Sortis
1 ☆ — Saudade
Notas iniciais
Capítulo único — Saudade.
O espaço na cama se tornava mais constante, comum. A sensação de ausência ainda me fazia mal. Mesmo assim, continuei procurando por você. Cheguei até a acreditar que um dia você voltaria para me dizer “Bom dia, Luce. Você está tão linda hoje”. Mas tentei fugir da realidade, buscando uma forma de esquecer o que havia acontecido com você dois anos atrás. Nossa, nem dá pra acreditar que tudo isso se passou, não é, Natsu?
Resolvi escrever essa carta, porque... nem eu sei o porque.
Se não fosse pela Nashi, acho que eu estaria perdida no mundo, até porque mamãe faleceu faz alguns dias, então quem eu teria no mundo se não fosse o fruto do nosso amor? Foi uma coisa que nunca me arrependi de fazer, levá-lo para conhecer minha antiga casa, onde meus pais moravam desde quando eu era criança.
Eu sempre quis, desde pequena, casar e ter filhos lindos e saudáveis. Não queria riquezas, apenas amor. Naquela época eu tive a plena certeza que eu não conseguiria ter uma família dos sonhos, nas quais sempre via na televisão. Entretanto, tive o prazer de te conhecer e fazê-lo meu por tanto tempo. Lembro até da vez que te levei em casa, mas você não teve coragem de encarar meu pai, foi até engraçado. Você acabou ficando na porta por tanto tempo, que desisti de te levar para dentro. Foi uma sorte e tanta não estar frio naquela noite.
Você dizia que levar o namorado na casa dos pais em uma noite de verão, não era algo inocente de se fazer. Incrível, você sempre teve um respeito indagável por meus pais, acho que foi por isso que eles gostaram tanto de você. Naquele dia, até me ofereci para te acompanhar até a metade do caminho, mas você não aceitou, disse que uma dama como eu não poderia voltar sozinha para casa em uma cidade onde havia tantos pervertidos e tarados. Eu ri de tudo isso, me senti alguém especial quando ficava ao seu lado.
Se Gray não fosse tão imprudente, você ainda estaria aqui comigo, não estaria? Ele me disse que você não quis contar para ninguém sobre o que estava acontecendo com você. Só para ele. Foi muito egoísmo da sua parte. E sabia que quase todos os dias, a Nashi pergunta por você, e eu respondo que você está vendo ela do céu, e que está dançando com os anjos. Ela fica tão feliz!
Ela herdou seus cabelos cor-de-rosa, sua personalidade, até mesmo sua determinação. Até hoje eu me culpo por não ter engravidado antes, e saber que você não chegou a conhecê-la. Vocês iriam se dar muito bem. Estou até vendo a casa virar uma completa bagunça, com copos, pratos, objetos não identificados espalhados pela casa, me daria um trabalhão manter tudo isso em ordem, porém, isso não me importava. Nashi já faz tudo isso mesmo sem você por aqui, imagine se tivesse o pai para brincar... seria uma zona.
Fico pensando se você se lembra de quando nos vimos pela primeira vez. Pois é, quem diria que uma adolescente insegura como eu, iria se apaixonar pelo primeiro cara que tinha visto como um homem, mesmo que não parecesse. Aconteceram tantas coisas desde então. Lembro também, da nossa primeira troca de olhares, eu tive um arrepio indesejável e ainda por cima, eu não consegui disfarçar a vergonha que eu senti naquela hora. E você riu. Riu muito. Gargalhou, na verdade. Eu me senti tão envergonhada que sai correndo pelo corredor do colégio e ninguém entendeu. Nem mesmo você, eu acho.
Quando eu corri, não sabia direito pra onde ir, então entrei na primeira porta que eu vi. Tive sorte, era uma sala de aula completamente vazia. Não por muito tempo, claro. A porta abriu e, de imediato, pensei que eram os alunos entrando para retomarem mais uma aula entediante que tanto odiavam. Não era. Mesmo assim, ainda tinha esperanças que a vergonha passasse e tudo o que havia acontecido, esvaiu-se. A cabeleira rosada balançava com seu andar, não pude correr, pois você estava na porta. Decidi então, ser mais educada possível.
Não deu muito certo.
