Soul

28 Passado, presente e futuro juntos para me atormentar


Notas iniciais
Oi gente, sei que sumi nessas férias. É que eu estava sem inspiração nenhuma, mas agora ela está de volta e com tudo.

Nós paramos, encarando um ao outro sem saber o que dizer. Eu estava com medo de dizer algo errado na verdade. Eu queria sentir sua proximidade, sentir o frio que as vezes emanava do corpo dele.

–Desculpa pelo seu pescoço. — Disse desajeitada. Parecia que eu era a menina insegura que havia acabado de ganhar a vida, tudo de novo. — Os meninos já...?

–É, eles explicaram pra mim. Um pouco por cima demais, mas acho que entendi.

–O que você entendeu? — Cruzei os braços por não saber o que fazer e porque estava sentindo leves pontadas de dor de novo.

–Você achou que estava em um tipo de sonho e pra acordar dele, me estrangulou.

–Basicamente isso. Mas não era um sonho, eram visões. Korinna costumava fazer isso comigo todas as vezes e eu sempre matava ou desacordava alguém para sair deles. É complicado.

–Foi por isso que me afastou?

–O que?

–Foi por isso que quando estávamos nos beijando, você se afastou e me empurrou?

–É.

–Se eu te beijasse agora, ia me afastar?

–Talvez não. — Um calor passou pelo meu rosto e as minhas mãos formigaram, como sempre acontecia quando eu sabia que ele ia me beijar ou ficar muito próximo de mim. A antecipação.

Ele andou até mim, seus passos eram lentos e chegava quase a ser irritante e doloroso ao mesmo tempo. Quando chegou bem perto de mim, descruzou meus braços e pegou minhas mãos. Naquele ponto, eu mal sentia minhas mãos por causa do formigamento. Beijou-as, com a maior ternura que eu já havia visto. Como ele era mais alto que eu, meus braços foram muito esticados pra poderem alcançar sua boca.

Quando soltou elas, coloquei as mãos em seus ombros sentindo o conforto que a sua pele fria me trazia. Minhas mãos estavam frias, mas era pela ansiedade. Enrolei os cabelos da nuca dele em meus dedos, sentindo o cabelo macio. Me estiquei para alcançar seu rosto e ele abaixou. Quando eu pensei que ele ia me beijar, ele desviou um pouco e beijou minha bochecha bem perto da minha orelha. Então ele fez todo o caminho até a minha boca, dando beijos leves. Eu já estava fora do ar quando sua boca roçou na minha.

Por não aguentar mais, me estiquei e quebrei a pequena distância entre nós de uma vez. Seus lábios estavam doces, devia ser porque os meus estavam salgados demais por causa das lágrimas. Enquanto ele estava lá, percebi que meu mundo havia voltado aos eixos de uma vez só. Eu estava sã e salva.

Talvez a parte do "sã" nem tanto.

Percebi que o beijo estava acabando quando ele começou a me dar pequenos beijos, ainda na boca. Curtos e rápidos, mas sem ser forçado ou indelicado. Era perfeito.

–Senti sua falta. — Ele falou, e sua voz soou embargada. Abri os olhos para ver seus olhos cheios de lágrimas. — Senti tanto. — Ele sussurrou.

Ao ver aquilo, o quanto ele estava quebrado, chorei junto com ele. De alegria, por estar ali e de tristeza, por termos ficado tanto tempo separados. Eu não sabia quanto tempo tinha ficado longe ainda, mas qualquer espaço de tempo longe dele parecia muito e era ruim.

O abracei forte, enterrei meu rosto em seu peito e ele apoiou o queixo no topo da minha cabeça. Continuei chorando ali com ele, até não aguentar mais. E eu sabia que ele chorava também, porque podia sentir sua respiração tremulando quando ele puxava o ar, e as lágrimas que escorriam e acabavam em seu queixo e na minha cabeça.

No fim, eu me separei dele e o beijei com uma urgência diferente da de antes. Antes a saudade falava mais alto, dessa vez era a vontade de querer ele mais perto de mim, me tocando. Uma mão estava na minha nuca se enroscando nos meus cabelos e a outra na base da minha coluna, fazendo aquela parte arder como se houvesse fogo nas suas mãos. Havia fogo nos meus lábios também.

Então alguém bateu na porta. Maldito seja essa pessoa, pensei com raiva por me separar abruptamente de Nico. Respirei fundo várias vezes antes de me soltar dele totalmente e ir atender a porta. Quando coloquei a mão na maçaneta, percebi que a minha mão estava tremendo. E muito. E a minha boca estava quase dormente.

–Estamos esperando vocês para jantar. — Anunciou Elisa, me olhando com um olhar malicioso assim que eu abri a porta.

–Não podem começar sem a gente?

–Não. Queremos vocês lá agora. Ah, e talvez queira arrumar o ombro da sua camiseta.

