Sorriso de Plantão

1 Conto 1 – Dr. Rodrigo


Dr. Rodrigo

O dia estava agitado, como de costume, no Hospital Regional de Hearttown. Os setores estavam cheios. Médicos, enfermeiros e fisioterapeutas para todos os lados, correndo como loucos, sem prestar atenção nos corredores, empurrando macas, cadeiras de rodas e ajudando pacientes a dar os primeiros passos com as moletas. Que louco. O clima daquele hospital lembrava muito o clima hospitalar de filmes e seriados. Adrenalina na veia, ao invés de Heparina.

O Hospital Regional tinha muito setores, e cada setor era especializado em uma determinada enfermidade, separados por sexo e faixa etária. Dr. Rodrigo não estava muito acostumado ao clima. Ele não gostava muito de hospitais, estava apenas trabalhando o suficiente para ter o dinheiro de montar a sua própria clínica ginecológica. Desde que sua mãe morreu, aos 35 anos, vítima de endometriose, ele sentiu-se fascinado por esse mundo. Queria ajudar a mãe de outros, de outros e de outros. Era mais um plantão, como todos os outros. Não tinha muito movimento no seu setor a essa hora da noite. As gravidades da sua área chegavam mais por volta da manhã e da tarde, mas estava lá no seu contrato: 20 horas semanais e dois plantões a cada semana.

Ele caminhava, entediado, para a copa do hospital, indo buscar um café, quando reparou em uma criança tomando soro intravenoso no corredor da ala 7. Ele estranhou. No corredor do hospital?! O que aquela criança tinha? Tinha que estar no setor de pronto atendimento. Ele observou curioso. Era uma criança negra, subnutrido, de calção e pés descalços. O seu cabelo, no entanto, era amarelado, indicando que estava com deficiência de ferro no corpo. Estava só, a criança. Cadê a sua mãe?

Dr. Rodrigo se ajoelhou e ficou encarando a criança que, assustada, nada disse. Parecia um gatinho temeroso.

– Oi? Meu nome é Rodrigo. – Ele estendeu a mão pra ele, para o braço são.

A criança não disse nada. Ficou com a mesma expressão de minutos atrás.

– Chato aqui, né? – Dr. Rodrigo olhou em volta de si. – Você deve estar entediado, querendo ir logo pra casa. Posso te contar um segredo? – Ele abaixou o tom de voz: – Eu também, amigão. – E sorriu.

– Você não é médico? – A criança respondeu com uma pergunta, no entanto, sem mudar sua expressão, olhando Dr. Rodrigo com aqueles olhos firmes e negros como carvão. Eram tão intensos que a luz reluzia dentro de seus olhos como duas estrelas cintilantes. – Médicos gostam de hospitais.

– É claro. – Rodrigo sorriu, sem saber o que dizer e abaixou a cabeça. – O que você tem?

– Eu tô doente.

– Hm – Dr. Rodrigo estranhou o modo como a criança falava –, e cadê sua mãe?

– Eu não tenho mãe.

– Quem te trouxe aqui?

– Eu não sei – a criança respondeu com a mesma expressão de sempre, não desviando os seus olhos do Dr. Rodrigo.

– Você é uma boa criança, moleque. – Dr. Rodrigo passou a mão nos seus cabelos e levantou-se para ir em busca do seu café na copa.

– Eu vou ficar bom logo? – O menino perguntou quando ele já estava longe.

Dr. Rodrigo olhou pra trás, mas não soube dizer, nada respondeu. Ele continuou o seu caminho, mas com um pequeno desvio para o setor onde trabalhava sua irmã, a enfermeira Liz.

Liz estava fazendo a evolução de um de seus pacientes, no postinho de Enfermagem do corredor, quando Rodrigo chegou para abordá-la.

– Liz – ele disse.

– Rodrigo – ela respondeu. – Posso ajudá-lo?

– Tem um garoto com venóclise no seu setor, sabe dizer o que ele tem?

– Garoto com venóclise? No corredor? – Ela estranhou e procurou algo nos prontuários dos pacientes do seu setor. Não tinha nenhum garoto tomando soro, pelo que ela pôde ver, a não ser... – Como esse garoto é? – Ainda desconfiada, ela olhou para o seu irmão e perguntou.

– Ele se parece muito com uma criança africana. Negro, descalço, meio sujo, subnutrido, cabelos amarelados, olhos muito negros. Ele disse que está só, não tem mãe e não sabe quem o trouxe.

– Rodrigo – ela deu uma pausa –, tinha uma criança com essas características que você está me dizendo, ontem. Mas essa criança acabou morrendo. Estava com umas dores abdominais muito fortes decorrente de alguma parasitose. Estava tomando Buscopan para dor, eu mesma fiz a venóclise nele. Mas até o momento ainda não se tinham confirmados as suspeitas a respeito da parasitose. Eu soube que ele foi operado para tirar as vermes.

– Operado e está no corredor? Ele não deveria estar repousando?

– Rodrigo, essa criança morreu na sala de cirurgia.

– Não. Claro que não. A criança está no corredor, eu vi!

– Rodrigo.

– Venha aqui, Liz. Venha aqui! – Ele puxou a irmã pelo braço e não se importou com os prontuários dos pacientes que caíram no chão. Algumas pessoas o chamariam de loucos, os dois irmãos, mas naquele hospital o ritmo era tão intenso, que ver médicos e enfermeiros correndo de um lado para o outro era a coisa mais normal do mundo.

Rodrigo levou a irmã até o local do corredor onde a criança estava sentada.

– Vê? – A Enfermeira Liz disse para convencer o irmão e olhou pra ele com um olhar de pena, colocando a mão na sua testa. – Talvez esteja trabalhando muito, meu irmão. Você mesmo disse que não gosta do ritmo dos hospitais.

– Não, Liz, eu vi! – Ele se dirigiu para a cadeira onde estava sentado o garoto. – Ele estava aqui! Aqui! – Disse apontando para a cadeira e olhando para a irmã, tentando convencer a si mesmo e a irmã de que não estava ficando louco. Estava sonolento, talvez? Precisava da sua dose diária de café para ficar acordado durante o plantão, isso é verdade, mas ele não sabia nada sobre o garoto. – Se não é verdade, me diga como sei essas coisas sobre esse garoto.

– Não sei... Talvez tenha ouvido falar dele pelas outras enfermeiras, pelos outros médicos?

– Não, Liz, eu sei que não.

– Rodrigo – Liz se aproximou e o beijou na testa –, vá tomar o seu café, meu irmão. – E foi embora.

Rodrigo ficou pensando como Dr. Rodrigo. Todos aqueles anos na faculdade, tentando colocar na cabeça dele que a ciência predomina, não serviram de nada? O que era isso agora? Ver gente morta?! Rodrigo foi tomar o seu café.

– Doutor – a voz do garoto chamou por ele e Rodrigo olhou pra trás. – Tem muita criança precisando de você. – O menino disse e, aos pouquinhos, foi desaparecendo, como miragem no deserto. – Eu só vim aqui dar o recado. Obrigado. Eu sei que você vai ajudar os meus irmãos, o meu país. Obrigado, Dr. Rodrigo – ele disse desaparecendo com um sorriso e lágrimas nos olhos. Até que enfim o garoto estava mostrando sinais de felicidade depois de tanto parecer abatido e sem perspectivas.

Rodrigo ficou ali parado. Minutos depois, ele foi buscar o seu café.

Três meses depois, Rodrigo estava se especializando em Saúde Pública com enfoque na Subnutrição, Pobreza e Desigualdade Social. Rodrigo foi trabalhar na África.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.