Sozinhos no Escuro
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Observação importante: Meu livro já está em processo de publicação, por isso não posso postar todos os capítulos aqui, mas vocês poderão adquirir a obra em breve :3
Capítulo Dois
Pelo fato de andarmos sempre juntos, todo mundo pensava que nós éramos dois casais, felizes da vida. E sempre os casais formados eram os mesmos: Belle e eu, Zack e Jessica.Se fôssemos levar pelos comentários, a gente até que formaria dois belos casais: Eu, com olhos pretos e um cabelo liso de cor preto acinzentado, e sempre bagunçado, pois pentear o cabelo estava na lista de coisas que eu odiava fazer. Não muito magro, mas um pouco forte e com a musculação corporal definida, pelo fato de fazer academia; Belle, com seus longos cabelos castanho-escuros e lisos até o meio de suas costas, sua pele clara, e seus olhos negros como a noite; Zack, com seu cabelo preto espetado, olhos castanhos e com a musculatura de seu corpo definida, pois, assim como eu, fazia academia; e, por último, mas não menos importante, Jessica. Seu longo cabelo loiro com tons de dourado ajudava a realçar a beleza de seus olhos verdes-claros.Nós quatro morávamos no mesmo bairro, na mesma rua. Esse bairro era um pouco longe da escola. O.k., o bairro era muito longe da escola. Uns seis ou sete quilômetros de distância. Por isso, tínhamos de ir à escola de ônibus. Todos os dias.Porém, boa parte do bairro pegava o mesmo ônibus que a gente. Logo, o ônibus ia sempre cheio. Umas 65 pessoas, num ônibus que só tinha 45 assentos. E tinha um singelo problema: quando o ônibus passava perto de nossa casa, ele já estava super cheio. Logo, íamos em pé, esforçando-se para segurar nas barras de apoio, com um monte de gente trombando em nós, por trinta e cinco minutos. A situação era tão triste que, às vezes, de tão cheio que o ônibus estava uma ou outra pessoa ficava em pé, na escada. Se, por descuido, a porta abrisse, a pessoa cairia, com certeza.Nossos pais eram preguiçosos. Eles bem que poderiam nos levar para a escola de carro, mas não. Eles preferiam ficar dormindo até tarde. Eles preferiam que acordássemos mais cedo e fôssemos de ônibus. “Mais responsabilidade” eles diziam. Como se acordar cedo e ir para à escola já não fosse responsabilidade o suficiente.Nesse dia em questão, Zack passou em minha casa, como de costume. Ele já estava acompanhado por Belle e Jessica. Não houve nenhum bom dia, muito menos um oi. Todos estavam morrendo de sono. Houve apenas acenos. Até respeito o cansaço deles. O fim de semana já estava começando, coisa e tal. Mas isso era comum. Acordávamos assim todos os dias. Estudar de manhã era um saco.Zack estava usando, como sempre, seu moletom azul escuro, por cima de seu uniforme. Sempre com o zíper aberto, claro. Zack não usava mochila. Levava lápis e canetas em seu bolso, e levava seu caderno na mão. Isso quando levava material. Belle estava de calça jeans, e com um cabelo preso num curto rabo-de-cavalo. Poucas vezes eu a vi de cabelo preso. Talvez ela não gostasse de prendê-lo, ou algo parecido. Jessica estava apenas com um pequeno short jeans, e usando seu uniforme escolar. E, não menos importante, eu. Calça jeans preta e moletom preto com capuz, com minha mochila preta pendendo no ombro direito. Parecia mais que eu estava indo para um velório do que para a escola.Durante o trajeto até a escola, eu tinha tempo suficiente para eu relembrar quais aulas eu teria naquele dia, para saber se eu poderia dormir ou não, entre uma aula e outra. Era legal dormir em sala de aula. Segundo estudos, o caderno é o segundo melhor travesseiro do mundo.