Sorria
2 Capítulo 2
Bamberg, Baviera – Inverno de 2019
Conforto. Foi isso o que Dylan sentiu ao abrir a porta do estabelecimento e ali entrar numa noite gelada de janeiro e ver que a mesa que sempre se sentava estava vaga. Passou a mão pelos cabelos para ajeitar a bagunça provocada pelo vento, limpou a neve da sola do sapato, entrou e acenou para o garçom já providenciando seu pedido, dirigindo-se então até a mesa.
Tudo estava normal no Kaffee & Kuchen, como sempre tinha sido, com pessoas entrando e saindo, conversando e rindo, e hora ou outra algum adolescente entrando ali para fugir das bolas de neves jogadas pelos amigos. Dylan algumas vezes era de certa forma vítima dessa brincadeira, já que eram frequentes as bolas de neve atingirem a vidraça do estabelecimento, assustando-o, e fazendo o proprietário ir atrás dos garotos soltando fogo pelas ventas.
Tudo estava tranquilo, como bem gostava, mas não tinha acordado bem para aproveitar o dia ou ao menos o pouco que aquele dia frio tinha a oferecer. Sem algo que distraísse seus dias monótonos Dylan voltou a apresentar o mesmo semblante melancólico de antes, principalmente naquela data, ao acordar de um pesadelo durante a madrugada. Pesadelo tal que não tinha há meses e que fazia seu dia ser ainda mais enfadonho. Reviver a noite do acidente era uma tormenta que o deixava sobremodo abatido, principalmente ao olhar no calendário e ver que dentro de poucos meses faria sete anos que estava separado do seu irmão e melhor amigo. Não que costumasse ficar retendo seus pensamentos às suas tristezas e perdas, remoendo o que havia passado e ficar sofrendo. Era certo que chegara ao poço mais profundo da depressão, e estava se recuperando bem, mas havia momentos em que a melancolia o dominava.
E foi tentando afastar seus pensamentos sombrios que olhou para o céu noturno por algum tempo, observando os pequenos luzeiros a pontilhá-lo, tão distantes, mas a se revelarem na escuridão, enquanto sua mente era direcionada para outras coisas.
Permaneceu ali, com o olhar erguido ao céu, até que ao abaixar minimamente seus olhos seu próprio reflexo na vidraça chamou-lhe a atenção. Viu seu semblante abatido ali espelhado, mas sua atenção foi tragada para algo além daquilo. Suas feições e características faciais idênticas ao rosto do seu gêmeo o fizeram olhar como que dentro de seus próprios olhos, imaginando ali seu irmão, olhando tristemente para ele por estar daquele jeito. Conseguia imaginá-lo perfeitamente assim, como que estando ali, olhando-o daquele jeito e indagando a respeito de tudo aquilo, proferindo em seguida uma piada para fazê-lo sorrir.
Riu internamente da piada que já sabia que Austin diria até que sua atenção foi direcionada para o reflexo na vidraça de uma mulher de cabelos ruivos, sentada a pouca mesas ao lado dele, de costas. E assim permaneceu mais uma vez, observando seus cabelos e sua silhueta ao passo que ela parecia ler um livro ao saborear um suco. Até que, num estalo, percebeu o que estava fazendo.
Franziu o cenho ao dar-se conta de que aquela não era a primeira vez que ficara olhando fixamente para ela, ao ser trazido à mente todas as vezes que, divagando em seus pensamentos, tinha seus olhos direcionados para ela quase que inconscientemente. E ciente disso arregalou os olhos, questionando-se sobre desde quando fazia aquilo, direcionando seus olhos pasmados do reflexo para a pessoa em questão.
Batendo na metade das costas, as madeixas ruivas de um tom natural cativavam-lhe sua atenção por serem parecidos com os de sua mãe, o que o levou a recordar-se de sua infância e como gostava de brincar com os cabelos dela. Com um corte simples, mas muito bem cuidado, Dylan subitamente sentiu uma estranha vontade querer de tocá-los.
“O que é isso, Meyerkopf?”, perguntou a si mesmo, assombrando com seus próprios sentimentos, assim que a garçonete aproximou-se e trouxe seu pedido, fazendo-o acordar mais uma vez para a realidade de estar olhando fixamente para a moça enquanto ficava preso aos seus pensamentos.
