Souls on Flame
1 Prólogo-Daniel
Notas iniciais
“Você, você
Vem para a árvore?
Onde enforcaram um homem que dizem que matou três
Coisas estranhas aconteceram aqui
Não mais estranho seria
Se nos encontrássemos à meia-noite na árvore-forca’’
A doce melodia adentrava meus ouvidos fazendo com que minhas pálpebras ficassem pesadas pelo sono. O toque dos dedos de minha mãe acariciando de leve meus cabelos era um alivio, estava encolhido em seu colo enquanto a ouvia cantar olhando para a janela da sala de estar, observando o horizonte, as florestas que ficavam em volta do Distrito 12.
A voz minha mãe era tão acolhedora que eu já havia me esquecido sobre o pesadelo que me fez correr chorando para seus braços, estávamos completamente conectados naquele momento, um unido ao outro, como ela dizia. Mas o momento de paz foi interrompido pelo som da porta de entrada se abrindo com força, o que me fez acordar do meu estado de sonolência, ouvi os passos fortes e nervosos de meu pai, Peeta, ecoando pelo chão de madeira enquanto ele se aproximava de nós na sala.
Sua expressão não era a mesma expressão feliz que ele sempre esboçava ao chegar em casa, seu rosto estava perturbado, como se tivesse visto um fantasma e tomado um grande susto.
–Katniss, temos que conversar- Sua voz parecia tremula e nervosa.
Mamãe assentiu com a cabeça percebendo a seriedade da situação e me colocou no chão.
– Eu já volto- Ela disse se abaixando até mim para ficarmos da mesma altura e me dando um beijo sereno na testa. Em seguida ela seguiu meu pai até a cozinha.
Minha curiosidade de criança estava aguçada a esta altura, nunca tinha visto papai tão nervoso como agora, me esgueirei pelas paredes até ficar agachado na entrada da cozinha de modo que eles não me vissem bisbilhotando a conversa.
Eles conversavam baixo, não conseguia ouvir o assunto, mas pelas suas expressões podia ver que agora os dois pareciam nervosos, eles estavam discutindo enquanto olhavam pela janela da cozinha. Vi minha mãe voltando para a sala de estar e fui correndo para meu lugar lá novamente.
Ela tentava parecer calma, e sorria para mim, como se quisesse me confortar. Mas eu conheço minha mãe, sabia que no fundo ela estava nervosa, com medo de alguma coisa.
Mamãe me envolveu em um abraço apertado e eu retribui alegre, sabia que ela precisava de conforto, papai se juntou a nós e logo estávamos os três unidos na sala, uma pequena família feliz.
Este momento foi breve, um grande estrondo abalou meus ouvidos fazendo-os doer e provocando um zunido ensurdecedor, aos poucos mais estrondos foram sendo ouvidos do lado de fora, aquilo estava me desnorteando. Mamãe me pegou no colo dizendo algo que eu não consegui entender e seguiu papai até o lado de fora de nossa casa.
Os barulhos se tornavam mais fortes do lado de fora, minha mãe me apertava em seu colo para me acalmar, mas eu estava assustado, sentia as lagrimas molhando minhas bochechas e caindo em seus cabelos morenos. Pessoas corriam desesperadas a procura de abrigo, o céu que antes era azul se tornou cinza escuro e depois tomou uma cor avermelhada.
Eu podia ver aerodeslizadores enchendo o céu por todos os lados, de dentro deles pacificadores armados ocupavam todo o espaço de nosso pequeno distrito, mamãe corria comigo no colo em direção à floresta enquanto papai seguia atrás para dar cobertura.
Um homem moreno estava parado em frente a uma grande árvore, era Gale, ele também me parecia nervoso. Assim que nos viu ele correu em nossa direção.
–Vocês estão bem?- Ele perguntou ofegante, e mamãe assentiu com a cabeça.
–O que está acontecendo?- Gale perguntou para papai.
– A Capital, eles querem destruir o distrito de novo, eu vi os aerodeslizadores chegando. Tentei avisar a todos, mas ainda tem muita gente lá temos que fazer algo- Papai disse e seguiu Gale até um arbusto perto da arvore onde ele estava antes.
Papai pegou uma arma grande que parecia bem pesada e Gale pegou um arco e flecha, minha mãe me ensinou a usar isto.
– Eu tenho que ir- Papai disse olhando para mim e mamãe.
Senti uma lagrima saindo do rosto de mamãe, era a primeira vez que eu a via chorar, papai nos abraçou forte de novo e se aproximou de mim com lágrimas nos olhos.
– Seja forte garoto- Ele disse beijando minha testa e em seguida deu um beijo em mamãe que ainda chorava baixo enquanto os via partir de volta para o Distrito 12.
Os barulhos ainda continuavam fortes, papai me disse para ser forte, mas eu estava com medo, me sentei ao lado da arvore e fiquei observando mamãe enquanto ela continuava na mesma posição, talvez em choque.
Ela se virou e viu meu rosto confuso e cheio de lagrimas, assim como o dela.
