Soul

18 Aula de Vôo


Notas iniciais
Desculpa a demora, mesmo. Eu to tendo uma série de más noticias que tão acabando comigo. Mas o capítulo ficou bom e espero que gostem.

Tânatos? — Gritei no momento em que achei minha voz. — Tânatos?



Meus coração batia de um jeito torturante. Parecia que ele estava lutando para bater. Minhas mãos tremiam e minha visão estava borrada por causa das lágrimas.

Eu era basicamente a personificação do desespero.

Gritei. De novo e de novo. Nada aconteceu. Aquilo devia ser um erro. Aquele deus não deveria saber que ela era uma das minhas melhores amigas. Ou sabia e estava fazendo aquilo simplesmente por ser frio demais para se importar com aquilo, comigo?

Meu plano era um pouco diferente do que ele tinha planejado para mim. Eu iria até Anne, mas não para pegá-la. E sim para salvá-la. Poderia não funcionar, mas eu estava me agarrando à aquela pequena esperança.

Me sentei no colchão de baixo da beliche. As lágrimas não caíram, apenas fiquei com os olhos cheios de água.



–Por favor, pai. Não me faça fazer isso se eu não tiver uma chance de salvá-la.



Eu me sentia exausta. Na mesma hora que me recompus, alguém bateu na porta.



–Sophie abra essa porta. — Era Annabeth.

Respirei fundo, me levantei e joguei o papel em cima da cama. Eu não poderia rasgá-lo porque ainda precisava dele para ver o endereço. Ainda que tivesse vontade de rasgar em milhares de pedaços, queimar e depois jogar as cinzas no mar.



Dei uma ajeitada na aparência porque não queria parecer que acabei de ter um colapso.



–Oi. — Murmurei ao abrir a porta. Estavam Annabeth, Piper, Percy, Hazel, Jason e Nico. Nico estava no fundo mas logo que o vi notei sua expressão de desespero e impaciência ao mesmo tempo. — O que que é?



Sem nem ao menos responder, eles passaram por mim e entraram no chalé. Nico não o fez. Ele me olhou com uma cara de cachorro na chuva.



–O que é isso?

–Acho que é um interrogatório. Eu não sei. Eles apenas passaram no meu chalé e me arrastaram pra cá.



Que os deuses me ajudem.

Fiz sinal para ele entrar e quando ele o fez eu fechei a porta e a tranquei como de costume.

Eu ainda não pude descrever meu chalé por dentro. Era vazio sem decoração alguma. Sem contar que era extremamente escuro, mesmo com a luz acesa.

Ele possuia duas paredes cinzas e duas pretas opostas. Havia um banheiro simples e acinzentado com um espelho grande sobre a pia. Havia uma lareira na parede oposta à minha cama, feita de pedras pretas e brilhantes que pareciam preciosas. Ao lado da porta do banheiro havia um guarda roupa de três portas, com portas de espelho. Uma janela no pé da minha beliche e a outra na parede oposta, perto da lareira. A porta era de madeira grossa e escura. Nenhuma decoração.



–Não ensinaram a vocês que não é educado entrar no chalé dos outros assim?

–Não ensinaram que é feio manter segredos grandes assim dos seus melhores amigos? — Hazel respondeu de volta. Olhei para Nico do canto do olho.



Touché.



–É sobre Sophie e eu? — Nico perguntou ainda tentando entender a conversa.

–Sobre o que mais isso seria?!

Eles estavam espalhados pelo chalé, alguns observando as coisas outros apenas nos encarando.

–Vocês falam como se fossemos explodir o mundo! — Falei entre risadas.

–Vocês deveriam ter contado! — Annabeth estava puta com a gente.

–Eu não vejo razão para vocês ficarem assim! — Nico quase gritou.

– Vocês não vêem o efeito que vocês provocam? As pessoas tem medo de vocês. Separados! Imaginem juntos. — Percy falou pela primeira vez. Ele não estava com raiva como as meninas e sim preocupado. Eu ouvi falar que Nico era quase que um irmão mais novo para Percy e Annabeth mas não sabia que a ligação era forte assim.

–Não é como se fossemos sair matando todo mundo.

–Sophie para de ver esse lado da coisa. — Jason disse pacientemente. — Estamos falando de medo. De sentimentos humanos. Coisa que a razão não pode influenciar.



