Soul deep
2 505
Notas iniciais
Eu desejei sair correndo de lá. Um ano. Ele havia voltado fazia um ano. Um ano que poderia significar dias a menos de angustia para mim. Isso só confirmava minhas suspeitas de que ele já havia me esquecido.
– Ótimo – foi tudo o que eu consegui falar e então, comecei a dar passos apressados em uma direção aleatória. Peter veio correndo atrás de mim e eu podia ouvir a voz de Gabe chamando meu nome ao fundo.
– Jenna! Espere – ele gritou.
Parei subitamente e o encarei. Estava a alguns metros de mim paralisado, sem saber o que fazer.
– Você quer que eu espere? – as lágrimas já escorriam pelo meu rosto – Eu esperei quatro anos. Sem nenhuma notícia sua. Sem saber se ao menos estava bem. Você sabe o que é isso, Gabriel? – falar seu nome o olhando diretamente depois de tanto tempo me proporcionava uma sensação estranha. Reparar nele depois de tanto tempo me era uma sensação estranha.
– Será que você não vai me dar uma chance de me explicar? – ele se aproximou – Você acha que foi fácil para mim?
Peter estava bem ao meu lado se assegurando de minha segurança. Ele sabia de quem Gabe se tratava, pois eu havia lhe contado toda a história daquele verão no primeiro sábado de agosto de dois anos atrás.
Meu coração batia forte, as palmas de minha mão soavam. Aquele não era o jeito que imaginei nosso reencontro.
– Acho melhor vocês conversarem em outro lugar – sugeriu Peter.
Gabriel o olhou e depois se voltou a mim:
– Por favor, Jenna.
...
Nós fomos ao parque. A noite estrelada que costumava me trazer boas lembranças, agora mais parecia como paisagem de dias que foram esquecidos e que não tinha mais certeza do que significaram.
Eu e Gabe nós sentamos em um banco de frente para o lago á sós. Permanecemos em silêncio por um longo tempo até que ele resolveu falar:
– Cleo ficou muito doente no nosso último inverno na Itália, nunca havia se recuperado completamente do seu último surto. Ela não resistiu.
Senti meus músculos ficarem rígidos. Cleo havia falecido.
– Sinto muito – consegui falar.
– É... Foi muito difícil para mim. Eu voltei a Netherby e a enterramos lá. Eu estava muito abalado emocionalmente e não conseguiria lidar com... – interrompeu-se no meio da frase.
– Comigo – a completei.
– Jenna – ele virou-se para me olhar – Eu nunca a esqueci, se quer parei de pensar em você. Mas seria muito doloroso ir atrás de você, pois sempre existiu a possibilidade de você ter seguido em frente. De ter se relacionado com outra pessoa.
– Eu não me relaciono com ninguém desde que você partiu, Gabe.
– E quem é seu amigo? – se referia a Peter.
– Ele é o meu amigo. Se ele é algo a mais que isso, é meu irmão. Peter foi a única pessoa que sempre esteve do meu lado nos últimos três anos.
O silêncio surgiu novamente. Havia tanta coisa para falar, mas eu estava perplexa demais para conseguir transformar quatro anos de sentimentos reprimidos em palavras. E creio que Gabriel se sentia do mesmo jeito.
– Você está morando aqui? – perguntei.
– Não, eu só venho para cá ás vezes. Para visitar Charlie e fazer algumas coisas. Eu estou morando em Little Netherby desde que voltei. Vou pegar o trem amanhã de manhã.
– Então você já vai embora? De novo?
– Jenna, eu não quero que isso acabe aqui. Você pode ir me visitar no final de semana... Aurora gostaria muito de te ver e todos os outros também.
– Eu ir para Netherby? – ele concordou com um aceno – É que já faz tanto tempo. Acho que ainda não estou pronta para isso.
Ele franziu os lábios como se pensasse em uma solução. Vê-lo ali, tão sereno como me recordava, fez com que tamanha nostalgia me tomasse. Naquele momento eu vi o garoto que me beijou após uma discussão boba, no meio de um vasto campo verde sob o céu estrelado.
– Não quero que vá embora – sussurrei, como se não tivesse coragem de falar – não quero que pegue o trem antes que eu possa passar um tempo com você.
– Não vou pegar o trem se você não quiser – seu tom era igualmente baixo.
– O prédio onde moro não é longe daqui... Você pode passar a noite lá se quiser. Em um colchão na sala.
Não pude conter o sorriso no canto dos lábios. O comentário o fez rir e o som de sua risada foi como música para os meus ouvidos.
– Por você eu não me importaria de dormir em uma cama de pregos, Jenna Hudson.
– Você lembrou meu sobrenome. Estou surpresa – falei irônica.
Gabe virou-se para mim e ainda sorrindo disse:
– Eu me lembro de cada detalhe seu.
...
Depois de uns bons dez minutos tentando convencer Peter de que eu estava bem e que Gabe iria me acompanhar até em casa (não falei da parte em que ele iria passar a noite lá, pois meu amigo com certeza iria fazer um discurso falando de como aquilo não era uma boa ideia), eu e Gabriel caminhamos a sós pelas ruas de Londres.
