Soturnidade

7 Garotinha


Fiquei até mais tarde na empresa, o que significa que já está em um horário avançado.

Esta cidade é muito pequena e rural, então na voltar para casa passo por trechos cercados somente por plantações e árvores.

Lembro-me fortemente de minha primeira volta após o anoitecer nessa estrada e isso me assombra todas as vezes que passo por aqui.

Tinha acabado de ser transferido para China, ainda era muito imaturo, e nesse fatídico dia cometi o pior erro da minha vida.

Alguns quilômetros à frente há uma pequena fazenda, creio que uma das crianças da casa saiu à noite naquela ocasião, pois quando passava em frente ao local, tarde demais para qualquer reação, vi uma figura — parecia uma menina, mas não tenho certeza já que foi muito rápido — tentar atravessar a estrada correndo.

Me acharão um monstro pelo que fiz a seguir, mas é preciso saber antes de me julgar que não é um comportamento incomum na China.

Aqui, segundo as leis de trânsito, em caso atropelamento se o lesado ficar incapacitado, o atropelador deverá pagar indenização durante toda a vida da vítima. Já se ocorrer a morte, a quantia destinada a família do que partiu é significativamente menor.

Sim, passei mais uma vez com o carro para certificar-me que não sobraria uma testemunha.

Me odeio cada vez que lembro disso, era uma criança, meu deus.

Me arrependo profundamente do que fiz, mas não posso voltar no tempo e corrigir meu erro.

Balanço a cabeça para me livrar desses pensamentos e voltar a prestar atenção na estrada, buscando evitar que algo assim ocorra novamente.

Me surpreendo ao notar uma pessoa solitária caminhando no asfalto.

Ao aproximar-me percebo que é uma mulher muito bonita de longos cabelos negros, provavelmente é nativa. Ela usa um vestido de verão e não tem mais nada consigo.

Tento formar teorias do motivo para ela estaria ali, mas não chego a conclusão nenhuma, a não ser de que ela precisa de ajuda.

Parei ao seu lado e abri a janela do carro, pareceu se assustar um pouco. Era esperado, afinal ela é uma mulher sozinha no meio do nada abordada por um completo estranho.

— Senhorita, precisa de ajuda? — Pergunto, e ela me responde balançando a cabeça positivamente. — O que aconteceu? Teve problemas com o seu carro?

— Sim, senhor. — Parece muito tímida.

— Venha, entre no carro. Está indo em qual direção?

— Para Leste. Pode me deixar no próximo posto de gasolina.

— Ok. Entre. — Digo destrancando a porta.

E assim ela o faz. Penso que deve ser muito introvertida, pois sentou-se com as mãos nas coxas e de cabeça baixa. Ela não diz uma palavra por alguns minutos.

E então pude avistar a fazenda.

Quando passo por onde aconteceu o acidente estremeço com a lembrança, viro minha cabeça na direção da qual veio a criança anos atrás, olhando pela janela do carona.

— Mas o que? — me assunto ao perceber que a criatura do meu lado não é mais a bela mulher que entrou em meu carro.

— Cuidado senhor, não quero que você mate mais ninguém... além de mim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.