Eu não ia nem gastar saliva para perguntar porque eles sentiam medo de nós. Nico não tinha o melhor dos passados e eu não tinha a melhor reputação. Isso misturados com o fato de que nossos pais são deuses da morte não nos deixa quase nenhum crédito.

Olhei para Nico e mordi meus lábios. O que aconteceria conosco se tudo continuasse assim?



–Três chalés solicitaram sua transferência ou expulsão, Sophie. — Annabeth murmurou e foi como se o meu coração parasse pela milésima vez naquela noite.

–O que? Transferência para onde? — Nico perguntou, novamente quase gritando.

Novamente meus olhos se encheram de água. Droga de sentimentos fortes.

–Para a Casa dos Lobos. — Jason respondeu por ela.

–Quíron conversou com Lupa. Ela disse que te aceitaria lá para te disciplinar. E que você voltaria para cá quando ela acabasse. — Annabeth estava destruída ao me contar aquilo. Nós não nos conhecíamos há muito tempo mas gostávamos uma da outra.

–Casa dos Lobos? Vocês estão brincando não é? — Nico também estava destruído. — Ela não vai aguentar aquele lugar!

–O que é Casa dos Lobos?

–O lugar que eles treinam os Romanos antes de mandá-los para o Acampamento Júpiter. — Percy me explicou.

–Imagino que não seja um lugar muito agradável.

–Nem de longe.

–E o que acontece se eu for expulsa?

–Você vai ser proibida de visitar aqui. Vai mudar permanentemente para Nova York na melhor das hipóteses.

–E na pior?

–Se muda para o palácio do seu pai ou viver por conta própria.



A situação não melhorava.

Eu não odiava aquele lugar. Apenas não gostava das pessoas que não gostavam de mim. Aquele lugar era incrível e eu não queria perder aquilo tudo.

Fingi coçar meus olhos para que eles não vejam que eu estava chorando. Eu não estava chorando apenas por aquilo. E sim porque meu dia estava um inferno e a cada hora que se passava mais peso era colocado sobre os meus ombros.



–E o que eu faço? — Tentei não deixar minha voz sair embargada mas foi impossível.

–Não faça nada imprudente eu acho. — Jason disse.

–Pode ficar calma. Mas não tanto. Você precisa do pedido de mais cinco chalés para chegar a ser expulsa ou mandada para a Casa dos Lobos.



Senti alguém me abraçar e ao sentir o perfume vi que era Nico. Estava me sentindo mais protegida do que jamais estive. Minhas mãos em seu peito e seus braços ao meu redor, seu queixo apoiado em minha cabeça.



–Não é exatamente fácil andar debaixo do radar aqui. Só de estar aqui você acaba chamando a atenção. Se sair você chama atenção também. — Senti o corpo de Nico vibrar quando ele falava.

–Você pode ficar tranquila sobre algum dos nossos chalés reclamar sobre você. — Annabeth me assegurou.

–Exceto o meu. — Piper murmurou. Abri os olhos e a vi de cabeça baixa apertando as mãos. — Drew e suas manequins reclamaram. Aparentemente por Sophie ser minha amiga e estar com Nico elas não gostaram nada.



Eu não sabia o que fazer. Estava desesperada. Não tinha como desaparecer assim. Muitas coisas ruins já me cercavam. Sem contar que eu tinha que lidar com o problema Anne.



–O que podemos fazer agora é lidar com seus poderes Sophie. Não vai ser bom se eles saírem do controle.

–Não temos exatamente uma enciclopédia de poderes dos semideuses Annabeth. — Minha voz mal saiu.

–Eu vou dar um jeito. — Ela respondeu simplesmente.



Ela não pode dar um jeito nisso. Não é fácil assim. Eu nem sei onde nasci. Quanto mais vou saber meus poderes.

–Ok. Vamos dar um jeito nisso. — Falei mais para tentar convencer a mim mesma do que eles.



Nico me soltou lentamente e eu me recompus. Era a milésima vez que eu havia chorado naquele acampamento. E aquilo estava sendo muito desgastante. Sério.

Peguei eles olhando algo em cima da minha cama. O bilhete.

Atravessei o chalé rapidamente e peguei a folha. Coloquei no bolso de um jeito amassado torcendo para não ter rasgado.



–O que é isso? — Percy perguntou.

–Nada.

–Sophie... — Hazel começou.

