Soul Soldado

1 One-Shot


Notas iniciais
História feita para o 4º desafio de One-Shots do grupo "Fanfics da OO"
Temas:
• Belo
• Avião
• Fantasma

1942

Nascemos, engatinhamos, corremos, andamos, e quando nosso corpo opta pelo repouso eterno, vagamos. Muitos sem saber onde ir. Lá estava ele no meio da floresta de Katyn, rodeado de seres semelhantes, almas sem propósito se lamentando por não ter vivido o suficiente, ou dando graças de deixar de viver um inferno. Ele não se conformava, não era um deles, não poderia ser. Saiu daquele lugar vagando, sem mapa, sem bússola, sem poder pedir informações. Não sabia onde estava indo, mas sabia que rumo seguir, pois uma força o atraia e lhe guiava. Passou por bairros, atravessou cidades, cruzou países, conheceu várias pessoas sem conhecer a si próprio. Tentava pedir ajuda, mas era ignorado. Começou tentando chamar atenção educadamente. Falava. Acenava. “Por que me ignoram?”. Escolheu ser mais incisivo. Quando uma senhora, no alto dos seus 80 anos passou pela rua, tentou agarra-la pelo braço, mas a mão atravessou o outro corpo como se não houvesse mão. Incrédulo, tentou tocá-la pelo braço mais uma vez, com mais firmeza, e novamente a mão parecia intangível. A senhora não sentiu o toque, mas um arrepio. Ele continuou vagando, atraído pela força distante que o chamava e que ficava mais fraca com o passar do tempo. Após dias e mais dias, chegou às terras da Polônia. O andarilho solitário, agora estava acompanhado de nostalgias e dejavu, se apegou aos seus companheiros de viagem, e assim como várias histórias famosas de amizade, essa foi desfeita por uma dama atraente, a força, a mesma que chamou o sujeito para a Polônia, e continuava o chamando. Sem descanso, prosseguiu para encontrar a única que notou sua existência até então. Vagou até se encontrar em um cemitério, e notar o ponto de onde a força o chamava, era apenas mais uma lápide entre tantas outras. Será mesmo? Ajuelhou-se perante a pedra escrita com baixo relevo. Emmilian C. Patryk era o nome lá cravado. Era justamente ali que foi atraído. “O que quer de mim?”. A força podia chamar a distância, mas não foi capaz de responder uma pergunta de perto. E mais uma vez, o viajante se via sem um propósito, triste e solitário.
— Então, é aí que foi enterrado? – Disse uma voz do cemitério.
O notívago olhou para os cantos procurando de onde vinha a voz e se deparou com um homem de cabeça baixa sentado em um banco improvisado. Era um velho com um chapéu de palha e fumo.
— Ei... O senhor falou comigo?
— Só há nós dois aqui, amigo. Sim, eu mesmo.
— Isso é impressionante, até agora ninguém havia me notado. A não ser alguns cães que latiram pra mim.
— É normal, cães sempre tiveram ligação com o sobrenatural. Acho que eles podem ver vocês, enquanto eu só posso ouvir, como agora, que eu ouvi você lendo o nome na lápide em voz alta, e depois clamando por... Algo... Ou alguém. Não sei ao certo.
— Nem eu sei ao certo. Mas espere, o que quer dizer com “vocês”. O senhor sabe o que eu sou?
— Um morto, é claro. Só estou falando com a sua alma. Sempre venho falar com um de vocês, geralmente não têm pressa, estão dispostos a ouvir e falar comigo, afinal, sou um dos únicos que pode escutá-los. Já os vivos, esses não vão perder o precioso tempo falando com um velho maluco que visita o cemitério.
— Isso não pode ser sério. Não faz sentido. Se eu estou morto, porque não posso ver os outros mortos daqui?
— Geralmente as almas não ficam aqui por muito tempo, a menos quando têm algo pendente a resolver, como deve ser o seu caso. Mas ainda não me respondeu, você foi enterrado nesse túmulo, ou só foi até aí visitar um amigo. É Emmilian o nome dele, não é?!
— Não... Não sei. Não lembro exatamente de onde vim, mas acho que era uma floresta da União Soviética. Eu vim porque algo aqui me atraiu e eu não sei explicar. Não lembro quem eu sou e nem dos meus amigos. Mas tenho alguns flashes às vezes. Em um deles, eu digo para uma menina linda algo como “vou odiar tudo o que nos separar”. E no outro, soldados soviéticos apontam pra mim enquanto dão risada. Talvez riem da minha aparência.
— Hmmm! É comum almas recém mortas não se lembrarem de quem eram, isso depende do trauma. Mas tudo bem, vou te ajudar a se lembrar. Pelo que me contou, eu diria que você foi um soldado, e esteve na última guerra mundial. Se os soviéticos não estavam do seu lado, é provável que fosse um soldado polonês. Sobre essa tal menina, a sua frase pareceu um pouco agressiva e ela não queria estar com você. Soa como se quisesse obriga-la a ser sua.
— Ótimo. Uma garota não me quis, e soviéticos riram de mim. Então até agora eu só sei que eu era um soldado muito feio.
— Infelizmente não posso ajudar mais que isso, como eu disse, e não vejo vocês. Tente olhar para o seu próprio corpo, deve haver uma pista sobre você.
