Soul

20 Dia de não-descanso


Notas iniciais
Demorei pra cacete desculpa. E a desculpa é que eu me mudei de cidade, dai fiquei sem internet um tempão e só voltou agora. O capítulo ta pronto faz tempo mas só agora to podendo postar

Chorar era a coisa mais odiosa do mundo. Mas ao mesmo tempo era bom. Pra deixar a dor ir embora, uma parte dela. Era uma pena que não fazia as memórias ruins e toda a dor ir embora. Minha vida seria mais fácil se isso acontecesse.

Não senti a viagem nas sombras. Não vi ou ouvi nada. Naquele ponto do dia eu mal me importava com droga alguma. Apenas fiquei abraçada à Nico, sentindo seu cheiro de perfume masculino importado e molhando sua camiseta com minhas lágrimas.

Minha vida passou de incrível para fundo do poço extremamente melancólico dentro de uma droga de semana.

Só notei que estava de volta ao meu chalé quando Nico me colocou na cama de baixo da beliche. Eu não entendia porque eu tinha uma beliche sendo que era apenas eu ali dentro e sempre seria.

Sem falarmos uma palavra um para o outro, ele me deitou na cama, ajeitou meu travesseiro, me cobriu porque eu estava tremendo sem nenhuma razão óbvia e também, ao ver que eu estava agarrando, apertando e abraçando o cobertor, me deu um outro travesseiro para ocupar o lugar do cobertor que estava sofrendo ao ser torturado e amassado.

Me deu um beijo longo na bochecha e tirou meus cabelos do rosto. Todo esse cuidado sem dizer uma palavra para mim e sem eu ter que fazê-lo também.



–Você vai voltar? — Falei lutando contra os odiosos soluços.

–Não vou demorar. — Ele respondeu simplesmente. Mesmo com a visão embaçada poderia ver o quanto ele estava triste de me ver daquele jeito. Alcancei sua mão e do jeito que consegui o puxei lentamente até mim.



Eu o beijei e senti a paz por um segundo. Meus problemas não pareciam tão maiores quando ele estava perto, ainda mais quando nos beijávamos.

Ele passou as mãos pelo meu cabelo, depois se virou e saiu do chalé.

Eu só esperava que o seu não vou demorar fosse mesmo verdade.



Nico



Porque raios Sophie Seele me tornava tão vulnerável?

Era como se ela tirasse toda a minha dureza, me tornasse como eu era antes de Bianca se for. Ou antes de Hazel aparecer e me deixar mais mole. Minha vida era basicamente destruída por pessoas do sexo feminino.

Por mais gay que isso possa soar, ver ela sofrendo daquele jeito me fazia sentir como se eu estivesse levando uma facada. Me deixava sentindo uma agonia que era horrível.

Respirei fundo quando fechei a porta atrás de mim. O sol estava forte, deveria ser cerca de 15:20 da tarde. Eu estava quase feliz de ver um pouco de sol, luz e calor. Quase. Se ele não ardesse tanto talvez seria melhor.

Passei as mãos pelos cabelos, bufando impaciente e irritado. Que droga de vida Sophie estava tendo. E a culpa em parte era minha por que fui eu quem pedi para que trouxessem ela à vida.

Atravessei a área dos chalés e entrei no chalé de Hades. Entrei e fechei a porta atrás de mim. Nem precisei olhar muita coisa pra ver que Hazel estava ali. Eu podia sentir sua presença e também, havia algumas pedras preciosas no canto do chalé.

Hazel tinha esse poder desde pequena pelo que ela havia me tido. Ela tinha o poder de atrair jóias e esse tipo de coisa, geralmente saia do chão. Haviam raras situações que caiam do céu. Vai entender. Mas tudo que ela atraia ou fazia surgir, não podia ser tocado porque estava amaldiçoado. Esse poder a matou há cerca de uns sessenta e cinco anos atrás. E há uns três eu a trouxe de volta a vida.

Não, meu hobby não é trazer pessoas de volta a vida.

Ela estava deitada na beliche de baixo, jogando uma pedra transparente pra cima. Mas quando ouviu a porta se abrindo e fechando ela se levantou bem rápido.



–Onde esteve? Fiquei preocupada!

