Soulmates
1 Faith
[SOULMATES]
(Mizuki's POV)
Eu ia encontrar o amor da minha vida, foi o que ela me disse. Ela, a moça que leu a minha sorte hoje na rua. Isso deveria ser o destino, uma cigana esbarrando em mim pra me dizer isso, sempre fui muito crente com essas coisas. Mas como seria o amor da minha vida?
Ia ser assim, eu olharia para ele e “BUM” saberia que ele era tudo aquilo que eu sempre quis? Será que teriam borboletas no meu estômago, e minhas pernas iriam tremer? Na verdade, sou ruim até mesmo em reconhecer amores normais, que dirá amores pra uma vida inteira!
Será que eu deveria estar em um supermercado no dia em que, teoricamente, irei conhecer o amor da minha vida?
Já me apaixonei tantas vezes, que acho que na maioria delas nem chegava a ser amor. Apesar de na época me parecer bastante convincente. É algo como aquela obsessão, que me fazia sempre pensar que eu estava perdendo alguma coisa, e que poderia ser qualquer um.
Então me apaixonei pelo senpai que me ajudou na saída do colégio. Pelo capitão do time de basquete que sempre sorria pra mim. Por um homem gentil que conheci no bar... E por tantos outros.
Só que, de alguma forma me sentia enganado. Minhas pernas nunca ficaram bambas, e eu nunca perdi a fala. Acho também que posso afirmar com certeza que meu coração nunca pulou uma batida – até porque isso por si só me parece muito estranho...
BUM!
Mas não foi o meu coração, foi o meu carrinho de supermercado se chocando com o de um moreno que passava pelo corredor.
–Desculpe, eu estava distraído. – falei com uma pequena mesura, desencostando meu carrinho do seu.
–Não, imagina, eu também não estava prestando atenção e...
Será que eu deveria estar em outro lugar? E se ele estivesse lá fora me esperando enquanto eu estou comprando o jantar? Será que o homem disse mais alguma coisa? Não prestei atenção.
Hoje de manhã, pensei que gostaria de tomar sorvete, foi pouco antes de encontrar a cigana. Será que o destino estava contando que eu fosse tomar sorvete para me mostrar o homem da minha vida na sorveteria?
Mas e se eu tomasse sorvete sozinho? Será que isso estava nos cálculos do destino? Porque eu acho que tomaria em casa, já que estava com preguiça demais de ir até a sorveteria.
Mas então, eu passaria o resto do dia em casa tomando sorvete de pistache?
Parei em frente ao freezer de sorvete, procurando distraidamente por aquele que era meu sabor preferido, sorte grande, tinha apenas um! Entretanto, assim que estiquei a mão para pegá-lo, senti que ela na verdade tinha ido de encontro à de outra pessoa.
–Ah, parece que tivemos a mesma ideia. – ele disse com um sorriso. – Estranho, pouca gente gosta de pistache.
Será eu já vi essa pessoa antes? Ah, o moreno do carrinho. Acho.
–É meu preferido. – respondi no impulso, já tirando a mão do sorvete e me preparando para desistir.
–Bom, não tem jeito. – ele deu de ombros, fazendo uma cara de dor e pegando o sorvete. — Então acho que pode ficar com esse.
Dessa vez eu ri, mais da cara de dor dele que de outra coisa. O homem retirou a careta do rosto e riu junto, ele tinha um sorriso bonito.
–Muito obrigado. – respondi por fim, colocando o sorvete no carrinho e me afastando com uma mesura.
Será que o homem da minha vida iria gostar de pistache?
E se ele não gostasse nem de pistache e nem de chocolate, então não poderíamos dividir um sorvete. Talvez então, eu não fosse encontra-lo na sorveteria, já que a probabilidade de erro em uma sorveteria com 100 sabores era muito grande.
Onde então?
Acordei hoje com vontade de finalmente terminar de desempacotar as caixas da mudança e colocar as prateleiras na sala... Coisa que eu vinha adiando havia quase um mês. Meus DVDs e jogos ainda estavam todos espalhados e encaixotados por eu ainda não ter onde coloca-los. Mas como isso pode me levar até minha alma gêmea?
A menos que eu fosse me casar com um parafuso – que alias, eu ainda precisava comprar – ele não iria simplesmente se materializar enquanto eu estivesse pregando as prateleiras da minha sala.
Onde tem parafusos por aqui? É um hiper-market, tem que ter parafusos. Será que ele era alguém que trabalhava como faz tudo? Eu deveria chamar um faz-tudo então? Mas eu pretendia fazer isso sozinho e economizar o dinheiro.
Não que eu soubesse, mas parecia fácil. Havia pegado a furadeira emprestada com o vizinho da frente, era só apertar um botão, simples o suficiente. Mas o que eram aquelas instruções? Buchas tamanho 8... Que diabos, isso deveria ser padronizado!