– Pesadelos? – perguntei a Belle, notando a tristeza presente em seu rosto.– Alguns – respondeu ela, com um sorriso forçado. Jessica passou o braço por cima do ombro da amiga e disse-lhe:– Se anima gata. Você tem a melhor amiga do mundo. Não há motivos para ficar triste.– Quanta humildade – disse Zack, ironicamente, enquanto subia os degraus da escada do ônibus e entregava seu passe para o motorista, que o cumprimentou com um simples bom dia. Mas, pelo tom em sua voz, não estava nada bom. Talvez hoje fosse seu dia de folga, e ele teve que cobrir um amigo que havia ficado doente na noite anterior.Não sei por que, mas o ônibus estava mais cheio do que o normal. Talvez, por causa do frio, algumas pessoas tenham optado por irem de ônibus. Calor humano é bom, às vezes. Mas só às vezes. Nessa ocasião em questão, ele era ótimo. O ruim é que estava excessivo demais. Com o tempo, o calor ali passaria de necessário para desnecessário.*O ônibus sempre parava dois quarteirões antes da escola. Dali, partíamos de a pé.Após o ônibus deixar a gente no ponto, começamos a andar. De uma forma inexplicável, a raiva que eu tinha da escola subiu à mente. Dez passos depois, eu parei no meio da calçada e disse:– Zack, eu não aguento mais a escola, cara!– Se acalme Jason – respondeu ele. – Ninguém gosta da escola, e hoje já é quinta-feira.– E daí que é quinta-feira?– Amanhã não vai ter aula, por causa da reunião dos professores. E você devia estar feliz por não ter levado suspensão do Sr. Duncan, por ter batido em Victor.Enquanto Zack e eu conversávamos, Jessica e Belle trocaram olhares, mas nada disseram.– Agora ouça atentamente os motivos que estão me fazendo odiar meu dia: — eu disse, elevando um pouco a voz, contando cada um dos motivos nos dedos de minha mão esquerda – A primeira aula será de química. Eu não gosto de química, cara. Nem um pouquinho mesmo. Na segunda e na terceira aula teremos um teste do Sr. Cougar. Você acha que eu vou saber fazer esse teste? Lógico que não! Fora o fato de que ainda vou ter que ver a cara feia e mal lavada de Victor Braga.
Zack me olhou estranhamente, mas ficou mudo. Vendo que ele não responderia, voltamos a caminhar. Naquela manhã, uma leve brisa batia nas folhas das árvores. Percebi que Belle estava com frio, quando ela cruzou os braços e seu corpo tremeu. Tirei meu moletom e ofereci para ela.– Obrigada, Jason – disse ela, pegando o moletom.Eu assenti. Não demorou muito tempo para que eu me virasse para Zack e voltasse a reclamar do meu dia. Mas, dessa vez, eu continuei caminhando enquanto falava.– Zack, eu quero muito fazer dezoito anos pra poder tirar minha carteira de habilitação logo. Andar de ônibus é chato!– Acalme-se, Jason – respondeu ele. — Seu aniversário de dezoito anos será em outubro. Faltam dois meses só.– Acalme-se o caramba! Eu odeio andar de ônibus e odeio ter que pagar pra andar nele.Belle colocou a mão em meu ombro. Paramos de andar. Ela olhou em meus olhos e perguntou:– Jason, por que você acorda tão mal-humorado?