Sou melhor com você
7 Capítulo 7°
Foi durante a consulta do quarto mês que eles descobriram o restante da história.
— Gêmeos? — ela repetiu olhando para o médico.
— Não há dúvida disso.
Joan deixou o consultório aturdida, mais do que quando ele confirmara a gravidez, dois meses antes. E agora, o que faria?
Sherlock estava fora, investigando, e ela correu para casa esperando ter algum tempo para si mesma antes de encontrá-lo. Já sabia que ele faria perguntas sobre a consulta, como acontecia depois de cada visita. Chegara a dizer que a acompanharia, caso não ficasse satisfeito com os relatórios.
Era surpreendente como sua vida havia mudado em apenas dois meses. Em alguns sentidos era como se sempre houvesse estado grávida, e em outros, como se Sherlock houvesse se mudado há apenas alguns dias.
Cumprindo a promessa, ele não voltara a insistir no pedido de casamento, e também não tentara tirar vantagem do fato de estarem dormindo na mesma cama.
Joan parecia estar sendo mais afetada que ele. Dividir o quarto aumentara a intimidade entre eles, embora Sherlock tivesse a consideração de deixá-la sempre com alguma privacidade. Por outro lado, não parecia perturbado quando tinha de despir-se com ela no quarto. Dormia usando apenas um short de corrida, pois não possuía pijamas e não pretendia comprá-los. Essa era a única concessão que fazia aos seus pudores.
Aos poucos Joan ia habituando-se à nova situação, e em alguns momentos não conseguia nem se imaginar sozinha. Ultimamente vinha esforçando-se nesse sentido.
O médico a prevenira sobre um eventual aumento em sua necessidade de sono, e a previsão confirmava-se dia-a-dia. Sentia-se mais cansada, e podia até imaginar como estaria dentro de dois ou três meses. Gêmeos!
No quarto, trocou o vestido por um robe confortável. Dormiria um pouco e depois desceria para preparar o jantar, de forma que a refeição estivesse pronta quando Holmes chegasse. Essa foi a última coisa em que pensou antes de acordar sentindo um delicioso aroma vindo da cozinha.
Sherlock estava em casa.
Sentada na beirada da cama, esperou alguns instantes antes de levantar-se, como acostumara-se a fazer nas últimas semanas. Aprendera que não podia mais saltar da cama sem correr o risco de cair.
Também aprendera a subir e descer a escada devagar devido a barriga de quatro meses. Quando entrou na cozinha, Sherlock estava debruçado diante do forno, de costas para ela, mas olhou por cima do ombro e sorriu.
— Olá, dorminhoca. Como passou o dia?
— Bem — ela respondeu depois de sentar-se perto do balcão e bocejar.
— Isso foi tudo que o médico disse? Bem?
— Na verdade, ele pronunciou mais uma palavra.
Sherlock aproximou-se e abraçou-a, mais um gesto a que se habituara nos últimos tempos.
— Que palavra foi essa?
— Gêmeos.
Joan observou sua expressão enquanto a palavra e seu significado eram registrados pelo cérebro. Sherlock sentou-se no banco ao lado dela e refletiu por alguns instantes como se não compreendesse o que ouvira.
— Gêmeos? — repetiu pouco depois.
— Gêmeos.
— Meu Deus...
— Foi exatamente o que senti.
— Ele... tem certeza?
— Absoluta.
— Uau! Sabe o que isso significa, não?
— Temos de dobrar todos os itens da lista de compras.
— Também. Mas estou falando sobre o futuro. Teremos de encontrar uma casa maior. Não podemos deixar nossos filhos espremidos naquele quarto por muito tempo. É claro que ainda temos alguns meses, mas é melhor começarmos a procurar.
— Sherlock... não. Esta casa é tudo que posso ter. Ficarei aqui mesmo.
— Não comece com isso novamente, está bem? Já disse que não está sozinha nessa história. Estou preparado para desempenhar o papel do pai responsável, e isso me faz lembrar que é hora de mencionarmos novamente aquela palavra cuja inicial é C. Ainda não se deu conta de que podemos dar certo? Estou feliz aqui. Não faço exigências ou cobranças, não reclamo e...
— Eu sei disso. É que... — e parou, sem saber o que dizer. Estava cansada de tentar entender tudo que sentia.
— O que é, meu bem? Do que tem medo?
— Não sei. De tudo, acho. Mas você está certo. Tem sido maravilhoso nesses últimos meses. Tudo que faço é comer e dormir, engordar e resmungar, chorar e...
— Pois é exatamente isso que deve fazer. Comer, dormir, engordar, resmungar... e só chora quando está aborrecida, cansada ou com fome, ou...
