Antes de tudo, acho que é justo informar que eu não sou esse tipo de garota que rudemente invade casamentos e pede para o noivo fugir com ela na hora do “fale agora ou cale-se para sempre”. Esse não é o tipo de coisa que me imaginei fazendo, nem em sonhos. É uma atitude um tanto quanto rude e desrespeitosa, na minha opinião, mas nos últimos meses isso é tudo que eu consigo pensar, porque James Potter também é o tipo de cara que devia estar casando com a mulher errada.

Eu juro que estou absolutamente envergonhada e constrangida de estar aqui no casamento, ainda mais entrando de penetra (apesar de Marlene ter dito que sua adorável futura esposa me desconvidou sem que James soubesse) mas essa é literalmente a última chance de recuperar o amor da minha vida, porém admito que estava constrangedor a forma como eu estava me escondendo atrás das cortinas tentando me disfarçar.

−Lily? O que você está fazendo aqui? – imediatamente eu congelei e me xinguei. É claro que alguém me reconheceria; eu havia tentado me disfarçar usando roupas de festa mas mesmo assim. Virei-me lentamente para olhar o dono da conhecida voz.

−Hey Remus, só estava passando casualmente, jurava que hoje era dia de missa, achei estranho ter um casamento acontecendo, ainda mais do James e da Emmeline, como as coincidências são loucas, não acha? –eu praticamente vomitei as palavras nele, terminando com um sorriso e me encostando de maneira casual na parede. –Adorei as cortinas, detalhe muito legal para ter na igreja, só estava medindo pra ver se tinha o tamanho certo para as janelas lá de casa, você acha que tem?

O rosto dele se dividia em divertimento e pena.

−Lily, você nem é religiosa é hoje é sábado as 15 da tarde. Por que estaria acontecendo uma missa? –por alguns segundos eu tentei pensar em uma resposta sensata, mas desisti e ele viu a ansiedade em meu rosto. – Você está aqui por ele? Porque eu tenho certeza que ele adoraria te ver.

Meu coração nesse instante se apertou dolorosamente e parecia ter decidido para de bater para depois voltar rapidamente. Eu sentia fisicamente a falta dele, doía em cada centímetro de meu corpo.

−Você sabe que eu não posso, Remus. Eu fiz minhas escolhas e ele as dele, as coisas acabaram como estão agora e não tem como mudar. E você não precisa mentir para mim falando que ele quer me ver. –eu tentei sorrir mas estava consciente que esse deveria ser um sorriso triste pela cara que Lupin fez.

−Você realmente não tem noção de nada, não é? –ele suspirou tirando uma mecha de meu cabelo que caia em meu rosto. Além da saudade de James, eu também sentia falta de Remus e Sirius, que foram partes tão importantes da minha vida até tudo começar a dar errado há alguns meses. –Ele sente sua falta, Lily, e eu também. Mas dá pra ver que ele trocaria tudo para você nesse altar, não ela.

Eu senti que meus olhos começaram a encher de lágrimas e lutando contra o choro falei baixo:

−Então por que ele está casando com ela?

A careta de Remus dizia tudo. Eu sabia o motivo, eu sabia que de certa forma era minha culpa (apesar de todos negarem), e apesar de eu passar meus dias e noites sonhando em parar esse casamento eu sabia que eu nunca teria coragem de fazer isso e teria que viver com as consequências das minhas péssimas escolhas.

−Você decide seu futuro, só depende de você fazer o que quer e parar com essa idiotice –ele me repreendeu mas terminou sorrindo para suavizar tudo e possivelmente evitar que a cachoeira em meus olhos começasse. –Você está linda, mas se o seu objetivo era passar despercebida é impossível, sua beleza chama atenção e bem... Seu cabelo. Você deve ser a única ruiva daqui, cuidado.

Então foi embora me deixando para lutar contra as lágrimas e pensar na minha estupidez por não ter pensado que o cabelo chamaria atenção e nesse momento xinguei todos meus ancestrais por esse maldito gene recessivo.

A igreja ainda estava vazia e mesmo se eu me sentasse ao fundo ainda seria muito visível, então decidi contornar a igreja e ver o local onde seria a festa de casamento. Rapidamente eu estava passando pelo lado de fora do quarto onde a noiva se arrumava e a escutei gritando:

−MARLENE NÃO ME INTERESSA SE JAMES GOSTA DE LÍRIOS, MEU BUQUÊ NÃO VAI TER LÍRIOS, TIRA ESSA DROGA AGORA DAQUI.