– Porque eu acordo – respondi.Logo quando nos aproximamos dos portões enferrujados da escola, vi que meu dia ir de mal a pior. Vi alguém encostado no muro da escola, ao lado do portão. Era Raul Linhares.Raul era um garoto mestiço, baixinho e moreno. E ele era tão inteligente quanto Gabriel. O problema dele é que ele não ia com a minha cara, e vice-versa. Não havia motivos para isso. Apenas não gostávamos um do outro.Quando passamos por ele, ele ficou me encarando, como se quisesse me matar. E, lá no fundo, eu sabia que vontade de fazer isso, não faltava. Sei que ele me mataria da forma mais dolorosa possível, se pudesse.O corredor já não estava tão cheio. Retirei meu celular do bolso, apertei o botão na lateral do aparelho e o display mostrou 07h07. A maioria das aulas já tinha começado, e isso explicava o corredor praticamente vazio. Zack e eu levamos Belle e Jessica para a sala delas. Quando virei às costas, Belle me chamou:– Jason, espere – disse ela. – Tome seu moletom.– Fique com ele – respondi. – Depois eu o pego.– Obrigada, Jason – disse, dando um sorriso envergonhado, enquanto amarrava o moletom em sua cintura, quase deixando sua bolsa cair, nessa ação. — Boa sorte na prova.– É, vou precisar mesmo.Zack e eu nos viramos e começamos a caminhar em direção à nossa sala. Mesmo já tendo tocado o sinal, a maioria dos alunos odiava respeitar os horários. Acho que ninguém gostava, na verdade, e só respeitava porque sabia que poderia ser punido, caso não respeitasse.Entramos em nossa sala. Zack e eu nos sentamos em nossos lugares. Eu sentava na fileira da parede, do lado esquerdo da sala, e Zack se sentava na carteira atrás de mim.Eu precisava descansar um pouco. Assim que D. Sônia, nossa professora de química adentrou à sala, abaixei minha cabeça e dormi. Pelo visto, durante toda a aula, pois só acordei quando tocou o sinal para a troca de aula.Acordei assustado, e cocei meus olhos, logo após um bocejo. Olhei para a mesa do professor. Sr. Duncan ainda não havia chegado à sala. Como se isso fosse mudar o fato de que eu já estava ferrado.Eu estava com a cabeça na carteira, tentando relaxar um pouco, quando Zack me cutucou e sussurrou:– Jason, você sabe que, se não tirar no mínimo nota oito nessa prova, você repete o ano.– É eu sei sim – respondi, após um longo suspiro. – Não precisa ficar me lembrando.– E o que vai fazer? Você não sabe nada da matéria.– Como eu disse, não precisa ficar me lembrando.Então, percebi que um garoto se aproximou de Zack e sussurrou algo em seu ouvido. Zack levantou-se e sentou-se na carteira de trás. O garoto afastou-se de Zack e se sentou na carteira em que Zack estava sentado. Logo após se sentar, ele me cutucou e sussurrou em meu ouvido:– Pronto para tirar dez na prova de matemática?Eu o reconheci. Era Gabriel.Virei-me para trás e respondi:– Gabriel, o que está fazendo aqui? Esse não é seu lugar.– Jason — respondeu ele –, você me ajudou. Só estou retribuindo o favor. Eu sei que, se você não passar na prova, você irá repetir o ano escolar. E, pelo o que te conheço, sei que você não está nem um pouco a fim de fazer isso. Ainda mais sendo a matéria do Cougar. Estou certo?– Sim, está sim.Sr. Cougar entrou na sala e se dirigiu até sua mesa, que ficava no centro da sala. Quando ele entrou, a sala inteira ficou em silêncio. Ele odiava nossa sala. Todos nós bagunçávamos durante suas aulas, e nos ferrávamos na horada prova. Se você colocasse todas as provas lado a lado, veria uma grande plantação de tomate.Enquanto ele terminava de organizar seu material, Gabriel me disse:– Disfarce com sua prova por quinze minutos, e deixe que eu faça o resto.Eu virei-me para frente, pois Sr. Cougar anunciou que iria entregar as provas. Antes de ele se levantar, Zack jogou um papelzinho em mim, para chamar minha atenção. Quando virei-me para trás, ele sussurrou:– Boa sorte, Jason.