Me aproximei da porta pedindo licença, mas você não cedeu. Quando menos percebi, você cobria meus ombros com um braço forte, sussurrando em meu ouvido "Não precisa ter vergonha, tá bom?", e de novo, me arrepiei. Acho que você era um sem vergonha na época, porém, com o tempo você mudou. Pouco, mas mudou. E foi aí, nesse exato momento que eu me apaixonei pela primeira e única fez durante minha vida toda. Um beijo na bochecha foi o que aquele momento gerou. Tão simples, tão vago, tão você.
— Mamãe, o que a senhora está fazendo? — Perguntou uma pequenina. Era Nashi.
Lucy parou de escrever a carta por um momento. Nashi, sua filha, estava ao pé da cadeira encostando sua mãozinha fria e melada na coxa da mãe. A loira observava o rostinho carinhoso de Nashi e os olhos castanhos — herdados por ela — contendo a curiosidade típica da infância. Os cabelos rosáceos claríssimos — com toda certeza herdado por Natsu — cobertos de doce de leite e as bochechas denunciando que havia se lambuzado com o doce. Lucy riu. Pegou-a no colo encarando-a com um olhar
— Não disse que era pra comer só um pouco? — Questionou a mãe. Seu olhar era contraditório, Lucy estava tentando ser, no máximo, autoritária, mas aquela cena da pequenina toda cheia de doce a fazia parecer com o pai.
— Mas tava’ muito bom mamãe — explicou Nashi, lambendo a ponta dos dedos de forma fofa. Logo depois abaixou a cabeça, fazendo-se de vítima.
— Tava’, é? — Imitou-a. Lucy deu uma risadinha e se levantou da cadeira abandonando a carta por um instante, levando Nashi consigo no colo. — Vamos limpar toda essa sujeira, vamos.
Nashi só balançou a cabeça positivamente.
Quando Lucy chegou à sala, tinha diversos brinquedos espalhados no chão, o pote de doce de leite estava jogado no meio do carpete, e a colherzinha jogada na cadeira da cozinha — que ficara ao lado da sala —, Lucy estava pensando como que iria começar a arrumar tudo aquilo. Como uma pequena pessoa consegue fazer tanta bagunça em tão pouco tempo? Talvez fosse uma coisa que nunca conseguiria entender, mas era divertido arrumar aquilo, até porque, Nashi saia do colo da mãe chamando-a para brincar; Lucy não podia dizer que estava escrevendo uma carta para seu pai, e dizê-la que papai estava no céu e aquela carta não chegaria, de fato, até ele.
Contudo, quando a Srta. Dragneel se viu, estava sentada no chão brincando de lego¹ com Nashi, montando uma casa e um muro em volta dela. Passou-se menos que quinze minutos e Nashi desistiu e desmontou tudo jogando para o alto, como uma chuva de legos. Lucy ria como se nada ruim houvesse acontecido há tanto tempo. Imaginou como seria se Natsu estivesse vivo e tivesse naquela chuva. Seria um momento épico, inesquecível.
— Tá bom, vamos arrumar tudo aqui, já está chegando a hora que a tia Erza vai vir te buscar pra você ir brincar com o Enzo, lembra? — Incentivou Lucy.
Enzo era o filho de Erza e Jellal, era o único amigo que Lucy achava seguro de Nashi brincar, de qualquer forma, Erza era uma de suas melhores amigas, então ela confiava demais deixar Nashi nas mãos dela.
— Será que a Angeline também vai? — Perguntou a ruiva. Aliás, Angeline era filha de Levy com Gajeel, estes melhores amigos de Lucy e de Natsu. Que, apesar da morte do Dragneel, nunca deixaram de permanecer em suas vidas.
— Acho que sim, minha filha, eu acho que sim. Agora me ajude a arrumar tudo isso, aí você irá para o banho que daqui a pouco Erza já está aqui! – Lucy disse sorrindo, pegando as peças do lego e colocando-os dentro do pote cor-de-rosa estampado o nome da pequenina.
Após arrumar tudo, Lucy deu um banho demorado em Nashi, e colocou uma blusa azul nela, em detalhes em branco, uma saia rodada também azul. Vesti-la daquele jeito era nostálgico, pois, quando mais nova e quando viera a conhecer Natsu, tinha uma roupa parecida. Natsu adorava vê-la com aquilo.
