Notas iniciais
Olá! Esta história aqui não é a minha primeira, todavia, as anteriores já foram apagadas e abandonadas. Espero conseguir prosseguir e permanecer motivada! :) Me inspirei em alguns livros para ser capaz de escrever a história, obviamente. Agradeço eternamente a grandiosa Agatha Christie e o magnífico Sir Arthur Conan Doyle. ♥ Não posso também deixar de citar alguns seriados e filmes, contudo, pode-se dizer que são um caso a parte. Enfim, não irei me estender muito no assunto. Espero que gostem, e boa leitura!

Londres, Terça-feira, 5 de Julho de 1921.

Eram exatamente treze horas e cinquenta minutos quando deixei o Centro Comercial Hicks. O dia estava quente, com o Sol brilhando fortemente no céu límpido, fazendo jus ao verão. Diria, utilizando minha intuição, que a temperatura era de aproximadamente vinte e três graus. Havia comprado alguns pães sovados, um bocado de feijões verdes, um saco de tomates frescos e uma caixa de biscoitos amanteigados caseiros. Carregava as compras firmemente, sem perigo algum de tropeçar e derrubá-las.

Ultimamente, os pães não estavam com o mesmo sabor e consistência que tinham antes. Pareciam mais duros e menos fofos. Perguntei ao dono do Centro Comercial o que acontecera com a produção de pães. Recebi a resposta de que o distribuidor de farinha deixara de visitar o estabelecimento toda semana, como antes fazia. Portanto, a farinha de trigo estava escassa, assim prejudicando os alimentos.

Atravessando a rua, olhei para ambos os lados para checar a movimentação dos pedestres e automóveis. Vez ou outra alguns carros passavam pela rua, parecendo não terem pressa alguma. Pode-se dizer que isto era algo deveras peculiar, principalmente por ser uma terça-feira, tal qual era famosa pelos absurdos trânsitos e acidentes em grandes cidades.

Ao caminhar na calçada, dei de cara com uma pequena barraca dourada montada em frente a uma famosa loja de roupas recém inaugurada. Um homem elegantemente vestido, com madeixas grisalhas e olhos acinzentados, organizava alguns panfletos e bilhetes sob a bancada. Reparei que se tratava de algum sorteio, em especial, consideravelmente famigerado, levando em conta a quantidade de bilhetes depositados no fundo de uma caixa transparente. Com a curiosidade fervilhando, resolvi perguntar sobre o que se tratava este provável sorteio.

"Com licença, senhor. Perdão pelo incômodo. Pode me tirar uma dúvida, por favor? Pelo que vejo, está realizando um sorteio. Do que trata-se este sorteio?"

O homem endireitou a postura e dirigiu o olhar a mim, deixando os papéis repousados em uma pilha na extremidade da bancada e abrindo um modesto sorriso.

"Boa tarde, senhorita."—Cumprimentou-me, erguendo o chapéu aveludado que usava da cabeça e fazendo uma pequena saudação. "Não há incômodo algum, não se preocupe. Realmente, este é um sorteio. O prêmio para os dois sortudos ganhadores é uma viagem totalmente gratuita de oito dias para o Resort Gardiner, em Herne Bay, no litoral leste, em comemoração aos 20 anos que o local estará fazendo ainda neste mês de Julho."

"Mas que interessante! Regiões litorâneas são tão agradáveis e belas."—Comentei, vagamente me lembrando de uma antiga experiência vivenciada no litoral.

"Penso o mesmo, senhorita. Posso sugerir que participe do sorteio? Estou certo de que adoraria passar um tempo em Herne Bay e distanciar-se de todo o estresse rotineiro da cidade grande."

Pensei se aquela oportunidade realmente era valiosa e valeria a pena para mim. Ora, que mal há em participar de uma competição? Seria estupendo poder aproveitar ainda mais as minhas férias viajando e conhecendo um pouco mais de um novo local. Eu inclusive, me beneficiaria.

Sem hesitar, completamente certa de minha escolha, enfim decidi que concordaria em ingressar no sorteio.

"Certamente, senhor. Participarei do sorteio."

"Oh, gostaria que eu preenchesse, senhorita? Vejo que carrega muitas sacolas na mão e seria difícil segurá-las e escrever ao mesmo tempo."—Sugeriu.

"É um grande favor, senhor. Fico extremamente agradecida. Muitíssimo obrigada!"

Retirou uma fina caneta prateada do bolso do paletó e pegou um dos bilhetes da pilha, perguntando todas as informações necessárias para preencher o formulário do sorteio.

"Sobrenome e nome?"

"Hewitt. Ethel Hewitt."

"Data de nascimento?"

"2 de Junho de 1892."

"Cidade natal?"

"Londres."

"Cidade que reside atualmente?"

"Londres."

Dobrando cuidadosamente o papel no qual escrevera, este depositara-o na caixa transparente, tornando o bilhete em apenas um entre tantos outros já preenchidos.

