Soul deep
5 Nothing Happened Here
Notas iniciais
— Ei, Jenna! Espere — gritou Charlie enquanto eu saía pela porta da casa de shows, sem direção ou rumo, praticamente correndo pelo estacionamento.
Meu coração batia rápido e podia sentir as veias pulsando por todo meu corpo. Eu não conseguiria lidar com uma possível paixão de Charlie naquele momento. Não enquanto eu ainda tentava suprir a minha própria paixão por Gabe, que havia emergido tão violentamente após revê-lo depois de tanto tempo. Não enquanto eu sabia que ele não havia cumprido com sua promessa. Não enquanto eu sabia que ele não havia esperado por mim.
— O que aconteceu? Depois do show vi você sair correndo — ele perguntou, botando sua mão em meu ombro. Charlie parecia chateado.
— Eu precisava de ar fresco — foi a única resposta que consegui elaborar.
Charlie apoiou-se em uma van, que julguei ser o transporte de sua banda. Ele cruzou os braços e abaixou a cabeça. Seu longo suspiro fez com que eu me sentisse ainda mais aflita e comecei a dar pequenos beliscões em minha coxa, mania que aparecia toda vez que ficava ansiosa.
— Escrevi aquela música anos atrás, Jenna. — finalmente disse — Não estou apaixonado por você. Pelo menos não mais.
Desviei o olhar. Não sabia o que pensar ou o que falar.
— Só queria que você se sentisse melhor sobre tudo isso que está acontecendo com Gabe. Não queria colocar nenhuma responsabilidade sobre você.
Quando olhei novamente para ele já não consegui segurar as lágrimas que agora corriam pelo meu rosto.
— Desculpe.
Foi tudo o que consegui dizer. Charlie então me abraçou e pela primeira vez desde que tinha chegado ali, senti alívio.
Na manhã seguinte acordei com a luz que entrava pela grande janela do quarto de Charlie. Podia sentir o cheiro de seu perfume exalando da camiseta que ele havia me emprestado para dormir. Andei pelo quarto, indo em direção a sala para o encontrar, ainda dormindo, no sofá. Não quis acordá-lo, por isso voltei ao quarto para colocar minhas roupas da noite anterior e pegar minha bolsa. Ao me virar para a porta do quarto, deparei-me com Gabe.
Ficamos nos olhando em silêncio até que ele me ofereceu a xícara de chá que segurava.
— Obrigada, mas tenho que voltar para casa — falei.
— Você está voltando para Londres? — ele parecia assustado.
Hesitei um pouco desconfiada antes de responder que estava voltando para o chalé.
— Tudo bem. — ele deu um passo para trás para que eu pudesse passar pela porta. — Eu te dou uma carona.
— Ah, não precisa — tentava me desviar dele, ao botar o casaco e correr para a saída.
— Eu sei, Jenna. Mas eu quero.
Gabe pegou as chaves do carro e deixou um bilhete para Charlie, que ainda parecia estar sonhando.
— Vamos, faz tempo que não vejo Sarah.
Descemos as escadas do prédio, pois não havia elevador, em silêncio. O sono ainda me impedia de pensar com clareza e estava mais preocupada em não tropeçar em nenhum degrau.
O antigo Jeep de Gabe estava estacionado do outro lado da rua que ainda estava vazia naquele horário. O sol ainda estava se levantando e a brisa da manhã nascente corava o meu rosto. Dentro do carro, percebi uma corrente pendurada no espelho retrovisor com um A em forma de pingente.
Gabe percebendo minha expressão ao olhar para a corrente logo comentou:
— Aurora me deu de presente antes da viagem a Itália.
Não era um A de Alice, mas sim de Aurora. A pequena irmã de Gabe, que já não deveria estar assim tão pequena.
— Ah, claro — tentei disfarçar — como ela está?
— Está bem, você deveria ir visitar ela qualquer hora dessas.
Apenas sorri. Não tinha certeza se aquilo iria me fazer bem. Trazer a tona essas conexões com Aurora e a família de Gabe, mesmo sabendo que eu iria embora dali a alguns dias com a pretensão de cortar meu contato com ele, não me parecia muito justo.
As casas da cidade passavam como vultos pelo vidro do carro em movimento e aquilo era tudo o que eu conseguia captar daquele momento.
— Escolhe uma música — ele disse depois de algum tempo.
O olhei diretamente pela primeira vez desde que havia entrado no carro. Eu me perguntava se alguma hora aquela vontade de chorar toda vez que o encarava por muito tempo iria passar.
— Olha, — Gabe começou a falar, ainda mantendo os olhos na estrada — o que eu disse ontem...Não queria te magoar.
— Eu realmente não quero falar sobre isso, Gabriel.
A viagem continuou até o carro entrar na estradinha que dava acesso ao chalé da tia Sarah. Logo depois, Gabe estacionou e o silêncio tomou conta do ambiente.
Tirei o cinto de segurança e estava prestes a abrir a porta quando senti sua mão segurando meu braço de forma leve, apenas para fazer com que eu me virasse para ele.
— A gente precisa conversar, Jenna.
Desviei o olhar para a janela e pude ver minha tia no jardim do chalé colhendo algumas plantas da horta.
— Não posso, Gabriel. Tenho que ajudar minha tia no evento do sebo hoje.
— Por favor, Jenna — fechou os olhos por um momento — Você não pode ignorar tudo o que a gente passou.
Não pude evitar o riso irônico que escapou pelo meus lábios.
— Eu esperei por você ao longo de quatro anos, para depois você aparecer em Londres e dizer que eu não entendo nada e ainda fez com que eu me sentisse culpada por ter sido uma idiota ao acreditar em esperanças. A próxima coisa que descubro então é que você tem uma namorada e você ainda quer falar que eu ignorei o que nós passamos? — nessa hora minha garganta já estava apertada e lutava para não chorar em sua frente.
Gabriel apertou o volante e voltou seus olhos para o para-brisa.
— Claro que você não irá dizer nada.
— O que você quer que eu diga? Você já deixou bem claro que fui um idiota — suspirou — Só posso me desculpar pela dor que te causei.
E com isso, saí do carro batendo a porta. Vi Gabriel desaparecendo na curva da estrada e senti que aquele havia sido o fim de nossa história. Como sempre, mal eu sabia que estava enganada.
Fale com o autor