O tom de Emmeline era estridente e eu me perguntava se havia algum ser vivo em um raio de 500km que não tivesse ouvido o seu ataque de nervos. Marlene devia estar se controlando profundamente para não enfiar os lírios na garganta de Emmeline e asfixiar até a morte. Ela não queria ser madrinha, mas James e Sirius imploraram profundamente para ela ser uma das madrinhas. Era para eu ser uma também, Marlene havia contado que tinha ouvido James e Sirius discutindo isso. Mas seria torturante demais para nós dois.

Então como um trem uma parte do grito de Emmeline me atingiu: James queria lírios no casamento. Desde que nos conhecemos ele me chamava de “meu lírio” e em todo aniversário meu me presenteava com um vaso de lírios (nunca buquês, porque ele dizia que buquês são belos enquanto estão vivos e depois morrem sem nunca retornar, só com vasos a beleza das flores sempre iria voltar) e apesar de eu odiar isso no começo, agora eu sentia falta e esse fato me emocionou. Não era de se admirar os gritos da futura esposa dele, lírios eram quase como me ter no casamento, coisa que ela não queria.

Um pouco tonta me afastei e continuei seguindo o contorno da igreja para chegar no local da festa quando eu escuto pela janela uma voz que no segundo que chegou a minha mente arrepiou todo meu corpo e eu não tinha mais o controle de mim mesma.

­−Eu não tenho certeza... –a voz de James falou suavemente como sempre ficava quando ele estava pensativo ou calmo. Perguntei-me qual dos dois ele estava agora. –Ah Remus, você demorou, tudo certo na igreja?

Imediatamente gelei. Será que ele falaria que eu estava aqui?

−Tudo certo, nada fora do esperado. – sua voz estava neutra, mas ao mesmo tempo parecia esconder algo. –Eu estava pensando enquanto estava lá e tenho que te perguntar... E Lily, James? Como as coisas ficam?

Mesmo do lado de fora eu senti o clima ficar tenso, quase conseguia ver os largos ombros de James tencionando como os vira fazer milhares de vezes.

−Lily... – sua voz pareceu quebrar um segundo fazendo meu coração acelerar. – Eu não sei como as coisas ficam com ela e não consigo pensar nisso agora. Sirius, me passa a gravata verde ali.

Ouvi o suspiro alto de Sirius em seguida sua grossa voz dizendo:

−Você foge do assunto Evans como diabo da cruz. Era para isso ter sido discutido há meses mas vocês dois estão sendo idiotas e agora você está indo casar com Emmeline Vance.

−Chega desse assunto. Eu sei que vocês odeiam Emmeline mas ela não é tão ruim assim. –James falou entredentes, aparentemente irritado.

−Esse é o ponto, James! Você diz que ela “não é tão ruim”, você tem consciência de que ela é ruim, você sabe que não a ama de verdade então por que você tá fazendo essa merda com a sua vida? – Remus soou exasperado como eu nunca tinha ouvido antes, parecendo surpreender os outros dois meninos e definitivamente me surpreendendo.

Uma longa pausa até que a voz de James saiu quase tão baixa quanto um murmúrio e que eu só devo ter conseguido ouvir porque ele devia estar do lado da janela.

−Porque por anos eu corri atrás de Evans. Eu a amava mais do que como melhor amigo e ela parecia ignorar, porque era impossível que ela não soubesse. Então quando as coisas pareciam que finalmente iam dar certo entre nós, ela fez aquilo e eu me toquei que ela nunca seria realmente minha. Emmeline sempre esteve lá e pareceu uma opção segura na hora.

Parecia que meus pulmões tinham sido arrancados do meu peito e meu corpo colocado em chamas; as palavras de James queimavam e imediatamente me levaram ao passado.

Nos conhecemos na faculdade há quase 8 anos. Todos me falavam que James Potter, o capitão do time de futebol, era apaixonado por mim mas eu não acreditava. Para reforçar minha descrença ele veio falar comigo e não parecia ter segundas intenções; rapidamente nos tornamos melhores amigos e assim tem sido desde então. Era fácil conviver com James, ele nunca forçava nenhum limite, nunca parecia infeliz, ele era minha pessoa favorita em todo o universo, era impensável pensar que ficar perto de mim o machucava como descobri posteriormente.

Então há um ano atrás chegou a noite que mudou tudo. Marlene estava fazendo uma festa na casa dela e James se ofereceu para me buscar como sempre fazia mas ao invés de seu habitual bom humor e sorriso fácil, ele estava sério e pensativo o trajeto todo.