— Entende o que digo? Encare os fatos, Sherlock.
— Digamos que é uma resmungona adorável e uma chorona muito charmosa. Tenho pensado que já passou da hora de fazer uma confissão.
— Que confissão? — ela perguntou desconfiada.
— Nunca pensou que voltei de Londres com um propósito em mente, mesmo antes de saber que estava grávida? Já imaginou que posso ter vindo pedi-la em casamento?
— Não.
— Nunca pensou na possibilidade de eu ter descoberto que a amo?
— Bem, nisso eu posso acreditar, já que também amo você. Por que acha que tem sido tão difícil lidar com tudo isso? Não consigo me esquecer da segurança que demonstrou naquela noite quando disse que não pretendia se casar. Foi muito convincente.
— Porque precisava convencer-me do que dizia. Mas depois passamos a noite juntos e nosso encontro foi mágico, Joan. Nunca vivi nada parecido. E para completar a magia, descobrimos que nosso encontro produziu dois bebês. Mesmo que não estivesse grávida, aquela noite em seus braços me fez abrir os olhos para algumas coisas. Acho que a amo há muito tempo sem saber, mas depois do nosso encontro pude reconhecer meus sentimentos. Tenho tentado não pressioná-la, mas dormir a seu lado tem sido um verdadeiro exercício de autocontrole. Sei que fiz uma promessa e pretendo cumpri-la, mas nada me faria mais feliz do que ser seu marido, fazer amor com você e planejar o futuro a seu lado.
— Está aborrecido por dormir comigo todas as noites e não poder fazer amor?
— É claro que sim! Sou um ser humano de carne e osso, um homem de sangue quente, e você é a mulher mais sexy que já conheci. Levei alguns anos para crescer e apreciar esse fato, mas depois que a tive nos braços... Tenho de me esforçar para lembrar que está grávida.
— O médico disse que podemos manter relações até as últimas semanas de gravidez.
— Quer dizer que perguntou isso a ele?
— Talvez tenha deixado escapar algum comentário, não sei. O fato é que ele ofereceu essa informação e explicou que algumas mulheres experimentam um aumento no apetite sexual durante a gravidez, quando sabem que não precisam se preocupar com anticoncepcionais, por exemplo.
— E você sente essa... mudança de apetite?
— Como posso saber?
— Podemos descobrir juntos, se quiser. Tudo pelo bem da ciência, é claro.
As palavras sussurradas e o braço em torno de sua cintura provocaram um arrepio.
— Depois de nos casarmos, naturalmente — Holmes concluiu. — O que as crianças pensariam se experimentássemos esse tipo de intimidade antes da cerimônia?
— Sherlock, não seja...
— O que acha de telefonarmos para Srta. Hudson e David e convidarmos os dois para virem até aqui? Podemos ter uma cerimônia discreta numa pequena capela. Eles adorariam! Se não me engano, também se casaram na igreja do bairro. E não se preocupe, porque eu cuidarei de tudo. Só terá de aparecer na hora marcada.
— Está fazendo outra vez.
— O quê?
— Tomando decisões sem me consultar.
— Tem razão. Acho que toda essa conversa sobre sexo afetou meu cérebro. Desculpe.
— Tudo bem. Nesse caso, sou obrigada a concordar com você.
— É mesmo?
— A única razão pela qual relutei em aceitar seu pedido foi o medo de me envolver demais, porque quando partisse eu...
— Não vou a lugar algum. Será que pode enfiar esse dado em sua cabeça dura? Vai ficar tão cansada de me ver o tempo todo a seu lado, que fará de tudo para me convencer a deixá-la em paz, nem que seja só por alguns minutos.
— Não acredito que me considere sexy — ela murmurou, sorrindo ao ser abraçada com ternura.
— Então aceita meu pedido de casamento?
— Sim, desde que me prometa uma coisa. Se descobrir que cometeu um engano, será franco comigo e encontraremos uma solução razoável.
— Já estamos abrindo uma rota de escape antes mesmo de celebrarmos o noivado?
— Estou falando sério, Sherlock.
— Eu sei, e é por isso que a amo tanto.
— Talvez queira voltar para Londres novamente.
— Nesse caso, iremos juntos. Não sou seu pai, Joan. Não vou abandoná-la, nem morrerei como sua mãe. Pelo menos por enquanto...
Ao ouvi-lo mencionar o pai. Joan experimentou uma intensa onda de dor. Por isso sentia-se mais segura sozinha. Por que assim não teria mais ninguém para perder?
— Alguma vez deixei de cumprir o que prometi? — ele perguntou.
— Não.
— Era só o que eu queria ouvir — Sherlock concluiu antes de voltar para perto do forno.
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