–Nada!



Eles estavam com aquele olhar que faziam quando estavam preocupados. Daquele jeito em que as pessoas olham pra você e depois se entreolham.



–Não vou perturbar a ordem natural. Só vou fazer algo que meu pai me pediu.

–E o que seria isso?

–Nada com que vocês devam se preocupar. — Os cortei.



Apenas ficamos lá, um olhando para a cara do outro. Aquele clima agradável após discussão.



–Então...? Vão falar mais alguma coisa?

–Acho que não tem mais nada. — Annabeth soou desapontada. Talvez por eu não ter dito o que era aquilo. Mas eu não iria contar.

–Desculpem. Por não explicar o que é isso mas não quero vocês envolvidos nisso.



Eles não responderam. Apenas saíram. Nico ficou. Ambos nos sentimos estranhos. Porque tudo ao redor de mim estava caindo simplesmente porque eu havia chamado atenção demais. E ele estava envolvido na situação sobre chamar atenção.



–Você está com aquele olhar. — Ele quebrou o silêncio. -A culpa não é sua, você sabe.

–Desde quando você me lê desse jeito? — Eu estava surpresa. Não tinha percebido o quão importante éramos um para o outro, o quanto estávamos unidos.

–Eu conheço um olhar perdido e culpado, apesar de que você não demonstre na expressão seus olhos denunciam.



Achei graça que ele me conhecia tanto assim em tão pouco tempo.



–O que mais pode me dizer sobre mim mesma?

–Você dedilha sua perna, braco, mesa, ou qualquer coisa quando está ouvindo música. Principalmente músicas lentas. — Sorri de leve. Aquilo era de longe o nosso momento mais doce e meloso. — Você mente muito bem. Seus olhos não te denunciam.

–Você quer saber o que é esse bilhete não é? Está literalmente se mordendo de curiosidade. Você morde a parte de dentro da sua bochecha quando está curioso ou ansioso. — Já havia encontrado ele com a boca sangrando mais de uma vez e sempre havia me preocupado. Há uns dias atrás eu liguei os pontos. — Me diga. Quando nos tornamos assim?

–Me diga você. Não desvie do assunto Seele.

–Ugh! Odeio quando você me chama pelo sobrenome. — Ele deu um daqueles sorrisos de lado que ele abaixa a cabeça e sorri, como se estivesse escondendo o sorriso. Ele só não se tocou ainda que como sou pequena consigo ver melhor seu sorriso. E droga aquele sorriso me fazia ficar com vontade de quebrar aquele pescocinho.

–Mas é sério agora. Pode me contar o que é isso?



Eu o entreguei o bilhete. E ele ouviu com atenção enquanto eu explicava tudo, andando de um lado para o outro como um daqueles animais pequenos em jaulas, fazendo gestos no ar e balançando os braços o tempo todo. Ele tinha uma paciência imensa para conseguir me suportar daquele jeito.



–Você não pode ir. — Ele disse como se fosse simples como ele dizia.

–Eu tenho, Nico. — Meu coração se contorcia em dor só de pensar que eu poderia estar fazendo aquilo em vão. — Eu tenho que tentar, pelo menos.

–Você só vai se machucar Sophie. Não quero te ver sofrer mais.

–Quase soou como um eu te amo pra mim. — Eu disse e ele deu um sorriso triste. — Eu não posso Nico. Me desculpe.

–Então eu vou com você.

Eu queria bater nele. Com força.

–Não, Nico! Eu não vou te levar.

–Você não precisa me levar. Eu sei onde é. Tenho uma memória boa. — E ele levantou o bilhete. Fui até ele com passos furiosos e tomei dele. Porque eu tinha que gostar de alguém tão cabeça dura e teimoso?

–Nico não quero você lá. Porque esse é um fardo que eu tenho que carregar sozinha. Por favor entenda isso.



A sua expressão de triunfo foi desmanchando como cera ao fogo. Ele estava considerando o argumento e eu estava feliz que ele estava pelo menos pensando sobre aquilo.



–Eu não quero te ver triste mais Soph. — O apelido me fez dar um sorriso torto. Mas logo sumiu porque ele estava mesmo preocupado comigo.

