caíam pelas suas faces. O nariz era normalmente grande, como de um adulto e certas vezes, nem tinha nariz. Estava um buraco na face, ensangüentado.
Haru deu um salto para trás e viu em sua frente alguém. Alguém caminhando do mesmo modo que ele. Alguém com um casaco vermelho e um ponto de interrogação do lugar da face. Ele sabia quem era: Lorde Thár. Sua reação foi sacar a espada, mas ela não estava junta dele. Desarmado, tentou encará-lo o maior feroz possível, mas sentiu uma dor percorrer de sua cabeça até os dedos do pé. Uma dor que fazia sua pele saltar, seus olhos revirarem e seu estômago explodir. Ele acabou caindo de joelhos sobre o chão empoeirado, com sangue. Observou o desconhecido se aproximando e desferindo um chute bem em seu queixo.
Haru voou, quase que instantaneamente. Ele girou várias vezes no ar e bateu de cabeça no chão. Ouviu um estralo imenso em seu pescoço e caiu de barriga para cima. Ele havia quebrado o pescoço. Porém, não estava morrendo. Apenas sentia uma dor horrenda, nada mais. Não deixava de viver. Estava agonizando.
– Você é fraco. – disse o Lorde Novák, aproximando-se de sua face. – Você é extremamente fraco.
As palavras ecoaram pela cabeça á mil de Haru. A dor continuava, sem conseguir estancá-la, nem se matar. Tentou bater-se com uma pedra na cabeça, mas nada. Apenas a dor. Ele cuspiu um pouco de sangue e viu novamente o Lorde se distanciar de seu corpo.
– Veja.
Ele indicou a mãe e o irmão de Haru, que estavam aos seus pés, implorando pelas suas vidas. Haru tentou levantar-se, entretanto, não conseguiu. Algo lhe puxou de volta para o chão, como uma cola.
– Cadê seu pai? Cadê seu maldito pai? Deve estar transando com aquela vadia!
As palavras invadiram os ouvidos indefesos do garoto. Ele soltou um berro de ódio e começou a se soltar do chão grudento. Sua pele foi sendo arrancada das costas e a dor tornou-se cada vez maior. Foi andando com dificuldades, até o Lorde e tentou desferir um soco na sua cabeça, mal-sucedido. Novák pigarreou, desapontado. Pensava que Haru era mais forte, mais veloz do que isso.
Sem deixá-lo fazer mais nada, estendeu a mão direita, a palma virada para os olhos obscuros do garoto, que agora voltavam ao normal. Novák deu alguns passos a frente e, apenas com a força de sua mente, Haru começou a girar, de cabeça para baixo, depois para os lados e vice-versa. O jovem sentiu várias vezes o vômito chegando a sua garganta, mas tentava reprimi-lo. O cérebro parecia estar batendo em suas orelhas, indo de um lado para outro. Ele não agüentava mais, quando sentiu outro baque. Novamente caiu de cabeça no chão e a mesma se abriu em duas partes. O sangue jorrou para fora, manchando tudo ao redor.
– Sua vila está destruída e você, logo estará morto.
Logo depois da frase, Haru sentiu algo lhe puxar dentro do peito. Seu corpo se comprimiu e ele viu toda a cena se transformar num borrão vermelho e preto. No instante seguinte, caiu em uma campo cheio de grama, atrás de uma árvore. Não estava mais com cor, nem mesmo com machucados. Pôs a mão na cabeça: estava inteira.
Ele ergueu os olhos com dificuldade e ficou espiando alguém. Era um homem alto, que caminhava pela grama, indo de encontro há um baixinho. O mesmo estava vestindo roupas largas e um chapéu azul-anil. Os olhos eram mudos e o rosto forrado com uma barba grisalha.
– Hum, hum. Tenho notícias, senhor. – disse ao homem alto, que ergueu as sobrancelhas, – Sr. Travh.
O mesmo assentiu, esperando o que o baixinho iria lhe contar.
– Eu estava com o centauro Bill em Hanglt, verificando se não havia ninguém lá. – disse calmamente, enquanto não tentava encarar o gigante. – E, como o senhor disse, eles estavam lá.
– Ah, é? – disse Travh, orgulhoso de si mesmo. Havia previsto. – Eu lhe disse. Disse-lhe que iriam ir para Hanglt primeiro. – falou, caminhando para um lado e depois para o outro. Ele teve um pressentimento ruim. – Você está sozinho. Cadê o centauro? Cadê eles?
A voz do homem mudou completamente. O baixinho tentou explicar, mas não saiu voz de sua boca. Ficou apenas fitando a grama, como quem pedia desculpas. Finalmente, depois de longos instantes, conseguiu pronunciar algo.
– O centauro... está morto. Eles fugiram. Tive que... me... esconder.
O homem ficou sem expressão alguma no rosto.
– Onde estão agora?
A pergunta ecoou pelo campo e novamente o baixinho demorou para lhe responder.
– Os vi próximos a Hanglt, quando estavam montando uma fogueira. Devem passar à noite lá. Com a sua velocidade, senhor, pode capturá-los. – disse o baixinho, piscando o olho direito.
– O Lorde ficará feliz com a sua contribuição. Mas, você já me foi útil, não tem por que mantê-lo conosco.
– O que?
O baixinho não acreditou e tentou dar passos para trás, com o objetivo de fugir. Mas ele sabia que não tinha chance. Acabou tropeçando e caindo de costas no chão. Seu rosto ficou pálido.
– Adeus...
As palavras ecoaram novamente pelo campo. O baixinho engatinhando para tentar fugir e o alto indo atrás, caminhando com tranqüilidade, um gigantesco espinho na mão direita.
O baixinho não teve escapatória: o espinho atravessou sua cabeça, parando no olho esquerdo. O sangue jorrou de seu machucado logo após o espinho, que era muito grosso, ser retirado da cabeça do baixinho. Haru viu ele batendo a cabeça contra o chão a última vez e quando percebeu, a imagem estava novamente mudando. Sentiu algo fazê-lo girar e bater contra uma árvore, logo depois desaparecendo na escuridão do lugar."
Acordou ofegante, gritando. O homem viria pegá-los!
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