−Ei, não vai me falar o que tá acontecendo? Você me deixa tão preocupada quando fica assim. –eu falei já nervosa com seu silêncio interminável.

Ele me deu aquele sorriso torto dele que era meu preferido, mas este não chegou aos seus olhos, deixando-me mais aflita ainda.

−Só pensando em umas coisas. –o tom suave era tranquilizante para qualquer um que escutasse, mas eu conhecia James e sabia que nesse caso não era um bom sinal. –Você se preocupa demais comigo, Lily.

Eu suspirei e levei minha mão até sua bochecha, fazendo carinho em seu rosto enquanto ele parava em um sinaleiro. Ao invés dele ir de encontro à minha mão como sempre fazia ele se tencionou.

−Você é uma das coisas mais importantes da minha existência, James. Eu nunca vou parar de me preocupar com você.

Uma careta de dor passou pelo seu rosto e apesar dele ter sorrido em seguida, a imagem de sua expressão fixou-se em minha mente.

Chegamos na festa de Marlene e imediatamente James se separou de mim, deixando-me confusa. Normalmente ele teria me pegado no colo, feito mil piadas, obrigado cada ser humano naquela festa a rir de suas piadas ruins, mas naquele momento ele estava bebendo completamente absorto em seus pensamentos num canto.

Logo que localizei Sirius ao lado de Marlene e Remus fui correndo falar com eles.

−O que está acontecendo com James? Ele tá tão estranho.

Os olhares que Lupin e Black trocaram não fizeram nada bem para minha ansiedade, fazendo meu estomago dar uma cambalhota.

­−Ele só está repensando umas coisas. –Remus falou misteriosamente bebendo em seguida, provavelmente para ter uma desculpa para não falar mais nada.

−Vai falar com ele, Lily. Acho que é hora de você repensar também. –Sirius acrescentou e bebeu também para não ter mais que falar. Olhei exasperada para Marlene mas ela apenas deu de ombros, obviamente seguindo a deixa de seu namorado e Remus.

Frustrada e decidindo dar fim à esse funeral que estava o humor de James fui até ele e cutuquei seu ombro, obrigando-o a me olhar.

−Você pode levantar essa sua linda bunda dessa cadeira e vir comigo até o quarto da Lene? Precisamos conversar.

Ele apenas assentiu com a cabeça e me contentei que isso era a única coisa que eu ganharia dele, mas mesmo assim agarrei sua mão e o arrastei comigo até o quarto, empurrando-o para dentro e então me trancando com ele naquele pequeno espaço.

−Então... Eu trouxe minha linda bunda até aqui já, não vai falar nada? –ele questionou após um longo período de silêncio no qual ficamos apenas nos encarando.

−Eu estava esperando você, mas já que você aparentemente está mudo hoje, isso aqui vai ser um monólogo. –suspirei lentamente ficando em pé enquanto ele estava sentado na cama. – Eu não sei o que deu em você hoje ou ultimamente, mas você não tá normal. Você não fez nenhum comentário sobre como estou bonita, nenhuma piada idiota, meu ex namorado tá aqui nessa festa e você nem tentou ficar perto de mim para “me proteger”.

Tomei folêgo para falar e vi que ele ia abrir a boca para me responder, mas o interrompi:

−Meu monólogo, minhas regras. –sua boca fechou e por um segundo vi um brilho de diversão nos olhos dele. Ótimo, nem tudo estava perdido. –Eu odeio tanto te ver assim, sem sua alma animada, sem o brilho constante em seus olhos, sem meu sorriso torto e maroto preferido. O que aconteceu? Deixa eu te ajudar.

Inclinei minhas mãos e mexi em seu castanho cabelo que sempre parecia bagunçado e fiz carinho em seu rosto, a pele macia como sempre. Seus olhos castanhos esverdeados com os quais eu estava sempre tão acostumada fecharam e ele praticamente sussurrou:

−Emmeline voltou de New York e quer falar comigo.

−Ah. –sussurrei de volta. Emmeline era a ex namorada dele que eu mais odiava, sempre tentava dar um jeito de fazer eu e ele nos afastarmos. –E você quer voltar com ela?

Nesse momento ele abriu os olhos com um fogo por trás deles e levantou, saindo do meu carinho abruptamente. Senti-me nervosa e sentei onde ele antes estava, enquanto ele andava de um lado para o outro, ansioso.