–Eu vou ficar bem, Nico. — Eu disse mas aquilo não era verdade por completo. Eu não ficaria bem. Só de pensar no dia seguinte meu coração já se contorcia. — Além do mais, como eu disse, eu preciso ir sozinha. Eu preciso aprender a lidar sozinha com isso. Não é sempre que eu vou ter você junto comigo pra me ajudar nesse tipo de coisa. Eu sei que você vai estar sempre do meu lado mas não se sabe do futuro. Eu posso ser afastada de você ou algo assim.



Eu havia usado tantos argumentos que ele provavelmente não iria contestar. Eu esperava que ele não contestasse.

Ele abriu a boca para falar mas não falou nada.



–Tudo bem. Posso pelo menos te levar até lá? — Pela minha cara ele percebeu que não ia acontecer. — Pelo menos isso.

–Eu tenho asas Nico. Além do mais Quíron não var te deixar sair.

–E porque ele te deixaria?

–Eu lá vou saber. Meu pai disse que ia dar um jeito.



O silêncio reinou. Eu tinha certeza que ele iria pelo menos tentar ir comigo. Que ele ia arranjar uma desculpa para tentar ir.



–Eu vou indo. Você deve estar cansada. — Ele soou muito cavalheiro falando aquilo. Que de certo modo foi fofo. Ele veio até mim e me deu um beijo. — Boa noite.

–Boa noite.



Ele saiu do chalé e eu fechei a porta. Mesmo morrendo de preguiça eu tomei banho. Simplesmente porque eu estava nojenta e não havia tomado banho desde a manhã. Coloquei meu pijama, me enterrei debaixo do cobertor fleece e estava tão exausta que não demorei pra cair no sono.

Eu tive outro pesadelo. Eu estava começando a odiar aquilo, mesmo só tendo apenas uns cinco no total.

Eu estava de volta à sala branca. E no momento que me vi ali eu entrei em pânico. Ele estava do mesmo jeito que eu tjnha visto da última vez. Tudo branco. Parecia aqueles quartos em que eles guardavam presidiários com problemas mentais. Exceto que ao invés de ser tudo almofadado era tudo pintado com tinta. Me levantei da poltrona e andei meio correndo pelo quarto do desespero. Passei as mãos pela parede procurando alguma porta, mas não havia nada. Nenhum degrau, mudança de cor, parte oca ou algo parecido.



–É inútil sabia?



Me virei com um pulo e me prensei contra a parede. Minhas mãos tremiam como folhas ao vento.

Havia uma garota lá. Não vou mentir e falar que meu queixo não caiu ao vê-la. Ela possuia cabelos pretos e olhos azuis vibrantes, exatamente como os meus. Sua pele era bronzeada, contrastando com a minha branca como neve. Era alta e tinha um corpo que, se eu não gostasse tanto do meu, me mataria de inveja.



–Pode se acalmar. Eu não vou te matar ou sei lá. Pelo menos não é o que eu pretendo. — Ela falou a última frase em uma risada fria e cruel. Ela me analisou de cima a baixo e aquilo não estava me ajudando a me acalmar.

–Quem é você? — Perguntei gaguejando de leve.

–Ah querida, quão horríveis são os feitiços de limites não é?



Ela não falou coisa com coisa. O que eram feitiços de limites? Nada até agora havia feito sentido.



–Tudo a seu tempo, Espectro. — Ela pronunciou a última palavra com um sorriso cruel e levemente maníaco.

–O que essa merda toda significa? Você me trás até aqui, fala coisas sem sentido algum e ainda por cima me chama por um apelido que me assombra faz uma semana! Você vai ganhar o que com tudo isso?

–O prazer de te ver fraca e não sabendo de nada.

–Você é uma maníaca. Louca!

–Não fale do que não conhece Sophie Aimée.



Foi como se o meu coração parasse. Aquele era meu nome verdadeiro? Porque diabos ela sabia sendo que nem eu sabia?! Eu sempre fui um fantasma vagando por Manhattan. Não tive vida. Ou talvez eu tive e a garota louca na minha frente tivesse a ver comigo. Ela percebeu meu choque mesmo eu não demonstrando na expressão. Ela deu uma risada cruel.



–É tão bom te ver assim! Vulnerável. — Eu fiquei quieta. O sorriso dela não sumia do rosto. — Tenha bons sonhos enquanto pode, querida.



Então tudo ficou preto. Acordei pelo que pareceram segundos depois mas tenho certeza que foram algumas horas porque uma luz suave entrava pela janela.