–O irmão mais velho sou eu Hazel. — Tentei um pouco de humor negro mas nem aquilo parecia que estava funcionando pra mim hoje.

–E dai? Onde esteve? — Ela repetiu a pergunta.

–Ajudando Sophie. — Me sentei na cama como se fosse um saco de arroz sendo jogado.



Ela me deu um olhar impaciente mas ela não me obrigou a contar. Tirei os sapatos e joguei do outro lado do chalé. Nem ia fazer muito efeito porque logo eu ia ter que colocar novamente.



–Ajudando em que? É complicado? – Ela fez uma imitação mal feita da minha voz ao falar a segunda frase e eu fiz uma careta. Se a minha voz era estranha daquele jeito eu precisava de uma cirurgia para mudar a voz ou sei lá.

–Tipo isso. Só não estou com ânimo para explicar.

–Mais tarde vai me contar querendo ou não.

–Só vou contar se Sophie quiser, na verdade.



Levantei um e fui para o banheiro tomar um banho.

Quando voltei, Hazel não estava mais lá. Provavelmente estava treinando com Piper ou algo assim. Passei no chalé de Sophie e encontrei ela em um sono pesado. Ela estava encolhida na cama como uma bola, o que fazia ela ficar parecendo um tatu do jeito que estava. Coloquei o cobertor sobre ela e vi que ela chorava silenciosamente enquanto dormia. A peguei murmurando um por favor e fiquei tentado a acordar ela. Pode jurar que também ouvi ela falar Nico, não.

Antes que eu pudesse pensar sobre a idéia, ela acordou com um grito se sentando na cama. Sua respiração estava rápida e ela parecia prestes a ter um colapso.



–Soph... — Murmurei. Ela me abraçou com força, fincando suas unhas em minha camiseta e quase rasgando minha camiseta. Seu coração estava muito acelerado e pude sentir seu corpo tremer um pouco. Fiquei um pouco melhor de saber que ela não estava chorando. — Shh. Calma.

–Eu vi todos vocês morrendo e eu não podia fazer nada. — Ela murmurou com a voz sendo abafada pelo tecido da minha camiseta.

–Foi só um pesadelo Sophie. Estamos todos bem.

–Nem todos.



Ela se soltou de mim e respirou fundo. Prendeu o cabelo daquele jeito que as meninas fazem sem usar nada e tirou a coberta de cima dela.



–Eu vou tomar um banho e sair desse chalé. Ficar aqui esta longe de me ajudar.

–Eu estou vendo mesmo.



Ela olhou pra mim e ergueu a sobrancelha. Como se ela estivesse esperando que eu fizesse alguma coisa. Ficamos nos encarando por um tempo antes dela falar.



–Eu vou tomar banho.

–Você já falou isso. — Ela ergueu a sobrancelha novamente.

–Pode dar licença? — Eu senti minhas bochechas queimarem.

–O banheiro é bem ali. Não preciso sair. Mas eu saio.

–Bom garoto.

–Não me chame assim. Não sou cachorro.

–Se fosse teria um pelo preto bem brilhante. — Ela brincou e em seguida passou a mão pelo meu cabelo, bagunçando mais do que já estava.

–Vai tomar banho Seele. — Ela deu um meio sorriso e foi para o banheiro.



Antes que ela me arrumasse alguma outra versão animal para mim, sai do chalé. Deveria ser cerca de 5 da tarde e o sol estava bem na minha cara. Decidi dar uma volta para refrescar a cabeça um pouco.

Fui até o refeitório e peguei duas romãs. O que demorou mais que o planejado porque tive que ir buscar as frutas na árvore perto do refeitório, na entrada da floresta. Também tive que aguentar dríades se escondendo de mim. A vida não é fácil.

Decidi ir até a arena ver quem estava lá. Aquele lugar me matava de tédio e eu mal podia esperar para a hora em que íamos embora. O problema é que faltavam uns dias ainda.



–Ainda comendo a fruta do Mundo Inferior. — Uma voz falou do meu lado. — Pelo menos parou de andar tanto nas sombras.

–Se quiser posso voltar a andar nas sombras Jason.