−Não Lily, eu não quero, mas isso tudo me machuca muito e talvez esse fosse um jeito de parar com a tortura que eu tenho infligido contra mim mesmo há anos.

Eu estava confusa. Ele se sentia machucado? Pelo que?

−James, o que está acontecendo? O que te machuca?

Ele virou-se para mim, mil expressões passando pelo seu rosto que eu normalmente via tão tranquilo; raiva, dor, impaciência e por fim um olhar quase de escárnio.

−Você, Lily, você me machuca e eu acho impossível que você não saiba disso.

Meus olhos se arregalaram com a surpresa. Eu machucava James? Como? Fui questionar ele mas ele me interrompeu antes, parecendo desconcertado agora:

−Talvez você realmente não saiba... –ele murmurou e continuou mais alto – Desde o primeiro segundo que te vi eu me apaixonei por você, Evans, enquanto você passava com Alice e Lene por aquele maldito campus da faculdade e eu no campo jogando. Eu precisava te ter, tentei fazer a noticia que eu gostava de você chegar até você, mas você não acreditava. Então eu me aproximei, esperando que pelo menos você acreditasse que eu gostava de você. Eu acabei me apaixonando, amando você e parecia impossível que você não percebesse.

“Mas eu já estava te amando tanto que me contentei em ser apenas seu amigo, me contentei com os abraços e toques, com os eu te amo que você me dizia, mesmo sabendo que não esse o tipo de eu te amo que eu queria ouvir de você. Aguentei seus estúpidos namorados e você chorando por aqueles babacas, aguentei tudo em silêncio porque te amava. E eu tentei seguir em frente, namorei pessoas, namorei a Emmeline, mas sempre era você que atormentava cada sonho e cada segundo na minha mente.

Depois que você terminou com Amos Diggory e eu com a Vance, as coisas mudaram entre nós. Você estava cada vez mais próxima de mim, me enlouquecendo, falando coisas como “você é uma das pessoas que mais amo nessa vida e em outras, James” e me confundindo. Afinal, você me ama como eu te amo ou não? As últimas semanas tem sido um inferno porque cada momento desses com você era como estar no paraíso e no inferno ao mesmo tempo. Lily, cada dia doí mais essa incerteza e essa minha nova atitude é pra ver se você se afastava, se a dor diminui, mas você vem e fala coisas como aquilo no carro e me toca desse jeito e tudo doí cada vez mais. Eu só preciso saber.”

A dor em sua voz foi crescendo enquanto ele falava, matando-me internamente. Então James realmente me amava assim? Lene e Alice estavam certas? Ouvi-lo falar tudo aquilo, a dor em sua voz e que passava por seu rosto me machucou de uma forma quase física. Como eu pude deixar tudo isso passar por tantos anos?

Seu olhos com a dor me observavam atentamente e com expectativa. Meu corpo e mente pareciam entorpecidos. Ele estava certo, a toda hora eu falava de como eu o amava e não viveria minha vida sem ele. Será que esse tempo todo na realidade eu não me referia a um amor de amigos, e sim um amor romântico? Minha cabeça rodava e eu não tinha controle sobre mais nada.

Levantei-me ainda entorpecida e fui até ele, estendendo minhas mãos para tocar seu rosto. Ao invés da expressão de dor sumir como eu desejava, ela apenas se intensificou e meu coração se apertou. Tudo aquilo era minha culpa. Puxei-me para mais perto dele, uma mão ainda em seu rosto e a outra em seus cabelos que eu tanto amava. Com os olhos ainda fechados ele colocou suas mãos em minha cintura me puxando para mais perto ainda. Levantei meu rosto e nossas faces estavam a poucos centímetros de distância, roçando.

Ele passou delicadamente o nariz e a boca pela minha testa, e eu suspirei alto, sua respiração em cima de mim me fazia cocegas e suas mãos acariciando minhas costas arrepiavam minha pele. A expressão de dor se suavizou mas quando ele abriu seus olhos ainda estava presente toda aquela angústia.

−Por favor, não faça nada de que não tenha certeza. –ele sussurrou fazendo meu corpo todo se arrepiar.

E foi então que tudo me atingiu e eu só não podia fazer isso. Eu queria que a dor dele diminuísse mas eu sabia que se eu não tivesse certeza, isso apenas aumentaria toda a sua dor. Como se lesse minha mente ele colocou em seu rosto um sorriso amargo e afastou-se de mim como se de repente eu fosse tóxica.

−Foi o que eu imaginei. – E antes que eu pudesse reagir, James foi embora não só do quarto e da festa de Marlene, mas da minha vida, deixando-me sozinha e confusa.