Olhei para meu ombro direito e a blusa estava caída e fora do lugar. A gola estava na junção do ombro com meu braço. Deuses, como eu não havia percebido aquilo eu não sei.

–E arrumar o cabelo, os dois. Estão parecendo loucos. — E com essa saída triunfal, Elisa deu as costas e saiu andando.

Arrumei a blusa o mais rápido que pude e prendi meu cabelo em um coque em tempo recorde. Olhei para Nico e ele parecia uma pessoa normal, a não ser pela boca vermelha contrastando com a pele branca que nem leite que ele tinha.

–Pareço normal? — Ele perguntou.

–Não. E eu?

–Longe disso.

–Ótimo, porque não estou. — Abri a porta completamente, e vi um corredor com parede, chão e teto feitos de tábuas de madeira. Nico veio até mim e pegou minha mão, um pouco do aconchego apareceu. — Mostre o caminho.

Andamos por um corredor longo cheio de portas que segundo Nico, eram quartos. Tudo aquilo contrastava com o que eu estava acostumada a ver, o marrom das madeiras não tinha nada a ver com a brancura que tudo tinha quando Korinna estava me mantendo presa.

O som de conversas foi aumentando, Nico desacelerou o passo e pegou a minha mão e deu um beijo na minha testa.

–Amo você. — Ele sussurrou em meu ouvido e eu senti um arrepio passar por todo o meu corpo.

Parei e coloquei a minha mão na sua nuca. O puxei para um beijo suave e calmo. Quando me afastei, continuei com os meus lábios tocando os dele de leve. E então eu disse:

–Eu amo você também.

Dessa vez ele me beijou, com uma intensidade muito maior do que a primeira vez. E nós só nos separamos porque algo havia caído e feito um som estridente, na sala de jantar. Provavelmente talheres.

Nos separamos, Nico passou um braço por cima dos meus ombros e eu coloquei um braço em sua cintura. Me senti uma criança pequena protegida por um adulto. Naquele abraço aconchegante, fomos até a sala de jantar.

A conversa cessou de uma forma estranha quando entramos, e eles fizeram aquele negócio de evitar olhar e encarar. Tudo era suspeito.

Havia uma mesa bem grande no centro da sala, com poltronas de couro pretas e um armário cheio de pratos, talheres e copos. Nada de comida na mesa ou algo assim. Cada um comia algo diferente, de bolachas a pizza. São pratos e copos do acampamento, percebi.

Sentei em uma cadeira ao lado de Leo e Nico sentou ao meu lado. Elisa estava ao lado de Leo. Elizabeth, Aella e Annabeth estavam sentadas na nossa frente e Percy na cabeceira da mesa. Havia um prato e um copo na minha frente com um garfo, uma faca e uma colher. Uma coisa meio você é livre pra comer churrasco de colher.

Eu estava tão perdida e tão cansada que pedi a primeira coisa que me veio a mente. Uma lasanha. Então, apareceu um pedaço gigante de lasanha de presunto e queijo com catupiry do jeito que eu gostava de comer. Mas o pedaço era tão grande que eu levaria dois dias pra comer. Se fosse antigamente, eu o comeria inteiro sem nem pensar duas vezes.

Peguei um garfo e comecei a comer, e foi como se eu estivesse comendo o paraíso. Fazia muito tempo que eu não comia nada bom assim. Aliás, fazia quanto tempo?

–Então. — Falei para quebrar o silêncio. — Quanto tempo eu fiquei fora? Fora é um jeito doce de dizer fiquei presa em um inferno, na verdade.

–Sophie não acho que deva... — Annabeth começou.

–Não quero saber disso! Quero saber em que mês estamos.

–Estamos em Julho. — Elizabeth respondeu, mas ela falou tão baixo que pareceu que ela estava se sentindo como se estivesse pisando em ovos.

–Fiquei fora por só um mês? — Perguntei incrédula, quase feliz.

–Não. — Agora Leo agia como se estivesse pisando em ovos. Alguma coisa estava errada, com certeza. — Estamos em Julho de 2015.

Um ano e um mês. Eu havia sido mantida presa por Korinna por um ano inteiro? Sendo torturada física e psicológicamente. Meu coração começou a bater mais rápido e eu percebi que estava começando a ter um ataque de pânico. Tentei ignorar e comi um pedaço pequeno da lasanha, mas minha fome havia sumido. Meus olhos estavam ardendo com a ameaça de lágrimas.

–O que aconteceu enquanto isso? — Perguntei olhando para o prato, evitando olhar para o rosto deles e ver a expressão de pena deles.

–Sophie acho que a gente tinha que ir mais devagar. — Percy falou calmamente como se falavam com animais que estavam assustados. Voz doce, lenta e calmamente. Minha mão começou a tremer e eu senti o pânico surgindo de novo.