Em um movimento discreto, ele se aproximou e enroscou seu dedo mindinho no meu. E assim continuamos a andar, não trocamos palavra alguma. Não queríamos quebrar o silêncio que naquele momento nos unia. O silêncio que não nos fazia pensar nos anos que haviam se passado, como se pudéssemos simplesmente retomar de onde paramos. Mas no fundo sabíamos que as coisas não eram bem assim.
– Chegamos – disse parando em frente ao prédio em que morava.
– Arquitetura clássica da antiga Londres. Não esperava isso de você, até onde eu me lembro, você era uma garota da cidade que só ligava para coisas da moda.
– Então sua memória está um pouco falha – falei enquanto passávamos pela portaria – O elevador ainda possuí a antiga maquinaria. Não foi reparada muitas vezes, se não me engano.
– Não perdeu seu senso de humor, Jenna – riu.
– Não disse que tinha sido uma piada – respondi séria e apertei o botão do quinto andar.
...
O elevador se abriu para o corredor, saí e logo Gabe veio atrás de mim. Caminhamos pelas portas até chegarmos a de número 505. Peguei a chave em minha bolsa e antes de entrarmos, o ouvi cantarolando uma música:
– I’m going back to 505, if it’s a seven hour flight or a forty-five minute drive. In my imagination you’re waiting lying on your side…
– With your hands between your thighs – completei.
Ele me analisou surpreso e logo esboçou um sorriso.
– Arctic Monkeys? Isso sim é uma surpresa.
– Não escolhi esse apartamento aleatoriamente. É uma das minhas bandas preferidas.
Abri a porta e dei um passo para trás para que Gabe entrasse. Ele parecia analisar o lugar nos mínimos detalhes, desde os quadros na parede, passando pelos discos na estante, até as prateleiras de livros. Então, ele se virou para mim e ali ficou, me observando, imóvel, tentando arranjar uma explicação para tudo o que aconteceu em quatro anos em apenas um minuto.
– Não diga nada – falei balançando a cabeça.
– Você mudou... Completamente. Ao mesmo tempo em que não mudou em nada.
– Você me mudou, Gabriel. Netherby me mudou, aquele verão me mudou. Quatro anos me mudaram.
– Você fala como se eu tivesse culpa. Eu nunca quis que você mudasse, Jenna. Eu a amava como você era.
– Você me amava como eu era? – repeti.
Gabe deu um longo e pauso suspiro.
– Sim, a amava. E tenho quase certeza de que esse sentimento ainda está aqui.
Passei a mão pelo rosto para impedir que qualquer lágrima pudesse rolar. Passei por ele indo até a varanda e me apoiei na grade. As estrelas brilhavam no céu, mas as nuvens as encobriam aos poucos. O tempo estava mudando. As luzes iam se apagando.
– Jenna – ouvi sua voz atrás de mim – Eu passei por muita coisa e eu tenho que ser honesto com você. Ás vezes, em meio a tanta tristeza e melancolia, esquecemos daquilo que um dia já nos fez feliz. Não quero que pense que não gosto mais de você, mas tenho que desenterrar, tenho que tirar dos escombros aquilo que um dia senti.
– Isso não é uma obrigação sua! – exaltei-me – Você não precisa ficar comigo só porque eu o esperei todo esse tempo. Você não precisa tirar de escombros, não precisa desenterrar nada. Não quero que você sinta pena de mim.
Então eu o vi chorando. As lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto de maneira contida, como se ele tentasse ao máximo não deixar que isso acontecesse. Era sua impertinente mania de querer mostrar-se forte quando tudo o que precisava era permitir que a alma chorasse.
– Não Jenna, não sinto pena de você. Você me fez sentir coisas que ninguém jamais fez, me mostrou um lado meu que eu mesmo não conhecia. Quantas vezes não desisti porque eu me lembrei daquela garota que beijei debaixo daquela árvore? Mas não posso fingir que a partir de um momento tudo isso continuou sendo como foi um dia. Porque não foi e você sabe disso. Nós mudamos. Nossa situação mudou. O que nós sentimos também foi mudado. Não negue para si.
Fiquei com raiva. Raiva de não conseguir compreender a sua lógica. Não entender o porquê Gabriel não podia acreditar que os meus sentimentos não haviam mudado em nada, de que tudo não havia se tornado uma velha e empoeirada fotografia, me enfurecia. Tudo ainda estava fresco em minha memória, como uma chuva de verão.
– Escute – ele se aproximou – O trem sai amanhã de manhã. Talvez eu embarque nele, porque quem sabe ter reaparecido em sua vida tenha sido um terrível erro do destino.
– O terrível erro do destino foi ter tirado você de minha vida uma vez... Você ter reaparecido foi uma consequência drástica e cruel. Antes, tudo não passava de hipóteses, mas agora eu sei que você não sente mais aquilo que sentiu.
Gabe me puxou para perto, depositou um beijo sereno em minha testa, passou as mãos delicadamente pelo meu rosto e olhando no fundo dos meus olhos disse:
– Você não entende Jenna. É melhor eu pegar o trem.
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