Por fim, a buzina soou pela casa, com certeza Erza havia chegado e Nashi ainda estava arrumando os cabelos! Por sorte, Lucy estava na sala, então abriu a porta gritou para a amiga entrar, juntamente com ela, veio Jellal, Enzo e duas pequenas pessoas que Lucy conhecia, e muito bem: Yuki, o filho de Juvia e Gray, aquele casal que depois de tanto tempo se resolveram e se casaram, tendo esse garotinho birrento — porém amável — como fruto de seu amor. E Angeline, vestida tão caprichosamente que parecia uma bonequinha de porcelana.
Era tão lindo ver que todos seus amigos se resolveram, que todos encontraram um amor que quisesse passar o resto da vida com eles. Não tinha do que reclamar, Natsu foi e sempre será o amor que ela sempre quis. Portanto, nunca precisou de ninguém, somente dele. E se ele não estava lá, não precisava de ninguém! Ele nunca será substituído. Nunca.
— Olha quem veio, Nashi — chamou Lucy. — Enzo e Angeline vieram e eles trouxeram Yuki com eles! — Soou tão alegre.
A loira cumprimentou todos com um beijo na bochecha, e Erza e Jellal com um abraço demorado e apertado. Sentia falta de vê-los todos os dias, como era na época do namoro. Em todo tipo de festa que participavam, sempre — repito, sempre — estavam juntos e não se separavam por nada nesse mundo.
Erza decidiu chamar Lucy de canto, enquanto as crianças conversavam — lê-se gritavam — alegremente. Jellal veio junto.
— Você vai ao Cassino hoje? Ou irá para algum outra lugar? — Perguntou Erza.
— Sim, eu vou ao Cassino. Hoje é dia dezessete, por isso pedi que ficasse com ela por mim — respondeu Lucy.
Jellal permanecia calado, a esposa já fizera a pergunta por ele, então não havia motivo para falar, no entanto, achava meio triste da parte da loira ir ao Cassino todo dia dezessete. Ela poderia seguir sua vida, esquecer um pouco de Natsu — mesmo que isso soasse meio ignorante da parte dos amigos, mesmo eles querendo ajudar e tentando, ao máximo, serem realistas com a mesma —, principalmente porque tinha um amigo deles que era muito afim de Lucy, desde a época de colégio, mas ela continua não dando bola. Um grande desperdício, pois Sting gosta muito de Nashi e se dá muito bem com ela. Isso não importa para Lucy, poderiam vir quinhentos Stings e ela continuaria dizendo “não” para eles. Não importa, Lucy sempre será apaixonada por Natsu e nada e nem ninguém poderá questionar este fato.
— Ei, cuidado com as lembranças, tá bom? — Pronunciou Jellal, pela primeira vez desde que entrara na casa.
— Tudo bem, tudo bem — concordou Erza tirando os olhos castanhos da Sra. Dragneel. — Onde vocês querem ir, crianças? — Gritou Erza incentivando todos ali.
As crianças levantam as mãos e começaram a gritar. Ó, como era bom ser criança.
Jellal ficou ao lado da loira e logo se dirigiu a palavra:
— Você vai sozinha?
— Sim, acho que tenho que fazer isso sozinha, só para variar — ela deu um sorriso de canto —, obrigada pela ajuda, viu? — E então ela o abraçou e ele retribuiu.
— Estamos indo então — falou Erza, olhando novamente para Lucy e entrelaçando as mãos com o marido de cabelos azuis. — Como ele disse, cuidado com as lembranças. Trarei as crianças de tarde! — Erza deu um beijo na bochecha da amiga e se dirigiu até a porta da pequena casa dos Dragneel’s. — Vamos crianças, vamos, já está na hora, vamos.
Lucy foi até todos os pequeninos e deu um beijo em casa um, dizendo para terem cuidado por onde andavam, e que era sempre pra ficar perto da amiga ruiva. Até mesmo falou que caso se perdessem, era para procurar um pontinho vermelho no meio da multidão, que assim, os achariam rápido. Nashi abraçou forte a mãe e saiu correndo para o carro tamanho família de Erza e Jellal.