"Obrigado por participar do sorteio, Miss Hewitt, e boa sorte! O resultado será divulgado nesta quinta-feira, dia 7 de Julho. Serão pregados diversos panfletos pelas ruas de Londres informando quem foram os ganhadores do sorteio e quais procedências devem tomar em relação ao prêmio, que é a viagem. Qualquer dúvida, procure-me. Estarei aqui, neste mesmo local, das dez horas da manhã até as quatro horas da tarde. Tenha um ótimo dia."—Disse, despedindo-se de mim.

"Tenha um ótimo dia também, senhor!"—Respondi.

Tomando o caminho de volta para minha residência, refleti sobre as possibilidades de eu conseguir vencer. Seria um imenso prazer conseguir vencer, de fato. Todavia, inúmeras pessoas também desejavam vencer, e assim como eu, também estão participando do sorteio na esperança de conseguir ganhar a viagem. Serei apenas uma competidora dentre centenas, ou até milhares de pessoas. Obviamente, não será impossível ganhar, de forma alguma. Porém, a competição não trabalha com talentos, nem esforços, tampouco performances. O vencedor será alguém totalmente aleatório, provavelmente desconhecido por muitos da cidade. É como jogar uma semente aos ventos: sem conhecimento algum do futuro destino que esta pode ter.

Apesar de meu traço realista ser predominante desde praticamente sempre, sei que não devo queimar o otimismo e as esperanças de conseguir vencer este sorteio. Estou participando, e decorrente disto, tenho chances, igualmente aos outros. Tentarei seguir o tão famoso ditado, que diz: A esperança é a última que morre.

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Londres, Quinta-feira, 7 de Julho de 1921.

Havia uma grande probabilidade de chover nesta tarde, mas pouco me importei. Despertei as sete horas da manhã, acordada pela brisa fria desta manhã entrando pela janela de meu quarto. Após me levantar, me dirigi ao toalete, banhando-me com água quente e lavanda. Abrindo o guarda-roupa, selecionei uma vestimenta adequada para o dia de hoje, não sendo tão fina, tampouco sendo tão pesada. Escolhi um vestido com mangas curtas, na cor bege, com algumas flores claras estampadas no tecido, um fino casaco marrom-avermelhado com botões dourados e sapatos pretos de fivelas brancas. Preparei um café da manhã deveras caprichado para satisfazer a fome matutina cotidiana e suprir as necessidades. Após lavar a louça, pus meu chapéu, e rapidamente corri para a rua na intenção de ver os resultados do sorteio.

Dobrando a esquina, logo via-se um grande aglomerado de pessoas conversando ao redor de um conjunto de panfletos pregados em um muro de tijolos. Nestes, provavelmente, estava o panfleto que mostrava os vencedores da competição. Me aproximei do local, tentando passar entre os outros para poder ler a informação. Quando finalmente, após tanta dificuldade e esforços, consegui me aproximar e ter uma vista relativamente adequada do panfleto, li-o curiosamente, que dizia:

Herne Bay, 7 de Julho de 1921

Sorteio: Resort Gardiner

Resultados:

Londres:

—FIELD, Harry.

—HEWITT, Ethel.

Aos vencedores acima citados, segue abaixo os procedimentos que deverão ser seguidos caso haja possível interesse do prêmio da competição.

Data de saída: 8 de Julho

Horário de encontro: 11h.

Local de encontro: Portões da área Sul do parque St. James.

Horário da saída: 12h

Horário estimado de chegada: 15h30

Data do retorno: 16 de Julho

Horário da saída para o retorno: 15h

Horário estimado de chegada: 18h30

Todos os serviços estarão a disposição durante a ida e a volta, incluindo:

—Meio de transporte adequado

—Alimentação

—Primeiros socorros

Atenciosamente,

Mrs. e Mr. Gardiner.

Após ler o anúncio, senti meu coração parar, com toda a movimentação ao meu redor não tendo a menor importância no momento.

Definitivamente não era um sonho. Eu de fato havia ganhado!

Na mesma hora, abri um enorme e espontâneo sorriso de orelha a orelha, cobrindo-o com as mãos para não chamar tanta atenção como deveria chamar e evitar demasiadas perguntas da população e da imprensa local.

Nunca havia imaginado que dentre tantos competidores eu ganharia. A felicidade me enchera naquele momento, pois era uma grande conquista mesmo para mim.

Memorizei os horários e datas, ora ou outra os recitando mentalmente para não esquecê-los no caminho de volta para minha residência em tempo de procurar meu caderno e anotar estes, respectivamente.

Adentrando a porta da frente, logo retirei uma mala xadrez do fundo do guarda-roupa, preparando os pertences que levaria para a viagem. Não era de necessidade alguma levar tantas roupas, certamente. Porém, como sou demasiadamente precavida, meu pensamento era de que não havia mal algum em levar duas ou três peças de roupas a mais do que já planejado anteriormente. Afinal, melhor prevenir do que remediar.

Subitamente, ouvia-se um pingo.

Depois, dois pingos.

Em seguida, diversos pingos.

