Soulmate

2 O primeiro dia.


Notas iniciais
✧ Há trechos do primeiro livro nesse capítulo.

✧✧✧

— Rápido, Lilian! — O grito da minha mãe soou pelo corretor pelo que foi a terceira vez. — Você não quer perder o seu primeiro dia de aula, não é? — Ela encostou-se no batente da porta, encarando-me com as sobrancelhas arqueadas e eu suspirei, fazendo uma negativa com a cabeça enquanto pegava minha mochila.

Minha mãe era como eu, as bochechas eram rosadas — porque ambas eram brancas demais — os olhos eram grandes, castanhos e expressivos, era muito fácil de ler minha mãe e assim como eu, ela possuía os cachos castanhos caindo até o meio das costas. A diferença era óbvia — ela era mais velha.

Quando eu tinha sete anos, mamãe resolveu se separar do seu terceiro marido — Ray —, ele era um cara legal, mas não estava pronto para a furação Eloise, não soube lidar muito bem com as inconstâncias e as surpresas que era viver com a minha mãe. Desde então, nós nos mudávamos com uma frequência assustadora e bastante estranha, no começo eu me sentia bastante irritada e furiosa — principalmente com a fase da pré-adolescência — onde eu queria mais que tudo ir morar com meu pai, na Califórnia.

Eu até tentei por uns meses, mas sorrisos falsos e cabelos oxigenados não foram a melhor solução para os meus treze anos, então eu voltei para o Oregon, que é onde mamãe morava na época.

Depois disso passamos por Illinois, Cansas, Connecticut e foi surpreende o tempo que passamos nesses três lugares. Até duas semanas atrás, quando mamãe acordou em uma bela terça-feira de sol escaldante e avisou que iriamos nos mudar. Eu já estava pronta para uma cidade de praia dessa vez — já que mamãe tinha a habilidade incrível de surfar e fazia alguns anos que não íamos para o litoral, mas para minha incrível surpresa, mamãe decidiu vir para o pior lugar do mundo.

Washington.

Mais especificamente, Forks. Uma cidadezinha pequena ao noroeste da Península Olímpica, constantemente coberta por nuvens, chuva e neblina. Segundo os dados super específicos de um fórum de questões da internet, chove mais nessa cidade reclusa e escondida do que em qualquer outro lugar do estado de Washington.

O que é realmente péssimo, eu não estava equipada ou preparada para o frio. Uma breve olhadela no meu casaco me fez ter certeza disso. Eu vestia meias calças, jeans e um allstar, considerei brevemente colocar dois pares de meias, mas achei que seria muito exagero.

Um suspiro de frio escapou dos meus lábios quando uma brisa passou por mim, arrepiando os pelinhos do meu braço, mesmo por baixo do casaco.

— Vou pedir para arrumarem o aquecedor ainda hoje. — Começou minha mãe em um tom culpado.

— Na verdade, podíamos voltar para o Sul. — Murmurei dando uma mordida na torrada.

Ouvi minha mãe respirar fundo, afinal, não era a primeira vez que discutíamos isso. — Lilian, é um recomeço.

— Mãe, é mais um recomeço. — Revirei os olhos, pegando a mochila jogada ao pé da cadeira e me aproximei dando um beijo em sua bochecha. — Tudo bem, eu vou me acostumar. Agora, vou para escola.

Peguei as chaves do meu mini-cooper, saindo em direção à rua molhada — mais uma vez. Chovera bastante na noite passada e eu demorei mais do que o normal para dormir, isso explicava as olheiras gritantes embaixo dos meus olhos. Eu já estava tão cansada que não quis discutir com Eloise, além disso, preferia não discutir muito com a minha mãe, afinal, desde o abandono do meu pai, éramos nós duas contra o mundo.

Éramos amigas, companheiras e família. Mas vir para Forks fez tudo virar um desastre entre nós. Eu odiava o frio, a chuva e odiava cidades pequenas. Elas faziam com que eu me sentisse uma placa de neon, era inevitável, como levar agulhas quando se está doente.

A Forks High School não era uma escola grande e tinha um total assustador de trezentos e cinquenta e oito alunos, — agora trezentos e cinquenta e nove. Não havia muros ou grades ou ronda policial, só alunos estudando e jogando conversa fora. Era assustador perceber que eu seria uma novidade, a garota da cidade grande, uma forasteira.

Acabei estacionando ao lado de uma grande picape vermelha, meu mini cooper parecendo um carrinho de criança ao lado daquela monstruosidade, fiquei um pouco preocupada, eu esperava que o motorista daquela coisa fosse realmente bom. Enquanto caminhava para o prédio da secretaria, sentia os olhares grudados em minhas costas, os cochichos eram audíveis o suficiente para que eu me sentisse desconfortável.