– Boa sorte para você também – respondi, ironicamente, sabendo que eu não precisaria de sorte para fazer a prova.Logo após Sr. Cougar entregar minha prova, eu escrevi meu nome no topo da folha, coloquei 19 onde estava “Número da Chamada:” e olhei em meu celular, para ver qual a data de hoje. Nunca fui bom com datas. Era dia 16 de agosto.Após fazer isso, fiquei fingindo que escrevia alguma coisa na prova, pra dar tempo de Gabriel fazer o que ele queria fazer para me ajudar, seja lá o que fosse isso.Já haviam se passado quinze minutos desde que eu começara a fingir que escrevia algo naquela folha. Aquilo estava começando a ficar chato.De repente, meu celular vibrou, dentro do bolso da calça. Era uma mensagem de texto enviada por um número que eu não reconhecia. Deslizei o dedo sobre a tela do celular, e a mensagem de texto apareceu. Estava escrito: Sou eu, Gabriel. Jogue sua folha no chão.Fiz o que Gabriel disse, mesmo não sabendo o que ele pretendia fazer. Disfarcei e joguei minha folha no chão. Por sorte, o sr. Cougar nem percebeu, pois estava do outro lado da sala, procurando por alunos que poderiam estar colando. Quando me abaixei para pegá-la, ele a pegou antes de mim, e me entregou sua prova. Então, sussurrou:– Jason, eu farei a prova para você.Eu não disse nada. Apenas assenti. Peguei a folha de Gabriel do chão e sentei-me em minha cadeira.Comecei a olhar os exercícios, para ver se eu conseguia compreender alguma coisa, quando vi Zack passar com sua prova em mãos, indo entrega-la para o Sr. Cougar. Assim que passou por mim, ele disse:– Veja e aprenda.Eu apenas sorri, até porque sabia que Zack não conseguiria acertar nenhum exercício da prova, a menos que Gabriel tivesse feito a prova para ele também, o que eu duvidava muito. Consegui compreender alguns dos exercícios da prova. Eles nem eram tão difíceis assim. Eu é que deveria ter me esforçado mais pra aprender a matéria.Enquanto eu tentava entender a resolução de um exercício sobre geometria analítica, chegou uma mensagem de texto em meu celular. Era de Gabriel: Acabei sua prova. Jogue minha folha no chão de novo.Cliquei na caixa de texto e digitei: “Nossa, quanta eficiência hehe”, antes de clicar no botão Enviar.Guardei meu celular no bolso da calça e joguei a folha de Gabriel no chão. Quando me abaixei, ele jogou minha folha no chão e abaixou-se também. Então, olhei para ele e sussurrei:– Estamos quites.Ele assentiu, sorrindo.Dessa vez, o sr. Cougar me viu abaixando. Mas só fez uma cara feia para mim. Se bem que, ele já era feio de nascença, mas ficava ainda mais feio quando tentava parecer bravo. Por sorte, ele pensou apenas que minha prova havia caído, pois pediu que eu mantivesse silêncio durante a avaliação.Dei uma olhada em meu teste. As resoluções dos exercícios eram iguais às resoluções da prova de Gabriel. E, não sei como, mas Gabriel conseguiu fazer minha prova com a caligrafia exatamente igual à minha.Antes de me levantar da carteira para entregar minha prova ao Sr. Cougar, eu dei umas palmadinhas de leve na folha, pra tirar a terra de quando ela tinha caído no chão.Levantei-me da carteira, fui até Sr. Cougar e deixei minha prova em cima de sua mesa. Ele apenas olhou em meus olhos, e depois voltou à atenção para a correção da prova de Julie, uma garota nem um pouco inteligente, que se sentava no fundo da sala e fazia parte da Turma da Bagunça: uma galera que só bagunçava e nunca fazia nenhuma atividade, e que, com certeza, reprovaria na matéria.Dei uma olhada rápida na pequena pilha de provas já corrigidas. A que estava por cima era a de Zack, e a nota dele era 8.5. Enquanto eu voltava para meu lugar, Gabriel se levantava para levar seu teste para o Sr. Cougar.