Direcionei minha atenção a janela, que agora, era preenchida por inúmeras gotas d'água caindo aleatoriamente no vidro. Começara a chover, conforme previsto mais cedo. Um leve borrão formava-se lentamente, dificultando a vista do lado de dentro. Caminhei até a poltrona alinhada de frente para a janela, me sentando nesta. Reclinei um pouco, limpando com os dedos o vidro borrado, facilitando a vista. Algumas pessoas desavisadas e despreparadas corriam em busca de abrigo, segurando tudo o que encontravam acima da cabeça para não se molharem com a chuva que tornava-se cada vez mais forte. O vento balançava as folhas das árvores, desprendendo algumas dos galhos. Estabelecimentos próximos fechavam as portas, retirando toda e qualquer placa ou objeto decorativo posto do lado de fora.

Geralmente, a chuva típica de Londres não me agrada, mas também não possuo um ódio mortal por esta. Mas sei que durante o tempo que passarei fora sentirei falta. É sempre deste jeito: Quando temos algo, não damos a ele o devido valor que merece, deixando-o de lado, como se não possuísse nenhuma importância. Entretanto, quando o perdemos, lastimamos a perda deste, e nos arrependemos das ações anteriores.

Oh, chuva de Londres! Te ofereço minhas sinceras desculpas se algum dia te ofendi profundamente.

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Londres, Sexta-feira, 8 de Julho de 1921.

Parque St. James

Mr. Field e eu aguardávamos ansiosamente a chegada da carona para o Recanto Gardiner, em Herne Bay. Enquanto o tempo passava, conversava de maneira descontraída sobre assuntos casuais com ele. Suas curtas madeixas castanhas se encontravam partidas simétricamente ao meio, finas e lisas, irradiando brilho com a iluminação predominante do ambiente. Os grandes olhos eram de um verde-azulado marcante, que oscilavam de coloração em outra conforme moviam-se. Aparentava ter verossímeis vinte e sete anos de idade, um metro e setenta e oito de altura e, francamente, apostaria em possíveis cinquenta e um quilos de peso corporal. Pelo que notei neste tempo com ele dialogando, referente à seu caráter, fora possível tirar algumas conclusões: parecia ser um homem de personalidade extremamente gentil, sociável e extrovertida. Fora o primeiro a me cumprimentar, se apresentando brevemente, todavia, de forma clara. Levava jeito com expressões e gestos, falava incrivelmente bem e havia um ar de ‘indivíduo intelectual e culto’. Diria que este daria um ótimo professor ou palestrante em famosos locais londrinos, isto é, se não já exerce algumas destas profissões há um tempo, e não possuo conhecimento sobre.

“Miss Hewitt, já viajou alguma vez para o litoral?”—Perguntou, despertando-me de meus pensamentos.

“Apenas uma vez, quando era criança, para Brighton. Fora uma viagem de família, bem divertida, aliás. Jamais esquecerei-a.”—Informei-o, com uma sensação nostálgica.

“Isto é fascinante, Miss Hewitt! Infelizmente, não se aplica a mim. É minha primeira vez viajando para o litoral, e preciso confessar que estou um pouco nervoso.”

“Mas nervoso? Qual o motivo?”

“Não sei lhe dizer exatamente… Talvez é o tempo. Nunca me imaginei sentado em um carro durante três horas e meia. Imagine as cãimbras! Imagine a dificuldade para colocar os pés no chão, tropeçando até em uma pena!”—Comentou, rindo.

Não pude deixar de rir junto, sendo contagiada.

“Consigo imaginar, Mr. Field. É o que temo. Não deve ser nada agradável tropeçar em penas.”

“De fato”

“Podemos pedir, ora ou outra, para o motorista fazer uma parada em algum local para podermos esticar as pernas. Certamente atrasaria a viagem, todavia, não ficaríamos com cãimbra.”—Sugeri.

“Que ideia formidável, Miss Hewitt. Agora estou mais tranquilo.”

Após mais alguns minutos esperando o transporte, nossa conversa fora interrompida por uma buzina. Juntos, olhamos para o lado, e logo avistamos o carro. Reconheci o modelo: Era novo, lançado recentemente, no final do ano anterior a este atual. Possuía uma coloração avermelhada, reluzindo sobre a luz solar. A capota estava levantada, na intenção de cobrir o Sol forte. Nas rodas, foram colocadas calotas douradas, novas em folha. O motorista saía do carro, levando nossas bagagens para as guardar. Seguimos-o, observando cada mínimo detalhe do automóvel. Abrindo a porta para mim, Mr. Field lançara-me um sorriso animado, agora, desprovido de medo. Entrei, me acomodando no assento do lado direito. Analisei brevemente o interior do carro, ainda surpreendida pela beleza e luxo que tinha: O banco era macio, revestido em couro brilhante. Na porta, vía-se adornos aveludados, graciosamente feitos. Sob a parte traseira do banco localizado a frente, estava uma espécie de ‘bancada’, seguida de uma bandeja com alguns petiscos, água e revistas diversas. A minha esquerda, Mr. Field folheava uma revista aleatória, retirada de uma bandeja idêntica a que estava disposta à mim.

Uma longa estrada e paisagens extraordinárias nos esperam até Herne Bay.

Bem, aqui vamos nós.

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