— E eu com isso? Nome de velho! — exclamou Malena, num tom até agressivo demais.

— Cê vai ver só, sua ridícula! — avisou Lauro, pulando nas águas trêmulas que agora refletiam um céu obscuro.

Malena nem se moveu com a ameaça, sabia que ele não se atreveria a lhe atirar naquele lago gélido. Como se conhecesse a peça! Malena era confiante demais, para ela suas suposições nunca falhavam, sempre rolavam como o esperado.

Lauro nadava muito rápido e logo estava ali, bem diante da garota, ensopado e ofegante, como se estivesse pronto para atacá-la feito uma criatura marinha selvagem. Malena então se assustou, congelou onde estava.

O intruso foi se aproximando... De repente, jogou-se nos braços dela e lhe deu uma lambida no rosto, inesperada e fria. Ainda que perplexa, Malena percebeu que seu tempo estava acabando e se afastou de Lauro, ligeira.

— O que diabos você fez? — gritou, mas não conseguiu esconder que de certo modo gostou daquilo, pois um micro sorriso se desenhou em sua face.

— Isso é para você aprender, oras! Esperava que eu fosse ficar parado aguentando a metida à proprietária deste lugar fabuloso?

— Este lago me pertence mesmo!

— Que nada, ele é público! PÚBLICO!

— Eu digo que não é não! Poucos são dignos dele, talvez nem mesmo eu.

— E eu vou ter que te dar uma lição de novo?

— Você é lamentável!

— Você tem um gosto amargo!

— Você gosta de jiló!

— Quem te disse tal coisa, tá louca?

— Minhas fadas perseguidoras! Olha que você está me cansando, não gosto de gastar minha saliva atoa!

— Sua saliva deve ser amarga como veneno, se tua pele já é puro fel.

— Sua lambida é horrível como pão com ervilhas e doce de leite!

— Sua textura é dura como pedra!

— Sua língua é áspera como a de um gato!

— MIAU!

Isto foi o suficiente para emputecer Malena. Seus olhos agora estavam vermelhos e assustadores! Foi como um touro para cima do enxerido, que estava se divertindo ao tirar a garotinha do sério.

— Olé! — zombou, abrigando-se atrás de uma grossa árvore centenária. — Venha! Derrube esta triste árvore!

— Vou matá-lo, quero sua cabeça para ostentar por aí!

— Nossa, que ultra, mega, hiper, super MEDO!

— Argh!

— Uau, que rosnado!