“Desde quando eu fico reparando nela?”, indagou, lançando mais uma vez seus olhos sobre ela, em seguida olhando em volta para ver se alguém o tinha visto fazer aquilo.
Foi quando seu olhar se encontrou com o do garçom, no balcão, fazendo seu rosto esquentar sobremaneira por ser pego no flagra. Mas assim que os olhos do garçom se encontraram com os de Dylan, ele desviou o olhar, o que deixou Dylan confuso já que esperava vê-lo dar um sorrisinho sacana como se dissesse “ahá! Está de olho nela, não é? Eu vi!”, e não fingir que não tinha visto nada. Ainda mais que já estava mais familiarizado com a personalidade extrovertida do rapaz.
Isso deixou Dylan intrigado e mais que depressa tentou buscar uma explicação, parando para pensar naquilo. Revirou sua memória até que sem muito esforço percebeu que algumas vezes, principalmente depois do aparecimento da tal ruiva, que passara a frequentar o lugar recentemente, ele teve a leve impressão de que o garçom queria lhe contar algo a mais quando vinha trazer seu café, mas que por algum motivo sempre acabava permanecendo de boca fechada, dando um sorriso polido e voltando ao seu trabalho costumeiro.
Mas o que seria? Queria ele dizer alguma coisa e não sabia como?
“O que poderia ser?”, pensou ao analisar tudo aquilo, e ficou incomodado assim que, instantaneamente, sua mente foi direcionada aos bilhetes que há muito não via.
Determinado a descobrir o que tanto o rapaz parecia querer dizer, saiu da mesa e foi até o balcão, esperando ele atender um cliente que ali estava antes de interrogá-lo. E parecendo mais aliviado por poder de uma vez por todas contar o que queria,-embora, para Dylan, parecesse que ele ainda estivesse escondendo algo-, com um sorriso no rosto o garçom pediu um momento e se abaixou atrás do balcão, onde pareceu procurar alguma coisa. Depois se levantou com uma pequena caixa de papelão em mãos, colocou-a sobre o balcão e a entregou para Dylan, que olhava surpreso para o que continha ali dentro: todos os papeis “sorria”, tanto os amassados como os recusados durante aqueles meses que haviam passado. Estavam todos guardados ali dentro.
Dylan ficou extasiado por alguns segundos, enquanto olhava todos aqueles bilhetes com a mesma inscrição, até que uma pontada de agonia começou a brotar em seu peito.
—Por que você guardou?
—Ela pediu para guardar.- respondeu o garçom, observando o rosto do homem à sua frente.
Agora Dylan não tinha dúvidas de que aquilo tudo não poderia ser apenas uma brincadeira de criança. Havia algo a mais por trás daquilo tudo e dentro de si a necessidade de descobrir o que era crescia cada vez mais, enquanto as perguntas atacavam mais uma vez sua mente.
“Mas quem é “ela”?”
—De uns dias pra cá não chegou mais nenhum bilhete.
—Não?
E de repente ele se viu desapontado com a ideia de não receber mais bilhetes e acabar não descobrindo quem estava por trás de tudo aquilo.
Com mil coisas passando por sua cabeça e sem saber em qual delas se concentrar, Dylan agradeceu ao garçom por tudo aquilo e ao ser questionado quanto ao que deveria fazer com a caixa, pediu para que ele a guardasse, pois queria pensar um pouco antes de decidir o que fazer com ela.
Por fim, voltou à sua mesa e sentou-se novamente em seu lugar. Sua mente estava ocupada de tal forma pelas perguntas e dúvidas quanto àquele assunto que, mesmo com o estabelecimento repleto de gente naquela noite de sexta-feira, todos os ruídos ao redor pareciam ter desaparecido, como se estivesse envolto em uma bolha de silêncio, onde tudo o que conseguia ouvir era seus pensamentos e indagações.
Minutos se passaram e perguntas e mais perguntas sem respostas o atormentavam, enquanto olhava fixamente para o açucareiro sobre a mesa. Até que olhou para seu reflexo na vidraça e imaginou ali, mais uma vez, seu irmão com o cenho franzindo, assim como ele, tentando buscar respostas para aquilo. Iniciou então um diálogo interno, imaginando as possíveis respostas que Austin daria para as suas perguntas se ainda estivesse vivo.
