Sorry to You
11 Eu decidi te esquecer, droga!
Notas iniciais
Nesse momento eu só queria me transformar em um panda e hibernar. Sim, eu sei que ainda não é inverno mas eu não posso querer hibernar no verão? Liberdade, meu povo!
Eu me recuso a gostar dele! Eu me recuso a me sentir assim! Eu me recuso a derrubar essas lágrimas por ele! Que coisa irritante!
Continuei correndo. Passei pelo portão de entrada da escola e logo depois cruzei o portão principal, que dava para a rua. Meus pais já tinham ido embora, já que eu fiquei com o papel muito legal – só que não – de ser o mascote do time e animar a torcida. Mas eu apenas vesti a fantasia, sentei no banco dos reservas e assisti ao jogo. Culpem a Chiyoko! Mesmo dentro daquela coisa, minha timidez era a mesma.
Elas gritavam: "Me dá um N! Me dá um I! Me dá um T! Me dá um O! Me dá um R! E mais um I! Vai Nitori!" E eu estava a ponto de gritar: "Calem a boca e me deixem prestar atenção no jogo!" E olha que eu nem gosto de ver essas coisas.
Isso seria meio rude, mas era impossível prestar atenção no jogo com um cosplay de líderes de torcida americanas bem na minha cara.
Ayu não estava como líder de torcida do Paraguai, – ou seria xing-ling? - mas seus olhinhos brilhavam. Ela tinha dado um jeito de sentar do meu lado e estava com o traje de educação física, que é como ela sempre fica quando não estamos em horário de aula, e estava encarando os meninos enquanto dizia como eles eram incríveis. Efeito esporte... efeito esporte...
E depois da declaração inesperada da Alice, a provável aceitação de sentimentos do meu irmão, o ataque do Ishikawa e sua tolice subindo até o último fio de cabelo, eu estava muito irritada.
Parei de correr e sentei na beirada de uma bonita fonte. A propósito, eu acabei correndo para o lado errado quando saí da escola. Não me julguem! Meu senso de direção já é ruim e eu estava nervosa.
Suspirei pesadamente. Agora eu me encontrava no centro comercial e muitas pessoas passavam me encarando enquanto murmuravam se perguntando o porquê de eu estar chorando. Povo xereta, credo. Fuzilei-os, fazendo alguns pararem de olhar, envergonhados.
Suspirei. Ishikawa... Eu gosto mesmo dele... Mas por quê?
– Por que eu tenho que gostar de uma pessoa que não gosta de mim? – fiquei em pé na beirada da fonte, o que me deixava mais alta e a vista de todos que passavam por perto, e comecei a gritar — Por que eu tenho que agir de maneira tão idiota? Por que eu não consigo aceitar o que já está na cara? – eu fazia caretas, gesticulava com as mãos e andava pelo “batente” — Por que eu estou falando sozinha e em voz alta no meio da rua? – bufei.
Pulei da fonte no chão e corri quando um guardinha que estava por perto viu o fuzuê que eu estava fazendo e já vinha me levar para a delegacia, ligar para os meus pais dizendo que eu sou uma delinquente, isso ia refletir na minha vida e logo eu estaria com uma taco de beisebol e em uma gangue, ou quem sabe até em uma Yakuza. Exagerei? Acho que não. Só quero ir para o País das Maravilhas e cantar com o ursinho carinhoso. Não fez muito sentido... Ah, esquece. Eu preciso dormir.
Corri – na direção certa dessa vez - e cheguei em casa com cara de quem tinha corrido uma maratona. E foi quase isso. A porta estava trancada. Por sorte, eu estava com a minha chave na pequena bolça de mão que eu tinha levado comigo.
Na geladeira tinha um bilhete na letra do meu pai dizendo que eles tinham ido comprar umas coisas no mercado grande e Ryuuji voltaria tarde para casa porque tinha ido comemorar com os caras do time – e sua possível namorada.