De todos os semideuses com quem eu morava, Jason parecia que era o que mais me conhecia. Também, ele guardava um segredo para mim faziam anos. Me convenceu a parar de ficar tão sozinho e afastar as pessoas, a viver com eles esse ano. Entre muitas outras coisas.



–Deuses, não. Você fez uma evolução enorme.

–Não sou um pokémon. – Disse dando uma mordida na romã.

–Não sabia que conhecia pokémon. — Olhei para ele e rolei os olhos.

–O que está fazendo aqui exatamente?

–Não posso conversar com você mais?



Não respondi. Ele queria falar algo, eu tinha certeza. Sua linguagem corporal denunciava aquilo.



–Fala logo. — Disse um pouco irritado.



Ele suspirou e parou de andar. Fui obrigado a parar de andar se quisesse continuar a conversa. Ele olhou para o chão ao invés de olhar para mim. O que já mostrava que não era um assunto exatamente bom.



–A escola ligou. A amiga da Sophie, Anne, foi atropelada hoje a tarde.



Foi ai que eu percebi que eles não ficaram sabendo de nada. Ela não contara nada à eles.



–Ela morreu, Nico. — Eu não sabia o que responder. O que eu queria saber é porque ela não tinha contado para eles. — Eles vão fazer uma cerimônia para ela depois de amanhã e querem que ela compareça por ser amiga dela. Se ela puder é claro. E, eu não faço idéia de como contar isso para ela. Pensei que poderia me ajudar.

–Contar o que para mim? — Ouvi a voz melodiosa de Sophie vindo do meu lado.



Olhei e vi ela em roupas discretas de luto. Uma calça, blusa de alças e botas. Tudo preto. Para completar tinha uma aparência extremamente cansada e abatida.



–Você sumiu hoje? Onde esteve? — Perguntou Jason.

–Só lidando com umas coisas. O que há de errado?



Olhei para Jason em um sinal silencioso de que ele podia ir. Ele pareceu aliviado quando virou as costas e saiu de perto.



–Não contou à eles? — Perguntei.

–Não. Eles iriam me impedir de ir até lá. E ficariam com pena de mim, ou medo. Não queria que soubessem.

–Anne foi dada como morta. — Queria não ter dando essa notícia tão duramente. Então mudei o tom para um mais calmo. Seus olhos começaram a lacrimejar. — Vão fazer uma cerimônia para ela depois de amanhã, a escola está organizando. Querem que você esteja lá se puder.



Sophie



Você não se dá conta de que a pessoa está realmente morta quando falam do enterro ou de uma cerimônia em homenagem à ela. Mesmo que você tenha matado essa pessoa.

Senti que ia começar a chorar quando meus lábios começaram a tremer e senti aquela dor estranha atrás dos olhos.



–Não chora Sophie. — Nico disse pegando minha mão e me puxando até ele.

–Não vou chorar. — Eu disse, encarando o céu para ajudar a não chorar. E cinco segundos depois estava chorando. Nada melhor do que falar que você não vai fazer algo e fazer cinco segundos depois. Muito agradável.



Ele me abraçou e a minha crise de choro durou apenas um minuto.



–Pelo menos quem olhar vai saber que eu estou triste e vai pensar que acabei de ficar sabendo. — Murmurei quando estava parando o surto.

–Não é algo para se alegrar Sophie. — Podia sentir a vibração de seu corpo quando ele falava. E também podia sentir seu coração bater.

–Não estou me alegrando. Só constando fatos.

–Você precisa descontar seus sentimentos em alguma coisa.



Estava horrivelmente quente e eu não estava muito a fim de praticar exercícios físicos. O sol ainda estava bem presente no céu e não havia quase nenhuma nuvem no céu laranja do por do sol. Olhei pra ele com uma sobrancelha erguida, mas acho que a minha expressão soou mais confusa do que de quem duvidava que aquilo ia funcionar, por que meus olhos provavelmente estavam vermelhos como os de um sapo meu rosto estava marcado por lágrimas.



–Nico eu…

–Vai ajudar. — Ele me interrompeu. — Eu fiz muito isso quando… Bianca morreu.



Percebi que eu não sabia muito da sua vida. Ele nunca tinha me contado nada do seu passado.



