Sorria para Mim

1 Capítulo 1


Deitado sobre enormes lençóis de seda lilás, um garoto loiro perdia-se em seu sono. Mas o céu já começava clarear, assim, tentando ultrapassar as cortinas daquele quarto.

Passos ecoaram no corredor, ouvia-se cada vez mais perto e logo em seguida o rangido de uma porta abrindo-se.

A figura masculina revelou-se. O mordomo, segurando uma bandeja recheada de delícias, caminhou até a cama onde o pequeno conde acomodava-se. Colocou a bandeja sobre o criado mundo e tocou o ombro do menino.

- Danna-sama, hora de levantar.

Vagarosamente dois belos pares de olhos azuis como safiras abriram-se, encarando de forma emburrada os olhos dourados do homem moreno a sua frente.

- Ah não! Quero dormir mais, Claude! – O garoto gritou e jogou um travesseiro em direção ao homem, que segurou-o antes de atingir-lhe a face.

- Danna-sama... Infelizmente terá de levantar, seu tio virá hoje, lembra-se?

- Por que acha que quero continuar dormindo?! Não quero ver aquele velho fedorento e insuportável! O único motivo de tê-lo recebido da primeira vez foi para me divertir com sua cara vendo-o rastejar como uma barata no lixo atrás daquele dinheiro! – Disse raivoso, mas terminando com uma risada ao lembrar como fora engraçado ver seu odioso tio correndo atrás do dinheiro e documentos que jogará da sacada.

Claude apenas observou Alois gargalhar, o que o incomodou.

- Já disse que você tem que RIR quando eu fizer esses tipos de comentários, Claude! – Gritou o loiro, mais uma vez.

- Perdão, danna-sama. Mas desta vez terei de insistir em se levantar.

Alois bufou e aceitou, sentando-se a beira da cama e encarando seu mordomo que começou a desabotoar suas vestes de dormir, até poder trocá-lo totalmente de roupa, apenas deixando que colocasse suas botas sozinho.

- CLAUDE! Quero que coloque minhas botas também!

Obediente, o homem virou-se e calçou as botas em seu mestre, sem demonstrar um pingo de reivindicação.

-

Algumas horas se passaram até o tio do pequeno Conde chegar, olhando todo o interior da mansão Trancy com olhos invejosos.

- Titio querido! Fez bom proveito do dinheiro? – Recebeu Alois a seu tio, com um sorriso sarcástico nos lábios.

- Claro, claro, meu sobrinho querido! – Respondeu seu tio, um pouco hesitante.

- Fico feliz por isso, titio querido! Ah, e mandei preparar-lhe um delicioso prato para sua chegada.

Enquanto dizia isso, Hanna, a empregada da mansão, aproximava-se da mesa levando a comida tão especial que Alois mandara preparar. De longe, Claude e os trigêmeos observavam como ia o desenvolvimento daquela falsidade toda.

O tio do menino Trancy deliciou-se com o cheiro do assado que a empregada revelara ao levantar a tampa da badeja, caindo logo de boca em uma fatia servida. Enquanto mastigava, porém, sentiu sua garganta fechar e arder como se tivesse engolido pedaços de fogo, seus olhos lacrimejavam e sentia-se extremamente atordoado.

Alois riu da forma mais sinistra possível. O menino fizera Claude descobrir que seu tio era alérgico a pimenta, sendo assim, mandou que a comida fosse preparada da forma mais picante possível para se deliciar com a cena de seu tio sofrendo.

- Sua vagabunda maldita! – Gritou chutando as pernas de Hanna, fazendo-a cair no chão. – Eu lhe disse pra não colocar pimenta na comida do meu tio! Dê um jeito nisso, agora! Vamos, Claude!

- Sim, danna-sama.

E satisfeito com toda sua doce crueldade, levantou-se e subiu para seus aposentos, deixando aquela cena para trás dando altas e espalhafatosas gargalhadas.

- Viu como ele ficou vermelho e inchado, Claude? Hahahah! Meu tio é mesmo um homem completamente estúpido! – E mais uma vez, o belo demônio não respondera a seus comentários, apenas ajeitou seus óculos, deixando um pequeno loiro muito aborrecido.

-

A noite despencara do céu rapidamente, e o mordomo de pele branca como mármore vestia seu amado amo para dormir, mas o menino parecia atordoado.

- Claude, fique aqui comigo. – Pediu em voz baixa, soando medo.

- Danna-sama, perdão, mas tenho que terminar os outros afazeres e... – Porém, fora cortado pelos gritos de seu mestre.

- EU MANDEI VOCÊ FICAR AQUI COMIGO, CLAUDE! – O moreno parou e o fitou, sentando-se a beira da enorme cama de casal.

- Como desejar.

Logo, o belo mordomo deitou-se ao lado de seu amo, envolvendo-o em seus braços e acomodando-o em seu peitoral. Alois fechou os olhos e o abraçou, sentindo sua pele gelada, mesmo por cima das roupas.

- Fique aqui até eu acordar.

- Assim o farei.

O garoto tocava-lhe o cabelo e o acariciava. O mordomo pôde sentir uma lágrima escorrer do rosto de seu mestre que levantara o rosto molhado, encarando a pele alva de seu criado tão precioso, tocando-lhe a face suavemente.

— Quero dê um sorriso sarcástico, Claude. – Pediu o loiro, sem mais nem menos.

Claude o encarou, e não reagiu.

- Vamos! Obedeça-me! Agora! — Exigiu, mas sem nenhum resultado. Murmurou logo em seguida – Seu maldito... Você tem que me obedecer!

Sem menos esperar, Claude segurou o rosto de Alois com suas duas mãos, encarando-o com seus olhos de um dourado sem fim, o que fez o pequeno garoto gelar.

- Eu sou seu fiel servo, meu amo. Farei tudo o que desejar, sem nem ao menos precisar me pedir.

O Conde não sabia o que pensar da situação, seu mordomo era um demônio, mas mesmo assim seu interior respondia a tudo o que ele fazia naquele momento.

O mordomo tocou-lhe os lábios com os próprios, tocando sua língua fria na língua quente de seu mestre, fazendo-o sentir queimação no local do selo do contrato que fizera com Claude. Porém, o loiro não conseguia pensar de uma forma racional, mesmo sentindo sua língua pegar fogo não queria parar, queria mais, mais e mais. Seu mordomo era como uma droga.

- Claude...

Murmurou seu nome em meio ao beijo sufocante, doce e estonteante. Porém, o beijo tivera que cessar.

Alois caiu deitado nos braços de Claude, como se tivesse sido injetado anestesia geral em seu corpo. A última coisa que pôde dizer foi:

- Você mentiu... Claude, você não fez tudo o que desejo, ainda exijo seu sorriso sarcástico...

O demônio o mirou mais uma vez, ainda aconchegando seu mestre em seus braços.

- Isso eu deixo passar, por enquanto. Mas... Eu quero que fique... Sempre ao meu lado... Sempre... Sempre... Sempre... – O menino repetira a palavra “sempre” até adormecer completamente.

Um sorriso sarcástico brotou no rosto do seu mordomo em enquanto sussurrava em resposta.

- Yes, your highness.

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