LISBON

Jane não trabalhou nos próximos dias e eu acabei agradecendo por isso. Abbott me perguntou o que estava acontecendo e eu consegui ser convincente o suficiente para dizer que não sabia.

Mas como meu chefe sabia do pedido de Pike ao seu chefe de Washington, Abbott quis saber se eu realmente iria embora. Quando eu respondi que ainda não sabia ele me deu um sorriso de lado, mas fomos interrompidos por Kim Fischer que chegou na sala.

Notei que Kim tinha um ar abatido. Ela tentava disfarçar mas eu notei as olheiras.

Abbott nos informou sobre o progresso do caso que estávamos trabalhando e deixou a sala porque foi chamado por alguém. Eu iria atrás dele quando Kim me chamou.

Eu queria falar com você. E eu pensei neste momento em dizer não, mas o olhar da Agente Fischer indicava que a conversa era necessária.

Claro. Eu respondi educadamente. A sala de Abbott era um lugar reservado e acho que Kim foi determinada em me pegar aqui neste lugar, para que ninguém nos ouvisse.

Eu e o Jane terminamos. Ela falou. Por um momento eu pensei que ela diria mais alguma coisa, mas ela não continuou. Não sei se sem coragem, ou então querendo se mostrar bem resolvida.

Eu, eu... não sei o que dizer. Eu falei o que me veio na cabeça. Não poderia dizer : eu sinto muito, ou que eu poderia falar com ele se ela quisesse.

Não há nada a dizer. Eu estou pedindo minha transferência para Seatle, minha mãe está com um problema de saúde e eu quero estar com ela neste momento. De toda forma, entre mim e ele, não daria certo. Kim falou e não saiu da sala, continuou parada ali olhando para mim e eu não sabia o que fazer neste momento.

Porque está me contando ? Foi o que perguntei diante desta quase intimidação dela.

Porque você fará uma entrevista para mudar de setor e sua decisão mexerá com toda esta divisão, Teresa. E porque ambos te amam. Ela não precisou explicitar, mas Kim sorriu quando percebeu que Pike estava do lado de fora, ouvindo nossa conversa.

Eu fiquei sem graça, muda, entendendo que não era um puxão de orelhas que ela me dava. Era uma sacudida para eu resolvesse logo a minha vida. E pela cara de poucos amigos de Marcus Pike, acho que ele esperava o mesmo.

Desde este dia Kim preferiu ser apenas profissional comigo. Eu sabia que no momento, não seriamos amigas. Talvez no futuro, quando tudo se esclarecesse e os sentimentos já estivessem todos nos devidos tamanhos.

Pike pelo contrário, na última semana, mesmo dizendo não querer me pressionar, ele acabava sempre e toda hora que conseguia, tocando no assunto.

Quanto ao Jane, não liguei para ele, eu ainda não estava pronta. Embora a lembrança dos nossos momentos não saísse da minha cabeça.

Eu não estava indecisa, tudo em mim gritava que eu queria ficar com o Jane. O que eu queria era fazer essa transição de uma forma suave para o Pike, mas não sei se conseguiria.

Hoje seria a entrevista com a diretoria da capital, enquanto esperávamos a conexão se estabelecer e Pike chegar, já que ele quis estar presente, Abbott me disse que falou com Jane no telefone.

Eu abri meus olhos em surpresa e já ia dizer algo, mas Denis me interrompeu dizendo que ele estava bem, pensando na vida. Que sorvete de creme de morango era a sua melhor companhia toda noite.

Eu sabia que meu chefe não entendeu nada da frase, mas intuía que era para mim.

Acabei fazendo a entrevista com o Diretor de Washington apenas por insistência do Pike e não fui deselegante quando disse que no momento, não era minha intenção deixar Austin. Não pude deixar de notar o sorriso que Abbott me deu. E o olhar desapontado do meu namorado.

Pike ficou bastante chateado com minha negativa a Washington, mas enquanto ele tentava entender o que me fazia permanecer na equipe de Austin, eu pensava em como dizer não a outra proposta dele.

Por fim, optei por ser sincera. Totalmente sincera. Eu não despejei meus sentimentos para ele, mas disse que o que tivemos foi muito importante para mim, mas eu não poderia continuar.

E quando ele perguntou se eu ficaria com o Jane eu disse que esperava que sim. Que eu achava que era a hora certa para descobrir.