Após me sentar em meu lugar, olhei para Zack e sussurrei:– Eu vi sua prova. Você tirou oito e meio.Ele sorriu para mim e respondeu:– Não podia se esperar nota melhor que essa, vindo de mim.– Humildade passou longe da sua maternidade, no dia que você nasceu – respondi, com certa ironia.Ele apenas deu de ombros.Passaram-se uns 40 minutos, desde que eu tinha entregado meu teste, quando o sr. Cougar se levantou e falou que já havia corrigido todos.Ao entregar meu teste, Sr. Cougar me olhou com um olhar duvidoso e disse:– Parabéns pela nota dez, Sr. Phoenix.– Obrigado – respondi, sorrindo.Enquanto Sr. Cougar entregava o resto das provas, inclinei-me para o lado, para que Zack conseguisse me ver. Mostrei minha prova pra ele, apontei o dedo para o 10.0 marcado no canto superior esquerdo da folha e disse, com um sorriso irônico:– Quem tinha tirado a maior nota mesmo?– Ordinário! – disse ele, surpreso. — Como você conseguiu tirar dez? Você não sabia nem escrever seu nome!– Ah, acho que minhas orações foram ouvidas. Fui lendo os exercícios, e fui fazendo. E fale baixo, antes que nosso querido professor nos dê uma bronca – disse, vendo que alguns alunos voltaram sua atenção para nós dois, por alguns instantes.– Assim, sem mais, nem menos? – disse ele, abaixando seu tom de voz.– Exatamente.Zack só podia estar brincando. Será mesmo que ele não sabia que Gabriel havia me ajudado a colar na prova? Então, o que diabos Gabriel havia lhe dito?Não tive tempo para obter uma resposta, pois tocou o sinal para o intervalo. Saímos da sala e fomos nos encontrar com Belle e Jessica.*Era tarde da noite. Bem irônico isso. “Tarde da noite.” Uma da manhã, para ser mais exato. Meus pais e meu irmão caçula, Oliver, estavam dormindo. Eu estava deitado no sofá da sala, lendo A Marca de Atena. Quando cheguei ao capítulo dezoito, eram lá pelas uma e vinte três. Coloquei o marcador de páginas entre as duas páginas, fechei o livro e fui dormir.Na sexta-feira, passei o dia inteiro na internet, já que choveu e eu não podia sair de casa. Não que eu não tivesse lar, e vivesse na rua, mas esperava um dia mais emocionante, já que não tive aula. Fiquei assistindo seriados e fuçando um pouco no Photoshop. No sábado, após o almoço, li mais um pouco de A Marca de Atena e depois comecei a fazer outro desenho. Fiquei rabiscando a folha sulfite por algum tempo, até que um guerreiro musculoso e com um machado em sua mão começou a surgir. Eu gostava de desenhar. Era um hobbie. No passado, já pensei em ser arquiteto, quando eu crescesse. Com o tempo, percebi que desenhar seria apenas um hobbie.Eram mais ou menos nove da noite, quando Zack me ligou, avisando que ele e as meninas estavam descendo.Fui lá fora abrir o portão para eles, assim que ouvi Jessica me gritando. Eles trouxeram travesseiros, cobertores e escovas de dente. Com exceção de Belle, que também trouxe seu tigre de pelúcia, o Ted, e meu moletom, que eu havia emprestado para ela, dois dias atrás. Ainda bem que ela trouxe, pois eu só ia me lembrar dele segunda-feira de manhã, quando estivesse saindo para ir estudar e sentisse frio.– Boa noite, gente – disse minha mãe. Eu nem percebi que ela estava ali no portão, conosco.– Boa noite, tia – meus amigos responderam, que já tinham certa intimidade com meus pais, afinal, eles os conheciam desde que nasceram.– Sintam-se em casa, tá? – minha mãe disse, antes de virar-se e voltar para dentro de casa.Zack olhou para mim e disse, com um tom sarcástico:– Jason, ela disse para eu me sentir em casa. Quero ficar só de cueca. Posso?– Zack, eu quero te bater – respondi. — Posso?– Gente, chega de briguinhas, né? – disse Jessica. – Parecem dois garotinhos de 10 anos, que saco.– O.k., paramos – respondemos ao mesmo tempo, como se fizéssemosparte de um coral. – E então, o que faremos?