– Daniel, vem aqui, quero te mostrar uma coisa- Ela disse se esforçando para sorrir e eu fui ao seu encontro caminhando de cabeça baixa.
Ela se agachou na minha frente me olhando nos olhos, os olhos da mamãe são muito bonitos, mas eu puxei os olhos do meu pai. Ela colocou a mão no bolso da jaqueta que estava usando, de lá ela retirou algo que eu não sabia o que era.
Ela pegou minha mão direita e colocou o objeto nela, depois fechou minha mão com a sua como se quisesse esconde-lo. Abri minha mão e me deparei com o pequeno objeto, era de forma circular cor dourada, estava meio desbotado também, nele podia-se ver um pássaro voando junto a uma flecha.
–O que é isso?- Perguntei curioso e ela sorriu.
– Isto é um broche de tordo, para proteger você, mesmo se não estivermos juntos- Ela disse e eu a abracei agradecido com o presente.
Ficamos abraçados por algum tempo até que Gale apareceu correndo até nós, mamãe se levantou rapidamente e foi ao encontro dele.
– O que houve, onde está Peeta?- Ela perguntou para ele suplicante.
– Ele ficou lá para ajudar. As coisas estão feias Katniss, eles voltaram com o dobro de força, não somos fortes o suficiente para o armamento deles temos que ir...
–NÃO, eu não vou sair daqui sem ele!
–Katniss se acalme, ele me pediu para tirar vocês daqui não tem como voltar para lá é suicídio!
–Gale eu não posso, eu não vou ir para nenhum lugar sem o Peeta!!
–KATNISS SERÁ QUE VOCÊ NÃO PERCEBE, ELES VIERAM AQUI PARA MATAR TODO MUNDO, ELES QUEREM DESTRUIR VOCÊ, PENSE NO SEU FILHO!!- Gale gritou nervoso o que estava me assustando ainda mais.
O som de passos rápidos vindo em nossa direção e dos estrondos se aproximando ainda mais da floresta fez a discussão cessar. Mamãe pegou o arco e flecha das mãos de Gale que ficou sem reação por um minuto.
– Gale tira ele daqui, vá para o mais longe que você puder. Eu vou atrasá-los- Ela disse.
Gale tentou discutir mais os passos se aproximavam ferozes e agora as vozes dos pacificadores eram quase nítidas.
Mamãe se aproximou de mim chorando e me abraçou pela ultima vez.
–Eu te amo filho, nós ainda vamos nos encontrar querido eu prometo, guarde estas palavras e seja corajoso- Ela disse passando as mãos geladas em meu rosto e afastando minhas lágrimas.
O som dos tiros eram nítidos e estridentes, eles batiam nas arvores e no chão espalhando a terra lamacenta por todos os lados.
– Vai Gale- Mamãe disse e Gale meio sem jeito me pegou no colo.
–MAMÃE NÃO!! NÃO ME DEIXA, NÃO!- Eu gritava chorando sem parar enquanto a via ficando cada vez mais distante e sumindo entre as ávores.
Gale corria em zigue e zague pela floresta que parecia não ter fim, eu apertava o broche de mamãe forte na esperança de que tudo fosse um novo pesadelo, quem dera fosse.
Chegamos em algo que parecia ser uma clareira, porém ainda haviam pacificadores correndo em nossa direção e atirando, um tiro passou de raspão em meu braço esquerdo e me fez chorar ainda mais de dor.
Ouvi algo que parecia um apito alto vindo do meio da clareia e vi um objeto grande de metal polido vindo rápido do meio da floresta. Gale foi se aproximando do grande objeto que corria na mesma velocidade que nós e então ele me lançou para dentro pulando em seguida.
Cai no chão chorando, pela minha mãe, meu pai, minha casa, minha vida. Gale se aproximou de mim e me abraçou para me reconfortar. Ficamos os dois em silencio por horas a fio, ele era muito amigo de minha mãe e sempre cuidou de mim quando ela precisava sair e papai não estava em casa, eu gostava dele.
Gale pegou meu braço que ainda sangrava, ele examinou o ferimento e então rasgou uma parte de sua camisa, enrolando-a nele e fazendo-o parar de sangrar.
– Para onde nós vamos?- Perguntei para ele timidamente. Estava agora deitado em seu colo de frente para a porta por onde entramos.
– Eu não sei- Ele respondeu sem olhar para mim. Gale também me parecia triste, talvez por que ele perdeu a sua casa e a sua família também ou por causa de mamãe.
Aproximei-me da grande porta e apoiei em algo que parecia ser uma grande maçaneta de metal, usada para abrir a porta provavelmente, não estávamos mais nas florestas do Distrito 12, a paisagem havia mudado, não havia mais árvores, apenas ruínas de prédios e locais desertos.
Depois a paisagem evoluiu para algumas fazendas, havia pessoas trabalhando nelas também, era um alivio saber que tinha mais gente vivendo no lugar para onde vamos. As fazendas ficaram para trás e tudo o que eu via agora era uma grande cerca que parecia mais uma muralha.
‘’O que será que ela esconde?’’ eu pensava incansavelmente.
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