Esperei que ele explodisse, me dissesse coisas horríveis, mas ele não fez nada disso.

Agradeceu o tempo de convivência e disse que me amava. Que esperava que eu fosse feliz.

Eu tinha certeza que seria feliz, eu pensei. Mas não disse a ele.

JANE

PRAÇA ROOSEVELT – Dias depois.

Eu vinha todo dia a praça Roosevelt na esperança de que Lisbon aparecesse alguma noite desde que mandei aquela indireta pelo Abbott. Eu tinha certeza que ele falaria com Lisbon sobre nossa conversa e eu realmente gostaria de falar com ela, mas também era preciso que ela tivesse tempo para suas próprias decisões.

Na praça eu ficava até um certo horário, caminhava e depois ia para casa. Mas não desistia, ainda que fosse para me dizer não, ela apareceria algum dia.

Não demorou muito, uma noite eu estava realmente distraído vendo a brincadeira de um pai com sua filha. Era bonito vê-los correndo pela praça, ela de patins e ele a protegendo. Não doía mais em mim ver estas cenas, acho que a vingança apaziguou minha fúria. Agora eu via estes momentos e pensava se poderia vive-los novamente algum dia.

Você disse que era sorvete de creme de morango. Ouvi Lisbon antes de vê-la, meu cone com o sorvete verde em cima não deixava dúvidas que era de pistache.

Eu sorri calorosamente para ela, mas meu coração começou a galopar.

Você sabe que eu gosto de variar. Meu sorriso deveria ser do tamanho da galáxia, porque vi Teresa abrir um dos maiores sorrisos para mim de volta.

Estava me esperando ? Teresa fez charme.

Todos os dias. Eu retribuí.

Autoconfiante.

Esperançoso. Não chegou nenhuma mensagem sua dizendo Adeus.

Eu poderia ter ido embora sem me despedir. Ela blefou.

E eu teria ido atrás de você em Washington, Teresa. Mas algo em mim sabia que você ficaria. Eu abri meus braços e esperei que ela viesse até mim, para dentro deles. O que ela fez sem pestanejar.

Como é bom sentir Lisbon perto, muito perto de mim.

Abbott te contou, não foi? Ela deduziu.

Assim que você disse não ao figurão da capital. E meu cone de pistache foi completamente esquecido dentro do beijo que nós demos.

A praça toda iluminada e eu e Lisbon perdidos dentro da maravilhosa sensação de estarmos juntos, tentando uma nova configuração de vida.

Eu, eu, eu, não pude ir embora, não consegui. Eu quero muito ficar com você, Jane. Ouvi uma Teresa Lisbon emocionada e muito valente me dizer isso, sabendo que declarações mais profundas da parte dela, demorariam tempo. Ela era assim, reservada, mas eu sei que era amor.

Era quase final de semana e eu tinha comigo a mulher que eu queria. Nesse momento, meu único desejo era ter alguns momentos muito prazerosos com ela, longe de tudo.

Você tem que trabalhar amanhã ? Eu perguntei querendo que esta mulher pudesse ter um fim de semana prolongado comigo.

Não, Abbott me deu até 2ª feira para descansar.

— Tem um resort rustico nas montanhas a leste de Austin, são apenas 10 chalés isolados, total privacidade e muito, muito conforto.

— Você quer ir agora ? Teresa perguntou e eu fiz que sim com a cabeça.

— Apenas o tempo de confirmar a reserva.

— Jane?!. Lisbon sorriu para mim completamente em dúvida, mas aceitou minha oferta.

LISBON

EAST TEXAS AUSTIN — CHALÉS

O lugar era deslumbrante, não sei como o Jane descobriu essa pérola. Era isolado de tudo e nos permitiria dias de pleno descanso.

Fomos recebidos por uma recepcionista bondosa que nos explicou como tudo funcionava e que se precisássemos de algo, ela estaria as ordens.

Ele parecia relaxado e assim que a porta foi aberta, eu fiquei boquiaberta.

Meu Deus, Jane, que lugar lindo. E era mesmo. Nosso quarto era amplo, um ante sala bem decorada com um sofá tão confortável que eu poderia viver nele. Atrás do sofá estava uma cama, grande o bastante para umas quatro pessoas, muitas almofadas e anexo um banheiro com uma banheira.