– Bom, eu trouxe O Pesadelo 3 para assistirmos – disse Zack. – Vamos?Todos assentiram. Eu liguei o aparelho de DVD, coloquei o DVD dentro e eles começaram a assistir, enquanto eu fui buscar a pipoca que minha mãe estava fazendo.Começamos a assistir o filme, exceto Belle, que colocava o coitado do Ted em seu rosto e começava a gritar toda hora que aparecia uma cena mais forte.Todos nos sentamos no chão, prestando atenção ao filme. Os únicos sons eram os da televisão e os gritos de Belle, a cada cena. Assim que o filme acabou, vimos como Belle estava assustada.– Eu é que não assisto outro filme de terror – disse ela, tentando respirar normalmente.– Mas você nem assistiu – respondeu Jessica. – Passou praticamente o filme inteiro com esse urso na cara. Se não aguenta filme de terror, está no lugar errado, queridinha.Zack e eu apenas sorrimos. Levantei-me do chão e fui à geladeira pegar a garrafa de Coca-Cola e pegar mais pipoca, porque iríamos assistir outro filme. Dessa vez, Halloween – O Início.Assistimos ao filme. Zack e eu decidimos que era melhor parar com os filmes de terror, pois Belle já estava tremendo de medo. Pensei até que ela iria começar a chorar.Escovamos os dentes e fomos dormir. Meu irmão dormiu junto com meus pais. Belle dormiu em minha cama, e Jessica dormiu na cama de meu irmão. Zack e eu precisamos buscar colchões no quarto de hóspedes. Jogamos os colchões no chão do quarto, e nos jogamos em cima deles, como se fossem ímãs e nos atraíssem. Não sei quanto a meus amigos, mas eu estava muito cansado.Por ironia, Zack, Jessica e Belle adormeceram facilmente. Eu ainda estava acordado. Primeiro por causa do ronco barulhento de Zack, e segundo porque alguns pensamentos conseguiam me manter focados o suficiente para perder o sono: a briga com Victor, Gabriel ter feito uma caligrafia igual à minha e um sonho em questão. Um sonho que vêm me atormentando há algumas noites. Aquele em que a espada de lâmina negra aparecia. Era um cenário todo branco, com uma leve brisa. Nele, havia um anjo, com as vestes brancas e um par de asas prateado, com uma voz suave e delicada. Ele permanecia de cabeça baixa, e sempre me dizia a mesma frase:– Prepare-se Jason. Sua vida está prestes a mudar.Após isso, ele me entregava uma bainha de couro, com a espada negra dentro.Depois de um tempo, acabei adormecendo.*– Jason, levante logo! – gritou minha mãe, como se eu estivesse num presídio, e ela fosse a carcereira. — Já é meio-dia!– Já estou levantando – respondi ainda meio sonolento. Reparei que Jessica, Belle e Zack haviam sumido, pois suas camas estavam arrumadas, e apenas meu colchão estava no chão. — Mãe, cadê eles? — perguntei, sentando-me sobre o colchão e dando um leve bocejo.– Eles foram para casa, trocar de roupa – respondeu ela. – Eu os convidei para almoçar aqui hoje.– Entendi. Bom, enquanto eles não chegam, eu vou tomar um banho, para ver se fico um pouco mais animado.– Tudo bem, Jason – respondeu ela. -Vai lá. Enquanto isso, eu termino de fazer o almoço.Tirei o colchão dali, e levei-o para o quarto de hóspedes. Voltei para meu quarto, dobrei os lençóis e os guarde. Abri meu armário, peguei roupas limpas, e fui tomar banho.Entrei no banheiro, liguei o chuveiro e tomei um bom banho morno demorado, de uns quinze minutos. Quando saí do banho, o almoço já estava servido, e Zack, Belle e Jessica já estavam sentados à mesa, me esperando. Minha mãe havia feito uma macarronada que, pelo visto, estava deliciosa. Só de sentir o cheiro do molho de tomate com o queijo parmesão ralado, já fiquei com água na boca.Enquanto colocava um pouco de macarronada em meu prato, perguntei à minha mãe:– Mãe, cadê o pai?