–Não me enrolem. Eu sei que as coisas aconteceram enquanto eu estava fora, não sou idiota. Eu quero saber o que.

Pelo canto do olho, vi Leo se mover. Olhei para ele e ele estava de mãos dadas com Elisa. Era uma boa mudança, mas ainda era uma mudança brusca.

–Vocês estão juntos. — Pensei em voz alta. Leo e Elisa se encolheram como se eu os tivesse machucando, eles se sentiam quase que culpados. — O que mais?

–Hazel e Frank foram morar no acampamento romano. — Leo disse.

–Jason e Piper foram para o acampamento porque não podiam ficar sozinhos no apartamento. Ninguém vai lá desde o ataque. — Annabeth disse dessa vez. Respirou fundo e depois soltou outra notícia. — Percy e eu estamos noivos.

Minha visão ficou turva e eu estava tremendo mais do que estava antes. E eu também estava suando. Meu corte dava pontadas de dor fortes.

–O Acampamento pegou fogo alguns meses atrás. Está tudo quase normal, mas mesmo assim aconteceu. — Elizabeth falou dessa vez.

Olhei para Aella porque ela era uma a única que não havia falando nada até agora. Ela estava com algo nas mãos, sua faca. E a estava girando entre os dedos, fazendo ela rodar sem cair com aquele ziguezague entre os dedos.

Uma imagem tremeluziu na minha frente, então eu estava de volta no cativeiro e vi Korinna rodar uma faca entre as mãos. A imagem sumiu tão rápido quanto apareceu e eu estava no barco de novo.

Mas aquela visão foi o suficiente para me fazer entrar em pânico total. Levantei sem dizer nada e correndo sai dali, correndo das mudanças e coisas que eu havia perdido, da imagem de Korinna.

Corri pelo corredor e segui a corrente de ar. Eu não conseguia respirar e meu corpo todo doía porque eu estava usando músculos que não usava fazia muito tempo. Um ano, repetiu na minha cabeça várias e várias vezes até eu encontrar uma porta no fim do corredor. A abri e sai, acabando parar em um deck grande. Corri para a amurada e me debrucei sobre ele. Puxei o ar pelo nariz e soltei pela boca, mas eu via imagens de Korinna enfiando facas em mim e das ilusões que ela plantava na minha cabeça. Gritei sentindo uma dor fantasma quando Korinna surgiu e enfiou uma faca em meu coração, como havia feito varias vezes.

Eu estava chorando e tremendo muito, meu coração batia muito forte e muito rápido.

O barco, estava no ar. Estavamos no nível das nuvens e aquilo deveria estar nos afetando mas acho que por sermos semideuses possuíamos uma imunidade maior ao ar rarefeito ou sei lá. Ou talvez o barco era protegido por uma bolha sei lá.

O fato era que eu não podia respirar, as imagens do que havia ocorrido apareciam em como flash na minha mente e sumiam igualmente rápido. Ela vai me pegar de novo em algum ponto. Eu vou ter as facas e toda aquela dor, os pesadelos, a escuridão de quando eu desmaiava. Uma hora ela vai me matar, vai se cansar de mim e vai me matar. Então ela vai destruir tudo...

Sophie? — Uma voz interrompeu meus devaneios e uma mão tocou meu ombro. Virei pronta para atacar, tirando a mão dele do meu ombro e segurando seu pulso com força no processo. Mas era apenas Percy. — Você está bem?

Meu coração batia rápido e forte e eu ainda não conseguia respirar direito. Estava suando e tremendo, me sentindo fraca e indefesa. Apenas soltei o pulso dele e me afastei, assustada.

–Você está tendo um transtorno pós traumático. Precisa se acalmar.

Ele esticou o braço para tocar meu ombro novamente, mas de repente ele era Korinna e ela possuía um sorriso diabólico no rosto. Segurava uma adaga indo em direção ao meu pescoço, para me matar de vez.

–Você é fraca e uma criança assustada, não me admira que a sua mãe tenha te matado. — Ela disse. Gritei e me afastei, com um medo primitivo e idiota. Fui parar do lado oposto do deck, fugindo dela.

Mas ela correu até mim, e em um movimento estranho para ser Korinna, me deu um tapa forte no rosto.

Meu rosto ardeu muito com o impacto e alguns segundos depois se tornou uma espécie de dormente doloroso. Minha visão piscou e ficou meio confusa e voltou ao normal alguns segundos depois da dormência aparecer. Havia sangue na minha boca porque no impacto eu deveria ter me machucado.

Olhei para frente onde Korinna estava mas não era ela quem estava lá. Era Percy. Eu respirei fundo, feliz ao dar falta da falta de ar que eu estava sentindo e do coração batendo extremamente rápido. Coloquei a mão na bochecha para checar se estava tudo bem.