Me levantei da cama, tomando cuidado pra não cair de novo, e fiz todo aquele ritual matinal. Antes de sair peguei um óculos de sol para não ficar com aquela cara de cachorro no sol.

O acampamento estava quase vazio. Estranhei muito porque só vi umas cinco pessoas pelo caminho até a Casa Grande. Aquele lugar me deixava confusa. Algumas horas parecia que haviam umas cinquenta pessoas ali quando de verdade havia só a metade e em outras era o oposto.

Encontrei Quíron sentado na varanda, jogando um jogo que eu não conhecia com um cara que não me era estranho. Cabelos pretos e olhos roxos. Um flash passou diante de mim e eu lembrei de vê-lo no Olimpo, Nico me explicando quem ele era. Dionísio.



–Aimée. — Eu disse sem rodeios. Ambos os imortais me olharam como se eu fosse louca. Ou melhor. Um fantasma. Respirei, levemente ofegante por ter andado muito rápido por uma distância que eu não era acostumada. — Meu nome. Era Sophie Aimée. Não sei se tem algo depois desses dois nomes ou não. Tudo o que eu sei é que esse é o início dele.



Os dois imortais pararam de me olhar como se eu estivesse tendo um colapso. Quíron estava pensativo e Dionísio me fuzilava sem tentar disfarçar.



–Você parou neu jogo só para falar o seu nome? Deveria ter mais respeito! — Ele estava quase gritando comigo.

–Sr. D tenha paciência. Se lembra de Sophie? — Quíron foi educado. Se eu pudesse eu falaria um monte para Dionísio. Mas como prezo pela minha forma humana eu decidi ficar no meu canto e ligar apenas para Quíron.

–A fantasma desocupada que nos obrigou a ter uma reunião no Olimpo? Lembro.



Coloquei as mãos nos bolsos tentando me acalmar. Não vou atacar um deus, não vou atacar um deus. Fiquei repetindo em minha cabeça o tempo todo.



–O... Tânatos, falou com você?

–Sim. Embora eu não concorde nem um pouco com o que ele quer fazer com você eu vou te deixar sair. — Ele não estava nem um pouco feliz de admitir aquilo.

–Eu também não gosto ou concordo. Mas... Não posso largar uma pessoa para morrer, sendo que eu sei a hora e o lugar. Preciso apenas tentar.

–Sophie tenha cuidado. As vezes a vida e a morte são coisas que não podem ser dobradas.

–Bla bla bla. Sai daqui pestinha. Antes que eu transforme você em golfinho. — Que criatura viva fala pestinha? Nem eu que era velha falava aquilo.



Bufei e acenei de um jeito discreto para Quíron ao virar para ir embora. Minha barriga roncou fazendo um protesto de fome. Mas eu duvidava que ainda estavam servindo o café da manhã. Ao invés de ir para o refeitório checar eu dei meia volta e fui a área dos chalés.

Ao redor do chalé de Éolo ventava tanto que era até impossível manter o cabelo preso em um coque. O barulho do vento também era muito alto.

O chalé era uma majestosa casa de gelo. As paredes eram feitas de gelo, e ao contrário do que se poderia pensar não eram transparentes. Eram esbranquiçadas. O teto também era feito de gelo, dando a impressão de que aquele lugar era uma escultura gigante.

Me aproximei do lugar e bati na porta de ferro pintada cuidadosamente de preto. Torci para que elas estivessem lá porque se não estivessem eu estaria perdida. Nunca conseguiria achá-las pelo acampamento.

A porta se abriu, Elisa aparecendo na fresta aberta. Seus cabelos loiros e cacheados estavam presos em um coque alto e sua cara era de quem acabou de acordar. O que não era algo exatamente bom porque ela não tem o melhor dos humores de manhã, ao contrário de Elizabeth que ficava feliz de manhã.



–Como se atreve a perturbar meu sono? — Ela citou a frase que todo mundo diz nos filmes quando é tirado do sono.

–Me atrevendo. — Respondi na mesma acidez.

–Eu não estou com humor pra conversar. — Ela murmurou e depois gritou. — Fala com ela Elizabeth. – O jeito que ela pronunciava o nome da irmã soava como se ela a chamasse de Lizabeth.



Ela sumiu dentro do chalé e eu não esperei convite para entrar. Abri a porta sem ser exatamente delicada e entrei. Logo ao entrar tive um choque térmico. Lá dentro era frio pra caramba.