Uma semana depois, sem qualquer sinal de James, veio a noticia: ele tinha não só voltado com Emmeline como também pedido ela em casamento.

Nesse dia Lene teve que praticamente invadir minha casa pela minha falta de sinal de vida e me encontrou no sofá chorando por ser tão estúpida e só agora ter percebido que eu amava James da maneira que ele me amava e o quanto era difícil viver sem ele. Mas ainda assim, eu tinha consciência que eu devia me afastar antes de causar mais dano do que já havia causado para ele.

Nesse um ano eu me fantasiei indo atrás dele, declarando que o amava, pedindo perdão e finalmente, com a proximidade do casamento, fazer como em todo filme de comédia romântica e impedir o casamento. Na noite anterior, enquanto chorava até dormir por pensar que no dia seguinte James estaria casado com aquela mulher horrível, eu tomei uma decisão: eu viria ao casamento e o veria uma última vez. Depois disso seguiria minha vida, tentando esquecer James Fleamont Potter.

Agora, do lado de fora da janela do quarto da igreja onde ele se arrumava para seu casamento eu ouvia ele dizendo que eu nunca seria dele. Oh James, você realmente não tem ideia de como cada célula de meu corpo é sua e te ama profundamente, mas eu te causei dor o suficiente para isso não ser mais o suficiente.

−Lily? O que você tá fazendo aqui? –a leve mão de Alice Longbottom tocou meu ombro enquanto esta sussurrava, provavelmente consciente de que ali do lado era o quarto de James. Virei-me para ela tentando limpar as lágrimas antes que ela visse, mas foi ineficiente. –Meu deus querida, vem aqui. –ela me puxou para seu abraço. Alice era pequena mas seu aperto era forte e conseguiu me dar alguma segurança.

Assim que senti que as lágrimas estavam sob controle me afastei dela. O cabelo curto e castanho dela estava bagunçado e acho que tinha um pouco de rímel meu no canto de seu vestido prateado; a expressão em seu rosto visivelmente buscava me tranquilizar.

−Não se preocupa, sua maquiagem não está borrada. –ela afirmou sorrindo para mim. –Vem sentar comigo e Frank, o casamento já vai começar. E imagino que seja melhor ter amigos por perto.

Ela me guiou calmamente até a porta da igreja novamente. Nos misturamos na multidão que entrava e por sorte ninguém parecia ter me visto. Frank estava já nos esperando num lugar relativamente a frente na igreja o que me deixou preocupada, mas eu vi que na nossa frente estava sentado um cara alto que impediria que me vissem.

−Hey Lily, não esperava te ver aqui. – os olhos azuis de Frank estavam cuidados avaliando-a, mas não pareciam surpresos de a ver aqui. Ele abriu espaço e eu me senteo entre ele e Alice, como uma criança perto dos pais. Eu não podia reclamar, nesse momento me sentia tão preparada emocionalmente quanto uma criança de 5 anos.

−Aqui, cobre seu cabelo se não quer ser reconhecida. Seu cabelo é incrível, mas mesmo assim, reconhecível demais. –Alice estendeu um lenço preto para mim que imediatamente coloquei sobre a cabeça. A gratidão que eu sentia por Alice e Frank era inexplicável e quase fez meus olhos encherem de lágrimas novamente, senão fosse a alta música que começou. A música que sinalizava a entrada do noivo.

Eu fiquei confusa, James sempre falou que iria entrar na igreja ao som da Marcha Imperial de Star Wars mas a música que tocava era uma tradicional qualquer.

−Vance proibiu ele de colocar a Marcha Imperial. –Frank disse como se lesse meus pensamentos. Eu sempre soube que ela parecia sentir prazer ao proibir o James de fazer as coisas que ele gostava (como ficar comigo, pensei amargamente) e eu sentia cada vez mais angústia pensando nele se comprometendo pelo resto da vida a aquela mulher.

Desejava profundamente virar e ver seu rosto pela primeira vez em um ano, mas eu sabia que não era uma boa decisão ficar numa visão tão direta dele então aguardei com meu coração sofrendo para dar cada batida enquanto não o via.

Finalmente ele entrou na minha linha de visão e mesmo de costas meu coração parecia prestes a explodir. O seu perfil alto, os ombros largos que eu tanto abraçava estavam cobertos pelo terno preto. Ele chegou ao altar e se virou e eu tive certeza que tinha morrido.