– Ele está lá em casa – respondeu Jessica, enquanto bebia um pouco de Coca-Cola. – Ele disse que precisa colocar a conversa em dia com meu pai.– Ah, sim – respondi, sorrindo.Após o almoço, fomos até meu quarto. Disse que havia algo que queria lhes mostrar. Abri minha mochila e retirei meu caderno. Abri o caderno na última folha e lhes mostrei o desenho da espada, que estava na contracapa.– Poxa, Jason! – disse Belle, surpresa – Está muito legal. Foi você mesmo quem fez?– Sim, foi sim – respondi, sorrindo.– Ficou bem legal, cara – disse Zack. – Não é nada parecida com a espada que vêm aparecendo em meus sonhos há algumas noites, mas, bem, também tenho sonhado com uma espada.Tentei não demonstrar, mas fiquei assustado. Como assim, mesma espada? Seria possível que Zack estivesse tendo o mesmo sonho que eu?Na dúvida, achei melhor perguntar:– Ei, Zack. Poderia me contar um pouco mais sobre esse sonho?– Sim, claro – ele respondeu. – Uma espécie de anjo aparece com uma bainha de couro, que contém uma espada prateada dentro. Ele olha para mim e diz: Prepare-se, Zack. Sua vida...–... está prestes a mudar – completei.Jessica e Belle trocaram olhares, assustadas. Elas também entenderam o que estava acontecendo.– Jason, estamos tendo o mesmo sonho? – perguntou Zack.– Sim, acho que sim. – respondi, tentando esconder, inutilmente, minha preocupação.– Mas por que isso estaria acontecendo? – perguntou Jessica.– É verdade, Jessica – disse Belle. – Por quê? E o que ele quis dizer com “sua vida está prestes a mudar”?– Boa pergunta, Isabelle – disse eu. – Boa pergunta. Bom, depois resolvemos isso. Vou dormir um pouco agora. A que horas vocês voltam?– Dormir de novo? – minha mãe gritou, de lá da cozinha. – Desde quando você é urso polar, pra ficar brincando de hibernar?Isabelle e Jessica deram uma risada disfarçada. Zack, mais escandaloso, gargalhou alto. Depois disso, respondeu minha pergunta:– Lá pelas dez da noite. Tudo bem?– Tudo bem sim – respondi. – Bom, eu acompanho vocês até o portão. Como se vocês não soubessem o caminho.Jessica e Belle saíram, após me encararem pelo o que eu havia dito. Quando Zack foi sair, segurei seu braço direito e sussurrei:– Vou tentar descobrir o porquê de estarmos tendo esses sonhos, e ver se há alguma ligação entre eles. Tente não contar para ninguém, muito menos se preocupar com isso. Vamos descobrir, e ficará tudo bem, o.k.?Ele assentiu e apressou seus passos, para alcançar as meninas.Entrei dentro de casa e fui para meu quarto. Peguei meu celular em cima do criado-mudo, para ver que o horário. 14h29. Coloquei o celular onde estava, tirei os chinelos e me joguei na cama.Logo adormeci. O sonho que eu mais queria ter, infelizmente, veio por último. Antes do sonho com o anjo, sonhei que estava sozinho no meio de uma avenida bem conhecida. Logo, estranhei o fato de eu estar sozinho ali, já que era de costume aquela rua ser muito movimentada.Se eu tive outro sonho entre esse da rua e o da espada, eu provavelmente havia me esquecido. Quando notei que o sonho da espada havia começado, tentei prestar mais atenção. Quando o anjo disse que tudo estava prestes a mudar, resolvi perguntar o quê iria mudar, e por quê. Mas minha pergunta acabou sendo outra:– E irá mudar para melhor ou para pior?– Só ficará tudo bem se vocês conseguirem completar sua missão, Jason Phoenix.