Sou Feliz, pois Amei e Sofri

1 Um novo lugar para chamar de lar


Mudei-me, e mudei novamente. Era triste me adaptar. Nunca consegui realmente essa façanha e quando começava a me sentir em casa tive de mudar novamente, era a segunda mudança de um estado para outro, ou seja, a terceira vida que eu teria estava prestes a começar. Cheguei a essa cidade que a cada dia me tornava mais insana em alguma data de junho de 2006. Tinha onze anos, muito nova e inexperiente como sempre. Fazia a quinta série e a mudança conteceu no meio daquele ano. O que tornou a adaptação mais difícil, a aquela altura os grupinhos já haviam se formado e as pessoas não costumavam mais aceitar que alguém entrasse em suas panelinhas. Mas cheguei decidida a ser melhor aqui do sempre fui antes. Não me deixar usar da forma como eu sempre deixei, jogada de lado, capacho daqueles que diziam-se meus amigos e na verdade não eram. Raros eram sinceros amigos, e alguns eu ainda desprezei e optei pelos falsos.

Entrei em meu novo colégio, menor do que o que eu estudara antes, fingindo para mim mesma ter força, que era alguém em quem todos reparavam, disfarçar bruscamente minha timidez. Parei na porta da sala olhei, não havia muitas pessoas, algumas me encararam.

Naquele momento eu vislumbrei um rosto que me tirou o fôlego. Seus olhos claros, verdes ou azuis, eu não sabia dizer. Seus cabelos loiros quase que em ruivos-alaranjados, não eram grandes, mas eram maiores do que os meninos geralmente costumam usar. Desviei o olhar dele recuperando me.

Mariella, Mariella, mantenha seu foco, meninos te deixam sem saber o que fazer, e a partir de hoje você é forte, será querida e popular. Tem que saber o que fazer para dominar. Não pode se deixar parecer uma idiota!

Recompus me num breve sorrizo, e disse um oi no momento em que entrava naquela sala estranha. Foi meio apagado, mais timidamente do que eu pretendia dizer, mas foi bem nítido, ninguém reparou em meus pequenos deslizes. Eu acho. Fui direto para o fundo da sala de cabeça baixa, sentindo minhas bochechas se ruborizarem, não era acostumada a falar para muitas pessoas de uma vez só. Sentei na última cadeira do primeiro corredor. Logo vieram atrás de mim dois garotos.

- Oi! – disse o loiro que havia me deixado deslumbrada e o amigo que conversava com ele veio logo atrás.

- Você parece ser tão legal, ninguém aqui chega dizendo oi igual você.

Ruborizei novamente por ter parecido tão simples meu plano idiota para ser aceita. Mas eu não sou tão fácil me sentir a vontade. Não sabia se feliz ou infelizmente.

- Ah, pois é, né. – ri abafadamente.

- Eu sou o Victor Hugo, esse é o Joseph. Com é o seu nome?

Oh! Então era esse o nome do meu novo amor a primeira vista? Eu era muito boba com essas coisas na época, me apaixonava perdidamente por alguém que nem sabia quem era, sofria por alguns meses e então descobria um novo amor, recomeçando o ciclo. Nome bonito, como ele. E também como o sorriso que ele me abrira ao dizer seus nomes. Retribui o sorriso.

- Eu sou a Mariella.

- Olha sua bolsa é de sapo. Hahá, que estranho, deixa eu ver. – Joseph já foi mexendo na minha mochila antes de terminar de perguntar. Tirou a caixa de lápis que havia em minhas coisas, e esta já foi escorregando de sua mão espalhando os lápis todos no chão.

- Pega agora!

Dei um tapa nas costas dele, que arregalou os olhos:

- Você é doida menina, já chega batendo nos outros.

Mas ao mesmo tempo ele se abaixava para pegar os lápis. E apesar dos seus comentários importunos, eu me senti a vontade com eles, seus deboches não eram dirigidos apenas a mim, mas também a ele mesmo, mostrando que ele era apenas um palhaço, e não tinha a intenção de me agredir como que falava. Gostei deles. Apesar de ter tido de aturar Joseph me falando inúmeras vezes como eu era bruta.

Naquele mesmo dia tivemos aula de Educação Física. Não me lembro bem em que horário, ao menos era uma aula em que eu poderia me sentir menos tímida. Nós iríamos jogar queimada. Ótimo, eu pensei. Eu era boa em queimada, bem, certamente melhor que a maioria. Durante o jogo fui uma das pessoas que ficou mais tempo na quadra.

- Oi. Eu sou a Renata. Como é seu nome? – disse uma colega enquanto jogávamos.

- Oi. Sou a Mariella.

Nós conversamos um pouco no meio da quadra. Não foi muito inteligente a idéia. Não joguei direito por conversar, e não conversei direito por ficar pulando o tempo todo para escapar das bolas. Logo fui queimada, porém não me importei muito, convencida de que havia feito uma amiga naquele momento, convencida que que tudo ia dar ceto e ia ser fácil.

A Renata era uma pessoa aberta, me apresentou a suas amigas, convenceu-as a me deixar entar no grupo. Eu oficialmente estava no grupo das populares já no primeiro dia de aula. Porém não senti firmeza na gentileza das outras meninas. Elas não gostaram de mim, seus olhares eram cínicos.