Notas iniciais
desfrutemmmm
capítulo não revisado

Simon Snow encarou seu pulso com a expressão mais desdenhosa possível, vendo Penny observá-lo por cima de sua caixinha de suco.

Grafado em sua pele estavam às primeiras cinco palavras que sua alma gêmea pronunciaria quando o encontrasse. E eram péssimas.

Enquanto Agatha e Penélope foram sorteadas com frases como "seu sorriso é o mais belo que vi em toda minha vida, acho que vou derreter" e "ei, me devolva estas batatas!", Simon possuía a pior entre elas.

"Snow, você é um idiota."

Fala sério, praticamente todos haviam encontrado suas almas gêmeas aos dezoito, Simon estava prestes a fazer dezenove e, além de não encontrar a pessoa que mudaria sua vida, a frase em seu pulso mostrava exatamente como seria o encontro com o amor de sua vida. Trágico. Sua soulmate faria chacota com ele, assim que o conhecesse. Ele deveria ser um idiota, mesmo.

Agatha Wellbelobe havia encontrado o amor até precocemente — aos dezessete. Enquanto tentava estudar para uma prova de biologia, na enorme biblioteca de Watford, resolvera fazer uma pausa e colocar seus headphones cor de menta — ela descrevera todos os detalhes — em suas orelhas e distrair-se um pouco com música. Ela não imaginava que estava tão alto, não ao ponto da garota ao seu lado virar-se para ela, prestes a expulsá-la daquela mesa, quando Agatha passou para a próxima música e sorriu. Foi então que aquela frase marcada em seu antebraço veio.

— Foi como se todo o ar dos meus pulmões se renovassem e eu ficasse leve como uma pena, Simon! — Ela gritou. Um resmungo passou pela parede; o garoto do quarto ao lado, querendo estudar.

Agatha recebera carinhosamente o apelido de "garotaescândalo" dos vizinhos de porta de Simon. Ele botou o indicador em frente aos lábios, pedindo silêncio. Agatha continuou, mais baixo, mas ainda com entusiasmo.

"Ver aquele corpo cheio de curvas dentro daquele mom jeans, o cabelo desgrenhado e o rosto vermelho me deixou na beira de um precipício. Achei que estivesse caindo, por isso me senti tão leve". Agatha gemeu, em êxtase. Depois acrescentou que o amor era sobre quedas; não quando se dá com a cara no chão, mas quando se está flutuando.

Simon notara que havia algo diferente em Agatha, espremida em cima de sua cama com às mãos entrelaçadas perto dos seios; os olhos brilhavam mais do que o normal, parecendo fogos de artifícios no céu negro de verão, a pele leitosa estava mais brilhante e macia e o modo como andava era tão leve que o loiro podia afirmar por poucos segundos que os pés da garota flutuavam, deixando tudo em volta mais leve.

— Simon. — Penélope chamara sua atenção, arrancando-lhe de sua lembrança mais recente. Snow notara que ela também estava diferente, e estava esperando que ela contasse à ele que, assim como Agatha, havia encontrado. — Acho que encontrei.

Ele se fez de bobo. Ela parecia afoita, vagando em pensamentos distantes daquela mesa rangente de refeitório. Simon observou com o canto dos olhos o fluxo de estudantes aumentarem, enchendo aos poucos o local.

— Encontrou o quê?

— Minha alma gêmea.

Penélope deu uma colherada em seu purê de batatas. Simon esperou que o purê descesse, vendo a garganta da garota subir e descer, para que ela continuasse:

— Bateram à minha porta. Então, eu abri, e tudo o que tinha era uma cesta de batatas. — Arrumou os óculos em seu rosto e cruzou os braços sobre a mesa, apoiando o queixo neles. Estava usando um moletom rosa que realçava sua cor de pele, e a deixava mais fofa do que era. — Não eram minhas, mas poderia ser o presente de um admirador secreto, por isso peguei algumas nas mãos para checar mais de perto se não era uma pegadinha... Foi aí que a porta da frente se abriu e um garoto me olhou, dizendo "Ei, me devolva estas batatas!". Então mostrei meu braço pra ele, e falei "que loucura". Ele mostrou o dele e a frase que eu tinha acabado de dizer estava lá.

Simon riu, tomando um gole de sua água.

