Notas iniciais
Essa fic foi feita para um desafio da comunidade Fics Slash, no orkut. O meu tema foi 'saudades'. Os trechos em inglês e o título são parte da música Save Me, do Avenged Sevenfold.

Ever since the day you left my fate’s been set unknown
How many years to walk this path alone?
So much to see tonight, so why’d you close your eyes?
Why can’t I shut mine?

Acordei assustado numa cama de hospital, sem saber como havia parado ali. Estava sozinho no quarto, minha cabeça doía e eu parecia ter ficado dias sem beber água.

Lentamente sentei-me sobre a cama, levando minha mão à nuca; foi quando senti algum tipo de calo no local, e a realidade me atingiu com um baque.

Um nó se apertava em minha garganta. Ele se fora, não? Brian. Senti lágrimas quentes se formando em meus olhos.

A porta se abriu de repente, deixando um médico alto adentrar o quarto. Ele andou na direção da cama onde me encontrava, sorrindo de um modo que formava covinhas em suas bochechas. Eu quis esmurrá-lo por estar feliz.

“Vejo que já acordou, Zachary. Eu serei o seu médico, Doutor Sanders.” e estendeu uma mão, a qual eu ignorei prontamente. Parecendo um tanto incomodado, acabou por desistir de me cumprimentar.

“Por que diabos eu fui sedado?”

Ele pareceu hesitar por um momento. “Você havia se recusado a colaborar. Não queria tomar seus remédios de modo algum... Disse que faziam Brian desaparecer, e acabou se tornando um pouco violento.”

Uma insistente lágrima escorreu pelo meu rosto e eu fixei o olhar em minhas próprias mãos. Brian é... Meu namorado. Era. Sofreu um acidente de carro enquanto ia visitar seu pai numa cidade vizinha. Eu nem ao menos tive a oportunidade de me despedir...

“Eu deveria ter o direito de decidir se quero, ou não, tomar certo medicamento.” Falei, ríspido.

“Você sabe que não tem consciência o suficiente para fazer esse tipo de decisão.”

“Você gostaria de estar na minha situação?” Perguntei, finalmente olhando diretamente em seus olhos. Ele piscou repetidas vezes.

“O quê?”

“Você gostaria de ficar consciente se estivesse passando pelo mesmo que eu?”

Minha pergunta não foi respondida.


“Você já sentiu saudades de alguém, doutor?”

“Ãh? Ah, sim, é claro, é um sentimento bastante comum.” Ele respondeu, parecendo um tanto confuso com onde eu queria chegar com aquilo.

“Você já sentiu saudades da pessoa mais importante em sua vida?” Novamente, nenhuma resposta. “Brian era a única pessoa que me fazia querer estar vivo. Não sei se dizem isso em sua ficha, mas no hospital onde eu estive antes deste, ninguém me visitou. Ele era o único que realmente se importava comigo.” Falei, me sentindo um tanto envergonhado por revelar aquilo para um médico que eu acabara de conhecer. “É sufocante, sabe? Provavelmente o pior sentimento que alguém pode ter.”

“Zachary, os medicamentos são para manter a sua própria saúde.”

“Que saúde?” Perguntei, com raiva. “Eu sei que eu vou morrer. Falta um mês, não é? O projétil alojado em minha cabeça está me matando. Mas as minhas alucinações começaram antes mesmo da tentativa de suicídio. Não vejo por que as impedir.”

“O problema não é a alucinação, é o quão... Difícil será o seu processo nesse último mês.” Ele respondeu baixinho.

“Sem os remédios, eu estaria vendo Brian ao meu lado nesse mesmo momento. Sim, estaria vivendo uma mentira, mas me sentiria mais feliz. Não agüento mais sentir sua falta. É muito mais doloroso.”

Depois de alguns segundos silenciosos, ele me deu um meio-sorriso. “Eu verei o que posso fazer a respeito”

E foi embora.

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P.O.V. do Matthew

He may be out of his mind
But someday you will find that sanity has left us all blind
And dragged us all behind


Após muita discussão, eu finalmente consegui fazer com que o desejo de Zack fosse atendido. E ao descobrirem o que eu havia feito, muitos médicos do hospital me olhavam com reprovação pelos corredores. Confesso que acabou me incomodando no começo, mas quando me reencontrei com o paciente, sabia que havia feito a decisão certa.