Jane não me respondeu, ele acomodou nossas coisas com todo cuidado no quarto e agora estava olhando para mim, parada boquiaberta diante da sala.

Ele se aproximou com cuidado, talvez percebendo o nervosismo que eu tentava disfarçar.

Nós merecemos, Teresa.

Sim, nós merecemos.

E eu realmente acreditava nisso. Anos ao lado desse homem, preocupada, rezando, ajudando, cobrando e salvando muitas vezes ele de si mesmo. E agora estamos aqui na única intenção de nos divertirmos. Nos merecemos tudo isso aqui, esse sossego e essa disponibilidade.

Eu tomei a liberdade de pedir um vinho e uns convescotes para nós, já está tarde e eu não quero sair deste quarto tão cedo. Jane falou suave quando destampava a bandeja e eu via um vinho tinto seco e queijos e frutas arrumados de forma simpática e convidativa.

Nós nos acomodamos no sofá, juntinhos, curtindo uma proximidade que nunca tivemos. Jane nunca foi um homem de toques, tampouco eu. Éramos pessoas praticas e muito focadas, acho que por isso era tão valioso estar com ele assim agora.

Deveria soar estranho ter os braços do Jane ao meu redor, mas eu sentia um prazer diferente a cada beijo que trocávamos. Tinham sabor de vinho e queijo e nada parecia mais delicioso. E os braços dele me apertando só tornavam a experiencia ainda melhor.

Jane começou uma serie de beijos no meu pescoço enquanto eu me inclinava para que ele tivesse mais acesso ao meu corpo. Não pude resistir a passar as mãos pelo seu cabelo. Durante muito tempo relutei em reconhecer que queria muito saber qual a textura destes lindos cachos loiros que ele tem, e agora que os tenho entre meus dedos enquanto sinto a respiração entrecortada do Jane no meu ouvido posso afirmar que nunca estive em lugar mais certo na vida.

Tanto tempo querendo você, Teresa. Jane disse sorrindo para mim, começando a desabotoar minha blusa, passando os dedos pela minha pele. Testando as águas, porque não era uma simples intimidade, uma que nunca tivemos, era o reconhecimento do afeto que existia entre nós.

Eu permiti que ele tirasse minha blusa, expondo o sutiã comum que eu usava. Deveria ter pensado em usar algo sexy e mortal, afinal, era nossa primeira noite. Mas acho que a pressa, a expectativa, não me permitiu pensar em nada disso. E nem sei se importa, agora que Jane me olha de forma expressiva e diz bem baixinho que eu sou linda.

Será que ele sabe o que estou pensando ?

Você é que é lindo, Jane. Eu respondi a ele também retirando o paletó e desabotoando o colete. Essa roupa característica do Jane me agrada profundamente, acho que ele fica muito lindo nelas, mas ver seu peito descoberto, seu braços fortes e esse olhar fixo em mim é muito estimulante.

Fico feliz que você goste, fico muito, muito feliz. Jane me deu aquele sorriso iluminado dele e brincou com a alça do meu sutiã , querendo retirar a peça e embora eu devesse sentir vergonha nesse momento, afinal de contas ele me conhece a anos, tudo que sinto é antecipação, desejo para que ele me veja por inteiro logo.

Meu sutiã é retirado e meus peitos se encostam totalmente no tórax do Jane enquanto nos beijamos cada vez mais fundo. Assim como eu, Jane também passeia as mãos pelas minhas costas e no meu cabelo, me colocando tão junto a ele que acho que estamos tentando nos fundir.

Eu mesma abro minha calça e vejo Jane fazer o mesmo com a dele e uma vez livres ele simplesmente me puxa para a cama gigante que temos a nossa disposição.

Não sei se algo mais foi dito a partir daqui, porque eu me rendi completamente ao meu parceiro. E ele a mim.

Jane sempre foi um homem muito focado em tudo que fez, e de repente, sentir esse foco sobre mim foi algo muito bom para conseguir ser compartilhado. Nós fizemos amor naquela cama de forma intensa e verdadeira. Eu me senti completa quando senti Jane me possuindo e mesmo com todo cuidado inicial, na intenção de sermos dóceis e medir o que agradava ao outro, não fui capaz de me controlar. Quando percebi estava puxando o Jane para mais perto, mais dentro, enquanto ele correspondia e pouco se controlava quando ia mais fundo e mais forte comigo.

