Sorrisos de Guache

5 CAPÍTULO 4º


CAPÍTULO 4º

Gritei internamente, sentia meus nervos quase explodindo, e se eu forçasse mais um pouquinho, talvez tivesse uma veia estourada na testa. Merda, merda, merda!

– Galera, essa é Isabella Swan! – Alice berrou, mostrando-me como se eu fosse uma atração de circo, revirei os olhos.

– Estávamos muito ansiosos com sua chegada, Bella. – Carlisle me cumprimentou com um beijo na testa e uma súbita falta de meu pai invadiu meu coração despedaçado. Reprimi o sentimento, evitando mais uma careta.

– Obrigada. – murmurei.

– Seja muito bem vinda, Bella! – uma mulher baixa, linda e de cabelos ondulados me abraçou. – É um grande prazer. Sou Esme, a mulher de Carlisle.

– O prazer é todo meu, senhora. – acenei com a cabeça, sem graça.

– E, este é meu irmão. – Alice puxou o irmão pelo braço que sorriu para mim, balançado os ombros como se quisesse dizer-me que nada poderia parar a nanica. Ele não precisava me dizer, eu mesma havia pensado aquilo trilhões de vezes. – O nome dele é Emmet. – disse-me como se estivesse falando com uma criança de dois anos. Levantei uma das sobrancelhas, percebendo risadas abafadas, que provavelmente, deveriam ser de minhas caras e bocas.

– Olá Bella. Seja bem vinda. – ele me abraçou carinhosamente. Senti que poderia ser sufocada por ele. Parecia um urso, de tão grande que era, mas não havia nada de ameaçador em seu rosto bem formado.

– Obrigada. – sorri enquanto uma loura que mais parecia ser uma boneca, ou talvez, uma modelo, se aproximava de mim, com um sorriso singelo.

– Bella. – eu a olhei. Ela estendeu a mão para mim, a qual peguei. – Sou Rosalie Hale, namorada de Emmet.

– Oh, claro. – disse tentando parecer interessada. – É um prazer.

– Bellita! – a nanica berrou. Suspirei pedindo a Deus um pouco de paciência. – E este é Jasper, irmão de Rose, e... – seus olhos brilharam. – meu namorado.

Abri a boca sem saber o que dizer. Poderia soltar um ‘prazer’ ou ‘olá, como vai’. Mas estávamos falando de alguém diferente ali. Era Jasper Hale, o cara que agüentava Alice. Era um enviado por Deus, só podia ser. Estendi minha mão a ele.

– Então é você que agüenta Alice?! – a vi fazer um biquinho fingido enquanto repetia meus pensamentos em voz alta. – Parabéns, cara! É um enorme prazer saber que existe alguém com tal proeza.

Estavam rindo?! Acho que sim, todos eles, incluindo Edward, Rosalie e todos os outros que pareciam – assim como os primeiros – modelos, atores de Hollywood e qualquer outro personagem que poderia exemplificar beleza. Mas eu não era engraçada. Eu era cômica, atrapalhada, sem graça, com uma dose quase insuportável de auto-ironia inserido em meu patético e frágil ser. Não era nada interessante, no geral.

Deveriam estar rindo de como eu era incrivelmente ridícula, e como parecia triste e feia. Dei de ombros com meus pensamentos. Branca invadiu a sala latindo.

– Branca! – repreendi-a e ela me olhou com os olhos brilhantes e cheios de emoção. Ela precisava de meus cuidados. – Licença. – Pedi aos donos da casa e sentei-me no chão do carpete e comecei a distribuir cafunés pelo seu corpo macio.

– É sua? – vi Rosalie sentar-se ao meu lado, seus olhos transbordando compaixão e amor. Sua mãos hesitantes – mas delicadamente graciosas – deslizaram entre pêlos negros da cabeça de Branca.

– Sim. – eu sorri para o focinho de minha cachorra e parecia que sorria para mim também, e isso era um milagre, afinal, só ela poderia saber o quanto eu havia sofrido nos últimos anos. Só ela.

O almoço foi servido do lado de fora da casa. Lasanha com molho branco – a qual Emmet odiou, porque em sua opinião, molho branco era pra boiola -, carne assada, purê de batatas, vários tipos de saladas – as quais Alice e Rosalie detonaram -, e muita cerveja foram servidas. Depois de toda a comilança, concluí que explodiria a qualquer momento.

Enquanto Alice, Rosalie e Emmet brincavam com Branca, arrastei-me para a espreguiçadeira e tirei o maço de cigarros do bolso, colocado um entre os lábios. Agradeci Carlisle por acendê-lo enquanto passava com uma travessa na mão com a comida que sobrara em direção à cozinha. Perguntava-me desde quando fumava, mas eu ao menos me lembrava.

Tirei os óculos escuros da cabeça – que prendiam meus cabelos – e coloquei-os em frente à vista. O sol de outono iluminava a casa e as pessoas que ali viviam. A felicidade era tão visível que tinha até gosto. Sob os óculos escuros, meus olhos fechados tentavam não se desgrudarem e analisarem ao meu redor. A dor corroia meu peito lentamente, e apesar de tentar sair da escuridão, eu já havia entregado meu coração ao branco, ao torpor.

Não havia o colorido do céu ou das pessoas, ou as risadas gostosas daquele almoço em família; não havia a escuridão ou a cama em que eu havia me afundado desde a primavera passada, não havia mais lágrimas escorrendo por meu rosto. Só havia o vazio, o ‘não-ação’, o estado de inércia que atingia meu corpo. E sendo ruim ou não, eu agradecia por aquela paz que me proporcionava o infinito nada. Estávamos no outono, havia passado um ano inteiro, e eu já estava com 24. Mas parecia que eu estava mais velha, e mesmo sentindo isso, o torpor travava todos os meus pensamentos direcionados á idade. Talvez estivesse na minha hora, talvez fosse isso.