Ao pensar nisso lembrei de Ishikawa e de como eu fui egoísta agora a pouco. subi para o quarto, fechei a porta, encostei as costas na mesma e me deixei escorregar até sentar no chão. Encolhi os joelhos e apoiei minha cabeça neles.
A culpa foi toda dele! Eu não entendia como ele estava se sentindo mas devia doer. Doía em mim só de pensar que ele não gostava de mim, imagine ter visto a pessoa que gosta se declarar a outro. Eu estava disposta a ajudar mas ele estava pouco se importando com as pessoas a sua volta.
– Mesmo assim eu... devia entender... – murmurei, virando a cabeça na direção da janela.
Eu não devia entender nada! Aquele estúpido... Na verdade, eu queria entender. Ele deve estar se sentindo horrível. Eu queria poder ter entendido e ficado ao seu lado mesmo ele não querendo... Eu queria ter feito isso.
– Mas não! Eu tinha que sair correndo. – me repreendi.
Me levantei e tomei um banho rápido, vesti um pijama e me joguei na cama.
Acordei com uma voz doce e cutucões nada agradáveis na bochecha. Tentei bater na coisa que me cutucava mas, foi em vão, ela não desistiu.
– Acorde, bela adormecida! – vi um mundarel de cabelos ruivos.
Abri meus olhos com dificuldade, me acostumando a luz repentina que os mesmos recebiam. Vi Chiyoko. Os lisos cabelos ruivos estavam cacheados, muito bonitos e fartos.
– O que faz aqui? – perguntei me sentando.
– Também é ótimo te ver num domingo de manhã! – ela sorriu, irônica.
– Hum. – assenti.
– O que está fazendo dormindo essa hora? — ela se sentou na cama.
Fiquei em silêncio. Ela me encarou e eu abaixei o olhar para minhas mãos.
– Aoi? Algo aconteceu? – ela afagou meus cabelos.
– Nee, Chiyo-chan...
– Hum?
– Você sabe que o Ishikawa gostava dela, certo?
– É por isso que está assim? – ela abriu um sorrisinho torto, meio travesso.
– Fala sério!
– Então... – ela escorregou e se sentou no chão apoiando os braços na cama e a cabeça sobre eles – O que é?
– Acha que ele precisa de apoio? – encolhi as pernas e a encarei.
– Aoi, você...? Será que...? – sorri amarelo e ela me abraçou, surtando.
Descemos as escadas depois de ela surtar, dizer que estava certa sobre o fio vermelho, que devia virar vidente porque isso era um dom de Deus e me perguntar o que eu achava do nome "O oráculo ruivo", e eu, como qualquer pessoa normal, disse que ela devia escolher um nome menor se quisesse que as pessoas lembrassem. Me enfiei dentro de um casaco qualquer porque estava de pijama.
Chegando à sala, meus pais estavam sentados no sofá de frente para a escada e no sofá de frente à eles, estavam meu onii-chan e minha amiga Alice, de mãos dadas. Eles sorriam como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
– Chiyo-chan... – choraminguei me abraçando na ruiva.
– Sim, Aoi?
– Que dia é hoje? Por quanto tempo eu dormi?
Eles deram risada. Logo fiquei sabendo que eles estavam mesmo namorando e Ryuuji tinha levado a garota para conhecer nossos pais. Senti um nó na garganta. Meus pais, Ryuuji e Alice, Chiyoko, conversavam animadamente e faziam piadinhas sobre o namoro deles.
Eu só conseguia pensar no Ishikawa. Eu queria vê-lo...
Me levantei do lado de Chiyoko, no sofá, bruscamente.
– Gomen nasai, eu queria mesmo poder conversar mais, mas eu tenho coisas a fazer. – forcei um sorriso e subi correndo para o meu quarto.
Tomei um banho, vesti um vestido azul florido e voltei a correr, quase caindo por estar calçando as sapatilhas enquanto descia as escadas.
– Tome cuidado! – minha mãe disse, apavorada, ao ver o que eu fazia.
– Hai. Estou saindo! – passei pela porta como um furacão sem dar tempo para protestos de ninguém.
