Sorrisos de Guache
9 CAPÍTULO 8º
CAPÍTULO 8º
Enquanto conversávamos amenidades e ríamos das pessoas que passavam na rua, eu observava o caminho que estávamos fazendo. Não era muito longe do café e até poderíamos ir andando, mas de qualquer forma, de salto qualquer mulher é inválida, como eu costumava pensar. E como, ironicamente, eu estava de salto naquele dia, era algo muito reconfortante andar de ônibus e sentir seu remelexo todo, de lá pra cá.
– Por que está vestido assim? – perguntei enquanto seu braço passava sobre meus ombros.
– Porque a ocasião permite que eu me vista assim. – ele sorriu e deu de ombros, como de costume. – Você está esplêndida. Terei de ficar de olho em você lá.
– Lá, onde? – perguntei, enquanto corava e sentia o hálito do chiclete de menta de Edward em meu rosto, que feliz, avaliava-me.
– Lá, oras. – deu de ombros mais uma vez.
Desisti de perguntar e bufei, enquanto ouvia a risada sempre suave de meu amigo em meu pescoço. Quem nos visse, pensaria que éramos namorados, um casal feliz e brilhante. Mas de compromissos, eu queria distância. Estávamos bem assim, rindo, se abraçando, bebendo, e sempre com um espaço cuidadoso entre nós. Eu gostava daquilo, e não sabia se seria capaz de arriscar algo a mais. Enquanto a dor não me tomava, eu estava confortável. Mas ela sempre vinha...
– Há! – puxou meu corpo do degrau alto do ônibus, pegando-me pela cintura e pondo-me no chão em seguida. – Chegamos!
– Há! – imitei, com um toque de ironia, segurando a bolsa estilo carteira, preta. Era mais um presente de Alice, mas o problema era o nome estampado nele: Channel. Channel! Caríssimo. Completei. – Que ótimo.
Observei a entrada do estabelecimento, que precisamente, era um hotel do estilo ‘algumas estrelas para coleção’. Com uma arquitetura incrivelmente bonita, com essência colonial e iluminada. Era de todo simples e elegante, ao mesmo tempo. Enquanto passava com Edward pela porta da entrada principal, acenei para os guardas, tentando apenas ser educada. Eles retribuíram felizes. Ouvi Edward resmungar.
– O que foi?
– Nada. – respondeu mal humorado, sem se preocupar em simplesmente dar de ombros, como sempre fazia. Continuei a olhá-lo. – Não gosto desses caras.
– Ah. – fingi entender e continuei a acompanhá-lo. Seguimos até um amplo salão onde residiam várias mesas muito bem arrumadas, com um pequeno abajur em sua branca e delicada superfície. Um lustre todo trabalhado em cristal havia sido posto bem no meio daquele salão, tão elegante quanto este. Observei o chão de madeira estampada com detalhes rococós, observei o lustroso bar, e vi o palco, não tão grande, mas esplêndido de qualquer forma. E percebi, só depois de um tempo, que havia um espaço vago entre todas as mesas, em formato circular. Lá era exatamente o meio do salão, e exatamente onde o lustre magnífico havia sido posto.
– Puxa, Edward, é lindo. – consegui murmurar, virando-me em meu próprio eixo para ter uma melhor visão do lugar.
– Sim. – ele sorria enquanto observava minha expressão abobalhada, eu ri.
– Sim. – Repeti sua singela resposta, sorri e apontei para o bar. – Bebida?
– Talvez. – deu de ombros. Edward normal havia voltado.
Sentamos no bar e bebemos, assistindo as pessoas passarem e acomodarem-se em suas mesas. Observei as garotas passarem e mexerem com Edward, enquanto eu mordia os lábios, sem saber se estava prendendo o riso ou se estava me mutilando de raiva, e aquilo era frustrante. Vi uma garota linda, ruiva e muito melhor vestida que eu passar, e olhar tão fundo nos olhos de Edward que me senti uma intrusa, totalmente desmoralizada.
Em silêncio, continuei a tomar meu drinque enquanto o ouvia comentar algo como ‘tá calor né?’. Os termômetros marcavam quase dezessete graus, contando que estávamos no outono, mas tudo bem. Continuei concentrada em minha bebida, ou nas minhas bebidas. Um, dois, três, quatro, cinco, seis drinques e eu ainda estava sóbria; acendi um cigarro e traguei.
– Estam me chamando, preciso ir. – ele me deu um beijo na bochecha. – Não saia daí. Sua surpresa está a caminho.
– Okay... – concordei. – Mais um. – pedi ao garçom.