–Me desculpa Sophie, eu...

–Esta tudo bem, de verdade. Obrigada. — Eu o abracei, mais para me acalmar do que a ele. Respirei fundo novamente, mantendo a calma.

Me separei dele e fiquei feliz de notar que estava tremendo um pouco menos.

–O que aconteceu? — Annabeth saiu correndo do corredor e saindo para o deck seguida de basicamente todo mundo. Parecia que ela estava tendo um treco.

–Está tudo bem. — Eu consegui dizer apesar do lado do meu rosto estar adormecido.

–Ela estava tendo um ataque de pânico. — Esclareceu Percy.

Nico e Aella vieram até mim, ambos preocupados comigo. Aella virou meu rosto segurando o queixo para analisar o estrago.

–Dai você deu um tapa nela? — Nico estava furioso.

–Eu vi em vários filmes que isso funciona! E funcionou na verdade.

–Está tudo bem. — Interrompi a briga antes que eles começassem a se estapear. — Funcionou, se não fosse por isso eu ainda estaria correndo e gritando pelo deck. — Tirei delicadamente a mão de Aella. — Ataque de Pânico, era o que me faltava.

Eles pareciam extremamente culpados, duvido que os sentimentos deles fossem menos intensos do que as expressões deles. Minha barriga começou a dar pontadas fortes o suficiente pra me fazer dar uma careta e colocar a mão sobre o ferimento. Nico apareceu do meu lado como se tivesse um poder pra me entender, ou apenas estava prestando atenção em mim.

–Eu estou bem. — Consegui dizer, mas mesmo assim passei um braço ao redor de sua cintura em busca de apoio.

–Bem o suficiente para conversarmos? — Elizabeth perguntou. — Por que alguns de nós precisamos esclarecer umas coisas.

Como se ela tivesse feito algo, todos olharam para Aella. Eles já deviam suspeitar dela fazia mais tempo. Ela ergueu as mãos em um sinal de rendição e saiu andando para a sala de jantar, que mais tarde identifiquei como uma sala de reuniões também.

Sentei com Nico de um lado e Annabeth de outro. Aella estava na minha frente e de cada lado estava uma irmã de Éolo. Percy estava do lado de Annie e Leo estava na cabeceira da mesa.

Ela contou tudo, como mentiu para entrar no navio e me resgatar, quem nós éramos e sobre as nossas origens. Conforme foi contado as coisas, ela agia com cautela olhando para mim sempre que contava coisas importantes, mas eu percebi que sabia todas. Quase todas, na verdade.

–Aimée sabe quem são os três Espectros de Hécate? — Ela me perguntou a fim de me colocar na conversa. Percebi que todos ficaram confusos pelo nome que ela me chamou.

–Lua, fogo e magia. Se eu entendi certo pelo que vi nas minhas memórias.

–Certo. E você sabe quem é quem?

–Não, mas tenho meus palpites.

–Ótimo. Entendam, na antiguidade as divindades possuiam vários atributos. Nós não somos exceção. Korinna era ou é, não tenho certeza ainda, a magia. A serpente. A chave.

–Combina bem com ela, a serpente. — Leo comentou.

–Certamente. — Ela deu um sorriso leve para ele. Ela parecia ser mais velha assim, falando dessa forma e ensinando as coisas. Explicando tudo para mim e para os outros. — Eu sou o fogo. O cavalo ou a tocha. Enquanto Aimée era ou é, ainda preciso descobrir, a Lua. O cão ou a adaga.

Ótimo mais poderes para lidar. Eu mal conseguia lidar com as coisas sendo apenas filha de Tânatos, como iria ser agora?

–Com Aimée, você quer dizer Sophie não é? — Percy quis esclareceu. Aella acenou com a cabeça.

–Eu já ouvi histórias sobre os Espectros. Mas pensava que eram apenas fantasmas não pessoas de verdade, ainda mais mulheres. — Annabeth estava mais curiosa quanto a minha origem do que eu. Eu estava curiosa, mas estava com medo também.

–Porque não tem certeza se eu e Korinna mantemos nossas antigas formas, e você sim? — Consegui me obrigar a perguntar.

–É por ai que a história complica. — Ela murmurou.

–Pior do que a minha noite está sendo, não fica. — Fui tomada for um mal humor.

–Duvido, não diga essas coisas. Por que sempre fica pior. Eu ainda nem contei por que estou aqui, ou o que aconteceu na nossa última noite juntas.

Notas finais
O que estão achando do capítulo? Falta alguma coisa que vocês querem ver? Me contem. Se quiserem falar da vida de vocês também está valendo. Uma curiosidade que eu tenho, sobre vocês que leem: De onde vocês são? Caso queiram saber, eu sou do Mato Grosso. E qual a idade de vocês? Eu tenho 16. Enfim, me contem um pouco sobre vocês