“O que você diria disso tudo?”
“Que tem uma possível gata atrás de você...?”, foi a resposta que imediatamente veio à sua cabeça, fazendo Dylan rolar os olhos. Com certeza ele diria algo do gênero.
Mas então algo chamou sua atenção. Viu pelo reflexo na vidraça algo vermelho e esvoaçante andando de um lado para o outro no estabelecimento. Virou-se para ver o que era toda aquela movimentação e ao passar os olhos pelo recinto viu que a mulher ruiva andava por entre as mesas e deixava o que parecia ser folhetos com os ocupantes das mesmas, parando em algumas delas para conversar com as pessoas que se demonstravam mais abertas a um diálogo.
“É época de eleição?”, pensou um tanto debochado, achando que os tais folhetos fossem propaganda dos partidos políticos. E assim que viu também, pelo canto do olho, ela dando a volta na última mesa e dirigindo-se até ele, direcionou sua atenção à movimentação da calçada, esperando que ela passasse direto pela mesa e não viesse falar para ele. Estava ocupado e atormentado demais pensando em todas as coisas recentes que tinham acontecido e não estava nenhum pouco a fim de ouvir sobre propaganda partidária.
Pegou sua xícara de café e fingiu bebericá-la enquanto observava a rua, apenas esperando o momento em que ela se aproximasse.
—Oi, posso deixar um folheto aqui com você?- perguntou ela alegremente, com uma voz doce e melodiosa.
Dylan deu um sorriso polido e balançou a cabeça afirmativamente, aceitando o folheto apenas por educação, sem nem mesmo olhar diretamente para ela enquanto permanecia voltado com sua atenção para rua, para evitar que ela começasse a falar. E enquanto o folheto permanecia intocado sobre a mesa e ela seguida em direção às mesas restantes, distribuindo os folhetos, Dylan forçou sua mente a recordar-se de onde conhecia sua voz.
Temendo que ela proferisse um discurso político ele acabou perdendo a única oportunidade que teve de olhar para seu rosto tão de perto e, juntamente com a voz que lhe soara familiar, talvez recordar-se dela de algum lugar.
Mas será que a conhecia mesmo ou era coisa de sua cabeça?
Por que, de repente, pensou nessa possibilidade?
Agora nada podia fazer senão esperar que ela olhasse para trás para poder ver seu rosto, já que ela estava em pé próxima da porta, de costas para ele, conversando com uma senhora que sorria e conversava com ela, parecendo interessada no assunto.
Encarou-a pelas costas por algum tempo esperando que ela de alguma forma sentisse que ele estava olhando para ela e se virasse, mas nada aconteceu. Um pensamento de ir até lá veio à sua mente, mas tal coisa pareceu absurda. Até por que, o que diria?
Sua atenção, então, foi direcionada para o folheto sobre sua mesa, ao lado do açucareiro. Olhou-o por um momento até que movido pela curiosidade de saber o que estava escrito ali, pegou-o, abriu-o e o leu.
Estava escrito à mão, com uma caligrafia bonita:
Onde está aquele brilho que vi em seus olhos quando nos encontramos pela primeira vez?
Aquele sorriso que tantas vezes me fez sonhar acordada desapareceu do seu rosto. O que o destino lhe fez?
Ontem eu vi em seus olhos a tristeza; e um motivo para viver, como uma nuvem, se desfazendo...
Onde está você? Sua alma parece que está morrendo.
Mas não se preocupe, nem me julgue. Eu também sei o quanto a realidade é dura às vezes.
Não fique assim.
Como uma amiga, que um dia eu fui, estou aqui.
Levante a cabeça. Não há mais tempo para ficar assim.
Viva.
Ame.
Voe.
Cante.
E nunca se esqueça de sorrir.
Ao terminar de ler Dylan permaneceu com os olhos fixos sobre o folheto. Não podia negar a que aquela era uma bela mensagem poética, que daria até uma bela musica, como acabou pensando depois. E após passar os olhos ligeiramente sobre o folheto mais uma vez, fechou-o, deixando a parte de trás dele voltada para cima, onde leu:
Sorria, Dylan.
Ele olhou para aquilo por alguns segundos.