Não sei o que estou pensando.
...
Na caixa de correio se lia: Ishikawa.
– O que eu estava pensando de vir aqui assim? – agora eu suava de nervoso.
Mesmo assim tentei tocar a campainha mas não consegui. Estava com medo da reação dele. Quando estava prestes a ir embora uma voz soou no interfone, me assustando, e uma mulher falou. Devia ser uma empregada da casa, porque ela disse: “Residência dos Ishikawa. Quem deseja?” e depois que eu disse meu nome, ela continuou: “Deseja falar com algum dos senhores?”
Eu acabei respondendo que queria falar algo sobre a escola com o Ishikawa e ela finalmente abriu o portão automático. Eu entrei e a mulher me esperava na porta da casa.
– Ohayo, senhora. – ela fez uma reverência e eu dei um passo para o lado, muito surpresa com aquele ato.
– Gomen ne, não estou acostumada com isso. – falei.
– Te forcei a algo? – ela perguntou.
– Eh?
– Eu a vi encarando a casa e achei que estava perdida ou confusa se era essa a casa certa de quem estava procurando. Resolvi me pronunciar e perguntar se desejava algo... – ela parecia pensativa.
– Oh... Daijoubu. – forcei um sorriso.
Ela sorriu gentilmente e disse que os senhores não estavam em casa, somente o filho caçula deles... O poste ambulante tem um irmão? Legal. Será que se eu conhecer ele, eu tipo esqueço o Ishikawa júnior, que já gosta de alguém, e acabo me apaixonando pelo o Ishikawa primeiro, que terá que não gostar de ninguém ainda? Eh... O que eu estou pensando?!
Ela me deixou na escada e disse que “sua majestade” falara no início da manhã que estava indisposto e que não sairia do quarto tão cedo, mas que a visita da namorada dele o agradaria. Ela acrescentou a última parte me fazendo corar. Acho que todos nessa casa pensam que eu sou a namorada dele. Isso é constrangedor.
A uns dias atrás eu diria "Quem vai namorar essa mula?" Hoje eu quis dizer Infelizmente eu não sou a namorada dele... "Mas vocês bem que poderiam dar um toque para ele e dizer o quanto eu sou amável e irresistível, né?"
Fiquei calada e afastei meus pensamentos de menina indecente. Que coisa! subi para o quarto dele e bati na porta, sem resposta. Bati uma segunda vez e nada. Bati de novo e abri em seguida.
Uma coisa estava jogada na cama, coberta dos pés a cabeça e uma luz brilhava em baixo do cobertor também.
– Ishikawa? – chamei – Hum... É a... A Aoi. – a luz em baixo do cobertor cessou com um “tap”. Era um celular – Desculpe vir sem avisar e... Mas eu queria perguntar como está... Depois daquilo.
Eu continuava parada em frente a porta. Não ouvi nenhuma resposta. Me mexi, desconfortável, mudando o peso do corpo de um pé para o outro. Talvez eu não devesse ter vindo até aqui amola-lo com isso. Ele devia estar péssimo e eu aqui perguntando como ele está. Era óbvio como ele estava.
– Você não pode ficar aqui desse jeito. – continuei, firmemente – Deve contar a ela o que sente. Deixá-la ciente dos seus sentimentos!
Eu sinceramente não sabia o porquê de estar falando aquilo tudo mais uma vez. Eu gostava dele, certo? Mas eu meio que queria vê-lo feliz e se eu não podia fazer isso, queria que ele buscasse. Eu sou patética. Ishikawa, morre aí, rapidão...
– Vá embora, Aoi. – finalmente sua voz soou, abafada pelo cobertor.
– Eh...?
– “Alguém em sã consciência gostaria de você?” – ele fez uma péssima imitação da minha voz – Parece que você estava certa. Eu fui pretensioso em achar que a Alice ia gostar de mim...
–...
– Vá em frente. – ele continuou, mas agora não tinha mais o cobertor no rosto, ele me encarava sentado em sua cama – Pode rir. Eu sei que você veio aqui pra isso. – seus olhos estavam vermelhos e parecia que ele não tinha dormido a noite.
