Sou melhor com você
5 Capítulo 5°
— Srta. Hudson? Sou eu, Sherlock. Pode vir me buscar no aeroporto, por favor?
Havia parado numa cabine telefônica logo depois de desembarcar do vôo que o trouxera de New York.
— Sherlock! Meu Deus, pensei que estivesse do outro lado do mundo! Sim, é claro que irei buscá-lo. David está jogando golfe, mas irei imediatamente — Jennifer Hudson afirmou entusiasmada antes de desligar.
Sherlock devolveu o fone ao gancho e abaixou-se para apanhar a valise que deixara no chão. Deixara a maior parte de suas coisas na casa de Joan, que insistira em passar as roupas com que viajava. Sorrindo, pensou em como ela já se comportava como uma esposa dedicada, antes mesmo de dizer que o aceitava.
Pelo menos conseguira superar o choque de descobrir que seus piores temores haviam se tornado realidade. Estava prestes a se tornar pai.
A ideia jamais fizera parte de seus planos. Na verdade, nunca fizera sexo sem tomar todas as precauções, mas com Joan deixara as precauções de lado como se as consequências não o assustassem. Como se quisesse engravidá-la.
Quem poderia saber que tipo de força primitiva o dominara naquele momento? Inconscientemente, devia ter presumido que ela usava anticoncepcionais. Não havia perguntado, apesar de terem passado a noite toda nos braços um do outro, fazendo amor e conversando sobre diversos assuntos, inclusive os mais íntimos.
E se não houvesse voltado? A ideia provocou um arrepio. Joan já havia sofrido demais, e não precisava de mais essa provação. E se ela quisesse localizá-lo para contar que estava grávida, onde o teria encontrado?
Havia partido no dia seguinte como se fazer amor com a melhor amiga não tivesse nenhum significado especial, mas logo descobrira que aquela noite havia mudado sua postura diante do mundo e da vida.
A verdade era que não conseguira tirá-la da cabeça.
Sentira necessidade de revê-la, e a necessidade viera acompanhada da certeza de que não poderia esperar alguns anos pelo reencontro. Perdera a habilidade de concentrar-se e focalizar nos casos, e felizmente havia cedido ao impulso de embarcar no primeiro vôo de volta a New York.
Holmes dirigiu-se à saída do aeroporto para esperar por Hudson. Não estava exatamente ansioso para revelar a novidade para sua amiga.
***
Holmes estava estendido numa das espreguiçadeiras do quintal, cochilando. Haviam acabado de sair quando o telefone chamara Srta. Hudson de volta ao conforto do ar-condicionado do interior da casa.
A brisa morna e a sombra de uma árvore formavam uma combinação irresistível para alguém que, como ele, não dormia há dias. Sentia-se relaxando aos poucos, e sabia que, caso Hudson demorasse a voltar, já o encontraria dormindo. E se adormecesse agora, demoraria um bocado para voltar ao mundo dos vivos!
Não. Tinha de manter os olhos bem abertos até explicar por que voltara para o solo americano. Ela não havia feito perguntas no trajeto desde o aeroporto, e por isso decidira adiar o momento de dizer que partiria novamente dentro de um ou dois dias, assim que encontrasse um caminhão para transportar suas coisas.
A srta. Hudson voltou trazendo uma bandeja com uma jarra e copos, e Sherlock levantou-se para ajudá-la.
— Por que não me avisou que estava preparando uma bebida gelada? Podia ter ido buscar a bandeja para você. Pensei que ainda estivesse falando ao telefone.
— Oh, não! Era David retornando o recado que deixei na secretaria do clube de golfe. Ele ficou surpreso e encantado por saber que está em casa, e disse que virá para cá assim que terminar de resolver algumas coisas na cidade. Quer limonada?
Sherlock depositou a bandeja sobre a mesa entre as duas cadeiras de plástico e serviu a bebida gelada para os dois.
— Bem, se David ainda ficará algum tempo fora, acho que podemos aproveitar esse tempo para discutirmos um assunto importante.
— Sabia que havia algum motivo para ter voltado. — ela disse, sentando-se com o copo entre as mãos e fitando o amigo com expressão preocupada. — Aconteceu alguma coisa entre você e seu pai? .
— Não se trata de nada relacionado a meu pai. O assunto diz respeito a Watson.
— Joan Watson? Aconteceu alguma coisa com ela?
— Bem, ela... está grávida.
— Oh, meu Deus! Quer dizer que ela se casou? Não sabia que havia alguém especial, mas não a vejo há tanto tempo que...
— Ela não se casou, Hudson.
— Oh, pobrezinha! A vida não tem sido muito fácil para ela, não é? Joan deve amar muito o pai desse bebê, ou não teria permitido que isso acontecesse.
Sherlock sentiu o comentário atingi-lo como uma chicotada. Não sentia-se capaz de falar, pois temia revelar as emoções confusas que o tomavam de assalto.
— Existe alguma possibilidade dela se casar com o pai da criança? Quero dizer, essa é sempre a melhor solução, se houver alguma possibilidade do relacionamento dar certo.