Ele era um anjo. A expressão séria, os olhos reflexivos escondidos atrás do óculos. Seu cabelo milagrosamente estava arrumado, mas logo sua mão passou pelos fios trazendo o caos tão costumeiro que eu fingia odiar mas amava profundamente. E contudo, ele não parecia meu James do sorriso fácil e tranquilo que parecia sempre pronto para tudo. A tensão era visível.

Meu corpo era o maior traidor que existia e assim que coloquei meus olhos nele meus olhos encheram-se de água e minha garganta soltou um som que parecia um lamento de morte um tanto alto demais. James imediatamente procurou com cuidado a origem do som não achando, mas parecia mais atento que antes.

Remus, que já estava no altar ao lado de James e Sirius, achou a origem do som imediatamente e olhou para, assim como Sirius que arregalou os olhos ao me ver escondida na multidão enquanto Remus parecia explicar rapidamente em seu ouvido a situação. Ele me encarou uns segundo então acenou com a cabeça para mim como quem dizia “eu sinto muito por você estar aí”. James parecia alheio a isto.

Gestos engraçados são trocados entre o segurança na entrada da igreja e o cara tocando o órgão e começa a marcha nupcial, que soava muito mais como uma marcha fúnebre. Meu estomago estava se revirando enquanto todos os convidados se levantavam e James se arrumava no altar.

Ela flutuava pelo corredor com seu enorme vestido bufante que parecia mais um doce. Seus longos cabelos castanhos estavam presos de maneira severo e ela sorria sem mostrar os dentes para todos os convidados, mal olhando para James, mesmo ele sendo o centro do universo. Bem, do meu universo na verdade, mas como ela era a futura esposa dele, eu supunha que o dela também. Apesar de a odiar, eu via que ela estava bonita; bonita como uma rainha de um concurso de beleza dos anos 90, mas ainda assim linda.

Olhar para ela me torturava, mas não era melhor que olhar para, no entanto meus olhos acabaram voltando para seu rosto. Havia algo de errado ali. Eu não desejava ter esperanças, mas uma voz traidora no fundo de minha mente sussurrava “ele queria que fosse você ali”.

Emmeline chegou ao altar e James estendeu sua mão para ela, dando um leve sorriso sem mostrar os dentes. Não era o meu sorriso torto preferido que ele sempre usou comigo, e meu coração pulou vitoriosamente em meu peito por um segundo ao notar isso.

O padre começou a falar mas eu simplesmente não conseguia ouvir o que ele dizia. Minha mente voava observando o rosto de James, que estava de frente para mim enquanto Emmeline estava de costas, tentando decifrar o que ele pensava, o que ele sentia. As mãos dele estavam nas dela e meu coração parecia querer parar de bater por ter consciência desse fato, mas não foi dessa vez.

Essa era minha última vez olhando o rosto de James Potter, eu precisava memorizar cada pequeno detalhe que fosse possível. Ele possuía uma pequena covinha na bochecha direita quando sorria, mas nenhum sinal dela hoje. Seu cabelo a esta altura apontava para todos os lados e eu amava isso; era quase um crime ele tentar arrumar aquele cabelo. O óculos ocasionalmente escorregava pelo longo nariz e ele tirava a mão de Emmeline para arrumar.

Mas seus olhos eram o que mais chamavam a atenção. O costumeiro castanho esverdeado tranquilo não estava cheio de dor como na última vez que o vira, mas não estava em seu estado habitual. Ele estava vazio, distraído, parecia a milhares de quilômetros de distância daquela pequena igreja.

Ver ele assim doía porque eu sentia a falta de sua aparência, de sua voz, mas principalmente, eu sentia do meu James, o sempre despreocupado e sorridente. Eu não queria deixar ele nessa dor o resto de sua vida, sem o brilho que seus olhos tinham. A última vez que o vi ele estava mergulhado na dor que eu havia causado a ele, e não consegui evitar de pensar que esse momento agora, esse casamento, os olhos vazios e distantes ainda eram minha culpa.

Eu não podia deixar James como ele estava, e apesar de haver a chance de eu estar errada e estar tudo absolutamente bem com ele, eu sabia com cada fibra de meu ser que tinha algo errado com ele e era minha culpa. Eu precisava corrigir isso. Eu não ligava de viver o resto da minha vida com a dor da perda dele, mas era meu consolo saber que ele estava feliz onde quer que estivesse longe de mim. Mas ele não parecia feliz como eu esperava que estivesse.