— Bom, eu estou usando traje de piloto, e isso é estranho, o céu me dá agonia, aviões me dão um ódio inexplicável. Acho que fui morto por um deles. Os soviéticos devem ter me obrigado a vestir isso para me humilhar. E há uma queimadura no meu braço. Parece que tentaram me ferir. Feio e odiado, talvez eu fosse a pior pessoa do mundo.
— Não acho que seja totalmente verdade.
— O que quer dizer?
— Você morreu na União Soviética e foi atraído pra cá. Esse túmulo talvez fosse de um enterro simbólico que seus parentes fizeram em sua homenagem É provável que alguém tenha rezado por você sobre esse túmulo. Seja quem for, chorou pelo seu nome, por isso foi atraído até aqui. As orações te chamaram.
— Talvez. Mas espere, isso quer dizer que ela pode voltar e rezar novamente, não é?! Então eu vou me encontrar com a pessoa.
— Sim, mas não sei quando. Pode demorar dias. Pelo menos, eu posso esperar. Afinal, não há nada de importante na minha vida para eu me preocupar.
— E eu nem ao menos tenho uma vida para me preocupar.
O soldado e o velho esperaram e esperaram por dias. Cada pessoa que visitava o cemitério, esperanças nasciam no soldado de que ela rezasse por ele. A segunda guerra continuava ocorrendo, por isso, conheceram muitos novos amigos no decorrer do tempo, mas logo se foram, pois não carregavam pendências na Terra. A ansiedade do soldado espiritualpodia ser matada com horas de conversa jogada fora. Com o tempo, notaram algo curioso, a morte, justamente a mesma morte que separa pessoas, havia unido dois amigos, ambos cidadãos poloneses, e nunca chegariam a se falar em vida. O soldado andava por todos os cantos do cemitério. Na via necessidade de descanso, visto que seu corpo morto em uma floresta soviética faria eternamente aquele trabalho. Até que um dia, uma jovem chegou no cemitério, e assim como os outros visitantes vivos, trazia consigo um semblante tristonho e desesperançoso. Carregava uma rosa branca consigo, e jogou a mesma sobre o túmulo de Emmilian. Seus olhos se tornavam mais húmidos, mas um lenço na mão da jovem impediu a lágrima de escorrer.
— Fala com ela – Pediu o morto amigo ao velho – Por favor, sabe que eu não posso.
O velho confirmou com a cabeça, e sem fazer contato visual com a dama, chamou-lhe atenção:
— Sei como se sente. Estou no alto dos meus oitenta e três. Pode imaginar por quantas perdas assim eu passei?
— Não o conheço – Disse a mulher – Mas eu diria uma, no máximo. Não havia muitos homens como ele.
— Eu entendo. Emmilian, não é?! Foi seu esposo?
— Na verdade o meu pai. Outro polaco morto pelos soviéticos nessa guerra maldita e estúpida.
— Eu sinto muito.
— Obrigada. Ele foi um piloto, amava voar, amava aviões, mas infelizmente foi obrigado a participar dessa guerra, justamente o que não queria. O avião me separou dele, mas o aproximou de sua outra paixão, o céu. Quando eu era criança, ele me disse que ia odiar tudo o que me separasse dele. Provavelmente, está odiando aviões agora, mas se pudesse me ouvir, eu diria que nem os aviões que pilotou e nem o céu me separou dele, pois nunca vou esquecê-lo, e vou leva-lo comigo por onde eu for.
A alma de Emmilian se tranquilizou. Ele sabia agora que não era feio e nem odiado, mas aproveitou a oportunidade, e pediu para que o velho perguntasse sobre sua aparência.
— Pelos seus traços, ele deve ter sido um homem muito belo. – Disse o velho.
A moça sorriu, e encheu seu olhar de nostalgia.
— Era comum dizerem “nossa, como é bonita, nem parece sua filha”, ele odiava isso. Mas sempre me passou segurança e amor. Um homem que não sabia cozinhar, e por isso ganhava queimaduras sérias no braço tentando fazer algo para alimentar a filha. Que não podia ajudar com dinheiro, mas compartilhava um pedaço do próprio pão com o mendigo. Em resumo, eu estou falando de um homem careca, baixinho e monocelha, mas era o homem mais belo que eu já conheci.
Emmilian se pôs diante da filha, estendeu os braços e a abraçou, mesmo sabendo que não poderia toca-la. Ela pôde sentir uma sensação de conforto que há muito havia esquecido, que a remeteu aos tempos que era ninada por Emmilian quando criança. O lenço não era mais importante, pois caiu em prantos, mas dessa vez sem querer esconder as lágrimas. Ela não tinha medo de expor seus sentimentos, e Emmilian perdeu o medo de olhar para o céu. Olhou para cima, e viu um azul forte e brilhante, seu ódio o havia cegado, e não se lembrava do quanto o céu era belo. Lembrou-se de que realmente amava ser piloto, o sonho de ser aviador era tão antigo quanto sua própria existência. O céu não tinha culpa dos erros humanos, e nem os aviões foram feitos para guerra, e sim para unir pessoas, e aqueles três estavam mais unidos do que nunca. Emmilian, permitiu que o céu, seu companheiro de muito tempo, pudesse acolhê-lo de novo. E assim partiu.

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