Não sei se chegamos ao ápice ao mesmo tempo, mas eu senti minhas ondas vindo e lembro que pedi para o Jane não parar e quando voltei a mim, com a respiração controlada, Jane estava se vertendo em mim dizendo que me amava.

Nunca fiz amor desta forma antes. Eu já tive ótimos encontros, parceiros maravilhosos e criativos, mas nada que me arrebatasse com esta força. Eu não consegui me desgrudar de Jane depois que fizemos amor, não conseguimos ficar separados e ficamos ali naquela cama grande bem unidos como se mal nos coubesse no espaço que ocupávamos.

JANE

O dia já havia amanhecido a um tempo quando eu abri meus olhos. Lisbon já estava acordada, ela vestia o roupão do hotel e recebia nosso café da manhã. A bandeja era grande e eu conseguia distinguir frutas e sucos no meio de umas flores bonitas de enfeite.

Eu a ouvi se despedindo do garçom e então virar-se para mim.

O sorriso grande contrastava com as faces coradas dela, o que a tornava absurdamente adorável. Eu devia ter os cabelos completamente bagunçados porque Teresa se aproximou de mim e passou a mãos por eles, talvez os acertando, ou talvez só sentindo entre as mãos. Algo que me parece que ela sempre quis fazer, mas nunca teve coragem. Acho que meus cabelos são um ponto sexy para esta mulher em questão. Talvez seja como os olhos dela para mim, duas pedras verdes afrodisíacas.

Eu pensei em ir até o banheiro, escovar os dentes, talvez tomar um banho mas Lisbon se ajeitou na cama com nossa bandeja de café da manhã e tudo que eu pude pensar foi em como o beijo dela, misturado ao suco de laranja, me fazia querer simplesmente deita-la nessa cama e me perder dentro dela de novo.

Nossa pequena bagunça matinal foi muito bem vinda, meu corpo tinha uma reação diferente a aproximação de Lisbon, talvez ainda tentando entender como funcionávamos. Fazer amor com ela era diferente por muitas questões, sendo a principal porque nos conhecíamos a muitos anos, tínhamos uma intimidade intelectual. Era quase surpreendente que meu corpo não conseguisse se segurar diante dela e da proximidade permissiva que agora compartilhávamos.

Eu fiz amor com Lisbon na claridade da manhã com o mesmo desprendimento de ontem a noite, mal consegui formular algumas palavras enquanto o corpo dela me sugava para uma profundeza prazerosa que nos fundia e saciava.

Só acabamos o café da manhã bem mais tarde.

O fim de semana foi tranquilo. Eu e Lisbon passamos momentos agradáveis e fizemos descobertas interessantes sobre o relacionamento que estávamos iniciando. As caminhadas pelas trilhas nos permitiram falar da vida, dos sonhos e do que esperávamos para o futuro.

Foi com surpresa que eu ouvi Lisbon falando sobre a própria família e me vi relatando a falta que ela me fez quando vivi fora. E nos divertimos percebendo que ambos adoramos dormir de cobertor, mesmo no calor e que nossos hábitos antissociais e reservados eram entendidos como distanciamento pela maioria das pessoas com quem nos envolvemos.

O domingo a noite veio muito rápido na minha opinião e eu sabia que amanhã eu e Teresa estaríamos saindo da nossa bolha e encararíamos o FBI, nossos amigos, chefe e possivelmente até os antigos amores.

Ela queria um namoro reservado, preocupada que Pike e Fischer , e eu pouco me importava se ela colocasse uma faixa na porta do FBI nos declarando, ou não fizesse nada que indicasse que estava comigo. A gente estava junto, isso era o importante.

Eu estava calmo e seguro, feliz, enquanto guardava nossas coisas no carro para partirmos. Por isso, fiz a pergunta sem desespero no coração, apenas com a certeza de que, apesar da surpresa, a mulher diante de mim entenderia minha proposta.

— Teresa, quando for a nossa hora, você se casa comigo ?

Eu não consegui controlar minhas lágrimas, era para ser uma simples pergunta, mas eu notei que Teresa não respondeu nada, lágrimas também escorriam de sua face e sua cabeça balançava afirmativamente.

Ela tinha um sorriso que iluminava tudo a sua volta quando apenas mexeu a boca para sussurrar : Sim !

F I M

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