Parei olhando para as buchas e parafusos. O destino me esperava lá fora, em algum lugar, e eu estava perdido em um monte de ferramentas. Esperava que o homem misterioso do meu futuro fosse bom com essas coisas, porque ter dois completos perdidos no assunto em uma casa seria um problema.
Será que ele poderia gostar de pistache e ser bom com tarefas de casa ao mesmo tempo? Talvez isso fosse pedir demais. Meus ex-namorados não conseguiam nem arrumar a cama depois de levantar...
Suspirei enquanto olhava para todos os milhares de tipos de parafuso. Eu nem sabia que tudo isso existia. Eu só precisava colocar uma estante no lugar. E com sorte, fazer isso rápido, a tempo de aproveitar o meu único dia de folga na semana para cumprir o chamado do destino – ainda não sei como, mas o destino deve ser esperto nesse esse ponto.
–Oito... Ehhh, mas... O parafuso tem que ser o mesmo tamanho ou menor?? – choraminguei sozinho enquanto olhava todas aquelas parafernalhas.
Eu deveria simplesmente tacar um prego na parede... Provavelmente não daria certo, mas eu estava naquele ponto de aceitar qualquer coisa que fosse deixar a prateleira no lugar... Já conseguia imaginar que me meteria em problemas. PROBLEMAS.
–Esse aqui, é o tamanho padrão. Oito. E esse pacote já vem com as buchas. Mas dependendo do móvel, é bom levar um sustentador. – quase pulei pra trás de susto, ao me tocar que era comigo que ele estava falando, e me estendia um pacote.
O mesmo moreno das outras duas vezes. Ergui a sobrancelha, enquanto pegava o pacote.
–Eu sei que isso parece perseguição, mas eu estou com a melhor das intenções. – ele voltou a rir. – E preciso de brocas novas, estou fazendo umas pequenas mudanças em casa.
Acabei rindo novamente. Voltei a agradecer com uma mesura. Era a primeira vez que eu realmente prestava atenção nele, era uma pessoa bonita e parecia agradável.
–A verdade é que pretendo pregar prateleiras... Só não sei bem como.
–Nah, geralmente móveis pré-fabricados vem com todas as instruções no verso. Você vai se sair bem. Provavelmente.
–Eu não tenho tanta certeza. Mas obrigado de qualquer forma... Ahn...
–Yuu. Pode me chamar só de Yuu.
–Sou o Mizuki, que roubou seu sorvete de pistache, bateu no seu carrinho, e não sabe escolher parafusos. – voltei a rir – E que precisa ir.
Afastei-me novamente, me despedindo com um aceno, dessa vez já me dirigindo para o caixa.
Almas gêmeas escolhem um péssimo momento para aparecer, foi a conclusão na qual cheguei, franzindo o cenho em frustração. Eu estava com muitas coisas na cabeça. Ia ter que tomar sorvete em casa, colocar e arrumar as prateleiras, ainda tive que vir ao supermercado, e acho que tenho até mesmo trabalho acumulado.
Não sei o que vou jantar. E nada de amor da minha vida.
–Mizuki-san! – olhei pra trás, procurando a fonte da voz.
Yuu, empurrava o carrinho em uma velocidade acelerada, até parar ao meu lado. Meu olhar era inquisitório.
–Você gosta de comida tailandesa? – ele disse por fim.
–Hmm... Não.
–Foi o que eu pensei. – Yuu respondeu. – Que tal chinesa?
–Não sou particularmente um fã.
–Certo, faz sentido. E que tal, árabe?
–Yuu-san, japonesa parece perfeita.
–Como, temaki e saque?
–Como temaki, saque e sorvete de pistache. – finalizei. – Em outras palavras, acho que seria ótimo sair com você.
–Então a missão de resgatar meu sorvete de pistache, foi bem sucedida!
–x-
Talvez, seja possível encontrar sua alma gêmea até num supermercado. E talvez não seja exatamente uma alma gêmea. Minhas pernas não tremeram, e a única coisa que fez “BUM!” naquele dia foi meu carrinho de supermercado. Até onde eu sei, borboletas ainda não habitam meu estômago também.
Se eu tivesse saído pra tomar sorvete, poderia ter encontrado um outro predestinado. E poderia ser alguém que não gosta de pistache.
Se eu tivesse chamado o faz-tudo, poderia ter até mesmo ganhado a instalação da TV à cabo de graça, e minhas prateleiras poderiam estar melhor colocadas.
Mas de certa forma, estou conseguindo sobreviver à tortura que é dividir meus potes de sorvete e a namorar um pseudo-surfista que é músico nas horas vagas. E também adora se auto-intitular “Super-estrela”.
“Ta-su-sama” pode ser a melhor definição de predestinado ou modéstia; mas nada teria dado assim tão certo para o atrapalhado e tagarela Mi-chan.
Notas finais
Ps: "Ta-su-sama" é Su-ta-sama ao contrário (Star-sama, como o Aoi é chamado pelos amiguinhos que fangirlizam ele, incluindo o Mizuki -.-).
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