–Preciso de um favor.

–Vai ser mal educada assim lá na cama do Nico! — Elisa falou e eu corei envergonhada.

–Elisa! Fica quieta! — Elizabeth estava parada no meio do chalé, secando o cabelo preto com uma toalha. Ela falou e depois mudou o tom ao se direcionar para mim. — O que foi Sophie?

–Eu quero que vocês me ensinem a voar.

–Eu nem sabia que você tinha asas. — Elizabeth sorriu.

–Me acorda essa hora e ainda quer que eu de aula de vôo? Nem a pau! — Elisa contrastou com a educação que a sua irmã tinha de manhã.

–Elisa cala a droga da sua boca! — Ela gritou para a irmã e eu fiquei quieta no meu canto. Depois se voltou para mim, sua expressão e o seu tom de voz mudando novamente. — Precisamos achar um lugar bem aberto. E você precisa passar protetor solar se não quiser torrar.



×××××



Nova conclusão da minha vida: Protetor solar me deixava nojenta e grudenta. Era uma sensação horrorosa que eu sentia quando cheguei na praia com as meninas. O humor de Elisa tinha melhorado mas o meu não.



–Ok. — Elizabeth começou a falar assim que paramos. O sol das onze da manhã não estava tão forte, havia uma brisa leve de outono. Mas mesmo assim era horrorosa a sensação do sol me queimando. — Consegue liberar suas asas?

–Não faço nem idéia de como se faz isso. — Respondi. E enquanto eu falava elas me davam um baile. Um par de asas brancas surgiam atrás de cada uma delas, surgindo a partir de vários fios que deixavam suas costas. — Vocês estão zoando com a minha cara. Paramos de andar faz só cinco segundos!



Elas riram enquanto eu olhava incrédula para elas.



–Vou te ensinar. Você pelo menos foi esperta de usar uma blusa com as costas abertas. — Eu estava com uma blusa de alças finas e tecido leve que as costas ficavam de fora quase pela metade, por causa do decote nas costas. Foi um parto achar um sutiã que servisse.

–É, eu pensei na situação. — Respondi apenas.

–Okay então. — Elizabeth começou a explicar. — Faça o oposto do que você fez quando colocou elas pra dentro, quando as escondeu. Imagine-as deixando você, mas não sumindo. Apenas saindo.

–Só isso? — Novamente eu estava incrédula.

–Aham. — Respondeu Elisa ao longe. Ela estava fazendo um tipo de alongamento, esticando e fechando as asas.



Ignorei ao máximo a presença de tudo ao meu redor e fiz o que elas pediram. Imaginei as minhas asas surgindo do mesmo jeito que as delas fizeram, do jeito que elas sugeriram. Demorou quase um minuto mas quando eu senti a mudança eu me assustei.

Foi como uma explosão de calor. Minhas costas queimaram por alguns segundos e depois pararam. Quase fui arrastada quando um ventinho passou por mim.



Puta que pariu! – Soltei quando quase cai no chão.



Minhas amigas estavam ocupadas demais olhando para trás de mim para me dar um apoio. Bufei impacientemente. Quase xinguei elas também.



–Não tive a oportunidade de ver a tatuagem mas pelo menos vi as asas. — Falou uma voz ao longe e eu soltei outro puta que pariu.



Me virei muito rápido e tropecei nas asas e quase cai. Mas ao invés de abrir os braços, abri as asas. Confundi os músculos ou sei lá. Cai na areia, me enchendo dela.



–Nico eu te odeio do fundo do meu coração. — No segundo que eu falei isso ele estava em pé ao meu lado, me estendendo as duas mãos.

–Acho que é o contrário. — Ele falou e eu bufei.



Peguei suas mãos e me levantei. Ao fazer isso fiquei centímetros de distância dele.



–Ouvi falar que. a garota da morte estava aqui. Junto com as meninas de Éolo. — Ele falou o apelido em um tom quase divertido. Uma conquista a cada dia.

–Eu tenho um apelido? — Perguntei rindo. — Isso foi antes ou depois de você bater no seu seu informante?

–Ah espera. Era pra mim bater nele? Então eu já volto. — Ri mais um pouco. Ele sorriu de lado. — Está fazendo o que aliás?

–Aulas de vôo.