– Bella? – abri os olhos e fitei Alice.

– Hm? – perguntei. O cigarro ainda estava imóvel em meus lábios, soltei a fumaça pelo nariz.

– Está tudo bem?! – observei disfarçadamente as expressões preocupadas do outro lado do imenso quintal forrado por um tapete de grama natural. Ela sentou na ponta de minha espreguiçadeira.

– Estava só cochilando. – sorri. Cochilando e fumando ao mesmo tempo. Só eu!

– Está tudo ótimo. Tem uma bela família.

– É sua também. – ela sorriu e vi a dúvida iluminar seus olhos dourados, e lembrei-me de sua tristeza ao ver meu verdadeiro estado de decadência. Eu poderia ser uma boa atriz, era só querer. – Tem certeza?

– Sim. – respondi firmemente. – Podemos jogar futebol americano!

Uma sugestão perigosa. Vi-a sorrindo e puxando-me – mais uma vez – para o gramado extenso e macio. A bola achatada saiu de não sei onde, e logo estava sendo derrubada, amassada, e passando por tudo isso com um sorriso no rosto. Enquanto Esme e Carlisle conversavam na mesa do quintal, Edward olhava toda a brincadeira da varanda, com uma garrafa de cerveja na mão e um cigarro na boca, acompanhado de Branca ao seus pés. Sentia meu rosto formigar com seus olhos verdes e intensos em mim, e concluí que o odiava quando me olhava daquele jeito, afinal, parecia que podia ler todos os meus sentimentos como se eu fosse um anúncio.

A noite logo chegou, mas esse logo não foi tão logo assim. Vi as pessoas á minha volta rirem felizes, uma felicidade não processada e digerida por meu cérebro, era uma pá que cavava o buraco em meu peito cada vez mais fundo. Tomei o chá das cinco com um sorriso convincente no rosto, ri das piadas de Emm, fingi me interessar por design ao conversar com Rose, ajudei Esme a lavar a louça conversando, ao mesmo tempo, com Jasper sobre carros. E, acima de tudo, fingi para Alice que estava completamente inteira, completamente curada.

– E esse é seu quarto. – fui empurrada pela anã de cabelos espetados cômodo adentro. Eu já estava cansando disso, e sentia meu rosto pegando fogo, engoli seco para me controlar. – Gostou?

Olhei em volta tentando ser o mais precisa possível, mas para falar a verdade, não me fazia diferença alguma.

– Tá ótimo, Alice. – lhe sorri. – Você que decorou, não foi?!

– Como soube?! – perguntou fingindo inocência. Não precisei responder, apenas lhe sorri ironicamente e vi o ser pulando para fora do quarto. Enfim, a sós.

Caminhei pelo quarto revestido de madeira. Metade da parede do lado oposto à porta era coberta por janelas de vidro. Caminhei até lá, e vi dali todo o bairro, e o começo de Londres. Concluí que ficar observando a paisagem não mudaria nada. Corri para o banheiro do quarto e tratei de lavar bem meus cabelos com um xampu que deveria ter gastado uma fortuna, enxuguei-me depressa e me enfiei em meu pijama de listras vermelhas, calçando minha pantufa de lã verde por ultimo. Sim, eu parecia mais um enfeite natalino, mas não tinha ninguém para me avaliar ou achar que deveria mudar, então, aquilo não me importava. Tudo o que eu fazia por mim não contava.

Sentei-me na cama e senti falta de Anabelle. Seria uma noite extremamente longa num colchão desconhecido, o qual chamei de ‘X’. Deitei-me e fechei os olhos, acomodando-me do melhor jeito que podia. Respirei fundo, contei até três e dei a investida para mais uma noite sem sonhos, acompanhada apenas do torpor.

A sensação de vazio que se instalava naquele cômodo me era assustadora. Eu nunca mais iria ser completa, amada, mas o vazio ali parecia ser descomunal. Todas as minhas forças estavam em seus limites, tudo conspirando contra eu sair do ‘X’ e ir atrás de Branca, compreendendo que seu peso na cama era o que faltava para meu ser receber um mínimo de conforto. Olhei o relógio; uma hora da manhã, em ponto.

Desci as escadas com cuidado, querendo na verdade, correr para a garagem, roubar um carro e fugir daquela atividade dramática, mas eu era masoquista, por minha amiga, pelo menos. Segui até a sala de TV e não vi nada, além da escuridão. Continuei seguindo em direção a uma porta que eu não sabia bem o que era. Abria-a com cuidado, odiando-me por ser tão enxerida. Enfiei a cabeça cautelosamente pela pequena fresta da pesada porta e analisei o local.

Uma biblioteca, lustrosa, gloriosa, magnífica. Podia sentir o cheiro da madeira em minhas narinas, entrando em meus pulmões. De costas para a porta, um par de poltronas encaravam-se, e em frente a elas, uma lareira estava acesa iluminavam o cômodo com suas chamas dançantes. Tudo muito convidativo, principalmente quando notei as garrafas de vinho, rum, conhaque... continuei observando, até notar cabelos bronze sendo reluzidos pelo fogo e minha Branca, dormindo ao pé do móvel ocupado.

Como a covarde que sou, tentei sair rapidamente, mas não deu tempo de mexer a porta mais que um centímetro.

– Entre, Bella. – ouvi a voz majestosa de Edward, convidando-me para entrar. – De mim, você não precisa fugir.


Notas finais
Estou carente de comentários. De verdade. ):
Espero que tenham gostado da história. Estou me esforçando para que saia bem legal. E, bom, continuem acompanhando. *o*