E por ação do universo, destino, tempo, o que quer que fosse, no momento que minha mente me fez concluir que eu não podia deixar James assim, o padre soltou a famosa sentença:

­−Caso alguém seja contra essa união, fale agora ou cale-se para sempre.

Silêncio. Ninguém na igreja ousava respirar. Os olhos de James estavam fixos em algum ponto no chão da igreja. Alice e Frank me encaravam, assim como Remus, Sirius e uma Marlene consciente da minha presença ali. Um século parecia ter se passado e o padre parecia pronto para seguir a cerimônia até que no maior impulso da minha vida eu arranquei o lenço de Alice da minha cabeça e me levantei.

Minhas mãos e pernas tremiam violentamente enquanto eu sentia todos os olhares da igreja voltando-se para mim. Os noivos demoraram algum tempo para se tocar do que estava acontecendo. Emmeline virou-se primeiro e me olhou com tanto ódio que qualquer outro dia eu teria me sentido intimidada, mas não hoje. Então James notou que algo estava acontecendo e seu olhar encontrou o meu.

Se meu coração antes batia violentamente contra meu peito, quando meus olhos verdes encontraram os castanhos de James, meu coração falhou algumas batidas. De repente todos os olhares horrorizados em minha direção não importavam mais, e sim só aquele homem que de alguma forma havia se tornado meu centro de gravidade.

A expressão dele estava chocada, seus olhos perplexos. Imediatamente ao ver-me ele largou as mãos de Emmeline e meu coração fez uma pequena dança vitoriosa com esse gesto. Poderiam ter se passado séculos enquanto eu olhava nos olhos dele, apesar da leve consciência que no máximo cinco segundos haviam se passado. Foram aqueles olhos sem brilho, que adquiriram uma faísca de esperança quando me viram, que me fizeram ter força para falar.

−Eu...Eu não sou o tipo de garota que gosta de interromper rudemente um casamento. –minha voz falhava no começo mas ganhou força. –Mas James... –minha boca se derretia em prazer por apenas falar o nome dele, e o som de seu nome pareceu o despertar mais ainda. –Você não é o tipo de homem que casa com a garota errada.

Tomei força e continuei enquanto os olhos dele me observavam atentamente:

−Aquela noite que você confessou o quanto me amava e o quanto eu te machucava nunca saiu da minha cabeça. Eu fui idiota e estava com medo de te machucar mais ainda, causar mais dano, eu pensava que não tinha certeza se te amava da mesma forma que você me amava. Mas eu estava sendo idiota e teimosa porque pensando bem, eu nunca te amei de qualquer outra maneira que não fosse aquela. Eu fui estúpida por não ter percebido antes, por ter percebido quando você já estava de volta para Vance.

Seus olhos mostraram a mesma dor que ele sentiu aquela noite e eu soube que não podia parar, eu precisava fazer aquilo ir embora.

−Então, com a estúpida ideia de que eu precisava me afastar para você não sentir mais aquela dor, que já bastava o dano que eu causara e que você se recuperaria melhor se esquecesse que eu existia, eu deixei você ir embora e nunca fui atrás. Cada dia longe de você doeu de todas as formas possíveis e eu esperava que fosse passar com o tempo, mas só piorava. E hoje, no segundo maior impulso da minha vida, eu vim até aqui com a desculpa de que te veria uma última vez e enfim poderia seguir em frente. Mas não foi nada disso.

Ainda com os olhos fixos nele eu percebi que de maneira inconsciente eu estava saindo do meu lugar e caminhando até o meio do corredor. Bem, se ele me rejeitasse, eu poderia sair mais facilmente para o meu isolamento eterno. Todos estavam mortificados, Emmeline parecia prestes a ter um aneurisma. Continuei a falar:

−A última vez que te vi havia dor em seus olhos. A mais profunda dor e aquela expressão esteve em meus pesadelos todos os dias. Eu esperava ver o meu James de antes, com meu sorriso torto preferido, com os olhos brilhantes, não esse James sem brilho no olhar como eu o deixei. Eu podia fingir não ver nada mas eu não posso te deixar assim sabendo que é minha culpa. – então, usando toda a coragem que eu tinha, incentivada pelo leve brilho que parecia haver em seu olhar, eu continuei. –James Potter, eu te amo. E não é como melhor amiga, mas eu te amo ardentemente com cada célula do meu corpo e alma, você é a pessoa mais importante e que eu mais amo em toda minha existência. É preferível ser queimada viva do que sentir toda essa dor que é te ver sem vida. Eu precisava que você soubesse isso. E eu tenho um pedido, que você pode ignorar e eu vou entender, eu mereço ser ignorada, mas mesmo assim preciso fazer.