– Eu só...
– Não finja se importar. – ele disse irritado.
Arregalei os olhos completamente surpresa. Não sei porque insisto nisso... Ele pareceu perceber a burrada que tinha feito e me olhou assustado também.
– Me desculpe-
– Você tem razão. – falei, o cortando – Eu sou uma idiota por achar que você estaria sensível e precisando de ajuda agora. Me desculpe por querer te ver bem. Me desculpe se isso é algum tipo de crime. – não o encarei enquanto falava.
O olhei depois de algum tempo. Ele mantinha os olhos arregalados e uma expressão estranha.
– Isso foi...?
– Não foi uma declaração! – falei, rapidamente, saí do quarto dele e desci as escadas correndo.
Eu vou esquecê-lo! Ele é horrível! Como pude me apaixonar por alguém assim? Eu não quero mais! Estou decidida. Se eu parar por agora, no futuro não vou me arrepender da dor que sentirei se isso continuar.
A gentil mulher notou meu nervosismo e me ofereceu um copo de água com açúcar, que eu recusei alegando estar ótima e que não estava chorando, o que a fez chorar também.
Fui para minha casa. Chiyoko não estava mais lá e nem Alice. Meu pai estava numa reunião de negócios. Minha mãe costurava algo sentada no sofá. Um barulho de água vinha da cozinha, alguém lavava a louça, e eu imaginei ser Ryuuji.
– Aoi, filha...?
Tirei as sapatilhas de qualquer jeito e corri, me jogando no chão e apoiando minha cabeça no colo dela. Deixei minhas lágrimas rolarem e sem querer comecei a soluçar, isso atraiu a atenção do meu irmão que até poucos segundos só perguntou quem tinha chegado.
– Pensei que depois do incidente com o teru teru bozu nunca mais a veria chorar assim. – minha mãe comentou acariciando meu cabelo.
Ryuuji veio rapidamente da cozinha enquanto enxugava as mãos em um pano de prato. Tirou o avental que usava e largou no balcão. Caminhou pra mais perto de mim.
– Aoi! O que...? – ele perguntou quando percebeu que eu chorava.
Ele se sentou ao meu lado no chão e colocou uma das mãos no meu ombro.
– Onii-chan, okaa-san... – levantei a cabeça para encará-los e Ryuuji sorriu como se entendesse o que estava acontecendo.
– Tudo bem. – falou e afagou meus cabelos – Você é preciosa pra mim, então não chore.
Mas isso me fez chorar ainda mais. Acabei dormindo.
Outro dia – Escola:
Estou tão deplorável que não tenho ânimo nem para abrir um saco de jujubas. E para completar, hoje é o exame físico na escola. Por que querem saber minhas medidas, peso e altura? Por acaso vão me traficar para a Turquia?
Estou com a roupa da educação física agora, indo para a sala da enfermaria. O exame será feito lá. As meninas estão falando comigo, mas não estou escutando.
– Aoi! É a sua vez na fila! – Alice me alertou.
– Ah... A-arigato. – falei, apressada, e segui para me pesar e medir minha altura.
A Chiyoko cresceu dois centímetros desde o ano passado. Ela seria uma ótima modelo. Bonita, alta e magra: 1, 68 de pura ruivisse. A Ayu está se enturmando bastante conosco. Ela é mesmo bem alta. Me disse que sempre fora alta assim e que gostava da sua altura: 1, 72. Alice estava corada por ter descoberto que ganhou mais busto. Sobre sua altura, ela também não cresceu: 1, 62. Eu, bom, só digo que não e não ganhei nada de busto. Que tristeza. Estávamos todas na média de peso, mas Ayu levou um puxão de orelha por estar muito magra para a sua altura.
– Está se alimentando, Hayato-san? – a enfermeira perguntou, raivosa.
– Juro que sim, Ami-san. – ela choramingou.