Respirei fundo, apertando a alça da mochila e afastando o cabelo do rosto, eu já passara por isso muitas vezes. É fácil, Lilian. Afirmei para mim mesma. Depois de pegar o meu horário com a Sra. Cooper, uma mulher ruiva e um pouco rude, eu me afastei em direção ao prédio três, onde teria aula de biologia.

Assustador e deprimente.

No meu antigo colégio, em Connecticut eu era líder de torcida e não precisava estudar biologia por causa disso. Era uma forma divertida de matar aula, era assustador pensar que agora eu teria que cursar a matéria acumulada de seis meses ou então não acompanharia ao ritmo dos demais alunos.

O Sr. Banner me recebeu de braços abertos e me indicou um lugar entre os alunos, acabei por sentar junto de Eric, um garoto asiático que parecia bastante prestativo. Conversamos pouco, mas ele pareceu se sentir lisonjeado por me ajudar em biologia — coisa que eu agradeci imensamente, apesar das segundas intenções.

— Então, você era de onde mesmo? — Ele questionou, balançando o cabelo pela terceira vez. Eu segurei o riso, enquanto o acompanhava para o refeitório.

— Connecticut. — Preferi resumir, era melhor do que falar todos os lugares que já havia morado.

— Nossa! Isso deve ser bem legal. — Se empolgou. — Como era lá?

Eu ri um pouco, assentindo. — Bem, era ensolarado e era bastante movimentado.

— Mesmo?

Dei de ombros. — Só no meu ano havia uns quatrocentos alunos.

— Isso deve ser bom.

— Para mim era normal.

Quando nós chegamos ao refeitório, Eric me indicou a mesa onde seus amigos sentavam. Ele me apresentou um por um, Jessica, Lauren, Tyler, Angela e Ben, todos pareciam legais e me receberam com perguntas curiosas e piadinhas divertidas. Não pude deixar de rir com as questões de Lauren sobre as festas e garotos. Ou me sentir sensibilizada pela gentileza de Angela.

Foi ali, sentada no refeitório, tentando conversar com aqueles estranhos curiosos, que eu os vi pela primeira vez.

Eles estavam sentados num canto do refeitório, o mais longe possível de onde eu estava. Eram seis. Exceto pela garota morena, não conversavam e não comiam, apesar de cada um deles ter uma bandeja intocada de comida na sua frente. Eles não estavam me encarando, como a maior parte dos outros alunos, então era seguro ficar olhando para eles sem ter que encontrar um par de olhos excessivamente curioso. Mas não foi nenhuma dessas coisas que chamou, e prendeu, minha atenção.

Eles não se pareciam em nada. Dos três garotos, um era grande — musculoso como um levantador de peso profissional, com cabelo escuro e encaracolado. Outro era alto, mais magro, mas ainda musculoso, e com cabelo loiro escuro. O outro era mais magro, menos musculoso, com cabelo cor de bronze, meio bagunçado. Ele parecia mais jovem do que os outros, que pareciam que poderiam estar na faculdade, ou até mesmo serem professores ao invés de alunos. Mas ainda assim, não parecia jovem o bastante para o ensino médio, relutei em desviar meus olhos das suas costas, mas a curiosidade falou mais alto e meus olhos focalizaram as quatro garotas, uma delas estava sentada junto do ruivo, os dedos entrelaçados indicavam claramente que eram namorados, ela não parecia se encaixar tão bem entre eles, parecia tão normal quanto eu e meus colegas, diferente da beleza super incrível de todos na mesa. A garota mais alta era maravilhosa. Ela tinha uma silhueta linda, do tipo que se vê na capa da revista Sports Illustrated, na edição de roupas de banho, e daquelas que fazem as outras garotas se sentirem mal consigo mesma só por estarem na mesma sala. O cabelo dela era dourado, gentilmente balançando até o meio das costas. A outra garota era mais baixa e parecia uma fadinha. Bem magra, com feições pequenas. O cabelo dela era totalmente preto, cortado curtinho e apontando para todas as direções.

E ainda assim, eles se pareciam muito. Todos eram muito pálidos, os mais pálidos de todos os alunos dessa cidade sem sol. Todos tinham olhos bem escuros, — exceto a garota morena, talvez, — apesar da diferença na cor dos cabelos. Além disso, eles tinham olheiras — sombras arroxeadas, como machucados. Como se todos eles tivessem passado a noite em claro, ou quase se recuperando de ter o nariz quebrado. Apesar de seus narizes, de todas as partes de seus corpos, serem perfeitamente retos e angulares.

Mas não era por causa de tudo isso que não conseguia tirar os olhos deles.

