Soul
12 Sonho de semideusas
Notas iniciais
Apagar duas vezes em um mês. Embora eu não tenha tanta certeza que a primeira vez que eu desmaiei quando eu estava ganhando minha vida, seja exatamente um desmaio. Mas eu devo estar fazendo algo seriamente errado, porque não vejo pessoas normais desmaiarem desse jeito. Acho que nunca vi, alias.
Outra coisa que foi estranha é que eu não estava completamente inconsciente. Eu estava completamente ciente de que meu pai... Tânatos estava me carregando nos seus braços. Senti as sensações ruins de uma viagem nas sombras e senti quando minhas asas tocavam algo frio. A próxima coisa que ouvi foi uma conversa.
–O que aconteceu com ela? — Eu acho que era Nico. Mas podia muito bem ser Annabeth porque eu não estava perfeitamente capacitada para diferenciar vozes.
–Ela só se esforçou demais. — Outra voz disse. — Só precisa descansar.
E a próxima e última coisa que consegui notar foi que estava sã e salva embaixo do meu edredom fofo e com meus travesseiros embaixo da minha cabeça. Depois eu apaguei de verdade, sem nem mesmo ter sonhos.
Acordei de tanta fome e dor nas costas, o que era um pouco duvidoso pois a minha cama era completamente perfeita. O quarto não estava escuro. A luz do sol entrava pelas brechas do blackout. Mas ainda por cima, estava morrendo de sono. Abri os olhos preguiçosamente e me espreguicei ainda deitada. Senti algo macio embaixo de mim, e não era a cama. Puxei pra cima para ver, me deparando com uma pena preta e vermelha.
–Santo deus! — Eu disse me levantando rapidamente, assustada. A mão em que eu me apoiava escorregou para fora da cama e eu cai para o lado com a delicadeza de um dinossauro e soltei um gritinho. O meu pulso explodiu em dor quando ao cair tentei apoiar para não dar de cara com o chão.
Pobres vizinhos do andar de baixo.
Me retorci com a dor por alguns segundos antes de conseguir levantar. O chão estava gelado, pra variar. Agora eu estava: com o pulso doendo, com frio, com fome e com dor nas costas. Estiquei as costas, sentindo um alívio que sumiu quase na mesma hora. Fiz careta. Caminhei/tropecei até o espelho e no caminho acendi a luz. Eu ainda estava de calça jeans e camiseta. Mas eu estava tão apagada que nem havia percebido quando tiraram minha jaqueta e a echarpe. Percebi que as drogas das asas doíam também, por ter deitado de mal jeito em cima delas. Espreguicei novamente, e dessa vez elas também foram na onda. O que acabou resultando em minha árvore dourada de pingentes quase indo para o chão.
Eu tinha que dar um jeito de escondê-las. Só não sabia como.
§§§
Pela milésima vez eu me foquei. Minha cabeça já estava doendo. Não fechei os olhos como das últimas vezes. Encarei as asas pelo reflexo do espelho, e não imaginei-as se apagando. Ordenei que elas o fizessem. Dessa vez eu não fiquei frustrada. Foi como se elas se tornassem uma névoa escura e densa. A névoa se juntou um pouco e foi para as minhas costas e eu senti um calor estranho.
Quando tudo parou, eu tirei minha camiseta para olhar e acendi a luz. Virei para o espelho e vi apenas um vislumbre de um arabesco. Peguei meu notebook, abri a câmera e fiquei de costas para o espelho. E havia uma tatuagem nas minhas costas. Não que eu não tivesse a achado bonita, mas ocupava quase toda as minhas costas. Ok, eu havia gostado. Sempre quis ter uma tatuagem.
Minha barriga roncou, me despertando. Coloquei a camiseta de volta e sai do quarto. A casa provavelmente estava vazia porque ninguém apareceu para olhar o que tinha acontecido no quarto e o silêncio no apartamento era mórbido. Mas a questão era: onde eles foram? Fui para a cozinha e encontrei um bilhete colado na geladeira. Era tão previsível que aquele seria o primeiro lugar que eu iria?
Sophie, nós fomos trocar os carros e depois vamos no mercado. Não faça bagunça.