– Você sabe que fazer exercícios sem se alimentar pode te prejudicar, certo? – ela continuou a ralhar e a pobre Ayu foi obrigada a escutar.
Trocamos nossas roupas para voltar para a sala de aula. Logo seria intervalo e meu irmão havia feito um bentô pra mim. Nem me pergunte que bicho o mordeu. Eu também fiquei pasmada quando ele me entregou uma pequena vasilha, embrulhada em um pano florido e disse: “Seu onii-chan também se preocupa com você.” Talvez por causa do ocorrido.
Depois de uma aula de japonês e muito kanji , o sinal soou anunciando o recreio. A maioria dos alunos saíram da sala e minhas amigas também foram, alegando que estavam mortas de fome e que passariam na cantina.
Me sentei no lugar de alguém-não-identificado, na fileira da janela, para comer observando lá fora.
Dava para ver o pátio externo e algumas pessoas que por ali andavam. Vi alguém conhecido e, por alguma razão, essa pessoa olhou pra cima bem na direção que eu me encontrava. Ishikawa Raku e eu cruzamos olhares e logo desviamos. Ele olhou para o outro lado e seguiu caminho, apressado, para algum lugar. Ele não tinha assistido as aulas da manhã, estava chegando agora para as aulas da tarde. Será que houve algo? Ainda está triste por sua alma gêmea não ser exatamente a tampa da panela dele? Sua metade da laranja? Dois amantes, dois irmãos? Pera...
Terminei de comer e me levantei. Larguei a vasilha em minha mesa e desci para o térreo, indo em direção a biblioteca. Ficaria por lá até que o sinal tocasse. As meninas já estavam começando a perceber, eu não poderia esconder por muito mais tempo delas mas adiaria o máximo possível.
Antes que eu pudesse chegar ao meu destino, não pude ignorar uma conversa. Começo a achar que sou xereta... Só impressão. Consegui identificar a voz de Ishikawa. Me escondi atrás de uma máquina de refrigerantes. O corredor estava vazio a não ser por Ishikawa e mais alguém.
– Eu sei que está namorando, mas... – eu podia ver suas costas. Ele coçava a nuca com uma das mãos e segurava a alça da mochila com a a outra em seu ombro.
– Raku-kun? Está tudo bem? – Alice!
– Eu queria dizer que gosto de você. – ele disse – Sempre gostei. Quero que seja feliz, mas aceite meus sentimentos.
Silêncio total. Achei que eles tinham fugido para as montanhas para viver seu amor proibido, até que ouvi a voz de Alice.
– Somos bons amigos, certo? – ela sorriu.
Ishikawa a encarou e ela continuou sorrindo, se virou e começou a andar novamente, e acenou deixando-o sozinho. Prendi a respiração e saí correndo para a biblioteca sem olhar para trás.
Suspirei, chegando a mesma, e me sentei perto a janela novamente com meu celular em mãos. Comecei a olhar os contatos por não ter nada para fazer e para esquecer que, apesar de tudo, ele acabou seguindo meu conselho. Vi o nome de Ishikawa. Ah, é mesmo. Eu tenho o contato dele salvo. Corei instantaneamente.
– Foi um saco ter que te procurar! – alguém berrou, arrastando a porta da biblioteca de forma brusca.
Olhei ao redor. Estão falando comigo? Por acaso... eu estou perdida? Eu falei pra minha mãe que devíamos considerar a história da amnésia... Ninguém me escuta...!
– Não pedi para ser procurada! – gritei para o Ishikawa, sem nenhuma expressão.
Ele andou rapidamente até mim, se apoiou na mesa com uma das mãos, se aproximou muito do meu rosto, me fazendo corar e com um dedo em frente a boca, murmurou um “shi”.
– O que...? – me afastei dele e me levantei – Você estava gritando agorinha a pouco. – me sentei novamente, irritada.
– Sim, mas eu sou rebelde. – ele se sentou ao meu lado e colocou as mãos atrás da cabeça, despreocupado – Estamos em um biblioteca, faça silêncio. – completou.