— Não vai fazer uma descrição de três horas igual Agatha?

Penélope negou, descruzando os braços e voltando a comer.

— Não. Mas ele é realmente bonito aos meus olhos. — Ela balançou os óculos no rosto, fazendo Simon rir de novo. — É como se o Sol morasse na porta ao lado, sabe? Sempre deixo a porta do meu quarto aberta agora, como se esperasse que um raio de luz solar entrasse. Uma risada dele, o resquício de qualquer coisa. E eu nunca gostei muito do Sol...

Ela falava como se sempre quisesse acrescentar algo há mais, porém ficava em silêncio. Talvez, Simon pensou, não houvessem palavras para descrever o que ela sentia por ele. Simon não via a hora de conhecê-lo.

Simon suspirou profundamente, deitando a testa na mesa e esticando o braço para fora dela, apoiando seu cotovelo na ponta.

— Queria saber como é is...— Alguém esbarrou no braço de Simon, derrubando uma caixinha de leite e quase entortando o antebraço do garoto com certa agressividade.

Ele lançou seus olhos para o alto, encarando os cabelos negros e lisos que batiam nos ombros e às sobrancelhas escuras e arqueadas, que pareciam ter vida própria, zombando de Simon. O garoto em pé o olhava de cima, como se fosse um Deus sentado em sua cadeira encarando um mero mortal.

— Snow, você é um idiota. — Disse, pescando a caixinha de leite no chão. Simon achou que ele iria chutá-la, mas então, ele se agachou. — Acha que é o dono do mundo ocupando até mesmo espaços desnecessários. — Depois disso o garoto soltou um "tsc" que Simon só achou que existiam em quadrinhos, e sumiu. Demorou um pouco até que Simon notasse o que o garoto havia dito.

Penny puxou o braço do amigo por cima da mesa e se aproximou, escancarando os olhos. Puxou seus óculos para cima, conferindo mais de perto.

— Meu Deus... Tyrannus Basilton Grimm-Pitch é sua alma gêmea.

Simon sentia a frase em seu pulso queimar como brasa. Então, se sentiu ligeiramente triste. Como se tivesse despencado de um precipício — como Agatha — porém atingido o chão, sem nem sentir o voo.

Ele não sentira nada do que às garotas descreveram. Basilton não parecia um raio de sol, não com aquelas roupas pretas e o olhar sanguinário. Nem estava com o rosto vermelho, como o amor de Agatha, ou usava um mom jeans. Simon não se sentia leve.

Na verdade, se sentia pesado como nunca.

— Você deveria tentar falar com o Baz. — Agatha sugeriu. Os três amigos se reuniram no quarto de Simon, apertados contra a cama. Penélope resolveu comprar besteiras para Simon morrer com às artérias entupidas de gordura. Realmente, fora um péssimo primeiro encontro.

O pior primeiro encontro da história da humanidade, diria Simon. Nada dramático.

— Tudo bem. De qualquer forma, eu estou ocupado demais agora. Um garoto foi transferido pra cá porque brigou com o colega de quarto, e como o diretor me acha muito calmo e centrado, decidiu mandar ele pra cá. — Suspirou, metendo uma batatinha na boca. A esse ponto, o chão estava repleto de latinhas de Coca-Cola e Sprite, além dos sacos de salgado no.

— Vê se fala ainda hoje, Simon. — Insistiu Penny. Conhecia Baz e disse que ele não era um garoto ruim. Estudara com ele alguns anos. — Talvez você mude de ideia quanto a ele ser um imbecil.

Simon fez uma careta.

— Não irei. Baz é um idiota, e prefiro ficar sem alma gêmea do que com alguém mesquinho como ele.

Agatha e Penélope se entreolharam.

— Vamos deixar você fazer suas coisas, não é Penny? — Agatha pegou a amiga pelo braço. — Mais tarde nos falamos,Simon.

E saíram pela porta. Tudo o que Simon precisava era se estressar com a mudança do novo colega de quarto. Ótimo.

No fundo, ele queria que o garoto fosse Baz. Queria acertar às coisas, mas não tinha coragem de procurar pelo garoto. Mas oras, ele era Simon Snow.

Depois de uma hora e meia, perto das oito da noite, bateram à porta. Uma pontadinha cresceu no peito de Simon quando viu um garoto que não era Baz; cabelos platinados e brincos nas orelhas, além de um piercing na boca. Simon nunca havia o visto.