Porque diabos eu iria fazer bagunça? Eu queria é dormir. E ainda por cima não precisava ser escrito com a letra marcada várias vezes. E porque foram trocar os carros? Não é como se os nossos estivessem velhos.
Amassei o papel e o joguei na lixeira de inox embaixo da ilha. Abri a geladeira, peguei o leite, coloquei na minha caneca de borboletas e esquentei no microondas. Depois, coloquei o cappuccino e voltei para o meu quarto. Troquei de roupa e coloquei um pijama. E bocejando na maioria do tempo e olhando para o nada, tomei meu cappuccino. Mesmo aquilo tendo um pouco de café eu duvidada que iria tirar meu sono. Quando terminei, apaguei a luz, acendi a luminária — prevendo que iria acordar por causa do escuro se não acendesse -, larguei a caneca na escrivaninha e me joguei na cama. Cai no sono quase imediatamente.
Luz. Queimou em meus olhos e fechei os olhos para não doer. A segunda coisa que eu percebi era que eu não estava no lugar onde eu tinha dormido. Era um sonho, talvez? Podia sentir cada corrente de ar frio que batia em mim, a luz clara e pura e obviamente artificial fazia as minhas pálpebras ficarem eu uma cor vermelho vivo. Abri os olhos de pouco a pouco.
Confusa e assustada, olhei ao redor. Eu estava em uma sala completamente branca. Luzes para todos lados, me fazendo duvidar de que haveria a sombra de alguém. Mas ai me lembrei que ela se multiplicaria em quatro partes ou mais, uma sombra clara para cada lado. Mas isso era um dos meus menores medos ali.
Não havia ninguém ali, nem uma porta. Eu estava deitada em uma espécie de maca, e o pânico cresceu dentro de mim. Por alguma razão eu tinha pânico de macas. E para piorar, havia uma corrente nos meus pulsos. E quando eu puxei para ver se conseguia me soltar pelo menos um pouco, algo perfurou minha pele e eu gritei de dor. A primeira coisa que vi foi o sangue escorrendo pelos meus braços em linhas finas. Olhei do jeito que consegui e vi que as correntes eram de ferro e haviam pontas afiadas na parte de dentro, um pouco mas grossas que agulhas. E o que aconteceu foi que grande parte dessas agulhas grossas e afiadas entraram em meu meu pulso. Me contorci sentindo uma dor real até demais. Eu vou acordar logo e tudo vai sumir. Disse isso em minha mente, repetidas e repetidas vezes enquanto tentava tirar as agulhas de mim, mas só acabei piorando e me machucando mais ainda.
–POR FAVOR ALGUÉM ME AJUDA!– Gritei o mais alto que consegui.
Ninguém respondeu e eu gritei tudo que eu podia em várias linguas que eu conhecia mas nenhuma serviu. Nada podia me salvar a não ser acordar. E eu podia ter toda a certeza que aquilo não era um sonho qualquer. Era um sonho de semideusa. Quando uma porta, que era do mesmo jeito que as paredes, se abriu eu me senti aliviada. Finalmente ajuda.
Mas não havia ninguém.
Havia apenas uma bandeja prata polida, flutuando no ar como se alguém invisível a segurasse. A porta se fechou e eu me encolhi quando a bandeja passou do meu lado, minhas mãos tremendo de medo e dor ao mesmo tempo. A bandeja pousou do meu lado em uma mesinha também prata, que eu tinha total certeza de que não estava ali antes. Então eu vi o que havia na bandeja.
Facas. Liquidos em tubos de ensaio. Essa não era uma sala qualquer e eu não estava deitada em uma maca qualquer. Era uma sala de tortura.
Os meus tremores se espalharam pelo corpo e lágrimas escorreram pelo meu rosto. Não! Eu não quero nada disso! Eu queria apenas ter uma vida, me apaixonar, trabalhar, me casar! Não queria ter pesadelos sobre tortura.
Uma das facas se ergueu no ar. Era fina e comprida. Eu implorei para que não fizessem isso. Para quem seja que estava a segurando ou controlando tudo isso. Qualquer um. Mas isso não impediu a faca de se abaixar e se cravar na minha coxa. Eu gritei novamente e chorei.