Acabei de vê-lo se declarar para a Alice... E ele parece relaxado. Será que está se fazendo de forte depois de tudo? Será que ele me viu? Eu sou tão intrometida. E como assim ele vem me procurar depois de tudo que disse?! Cara de pau! Não fala comigo, cabeça de vento. Eu me recuso a...
– Você estava lá, certo? – ele me despertou de meus pensamentos e eu acabei confirmando totalmente sem graça – Okay... – ele completou e continuou na mesma posição.
– O que você acha que está fazendo? – murmurei, raivosa, e ele me encarou, confuso.
Me virei para o lado oposto e me concentrei no chaveiro do meu celular. Você não gosta dele! Que interessante esse cavalinho... Você não gosta dele, Aoi! Acho que o nome desse cavalinho será Éguinha Pocotó.
– Está tudo bem, Aoi? – a voz do garoto me despertou. O olhei de esguelha – Eu sei que fui rude, mas... – o fuzilei – Okay, fui muito rude. Completamente babaca, mas se você estiver precisando de ajuda pode contar comigo... Afinal, você fez o que pôde pra me ajudar. – ele estava inclinado na mesa e sua cabeça estava virada para o lado oposto à mim – Eu não sei ser sensível às vezes, mas você é uma boa... amiga.
A pausa dele me deixou esperançosa, mas não deu em nada. Então ele sai agarrando as amigas por aí, hein? Arrasando os corações das pobres coitadas. Bem feito tudo que está passando, idiota!
– Me erra! – eu disse mas, no fundo, fiquei um pouquinho feliz por receber essa atenção.
– Oe! – o ouvi endireitar a postura – Não fale assim comigo! – e passou um braço pelos meus ombros, me puxando para perto e apoiou o queixo em minha cabeça. Corei e meu celular abriu-se bem na hora – Oh, meu número. Me mande uma mensagem qualquer dia desses. – disse.
– Por que você faz isso? – murmurei e tentei me soltar dele – Me solte! – exigi, não conseguindo de primeira.
– Apenas mais... um pouco, por favor. – ouvi-o.
Hã? Ele estava mesmo só fingindo que estava tudo bem sobre Alice?
– Ishi... Raku? – toquei seu braço e, de uma maneira estranha, retribuí o abraço.
– Me desculpe. – ele disse.
– Não tem nada... – Não tem nada uma pinoia! Porque eu estou agindo tão passivamente?!
Ele se levantou. Me virei e o encarei.
– Você está... bem? – perguntei me referindo ao caso Alice.
– Bola pra frente. – sorriu derrotado e encenou que estivesse chutando uma bola.
– Você é mesmo, bocó. — sorri inconformada — Não me admira a Alice preferir o meu irmão. – dei risada e ele me encarou com cara de paisagem – Estou brincando. – falei – Brincadeira.
Ele levantou a mão e por um momento achei que ele fosse me bater e fechei os olhos encolhendo os ombros mas senti apenas um tapinha de leve no topo da minha cabeça. Relaxei e abri os olhos, o encarando.
– Ãhn?
Ele continuava com a mão na minha cabeça e me encarava de forma muito estranha. Fazia caretas e franzia o cenho como se estivesse se perguntando algo. Franzi o cenho e fiz uma cara de “Seus remédios acabaram?”. Ele não gostou muito e mexeu sua mão, ainda na minha cabeça, me deixando toda descabelada.
– Seu cabelo está horrível. – falou com cara de nada como se ele não fosse o culpado – Vai arrumar isso! – apontou se fingindo de assustado.
– Ah! Seu idiota! Foi porque você... – corei e joguei um livro nele, que desviou com facilidade e correu para a porta
Antes de sair, o vi sorrir e acenar para mim.
Olhei para frente, me vendo sozinha de novo, bati minha cabeça na mesa várias vezes.
E quando eu decido desistir, você faz isso? Jogue limpo comigo ou então... Não poderei te esquecer. Quero deletar essa vida e começar outra... Onde é que tá o botão, produção?
Fale com o autor