–Adorei as asas. Bem sombrias. — Sorri mais ainda. Dessa vez era um sorriso envergonhado e eu corei. — Vai continuar com aquele plano que eu não concordo.

–Obrigada. E sim. Eu vou.



Alguém pigarreou do nosso lado. Eu olhei e vi as meninas tentando fazer cara brava mas não conseguindo porque estavam sorrindo, com as mãos nos ombros. Pareciam anjos com aquelas asas brancas.



–Está nos interrompendo. — Elas falaram em uníssono.

–Desculpem meninas. — Eu podia jurar que ele estava quase corando.

–Por favor deixe a pista de vôo. — Elisa pediu, fazendo sinais com as mãos.

–Saiba que eu não aprovo o seu plano. — Ele falou sério para mim. — Mas como eu não quero ser congelado e deixado para descongelar ao sol o dia inteiro eu tenho que ir. — Eu sorri. Pela milésima vez desde que ele havia chegado ali.

–Te vejo no almoço.



Ele roubou um beijo meu que durou tão pouco tempo que eu fiquei chateada. Soltou minhas mãos, se virou e saiu andando. Pisquei várias vezes, acordando. E depois me virei para as meninas, me olhando e com sorrisos diabólicos.



–Podemos começar? — Perguntei tentando fazer elas pararem de me olhar assim.



×××××



Aprender a voar demorou mais do que eu pensei. Tive que fazer alongamento por uns dez minutos para aprender a movimentá-las, depois mais uns vinte para aprender a sair do chão. E uma hora para aprender a voar. Contando com ainda várias quedas, dolorosas. Cai na água, na areia, em pedras. Tudo o que tinha direito.

Para treinar mais, fui voando até o refeitório. Era uma sensação muito boa, apesar de eu estar suada e com calor. O vento batia em meu corpo todo, fazendo meus cabelos voarem atrás de mim. Os músculos em minhas asas se esticando e encolhendo ao meu comando. Eu podia até mesmo sentir o vento bater nelas.

Parei longe do refeitório mas não o suficiente para evitar alguns olhares surpresos. Escondi minhas asas com mais facilidade do que antes, mal sentindo o calor nas minhas costas. Talvez não senti tanto o calor porque minhas costas já estavam queimando. Quem sabe o que eu estava sentindo nas minhas costas.

Fui para o refeitório e no caminho para a minha mesa cumprimentei de longe o pessoal que estavam sentados nas suas respectivas mesas. Annabeth sorriu e acenou alegremente, Leo piscou pra mim sorrindo daquele jeito que o fazia parecer um elfo latino, Piper deu um sorriso largo e Nico me encarou enquanto eu passava. Me olhando de cima a baixo.

Sentei na minha mesa, comi minha salada muito bem temperada e um pedaço grande de carne. Bebi meu refrigerante citrus em um canudinho porque eu havia gostado deles. Era um almoço normal até alguém aparecer na minha mesa.



–Olá Sra. Di Angelo.



Olhei para cima para encontrar Leo e Percy. Quem havia me chamado de Sra. Di Angelo fora Leo, e Percy me olhava com um sorriso levemente safado. Corei como um tomate.



–Não sou casada com Nico. Ele é meu namorado. — Tentei disfarçar minha cor de tomate com conversa fiada.

–Mas vai se casar com ele. — Retrucou Leo.

–Eu nem sei se vou estar viva ano que vem. Imagina se vou casar com ele.

–Mas você quer.

–Vamos mudar de assunto. O que estão fazendo aqui?

–Somos seus ajudantes do dia. — Percy falou pela primeira vez na conversa. Ao falar ele fez uma pose que eu deduzo que era pra parecer masculina e heróica, colocando as mãos nas cintura e estufando o peito. Olhando do ângulo que eu estava parecia que ele estava prestes a espirrar. Isso sim.

–Ajudantes no que?

–Seu castigo. — Respondeu Percy desfazendo sua pose supostamente-heróica-só-que-parecia-que-ia-espirrar.

–Droga eu tinha esquecido. Quais são os de hoje?

–Lavar a louça e limpar os estábulos.



Droga. Isso vai me atrasar muito.



–Ok. Vou só terminar meu refrigerante e já estou indo. Que horas são?

–Lá por meio dia. Porque? — Leo soou desconfiado.