Você não pode fugir do seu futuro, espectro. Uma voz disse mas eu não consegui prestar muita atenção, a dor distorcia meus sentidos. Mas percebi era que a voz era feminina e familiar. E a forma qual ela disse espectro, fez parecer com que aquilo tivesse outro sentido. Não existe mais um jeito de se esconder. A faca saiu bruscamente da minha coxa, e com a mesma velocidade de antes foi enfiada em outro ponto na mesma perna.
Eu acordei gritando.
Eu estava suando frio, meu corpo todo tremia com o medo e meu rosto estava molhado pelas lágrimas que ainda estavam parando de cair. Muito ocupada para notar quase todo mundo do meu quarto.
–Sophie o que aconteceu? — Hazel disse se sentando na minha cama. Eu a abracei com força, pegando ela de surpresa. Seu cheiro de terra me acalmou, não por me lembrar apenas do conforto e sim também me lembrava de Nico. Eles tinham quase o mesmo cheiro.
Eu continuei abraçada a ela com os olhos fechados, normalizando minha respiração e os batimentos do meu coração.
–Você estava gritando fazia algum tempo. — Leo disse. — Ficamos preocupados.
–Era um pesadelo. — Eu disse respirando fundo, abrindo os olhos e libertando Hazel.
Olhei para eles e percebi que a maior parte dos meninos estava usando apenas calça. Corei e encarei meu edredom.
–É, isso já é meio óbvio. — Murmurou Jason e Piper o censurou.
–Não importa. Já terminou. — Eu disse mais para tentar me tranquilizar do que para fazer eles pararem de fazer perguntas.
–Você não vai contar o que aconteceu? — Annabeth perguntou. Alias, porque ela ainda não foi embora?
–Não! — Eu disse bruscamente e depois tentei disfarçar. — Eu não quero. Fresco demais.
Mesmo eu usando essa desculpa, eles continuaram me encarando e examinando. Encarei o edredom novamente, com vergonha de tanta atenção.
–Ok. Nós vamos ir dormir então. Se algo acontecer pode avisar. — Percy disse, empurrando todo mundo para fora do meu quarto suavemente.
Todo mundo saiu menos Nico. Porque ele não podia acreditar nas mentiras que eu dizia e sair logo do quarto? Seria bem menos trabalhoso.
–Não está tudo bem. Eu sei que você está mentindo. — Ele me acusou.
Quando ele falou eu o olhei, visto que eu só sabia que ele estava no quarto porque olhava pelo canto do olho. Mas o fato era de ele estava apenas de calças também. O examinei. Haviam poucas cicatrizes, todas pequenas. Ele não era do tipo saradão, mas também não era magrelo. Era do tipo que eu mais achava bonito. Ele me pegou observando-o e eu corei desviando o olhar.
–Bons mentirosos conseguem desmascarar outro mentiroso. — Fiz um comentário aleatório. — Mas você pode ir. Eu me viro.
–Você tem certeza que não precisa de nada? — Ele perguntou para se cerificar.
–Não. — Respondi um pouco incerta. Ele já estava no beiral da porta, mas parou ali e esperou eu explicar. — Na verdade, não. Eu não to bem.
Respirei fundo, colocando as coisas no lugar na minha cabeça. Eu não sabia exatamente o que estava fazendo.
–Eu tenho duas perguntas. — Quanto a primeira pergunta eu estava tranquila em fazer. A segunda nem tanto. — O que a palavra espectro te lembra?
Ele pensou por um tempo, como se a palavra tivesse milhares de possibilidades.
–Depende do que quer dizer. Me lembra do Mundo Inferior, Hécate, você... — Sorri levemente. — Mas nada em exato. Nenhuma lenda.
–O que Hécate tem a ver? — Eu perguntei e ele respirou fundo e eu sorri de leve. — Preguiça de explicar?
–É. — Ele sorriu também.
–Senta aqui. — Bati de leve no colchão ao meu lado.
Ele veio e se sentou ao meu lado, e eu me senti mais segura na mesma hora. Cruzei as pernas e encostei as costas na cabeceira da cama. Ele se ajeitou também e acabou sentado também de pernas cruzadas de frente pra mim.
–Então... O que Hécate tem a ver com espectros? — Perguntei ao pegar ele me analizando. Me ocorreu naquele momento que o meu pijama era de ursinhos e um pouco curto demais.