–Se eu fizer isso, você me conta um pouco mais do seu passado? — Pela sua expressão já vi que ele não estava inclinado a fazer aquilo.

–Estou te ajudando e você quer negociar?

–É. Nico eu não sei nada do seu passado. Tipo, porque você fala italiano fluentemente? Quem é Bianca? Eu sei que é sua irmã mas é só isso que eu sei! E como você descobriu que era semideus? O que aconteceu naquelas duas guerras que…



Eu parei de falar quando vi que ele estava muito sério. Havia muita gente andando por aquele pedaço do acampamento e quem olhava provavelmente achava que estávamos brigando. Respirei fundo antes de voltar a falar.



–Eu quero saber mais de você por que não quero e não posso ficar sem entender você. Você é um quebra cabeças de peças em branco.



Ficamos naquele silêncio estranho que surgia depois de uma discussão. Eu esperava que ele recuasse e dissesse que não queria me contar as sua vida por que não queria reviver tudo aquilo e sei lá o que. Apenas sacudi a cabeça e prendi meu cabelo em um coque, tentando ignorar um pouco do silêncio da briga.



–Ok. Você ganhou Sophie. Se eu quiser ter você acho que o certo é contar tudo, antes que isso atrapalhe mais do que já está não é?

–Não fique bravo comigo, eu só… — Bufei impaciente pela milésima vez no dia.

–Está tudo bem. Não estou bravo. Vou te contar tudo, mesmo achando esse trato injusto por que eu estou te ajudando e você quer algo em troca. Podemos ir agora?

–Aonde vamos?

–Para a floresta.

–Porque não pra Arena?

–Percy está dando aula lá. A não ser que queria assustar os campistas que ele está dando aula ou se exibir para eles com suas técnicas de luta podemos ir pra lá.

–Vamos logo.



Eu queria que fossemos logo, mas não esperava que Nico iria levar ao pé da letra. Ele passou o braço pela minha cintura e eu, inocente e idiota, pensei que ele ia me beijar porque ele costumava fazer isso quando ia me beijar. Mas não. Enquanto meu corpo subitamente ficava cheio de oxitocina nós nos fundimos nas nossas próprias sombras e tudo ficou completamente escuro por alguns segundos.

Eu gostava de viagens nas sombras curtas porque geralmente não haviam tantos sons estranhos. E havia algo interessante naquela espécie de escuridão.

Emergimos em uma clareira na floresta. A luz era filtrada pelas folhas, haviam pontos de luz no chão que me davam agonia pois alguns as batiam no meu rosto. O ponto da floresta em que estávamos não era menos bonito do que aquele que eu tinha visto no primeiro dia no acampamento.

As árvores eram altas, seus galhos começavam muito acima da minha cabeça. Havia um grande espaço entre cada uma delas, tirando toda a claustrofobia que algumas florestas davam. Havia grama no chão, com algumas raízes saltando para fora da terra como se fossem veias na pele de alguém velho. O cheiro daquele lugar era maravilhoso e aquele lugar todo pulsava em vida. Eu podia sentir algo emanando das árvores, e eu tinha quase certeza que era vida. Me sentia como se estivesse no meio de uma multidão e suas vidas estivessem me cercando.



–Esse lugar é cheio de vida. — Murmurei atordoada. Até onde eu saiba árvores e plantas não emanavam vida desse jeito.

–Não Ninfas. Dríades, Náiades, entre outras mais.

–Então essas árvores são…

–Vivas? Uma grande parte. Pensei que tivesse visto as Ninfas correndo dos Sátiros. — Ele estudava a floresta enquanto falava. Como se algo terrível fosse sair dali de dentro se ele fose descuidado.

–Não vi nada disso. De qualquer forma, quer começar? — Ficar sozinha com ele naquele lugar me assustava. Não havia nenhuma razão para aquilo e eu tentei espantar a sensação. Ele não ia abusar de mim ou algo parecido. E um monstro não iria surgir do nada. Eu esperava.



Ele suspirou e eu percebi que ele estava muito cansado. Sua olheiras não estavam maiores do que o habitual mas haviam outros sinais para o cansaço. Seus olhos pareciam cansados, seus ombros estavam caidos de leve (o que era incomum por que sempre andava com cabeça erguida e ombros retos) e seus movimentos estavam um pouco lentos.