Zachary sorria para mim de um jeito puro, tão inocente quanto uma criança. Não possuía nenhum traço que me lembrasse do homem amargo que eu havia visto em nosso primeiro encontro.

Apesar disso, ele não se lembrou de mim. Reapresentei-me, e dessa vez ele apertou minha mão com entusiasmo. E então mencionou o tal Brian. Disse que eu deveria conhecê-lo, mas ele havia acabado de sair para dar uma volta. Eu ignorei com força a vontade que tive de abraçá-lo naquele momento. Tão ingênuo, tão angelical, com seus olhos verde-esmeralda brilhantes sorrindo para mim.

Era doloroso para mim. Visitá-lo e ouvir dizer como Brian havia contado a piada mais engraçada do mundo para ele na noite anterior. Ou como ele dormia sempre encostado em sua cama, preocupado demais para deixá-lo sozinho à noite. Ou como ele inexplicavelmente sempre desaparecia quando eu estava ali.

E eu me tornei um sentimental. Sem mesmo perceber, havia perguntado a Zachary qual era o perfume favorito de Brian. E naquela noite, lá eu estivera, numa perfumaria, comprando o tal. Sentia-me um ridículo, um cúmplice enquanto borrifava o perfume em seu quarto. Mas ele percebera. Dissera-me como o seu namorado deveria ser o homem mais cheiroso na face da terra. E como o seu perfume era magnífico.

Então, tudo havia começado. Zachary me chamara, apavorado, para dizer que não conseguia mexer sua perna esquerda. Estava paralisada. Ele me abraçou, o terror estampado em seus olhos. Eu não devia abraçar um paciente, mas deixei-o. Senti suas lágrimas molharem o tecido da minha camisa. Ele apenas disse uma coisa. “Brian vai ficar devastado quando descobrir.”

Com algum tempo, ele tinha ambas as pernas paralisadas. Perdera um pouco da sua felicidade, mas nada comparado a o que ele era tomando os remédios. Realmente, ninguém vinha visitá-lo. Perguntei onde estavam seus pais. Ele me disse que eram preconceituosos demais para entendê-lo. Peguei-me esmurrando a parede do meu quarto naquela noite, e não consegui evitar o choro. Eu estava apegado demais a ele. Isso não deveria ter acontecido.

E sua hora estava cada vez mais próxima.

If you’d only open your mind

Then someday you will find

Insanity left us behind

And walked right through the door


Eu estava com ele no fim.

Nos últimos três dias, Zachary pediu pelos medicamentos que deveria estar tomando. Sentia muita dor. Seu corpo estava parando de funcionar, pouco a pouco.

Sentei-me em uma cadeira ao lado de sua cama, observando seus olhos que haviam perdido o brilho. Neles estavam estampados a dor de viver a realidade e a falta que Brian lhe fazia.

O barulho de seu monitor cardíaco mais parecia acompanhar a batida de meu coração do que do dele. Era lento, penoso. Fazia a minha cabeça doer.

Naquele momento, desejei tê-lo conhecido antes. E o tal Brian também. Zachary parecia ser uma pessoa magnífica. Queria ter impedido o acidente. Ou ao menos estar ali com Zack quando ele recebeu a notícia, ou quando decidiu apontar uma arma para sua própria cabeça. Eu sou um psiquiatra; eu poderia tê-lo convencido de não fazer aquilo. Ele não merecia todo o sofrimento que estava tendo.

“Obrigado...” Sua voz rompeu o silêncio, fraca e hesitante. “Por me manter consciente, sabe.”

Sorri com tristeza. “Eu acho que fiz exatamente o contrário.”

Zachary também sorriu. “Somente Brian consegue manter a minha sanidade intacta, Matt. Achei que você tivesse entendido.”

Afaguei seus cabelos negros e macios. “De nada.”

Passamos mais alguns minutos em silêncio. Ele chorava, e eu também.

“E-eu acho que é hora de matar as minhas saudades de um modo mais apropriado.” Falou, com a voz embargada.

“É.” Foi tudo o que eu consegui dizer. Sorri, tentando encorajá-lo. Uma lágrima final caiu de seus olhos.

O bipe de seu monitor cardíaco tornou-se contínuo, mas meu coração continuava batendo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!