Respirei fundo uma última vez e falei, quase desesperada por alguma reação além do choque e dor dele:

−Não diga sim, fuja agora. Eu posso te encontrar lá fora. Não espere, não diga um único voto sequer. Fuja comigo.

Eu havia acabado e todos sabiam disso porque os olhares fixaram-se em James. Ele me olhava fixamente, parecendo em choque e eu conclui que havia perdido essa guerra. Eu havia perdido James e precisaria viver o resto da minha vida como a garota que tentou parar um casamento no altar e foi rejeitada, e principalmente, precisaria viver o resto da minha vida sem o amor da minha existência. Da dor de perder ele eu não fugiria, mas suponho que da vergonha da enorme rejeição pública eu poderia fugir se me mudasse para o Alaska. Se ninguém tivesse gravado eu não poderia virar viral e ser humilhada onde quer que fosse. Se tivessem gravado eu me mudo para alguma tribo indígena isolada da internet.

Mas então algo aconteceu. Os olhos de James faiscaram com o brilho intensamente do jeito maroto que só ele conseguia e dos seus lábios antes vazios surgiu o meu sorriso torto preferido, com direito a covinha e tudo. O mundo pareceu girar enquanto ele olhava para Emmeline rapidamente e murmurou para um pedido de desculpas, então voltando-se para mim e vindo com aquele maravilhoso sorriso até mim.

Meu corpo antes travado no meio do corredor destravou, meu coração que parecia não bater enquanto eu aguardava a resposta começou um acelerado samba em meu peito enquanto eu corria em direção à James. Sentia que iria entrar em combustão se não estivesse em seus braços logo.

Ele corria em minha direção e logo seus braços estavam ao meu redor, levantando-me do chão e me apertando fortemente contra seu corpo. Com seus braços ao meu redor e os meus ao redor dele, sentindo seu cheiro amadeirado e seu sorriso contra meu pescoço, escutando sua leve risada no pé de meu ouvido, pela primeira vez em séculos senti que podia respirar.

Depois do que pareceu uma eternidade ele me colocou no chão e fixou uma de suas mãos em minha cintura e a outra estava acariciando meu rosto suavemente. Os olhos castanhos deles possuíam um brilho sem igual e se derretiam olhando nos meus, o sorriso ainda estava lá. Cada centímetro do meu ser arrepiava-se com seu toque enquanto eu envolvia minhas mãos em seu pescoço.

Seus olhos saíram dos meus e fixaram-se em minha boca. Pareceu ter passado uma eternidade quando ele juntou sua boca na minha, para o melhor beijo da história do universo. Seus lábios encaixavam-se perfeitamente nos meus e mexiam-se intensamente, deixando claro todo desejo, paixão e amor. A mão em minha costa puxava-me para mais perto e a em meu rosto entrelaçava-se em meus cabelos.

Esse beijo parecia ter durado uma eternidade por toda espera, paixão e amor envolvidos ali, mas ao mesmo tempo soava como se tivesse acabado cedo demais por todo o desejo.

Ainda com os olhos fechados ele terminou o beijo sorrindo em meus lábios, afastando-se lentamente como quem não acreditava que fosse real. Quando os seus olhos se abriram eram melhores que os olhos do meu antigo James. Não havia nenhum resquício de dor nesses, apenas felicidade e amor. Todo meu interior se aqueceu com aquilo e eu sentia que podia explodir. Meu coração estava absurdamente acelerado, mas eu não estava preocupada; se fosse morrer seria, literalmente, de tanto amor.

E por fim, com aquela voz que eu tanto havia sentido falta e que estava em cada sonho meu, ele disse:

−Vamos fugir agora. Eu estou tão feliz que você estava aqui quando falaram “fale agora”.

Ele entrelaçou seus dedos nos meus, e dando uma última olhada em nossos amigos felizes e numa Emmeline que agora eu tinha certeza que estava tendo um aneurisma, eu e James corremos para fora da Igreja finalmente em rumo à nossa verdadeira felicidade.

Notas finais
Meu deus, você chegou até aqui, muito obrigada!
Essa fanfic não saiu da minha cabeça até eu escrever e eu só tenho que agradecer pra Taylor Swift por ter as melhores músicas que sempre me inspiram.
Se você gostou, por favor, favorite, dê seu review!!! É muito importante saber o que as pessoas acharam.
Muito obrigada por ter lido e até uma próxima história
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!