–Nico você está cansado. Não quer ir dormir um pouco?

–Eu não estou cansado. — Ele respondeu e em seguida endireitou o corpo e tentou parecer mais desperto.

–Você não me engana. Fez três viagens nas sombras, duas delas muito longas, ficou um tempão no sol por mim. É meio difícil disfarçar algo assim.

–Eu não sou o único que está mal aqui. — Ele me lembrou tentando não ir muito fundo no assunto Anne.

–Nico eu te amo, mas não pode ficar se matando de cansaço por mim. — Murmurei tentando convencê-lo a desisitir.

–Você me ama? — Ele murmurou abrindo um sorriso leve e erguendo a sobrancelha. De repente meu rosto ficou quente como se uma brisa de verão tivesse batido nele, só que de dentro pra fora do meu rosto. Droga! Porque eu deixei aquela frase escapar assim?!

–Não foi isso que eu disse.

–Eu tenho audição perfeita Sophie. Tenho certeza que foi isso que você disse.

–Não foi não! — Disse e corei mais uma vez. Merda.

–Você está corando.

–É que eu to com calor. — Falei fingindo estar irritada pela conversa idiota quando na verdade estava querendo esconder meu sorriso.

–Você mente bem Sophie. Mas bons mentirosos conseguem desmascarar outros mentirosos. – Ele citou uma frase que eu havia dito à ele uma vez, no dia em que tive o primeiro pesadelo. Havia sonhado com tortura e alguém me chamando de Espectro. Aquela noite parecia ter sido meses atrás.

–Não me cite pra mim mesma. Eu falei ok? Soltei sem querer a frase que eu menos queria dizer, visto que estamos juntos faz umas duas semanas!

–Eu te amo também Soph! — Ele me surpreendeu duas vezes. Uma quando colocou suas duas mãos em meu rosto, uma de cada lado, para me fazer parar de gritar com ele e outra ao dizer isso.



Nada me deixou mais feliz do que aquelas palavras. Ditas de modo exasperado e torto mas que mesmo assim não haviam perdido seu significado.



–O que?

–Você entendeu. Deuses! Parecemos dois surdos conversando! — Ele falou com um tom engraçado e eu ri. O abracei, encostando minha cabeça em seu peito tentando esconder o sorriso.

–Estou me sentindo meio gay. Podemos parar?



Ele deu uma risada tão gostosa que eu fechei os olhos pra apreciar. Era uma sensação indescritível quando ele ria assim, me fazia sentir mais leve e mais tranquila. Era como sentar na varanda apenas sentindo o vento com o seu livro favorito. Te enchia de uma felicidade estúpida porque você não sabe de onde vem.



–E você vai dormir.

–Você não manda em mim, não é a minha mãe. — Resisti ao impulso de perguntar sobre sua mãe. Droga como aquele buraco na história dele me incomodava.

–Mas eu...

–Olá. — Disse uma voz cheia de malícia, voz de um ser que deve ter brotado do inferno porque se nem eu nem Nico havíamos notado esse ser, a coisa era estranha.



Olhei para o lado e fiquei levemente mais calma ao ver que era só uma garota. Uma garota de cabelos verdes e pele da cor de uma casca de árvore. Mas mesmo assim era só uma garota.



–Ah, oi. — Respondi sem jeito enquanto me desvencilhava do abraço estranho.

–O que estão fazendo aqui? — Sua voz transbordava inocência. O que contrastou com a malícia que estava de volta na sua voz quando ela falou: — São mais um daqueles casais que vem aqui curtir?



Que droga era curtir? Não sabia exatamente o que era mas tinha uma idéia que não era exatamente decente.



–Não! — Nico soou como se tivesse seu cavalheirismo de que tanto se orgulhava, ferido.

–Viemos aqui só pra treinar. — Esclareci antes que a conversa fosse para outro caminho que envolvia eu sendo chamada de imoral ou algo pior.

–Ah, então são como o garoto de cabelo cacheado que vai para a caverna fazer nada de interessante. — A ninfa me analisou. — Você é bonita. Eu poderia te beijar.



Olhei para Nico desesperada por ajuda. Eu estava diante de uma ninfa louca que queria me beijar e estava quase tendo um colapso.