Holmes esvaziou o copo de limonada e deixou-o sobre a mesa antes de responder.
— Eu sou esse homem, Hudson. Sou o pai do filho de Joan.
— Você... o quê? Sherlock, está dizendo que você e Joan...? Não, acho que não entendi. Quero dizer, como...? Você engravidou Joan Watson? — Jennifer Hudson disparou horrorizada.
— Passamos a noite juntos na véspera de minha partida para Londres. Aconteceu, Jennifer... Não foi nada planejado. Não sei nem como explicar, e mesmo que soubesse, acho que o assunto só diz respeito a mim e a Joan. Mas, assim que parti, percebi algumas coisas sobre nosso relacionamento e compreendi que ela era mais que a irmã que eu nunca tive. Era parte da minha vida, sim, e uma parte muito importante, mas num sentido diferente.
— Entendo. Percebeu que estava apaixonado por ela, certo?
— Você não parece surpresa. — O sorriso de Hudson era triste.
— Eu sempre soube que ama essa moça há anos, e eu tinha certeza de que um dia saberia entender seus sentimentos. Espero que não seja tarde demais para realizá-los.
Nenhum dos dois disse nada por alguns instantes. Sherlock pensava em como havia sido estúpido por não ter percebido antes o amor que sentia por Joan, surpreso com a própria ingenuidade.
Depois de alguns instantes Hudson encarou-o como se saísse de um transe.
— É estranho. Passou anos de sua vida protegendo essa moça, e de repente descubro que foi descuidado a ponto de...
— Eu a pedi em casamento — Sherlock revelou.
— Era a única atitude que poderia esperar de você, meu amigo, e fico feliz por não ter perdido tempo. Sei que será difícil ajustar-se à vida de um homem casado, mas pelo menos terá o conforto de saber que tomou a atitude correta. E você a ama, e ela...
— Ela ainda não aceitou meu pedido.
— Não?
— Acho que Joan não me considera exatamente o marido ideal. E quanto a ser pai... bem, acho que sua opinião não é muito diferente.
— Oh, Deus!
— É claro que pretendo fazê-la mudar de ideia, mas vou precisar de algum tempo. Felizmente ainda temos alguns meses antes da chegada do bebê.
— Ela tem certeza de que está grávida?
— Joan consultará um médico na semana que vem, mas tudo indica que espera realmente um filho.
— E o que pretende fazer agora?
— Vim buscar minhas coisas para... bem, vou me mudar para a casa dela. Sei que essa não é a melhor solução, mas é melhor do que permitir que ela crie uma rotina da qual eu não faça parte. Quero estar perto dessa criança desde o início. Não pretendo permitir que Watson saia do meu campo de visão pelo menos até dar à luz.
— Pobrezinha! Se está mesmo decidido, ela não tem chance de escapar — Srt.a Hudson sorriu com tristeza. — Não se preocupe, Sherlock. Joan vai aceitá-lo como marido. Ela só precisa de tempo para ajustar-se à situação, pois é sensata demais para se deixar apressar. Ela fará tudo que puder para dar ao filho o lar estável que nunca teve.
— O problema é que ela não me considera capaz de construir esse lar estável.
— Mas Joan logo compreenderá que você mudou. Agora está preparado para assumir responsabilidades e criar raízes... não?
— Oh, assim que soube da gravidez...
— Antes disso, querido. O velho Sherlock ainda estaria em Londres, correndo atrás de algum bandido. Não teria voltado tão cedo se já não houvesse se dado conta do que sente por Joan. Assim, acho que a melhor maneira de convencê-la a aceitá-lo é dizer que a ama, e já estava disposto a pedi-la em casamento antes de saber sobre a gravidez. Aliás, por que não a trouxe com você?
— Eu tentei, mas ela disse que não seria capaz de encará-la, pelo menos por enquanto.
— É como eu disse. Joan precisa de algum tempo para ajustar-se. E também precisa de você, e vai precisar cada vez mais ao longo dos próximos meses. Só terá de fazê-la entender que quer se tornar parte da vida dela e do bebê. E o fato de ela amá-lo já é mais um ponto a seu favor, meu amigo.
— Não tive a impressão de ser muito amado nas últimas horas. Na verdade, se conseguisse fazer uma miniatura minha, ela já estaria espetando o pobre boneco com agulhas.
— Bobagem! — Hudson riu. — Ela o ama. Sempre o amou. Assim que puder passar algum tempo com ela e provar que está realmente disposto a cuidar dela e dessa criança, verá que tenho razão.
— Espero que sim, porque não pretendo desistir.
— Por que não vai descansar um pouco? Contarei tudo a David assim que ele chegar, e poderão conversar amanhã. Há muito tempo para isso. Tudo vai acabar bem, Sherlock. Espere e verá.
Hudson estava sorrindo quando acabou de falar. Sherlock levantou-se e foi para o quarto que costumava ocupar quando visitava os amigos. Quando estava passando pela porta da cozinha, ouviu uma gargalhada e soube que a Hudson acabara de assimilar a notícia.
— Um bebê! — ela disse, seguindo para dentro de casa. — Mal posso esperar para dizer a David que serei tia!
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