Eu os olhava por que seus rostos, tão diferentes, tão iguais, eram todos devastadoramente, inumanamente lindos. Eram rostos que você nunca espera encontrar além de, talvez, nas páginas editadas de uma revista de moda. Ou pintadas por um dos velhos mestres como a face de um anjo. Era difícil decidir quem era o mais belo — talvez a perfeita loira, ou o garoto com cabelos cor de bronze.

Estavam todos olhando para longe — longe um dos outros, longe dos outros alunos, longe de qualquer coisa em particular que eu pudesse ver. Enquanto eu olhava a garota mais baixa levantou com a bandeja — o refrigerante fechado, a maçã inteira — me lançou um olhar curioso, fiquei constrangida por ser pega admirando-a. Mas então ela sorriu abertamente, dando-me uma piscadela e seguindo em direção a saída. Eu fiquei olhando, maravilhada com os passos de dançarina dela, até ela largar a bandeja e sair pela porta de trás, mais rápido do que eu imaginava ser possível. Meus olhos voltaram logo para os outros, que estavam lá, sem mudanças.

— Quem são eles? — perguntei à Jéssica em voz baixa, esperando que os outros não notassem minha curiosidade. Mas Jéssica não era exatamente discreta.

Enquanto ela olhava para ver de quem eu estava falando de repente ele olhou para ela, o mais jovem e mais bonito de tosos. Ele olhou para a garota do meu lado por só uma fração de segundo e então seus olhos escuros se dirigiram aos meus.

Ele olhou para mim com os olhos escuros, os ombros ficaram tensos repentinamente, apesar de não haver expressão em seu rosto. Ele parecia assustado talvez, se eu pudesse chutar, talvez diria que era isso. Abaixei meus olhos depois de alguns segundos, confusa com o poder de seu olhar sobre mim.

A garota do meu lado riu envergonhada, olhando para a mesa.

— Aqueles são Edward e Emmett Cullen e Rosalie e Jasper Hale. A que foi embora é Alice Cullen. Todos vivem juntos com o Dr. Cullen e a esposa dele. — Ela falou isso meio entre os dentes.

Enquanto eu os analisava, o mais novo, um dos Cullens, olhou para mim e nossos olhos se encontraram, dessa vez com uma expressão evidente de curiosidade. Enquanto eu esquivava meu olhar, me pareceu que no dele havia alguma expectativa não alcançada.

— Qual deles é o garoto de cabelos castanhos avermelhados? — perguntei. Espiei com o canto do olho e ele ainda me encarava, mas não como os outros alunos tinham feito durante todo o dia — a expressão dele era meio confusa e assombrada. Olhei para baixo novamente. Ele dava a sensação de estar vendo um fastasma.

— Aquele é Edward. Ele é maravilhoso, lógico, mas não perca tempo. Ele não está disponível.

Olhei meio de lado para o garoto lindo, que agora olhava para a bandeja dele, picando um pãozinho com dedos pálidos e longos. Seus lábios se moviam rapidamente, seus lábios perfeitos mal se abrindo, mas eu podia perceber que ele conversava com a morena.

— E a garota com ele?

Jessica fez um sol de escárnio, parecia que não gostava da menina. — É Isabella Swan, eles estão juntos – ela disse isso como se não pudesse aplicar o terno “namoro” a eles – ela chegou há pouco tempo, mas aparentemente foi amor a primeira vista.

Eu não comentei a observação de Jessica, apesar de sentir que havia veneno demais em suas palavras.

— Eles são... muito bonitos. — lutei com meus olhos para que não focalizassem ao garoto ruivo. Era estranho e assustador.

— Sim! — Jessica concordou dando outro risinho. — Mas não perca o seu tempo, ele não tem olhos para além da Swan.

— Não é a minha intenção. — Eu sorri, afastando meus olhos da mesa sob o olhar desconfiado de Jéssica.

— Ah, é melhor que não seja. Acho que Edward Cullen já partiu muitos corações. É melhor conservar o seu, querida.

Após mais alguns minutos os outros três deixaram a mesa juntos. Logo depois o casal também de levantou. Todos — e mais uma vez, exceto a morena — eram notoriamente graciosos — até mesmo o grandalhão. Era algo desconcertante de se observar. O que se chamava Edward, durante a saída do refeitório lançou a mim um último olhar e naquele breve segundo, senti como se eu o conhecesse de alguma forma.

Talvez quem sabe, eu o tivesse visto por algum dos lugares que já fui.

Quando me levantei para seguir em direção à minha aula, acabei me distanciando dos meus novos colegas, não demorou muito para alcançar o meu armário. A minha próxima aula seria de literatura e eu precisava pegar o meu exemplar de A Divina Comédia como estava descrito no papelzinho.

Quando fechei a porta do armário, meus olhos focalizaram a garota baixinha a minha frente. Alice, este era o nome dela.

— Olá, Lily. É muito bom finalmente te conhecer!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.