–Que pena, mas ela tem namorado. — Nico murmurou. Sua voz estava calma mas ele queria bater na ninfa e rir da minha cara ao mesmo tempo.

–Precisamos ir. — Falei rápido e apertei o braço de Nico com mais força do que provavelmente deveria.

–Que pena que tem namorado. — Ela disse pra mim esperando que eu ficasse triste junto com ela. — Se quiser alguém no dia que terminar com ele, eu vou estar aqui.



E a criatura apenas deu as costas e saiu andando rindo.



–Nico Di Angelo eu quero sair daqui. Me tira daqui. Se não eu vou morrer. Meus deuses que horror, estou traumatizada.



Nada contra homossexualismo. Nada mesmo. Na verdade eu apoiava e muito porque cada um deve ter direito de amar quem quiser. Mas não tem coisa mais traumatizante do que uma ninfa brotar do chão e dizer que queria te beijar. Não tem mesmo.



–Nico! — Choraminguei.

–Eu estou dividido entre rir da sua cara de desespero ou bater em uma ninfa.

–Você não vai fazer nem um nem outro. Vamos sair daqui.



Segurei seu braço e me concentrei. Não demorou mais de alguns segundos para estarmos imersos na escuridão. Acho que aquele era meu recorde de viagens nas sombras em um dia comum, em que não estava tendo treino noturno.

Apenas andar cerca de um quilômetro fez a minha visão piscar quando chegamos no nosso destino, o mesmo lugar que estávamos antes de irmos para a floresta. Cambaleei um pouco e me segurei aonde consegui em Nico. Agarrei sua camiseta antes que caísse especificamente.



–Não faz mais isso Sophie! — Ele soava irritado mas não prestei muita atenção no que disse porque estava quase dormindo em pé. Bocejei. E encostei a cabeça em seu peito.

–Xiu. Eu quero dormir.

–Nós poderíamos ir parar no meio do nada.

–Eu sei controlar essa coisa toda. — Murmurei então espalmei minha mão em seu peito. — Agora fica quieto que eu quero dormir.

–Vem. Vamos deitar um pouco.



Sabe aquele estado que você está com tanto sono que nem sabe o que está fazendo, dai você vê e ta tropeçando em um tijolo enorme por que jurava que não estava lá? Era basicamente aquela a minha situação. Se me perguntassem quem foi o primeiro presidente dos Estados Unidos eu responderia Barack Obama. Juro.

Tanto é que fui perceber que estava no chalé de Nico quando já estava deitada, apertada com Nico na cama de solteiro. Não tão apertada porque eu era pequena e Nico era magro e a cama era larga. Estava deitada de frente pra ele, entre ele e a parede. Pude ver a parede preta e as janelas diferentes das minhas.

Só assim percebi que não estava no meu chalé.

A mão de Nico estava na minha cintura e ele desenhava padrões na minha pele por baixo da minha blusa. Se eu não estivesse tão sonolenta aquilo me deixaria arrepiada. Na verdade estava me deixando arrepiada mas eu fingia que mal estava sentindo.



–Não abuse de mim enquanto durmo Di Angelo. — Falei lutando pra abrir os olhos.

–Sou um cavalheiro. Não abuso de mulheres. Até por que você não precisa estar dormindo pra eu poder beijar e tal. — Consegui abrir os olhos e encontrei ele me encarando, vendo cuidadosamente cada novimento meu.

–Sim você é um cavalheiro. Quase sempre. E quem vê pensa que eu me entrego assim à você.

–Quer testar? — Ele disse e eu assenti. Na verdade não estava em sã consciência. Juro novamente. Ele deu um de seus quase sorrisos. — Então vá dormir Seele.

–Okay. Eu vou. — Falei dominada pelo sono e fechando os olhos.



Como meu dia não foi exatamente um dia de descanso dormi quase que na mesma hora.



–Eu gostaria muito de chegar no meu chalé com a minha amiga e encontrar meu irmão e sua namorada, também minha amiga na minha cama!



Hazel falou tão alto, quase gritando, que eu abri os olhos subitamente.