Quando menos se esperou, estava sozinha naquela casa. Não demorou nem um pouco e lembrou-se da carta para Natsu. Além disso, acabou lembrando também da caixa onde guardava as cartas de sua mãe, aquela que também veio a falecer pelo mesmo motivo de Natsu.
Chegando a seu quarto, sentou-se novamente na cadeira confortável e encarou o papel no qual escrevia antes. Lucy nunca foi fraca o suficiente para chorar na frente de sua filha, porém, quando estava sozinha nada lhe impedia. Seu rosto estava banhado em lágrimas ao se lembrar de momentos inesquecíveis, seu coração palpitava. Não sabia se ela tristeza ou alegria de ter tido aqueles momentos, as lágrimas simplesmente rolaram, como se tivesse vida própria. Então, tornou-se a escrever, ignorando o choro:
Sabe Natsu, talvez você não tenha a noção da falta que você me faz, certo? Mas isso não te faz feliz. Sabia que, todo dia dezessete de cada mês no ano, eu vou ao Cassino apostar? Se você soubesse disso antes, tenho quase a certeza que você pensaria que eu estava louca e muito viciada em jogos de azar, mas eu posso explicar... Dezessete era seu número. O número que você apostava arduamente quando fomos ao Cassino quando estávamos de férias. Se lembra disso, né?
Pois então, quando chega esse dia, Erza cuida da Nashi pra mim, e eu vou ao cassino para apostar. Uns me chamam de paranoica, outros dizem que você não vai voltar e não há motivos pra ficar gastando dinheiro atoa com isso. Eu sei. Eu sei que você não vai voltar. Eu já aceitei isso faz tempo, sabe. Mesmo assim, eu não perco nada lá, nada. Eu ganho lindas lembranças. Principalmente porque o aniversário da Nashi é dia 17 de julho, acredita? Um dia antes de você partir, eu tive o fruto de nosso amor, carinho, paz. Contraditório isso, não acha?
Eu acho que já falei demais hoje, né? Amanhã nos falamos mais, afinal, daqui a pouco o Cassino fecha e não poderei apostar. Como nas outras cartas que escrevi para você, torno em dizer: Eu amo você!
Até amanhã, meu amor. Ah! E sabe aquele livro que você queria tanto ler? Mandei para Levy-chan e, como ela agora é gerente da editora de livros Fairy Tail, ela disse que irá publicar meu livro! Dá pra acreditar? Meu quinto sonho se realizou. Claro, meu primeiro foi casar com você, o segundo foi ser mãe, o terceiro foi saber que você precisava de mim, o quarto é... Ok, não lembro do quarto, mesmo assim, agora minha vida está quase completa. Afinal, você não está aqui para fazê-la cem por cento.
Não lhe culpo, sei que onde você está, você está me amando e eu, aqui, também estou.
Eu te amo. ♥
Lucy Dragneel. Dia 17 de junho de XX65.
E Lucy, finalmente embrulhou a carta e colocou-a em um envelope lacrado com um colante de coração; colocou-o em uma caixinha parecida com de sua mãe. Arrumou-se e foi para o Cassino. Mais uma vez, foi e apostou no número dezessete. Em todas. Em tudo. Menos que alguns segundos, descobriu que havia ganhado cerca de quatro milhões de jewels. Ficou tão feliz que assim que ganhou, decidiu ir ao banco, colocou em mente que, sempre que apostasse no número dezessete, o dinheiro teria apenas um destino: o banco.
E o que a Lucy foi fazer ao banco? Talvez eu possa responder essa pergunta... Lucy foi ao banco para doar esse quatro milhões a um hospital de câncer, no qual cuidava de crianças, jovens e idosos. Não, ela não se arrependeu, até porque ela já trabalhava e não precisava de tanto dinheiro para cuidar de Nashi. O emprego era muito bom. Ela só não queria que ninguém mais passasse pelo que ela passou, e, que pelo menos, outras pessoas possam ser felizes ao terem quem amam perto. Eles usariam esse dinheiro todo para simplesmente darem uma cura àquelas pessoas que sabem amar, e que amam o próximo. Ninguém merece ter um câncer, eles devem viver bem e feliz.
Porque o câncer era assim, ele te levava o que era de mais sagrado, e não trazia de volta.
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