–Nada não. — Tomei meu refrigerante em cinco segundos e quase morri engasgada. — Vamos indo?



Me levantei rapidamente e sai andando. Não precisei pegar meu prato porque tinha certeza que ele iria aparecer lá na cozinha.

Lavei a louça em tempo recorde. E quando fui lavar os estábulos não fiz quase nada. Os cavalos e Pégasos não gostavam de mim. A grande maioria. Foi estranho ver Percy falar com eles porque parecia que ele falava sozinho.



–Blackjack e o Ping Pong acharam você bonita. O resto achou você assustadora e quer que eu te afogue.

–Ah, obrigada Blackjack e Ping Pong. — Falei rindo um pouco e fazendo carinho neles.



Percy controlou a água, e afastou os Pégasos. Enquanto eu ficava perto de Blackjack e Ping Pong tentando não assustar os outros cavalos. Eu não fiz basicamente nada.

Quando ele terminou agradeci envergonhada por ele estar fazendo o que eu deveria estar fazendo e ele disse que não havia problema algum.

Corri para o meu chalé para tomar um banho. Eu estava fedendo muito, suada e grudenta. Quando estava pronta eram 14 horas. Não dava mais tempo. Iria ter que usar os métodos que eu não queria.

Bati com força na porta do chalé de Hades. Esperei dois segundos e ninguém atendeu. Bati novamente com menos delicadeza que antes.



–Nico caramba!



A porta abriu enquanto eu ainda batia e eu quase dei um soco no ser que abriu a porta. Um ser branco, sem camisa e com um corpo maravilhoso.

Quase perdi a linha do raciocínio. Quase.



–Queroquevocêmelevepelassombras. — Falei a frase tão rapidamente que pareceu que eu estava tendo um treco.



De repente Nico explodiu em risadas. Eu fiquei maravilhada, chocada e brava. Tudo ao mesmo tempo. Senti minhas bochechas esquentarem. Sua risada era tão gostosa que eu poderia ficar ouvindo o dia inteiro.



–Fala mais devagar. — Ele disse ainda rindo e colocando as mãos em minha cintura.

–Eu quero que você me leve até a Anne pelas sombras. — Falei pausadamente.

–Onde está a senhora eu-quero-fazer-tudo-sozinha?

–Está atrasada. — Ele estava com um sorriso enorme no rosto.

–Entra. — Ele disse soltando minha cintura e abrindo caminho para mim passar.



Eu fiquei envergonhada de ficar sozinha com ele ali dentro, com ele naquele estado. Mas entrei mesmo assim porque precisava dele. E eu não poderia morrer de vergonha pra sempre. Ele era meu namorado afinal.



–Então, aonde quer ir? — Tirei o bilhete do meu bolso e entreguei pra ele. — Okay. Espera só um segundo.



Ele atravessou o chalé e foi em direção ao guarda roupa. Enquanto ele pegava uma camiseta eu observei o chalé dele. Havia uma beliche com as duas camas bagunçadas. Na de baixo havia algumas pedrinhas coloridas espalhadas pela cama. A de cima não tinha nada de diferente. A não ser pela bagunça que mostrava que ele havia acabado de acordar. O chalé por dentro era como o meu. A parede da porta de entrada e a oposta eram pretas. As outras duas eram brancas. Na parede da porta de entrada havia uma lareira e na oposta havia uma porta que eu acho que era um banheiro, a beliche no canto da parede e uma mesa de cabeceira. Em cima da mesa de cabeceira havia um único bonequinho, que eu não consegui definir o que era. Na parede de frente para a beliche havia o guarda roupa.



–Vamos? — Nico me tirou da minha observação do quarto.

–Claro. — Respondi.



Ele estendeu a mão para mim e eu a peguei. Ele me puxou para mais perto e segurou minha cintura. Parecia que íamos dançar, mas eu sabia que o que iríamos fazer não era tão divertido como dançar. Olhei para ele. Seus olhos fechados em foco, seu maxilar forte e lábios grossos e macios. Ele era lindo. E acima de tudo era meu.


Um segundo depois que me dei conta disso tudo ficou preto, frio e assustador.

Notas finais
E ai o que acharam? Acham que a Sophie vai conseguir driblar a morte assim? E o que estão achando de Niphie? Minha vida ta melhorando de verdade, eu voltei a falar com alguém que me importa muito e recebi uma noticia quase boa