—Como ela sabe meu nome?- questionou-se, confuso, mas logo em seguida rolou os olhos ao lembrar-se de que um dia já fora um cantor internacionalmente famoso. —Mas é claro...
Deixou o folheto sobre a mesa e no instinto pegou a xícara sobre a mesa para terminar o café, chegando à conclusão de que ela era mais uma fã que tinha feito um teatro para se aproximar dele. Mas tão logo ele pegou a xícara e a levou até os lábios, a colocou de volta sobre a mesa e pegou o folheto rapidamente. Colocou o cotovelo sobre a mesa e levantou o papel até a altura dos olhos.
Sorria, Dylan.
Encarou aquilo por algum tempo, enquanto sua mente trabalhava. Até que aquela palavra de seis letras pareceu saltar para fora do papel.
“Sorria”
A palavra que durante semanas e semanas recebera inscrita em um pedaço de papel dobrado novamente estava ali, escrita com a mesma caligrafia feminina. E dessa vez, no entanto, seu nome acompanhava a palavra.
—É ela!- exclamou, alto o suficiente para que algumas pessoas olhassem para ele.
Não acreditando no que acabara de descobrir, Dylan ergueu a cabeça e passou os olhos pelo local na desesperada esperança de encontrá-la ali, mas não havia mais nenhum sinal da moça naquele lugar.
—Não acredito que ela esteve sentada ao meu lado esse tempo todo!- disse para si mesmo, agarrando firmemente o folheto e levantando-se.
Correu até o balcão, onde o garçom o esperava com um sorriso, como se já soubesse o que ele iria falar, e perguntou sobre a ruiva, explicando em seguida:
—Ela é a garota dos bilhetinhos! Ela! Ela esteve sentada do meu lado o tempo todo, por isso ela não mandava mais nenhum bilhete!- exclamou, tirando uma nota de euro para pagar a conta.
Pasmado com tudo aquilo, não conseguia esconder a excitação na voz, e ao obter a resposta do garçom de que ela tinha ido em direção do parque, caminhou a passos firmes na direção da saída. Mas parou por um momento e se voltou bruscamente na direção do garçom.
—Espera ai, você já sabia?
Ele deu de ombros, como que se desculpando, e sorriu.
—Ela pediu para não contar. Sinto muito.
“Então era isso o que ele queria contar, mas não sabia como”, pensou Dylan balançando a cabeça negativamente, não acreditando em tudo aquilo enquanto saia do estabelecimento.
Caminhou rapidamente pela calçada, desviando-se das poucas pessoas que vinham na direção contrária com uma agilidade que nem ele sabia ter, e atravessou a rua, tomando sempre o cuidado para não acabar escorregar com a neve no chão. A todos os momentos seus olhos sondavam a rua buscando encontrá-la, ao passo que sua mente era levada a tentar recordar-se de onde a conhecia.
—Vamos, Dylan. Pense. Quantas ruivas você já conheceu na vida?- perguntou para si mesmo, trazendo à mente a imagem das mulheres que conhecia que tinham tal característica. —Poucas. E quantas dessas poucas tinham a mesma voz que essa mulher?
Parou mais uma vez na calçada, após caminhar alguns quarteirões, e enquanto o fluxo de veículos passava à sua frente fixou seu olhar no chão abaixo de seus pés, tentando de alguma forma concentrar-se em vasculhar a sua caixa de memória.
—Quem é ela?- perguntou-se. —Devo conhecer ela de algum lugar... Mas de onde?
Ainda estava segurando o folheto na mão, já um pouco amassado, e lembrando-se dele ergue-o à altura dos olhos, lendo a frase novamente.
—Sorria...? Isso tem alguma coisa a ver?
Aos poucos sentiu como se estivesse pronto a lembrar-se dela, e buscando uma força impulsora que levasse a memória à tona de uma vez por todas, Dylan ergueu os olhos ao céu escuro da noite, pontilhado de estrelas. Num repente, as peças se encaixaram sem esforço algum em sua mente, fazendo com que a imagem da mulher saltasse à sua frente.
—Annabelle?
Os cabelos longos e ruivos; a mensagem, “sorria”; a voz; o céu pontilhado de estrelas. Tudo isso o fez retroceder sete anos no tempo. No dia em que eles, na cobertura do hotel, sob o mesmo céu estrelado, se conheceram.
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