–Droga Hazel eu estava tendo um ótimo sonho! — Acho que Nico estava tentando soar bravo mas não dá pra soar bravo no segundo que acordamos. Ele pareceu uma criança fazendo birra na verdade.



Tentei me recompor um pouco para mostrar que não me agarrei com Nico. Mas era meio complicado por que a mão de Nico ainda estava na minha cintura e a minha blusa, por ser solta, estava um pouco antes do meu sutiã.



–Bom dia flores do dia. — Disse uma voz que eu já estava acostumada.

–Boa tarde Piper. — Murmurei enterrando meu rosto no peito de Nico.

–É noite na...

–Me digam porque vieram aqui nos acordar antes que eu jogue vocês pra fora.

–É hora do jantar. — Hazel disse enquanto eu tentava dormir de novo. — E eu vim chamar meu irmão para jantar e encontro essa cena.

–E eu vim junto com ela, pra esclarecer.

–Se você falar algum a sobre mim e Frank eu te jogo naquela planta insuportável cheia de espinhos da Perséfone.

–Então pode ficar tranquila. Eu tenho o resto do alfabeto inteiro para dizer pra vocês. — Ouvi um barulho abafado que parecia um tapa na cabeça.



Eventualmente Nico decidiu parar de brigar com Hazel e eu decidi parar de tentar dormir porque não ia conseguir. Quando aparecemos no refeitório, tive certeza de que todos já sabiam da notícia pelos olhares que recebi. Aqueles olhares de coitadinha dela ou sinto muito pela sua perda. As pessoas podem mentir mas seus olhos não. Pelo menos a maioria deles não conseguia.

Enquanto jantava muitas pessoas apareceram na minha mesa para dizer coisas como sinto muito pela sua perda. Eu estava ali, me esforçando ao máximo para não pensar naquilo e a cada minuto aparecia alguém para me lembrar. Mas realmente me surpreendi quando Sam, ou Samantha, a amiga das meninas de Éolo que morava com elas apareceu na minha mesa.



–Olha, eu sei como é difícil você tentar não pensar na pessoa e a cada segundo alguém te lembrar dela, mas sinto muito pela sua amiga.

–Já perdeu alguém? — A curiosidade foi maior que eu.

–Na verdade todos aqui perdemos pelo menos um amigo, na batalha de Nova York. Mas sim, já perdi meu pai e um amigo.



Ficamos naquele silêncio constrangedor. Não disse aquela famosa frase de pêsames porque imaginei que ela não ia gostar.



–Mas finalizando para te deixar em paz, mesmo que não nos conheçamos bem e nem sejamos muito próximas você pode sempre contar comigo e com as meninas.



Em um gesto solidário, ela tocou minha mão e um segundo depois eu desejei que ela não tivesse feito aquilo. Porque como da primeira e última vez, a imagem que eu via se dissolveu como giz de cera derretendo.



Um segundo estava no refeitório no outro estava na praia, com Sam e um garoto. Podia ser seu amigo ou seu namorado, eu não fazia idéia.



–Vamos nadar? — Ela perguntou correndo para o mar até a água tocar na metade das suas canelas. Seu sorriso era o de uma criança.

–Sam a água é agitada demais a noite. E essa parte da praia é perigosa. — Era perigosa de verdade porque pude ver as pedras grandes e pontudas ao fundo.

–Tem medo da água Will? — Ela entre risos.

–Claro que não! — Ele disse já tirando a camiseta.



Ela tirou as roupas, porque estava com biquíni por baixo. Ambos entraram na água, e estavam se divertindo até que, naquelas correntes que aparecem quando vai se formar uma onda, Sam foi pega e arrastada. A garota se afogava e o seu namorado gritava por ela. A visão seguiu ela enquanto ela se afogava e chegava perto demais das pedras pontudas. Seu corpo fez um barulho horrível quando bateu nas pedras, provavelmente o barulho era de seus ossos quebrando.



A visão sumiu na mesma velocidade que apareceu e eu fui atingida por aquela horrorosa onda de náusea e o mundo girava.

De novo, não.

Notas finais
Me digam o que acharammmmm. E gente, o que acham de fazer uma recomendaçãozinha? Vai deixar a autora feliz e os capítulos saem mais rápido quando to de bom humor em relação á fic