No final, ele não era de falar muito e disse que ficaria pouco tempo no quarto, que Simon não se preocupasse. Então, deixou suas coisas espalhadas na cama do outro lado do quarto e saiu, sem ligar para às latinhas no chão e o resto de lixo.

Simon até que gostou dele. Poderiam rachar uma pizza quando o garoto estivesse presente.

Snow queria poder ligar para os pais e perguntar se, quando se conheceram, havia sido complicado. Se não se gostaram de primeira ou se odiavam. Mas ele não tinha para quem ligar. E também não tinha um celular. Então, deitou, e esperou que em seus sonhos ele resolvesse aquela situação.

Uma hora da manhã e alguém batia na porta. Penélope dormia cedo, Agatha deveria estar transado — Simon não queria saber sobre essa informação, mas a garota contara que sua libido estava em alta e a da namorada também. Desde então, Simon sabia o que Agatha estava fazendo quando não estava estudando ou dormindo. Era amedrontador.

Ele estava prestes a se dar por vencido e voltar a dormir, quando uma batida mais forte lhe atingiu a mente, o despertando.

Um fio de baba escorria de sua boca. Estava sonhando com Twilight. Lá estava ele, numa cidade chuvosa quando conhece um belíssimo vampiro chamado... Baz

Baz estava ali, com o cabelo e os ombros encharcados e uma expressão de tédio. Às pernas de Simon tremeram. Ele lera tantos mangás yaoi — escondidos entre o estrado da cama e o colchão — que achava saber exatamente como agir numa situação como aquela, com um garoto encharcado e bonito bem na sua frente. Mas ele ficou paralisado, estático.

— Snow?

Simon balançou a cabeça, sem dizer nada. Os olhos ainda estavam inchados de sono e talvez ele estivesse com bafo.

— Q-quer entrar?

Baz assentiu. E quando entrou, sentou na cama de Simon sem nem pedir licença.

O loiro acendeu às luzes e coçou os olhos, sentando de pernas cruzadas no chão, o rosto corado pelo sono.

Então, Baz se levantou e se aproximou dele. Em seguida, levantou a manga de sua blusa preta e mostrou o pulso.

"Eu me chamo Simon Snow".

Simon arqueou às sobrancelhas e em seguida cerrou-as.

— Mas...

Baz o interrompeu:

— Você me disse isso há três anos atrás, Snow.

Simon procurou em sua mente, mas não encontrou nada.

— Eu...

— Fiquei surpreso de esbarrar em você depois de anos, por isso agi daquela maneira. Mas você continua sendo um idiota, Snow.

Simon crispou os lábios, emburrado como uma criança.

— Por quê?!

— Poderíamos estar juntos muito antes se você simplesmente não tivesse saído correndo, sem me dar chance de falar nada.

Simon meneou a cabeça.

— Não foi eu. Foi o destino, sr. Pitch. Nasci com essa frase. Você diria "Snow, você é um idiota" se me respondesse naquele momento? Não. Então você não seria minha alma gêmea.

Baz não aguentava estar errado, então bufou. E Simon ficou feliz em perceber isso com apenas três minutos de conversa.

— Me desculpe fazer você esperar por três anos, Baz. Mas estou aqui, agora.

O canto dos lábios de Basilton subiram lentamente, quase imperceptíveis. Simon achou que poderia ser o sono ou que o garoto poderia sentir coceira na linha fina dos lábios, qualquer coisa assim. Mas algo dizia que Baz estava sorrindo com os olhos.

— Tudo bem, Snow.

Ficaram em silêncio por um tempo, até que Baz voltasse a falar:

— Posso ficar aqui por enquanto? Não quero voltar pro meu colega de quarto insuportável. Ele tem uma personalidade parecida com a sua.

Simon riu. Os olhos cinzentos de Baz brilhavam, como chumbo ou uma luz no fim do túnel.

Snow não sentia que estava caindo do precipício, mas correndo nele antes de abrir suas asas e voar, a sensação da felicidade invadindo seu estômago.
— Pode ficar para sempre, Baz. Para recompensar o tempo que te fiz esperar.

— Snow, você é um verdadeiro idiota.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!