–Nos livros de mitologia grega, falam que Hécate tinha, ou ainda tem eu não sei bem, alguns seguidores. Fantasmas em sua maioria, Dracaenas, cães infernais. Os fantasmas geralmente eram bruxas, servas, seus filhos e filhas semideuses, fantasmas de pessoas que de alguma forma a serviam a ela basicamente.
–Bruxas? Tipo... Estilo comum ou estilo Harry Potter? — Era uma pergunta extremamente idiota, mas eu queria o manter ali comigo o máximo de tempo que eu conseguisse.
–Não. Nenhum desses. — Ele disse rindo de leve. — Do tipo com poderes de verdade, que tem bençãos de deuses, e fazem coisas grandes.
Toda aquela conversa não estava indo para lugar nenhum. Eu não havia achado nada nisso que tinha a ver comigo. Nico notou meu silêncio e começou a me analisar, de um jeito muito parecido com o de Annabeth. Aquele tipo de avaliação que a pessoa te encara e parece que está dissecando a sua mente.
–Você está frustrada. — Ele concluiu com um tom um pouco divertido. — Porque?
–Porque, isso não tem a ver comigo. Não tem a ver com o meu passado. — Acho que a mulher do meu sonho não queria dizer nada além do óbvio. Que eu era um espectro antes de ter a vida.
–Você não vai me contar o que aconteceu no sonho, não é? — Sacudi a minha cabeça de leve, olhando para ele novamente.
–Não consigo.
–Eu acho que você deveria contar para alguém. É mais fácil carregar os medos quando os divide com alguém. — Não imagino o porque, mas suas palavras soaram... Antiquadas, eu acho. Como se por um momento, ele não fosse dessa época. — Mas o que eu estou dizendo. Nunca conto pra ninguém meus pesadelos quando tenho. Nem mesmo muitos detalhes sobre mim as pessoas sabem.
–Você tem muitos pesadelos não é? — Meu tom de voz se tornou suave. — Eu ouço você andando pelo apartamento. Algumas vezes você até sai. Sem contar que você tem muita olheira as vezes.
Ele desviou o olhar, mas tive tempo de ver que eu estava de frente para a versão vulnerável de Nico di Angelo. Talvez era isso que me fazia gostar dele. Ele nunca se permitia ser vulnerável, mas quando era, dava para ver o quanto ele estava quebrado e ao mesmo tempo o quanto ele era forte. Ele era intrigante, doce, divertido, assustador, protetor, tudo ao mesmo tempo. Ele era o Nico, afinal. E naquele momento estúpido depois de um pesadelo horrível, eu realmente me dei conta de que o amava.
–No que está pensando? — Ele perguntou, não tocando no assunto anterior. Com uma pontada de coragem eu respondi.
–Em você. — A resposta pareceu deixar ele surpreso. Eu o peguei desprevinido novamente.
–E no que exatamente você está pensando sobre mim? — Ele perguntou, seu tom de voz calmo como sempre mas a sua voz rouca e o fato de estarmos falando baixo fez aquilo soar um pouco indecente.
–No quão pouco eu o vejo sendo vulnerável e que é bom ver você assim. E outra coisa também. — Nossas mãos estavam tão próximas. Uma esticadinha era mais que o preciso para poder segurar sua mão.
–Qual era a segunda coisa que você queria perguntar? — Ele disse usando seu tom de voz suave. Eu respirei fundo sem nenhum motivo.
–Pode ficar aqui e me fazer companhia? — Ele demorou um pouco pra responder, mas quando o fez uma boa sensação cresceu dentro de mim.
–Eu não posso te dizer não. E além do mais, eu perdi o sono e eu sei que você não vai dormir tão cedo.
Eu sorri levemente e olhei para nossas mãos próximas uma da outra e me surpreendi quando Nico segurou minha mão e entrelaçou nossos dedos. Voltei a olhar para ele, meu coração batendo rápido. Olhei em seus olhos para ter certeza de que tudo aquilo não era ilusão. Mas não era. Não era porque eu pude ver em seus olhos que ele estava se deixando ser vulnerável, do jeito que eu disse que gostava de vê-lo. Nossos rostos se aproximaram. Senti sua respiração quente.
E então ele acabou com o espaço entre nós e nos beijamos.
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