– Moça, não acha que já passou da conta?! – ele veio ao meu encontro e pegou meu copo, o enchendo de conhaque mais uma vez.
– Que tal cuidar da sua vida?! – respondi irritada, recebendo a bebida de mau gosto. Traguei o cigarro e lhe bati suavemente no cinzeiro.
– Senhoras e senhores... – olhei para o palco. Deus, onde-estava-Edward?! – É com prazer que nesta noite apresentamos um dos maiores mágicos de Londres! – parei rígida, trincando os dentes de tensão, olhando o palco secretamente aterrorizada. – Com vocês, Mister Deward!
– Meu Deus. – bati palmas num ritmo lento enquanto Edward entrava no palco, vestido em uma capa preta e comprida. Ele pegou o microfone e sorriu, agradecendo aos aplausos. Mister Deward?! Deward? Tiraria satisfações mais tarde, mas pelos meus cálculos, parecia um anagrama com seu próprio nome. Edward era tão inteligente que mordi a língua.
– Muito obrigado. Hoje esse show será dedicado à minha Bella! – ele apontou para meu ser corado, desengonçado e extremamente perdido, que apenas sorriu envergonhada e sem jeito. – Por isso, ele é muito especial. Vamos começar!
E enquanto eu tentava disfarçar a vergonha, minha mente se dividia entre satisfação e irritação. Tinha a pura certeza de que depois que saísse desse lugar sofisticado que impunha certa postura, desceria do salto e o meteria na cabeça de Edward. Mas depois dessa proeza, sairia pulando por ter tido um show de mágica puramente dedicado a mim. Com certeza, estava mais feliz do que de costume. Edward conseguia fazer milagres em meu sistema. Isso, em apenas três meses.
Tomei mais alguns drinques no bar, observando Edward com suas façanhas no palco, atendendo telespectadoras fanáticas e loucas por sua beleza. Não sei se era efeito da bebida, mas eu estava rindo, tipo, rindo litros. Enquanto ele fazia aparecer moedas nos decotes, nas orelhas e nas comidas, eu estava concentrada em manter-me sóbria. Então, como um estalo, acordei de meus devaneios, ouvindo a platéia bater palmas, tanto para mim quanto para Edward. Ele desceu do palco e tirou a capa, o paletó e afrouxou a gravata. Vi as meninas envolta suspirarem, ele vai fazer um strip, porra!, pensei. Mas ele apenas me tomou nos braços e guiou-me para o meio do salão.
– Edward... – cantarolei, tentando repreendê-lo sem ser grossa ou deselegante. – Porra, garoto! Quê isso? – resmunguei, senti meu corpo sendo grudado ao seu e logo estávamos seguindo o ritmo do jazz que soava pelo salão. Olhei para cima e fitei o imenso lustre, que parecia maior, como o sol. E nós – os casais que dançavam – éramos os planetas que giravam a sua volta.
– Gostou da surpresa? – sua voz em meu ouvido estava me deixando mais bêbada do que deveria, mais do que fazia jus ao tanto de conhaque que tomei.
– Uhum. – quase gemi quando ele me rodopiou e voltei a sentir meu calor se misturando ao dele.
– Achei que fosse gostar. – ele sorriu e eu não pude deixar de acompanhá-lo.
– Obrigada. – ele encostou seu lábios em minha bochecha e sussurrou em minha pele.
– Disponha. – eu sorri, um pouco amargurada com aquela situação. – Obrigado você por vir. – completou.
– Disponha. – olhei em seus olhos e percebi o quanto estavam sérios, assim como minha feição. Desejei que aqueles olhos fossem meus, apenas para encará-los por um dia todo, sem me desviar deles. Mas eu teria de me contentar em vê-los de vez em quando.
Mas a bebida estava me causando malefícios enormes, porque, de uma hora para outra, Edward estava se aproximando de mim. Pisquei os olhos disfarçadamente, tentando acordar, mas nada adiantava. Até quando respirei fundo, tudo pareceu ficar pior porque aspirei o cheiro de sua maldita colônia americana. Eu estava em choque, eu estava paralisada de choque. Enquanto seus olhos se aproximavam, cada vez mais e mais, senti que aquela porta – há muito fechada – voltava a se abrir a mim. Era uma porta luminosa, torneada em cristal, extremamente atraente. Ela me puxava cada vez mais pra dentro, seduzindo-me com sua felicidade, com sua paz. E quando dei por conta, já estava tocando os lábios de Edward com os meus.
Notas finais
Até a próxima. <3
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