– Qual missão? – perguntei.Não consegui ouvir sua resposta, pois acabei acordando. Não acordei, fui acordado. Minha mãe me acordou, dizendo que já estava tarde. Olhei pela janela, e estava tudo escuro lá fora. Fui até a cômoda e olhei em meu celular. Eram 19h15.Ainda bocejando, fui para o banheiro tomar uma ducha, para ver se aquele sono que me consumia saía de mim.Saí do banho e disse à minha mãe que não iria jantar, pois estava sem fome. Ela reclamou que não comi nada o dia inteiro. Para tranquiliza-la, disse que comeria uma fruta depois.Eram oito da noite. Já que não estava passando nada de bom na TV, peguei A Casa de Hades, deitei no sofá e comecei a ler. Faltavam poucas páginas. O livro estava muito bom. Eu estava ansioso para que saísse logo o quinto e último livro da saga.Finalmente acabei de ler. Agora era só aguardar o lançamento do terceiro livro. Olhei no relógio da parede. Eram nove e meia da noite. Meus pais foram até à sala me dar boa noite, e dizer para que eu e o pessoal nos comportássemos.Enquanto eles não chegavam, fui escovar meus dentes. Quando eu estava voltando para a sala, escutei Zack gritando meu nome.– Já vou! – respondi, também gritando.Abri o portão e eles entraram.– E aí, Jason? – disse Zack, dando um tapa em meu ombro esquerdo – Quanto tempo, né?– Pois é – respondi, com tom de ironia.Enquanto eles entravam em casa, eu trancava o portão. Meu bairro não era um dos mais seguros da cidade. E, mesmo que fosse, deixar o portão aberto durante a noite é pedir para ser assaltado. Assim que entrei na sala, Zack já estava ligando meu Xbox 360.– Qual jogo você colocou? – perguntei, enquanto pegava um dos controles.– Guitar Hero 3 – ele respondeu.
– Sem problemas. Eu estava mesmo precisando ouvir um pouquinho de rock para relaxar um pouco.– Pena que você terá que perder o duelo para mim, né?– Isso é o que veremos.Ele deixou que eu escolhesse a música. Escolhi a música Cliffs of Dover, de Eric Johnson e coloquei na dificuldade Hard.Tocamos essa música três vezes. Enquanto jogávamos, ninguém falava nada, pois poderia atrapalhar. Ganhei duas vezes, e Zack, ganhou uma. Após a terceira vez, olhei para Zack e disse:– Perdeu! Perdeu! Perdeu!Ele, todo sem graça, respondeu:– Ah, acontece, né?– Acontece? – eu disse, com tom irônico — Tá bom.Então, lembrei-me da conversa que eu havia tido em meu sonho, com o anjo.– Galera, agora é sério – eu disse, com tom de voz sério – Depois que vocês saíram, eu dormi um pouco.– E desde quando é novidade você dormir, Jason? – disse Jessica.– Jessica, eu agradeceria se você parasse de me interromper – respondi. — Bom, continuando. Eu sonhei com o anjo da espada de novo. Mas dessa vez foi diferente. Eu perguntei se, a mudança que aconteceria em minha vida e na vida de Zack seria para melhor ou para pior. Ele respondeu que só mudaria para pior se...– Se o que, Jason? – perguntou Belle.– Se nós completássemos nossa missão. – respondi.– Missão? – perguntou Zack, assustado.– Isso mesmo – respondi. – Missão.– E que missão seria essa? – perguntou Belle.– Não sei – respondi. – Não faço a mínima ideia. Só sei que não estou gostando nada disso. Bom, vamos dormir que temos que ir pra escola amanhã. E eu já estou morrendo de sono.– Pra variar você com sono, não é, Jason? – disse Zack, com certo sarcasmo.– Na boa, o que vocês têm contra eu dormir? Além do mais, preciso dormir para tentar ter aquele sonho de novo. Quem sabe eu não descubro mais alguma coisa?– Jason tem razão – disse Jessica. – Amanhã temos aula. Bom, boa noite pra vocês.– Boa noite – respondemos.Enquanto eles iam escovar os dentes e iam para o quarto, eu fui desligar o videogame e a televisão. Peguei meu celular em cima do sofá e fui escovar meus dentes. Quando cheguei ao quarto, programei o despertador do celular para despertar às 05h40. Coloquei o celular em cima do criado-mudo e me joguei no colchão, assim como Zack. Belle e Jessica deitaram novamente em minha cama e na cama de Oliver.Em partes, eu não estava com tanto sono. Eu estava com toda essa ansiedade para dormir apenas para ver se tinha aquele sonho novamente. Precisava descobrir o que estava acontecendo, e tinha de ser rápido.
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