Sophies Gaiden

2 Verdadeiro monstro


Todas dormiam. Menos uma. Sophie. A jovenzinha de melenas lilases não parava de remexer-se na cama. Tinha vontades. Estranhas vontades de provar sua força novamente. Mas não com os monstros fracos dos campos de Geffen. Queria ir mais longe. Com cuidado para não acordar as três irmãs, levantou-se lentamente, caminhando para fora do aposento. Nem fechara a porta, para não fazer barulho. Ela apenas rezava para que Ary não acordasse no meio da noite, sonâmbula. Com mais cuidado ainda, a pequena desceu as escadas, tendo todo o cuidado para que as mesmas não rangessem sobre seus pés. Depois de todo esse trabalho, a pequena mirou as coisas da prima mais velha. Procurou a Claymore Flamejante por entre os pertences da Templária, achando em seguida o que procurava. Naquela noite, saíra de casa, seguindo para a Torre de Geffen.

~*~

Por não estar acostumada com o lugar, não sabia nem como enfrentar os monstros naquele lugar. As Moscas Caçadoras não a acertavam, mas ela também não conseguia causar um arranhão a elas. Além disso, os Esporos Venenosos não ajudavam muito, mordendo levemente suas pernas – pelo menos para ela era leve. Além disso, nunca havia lutado com uma arma daquele peso antes. Era difícil de manejá-la e seus braços, aos poucos, iam começando a ficar amolecidos pelo cansaço. Mas logo a pequena conseguira manejar a Claymore Flamejante com perícia, cortando as asas dos insetos e praticamente decepando os cogumelos irritantes. Os braços, acostumados agora com o peso e os movimentos bruscos, estavam mais firmes. E assim fora por todo o caminho, até chegar ao segundo andar da edificação. Os únicos problemas que tivera por lá foram os Jakks e os Drainiliars, que pareciam não ser muito afetados pela sua espada. Mas isso não fora muito complicado. Derrotava cada um com socos e chutes, acertando-os direto na cabeça. Sem muitas dificuldades, Sophie conseguiu chegar até o terceiro andar da Torre, e lá ela dava-se muito bem. Cortava Sussurros sem dificuldades, devido a sua Claymore Flamejante. Até que a pequena viu ao longe um amontoado de Pesadelos ao redor de um jovem espadachim. No início, o ímpeto da criança fora o de ajudar o rapaz, mas parou no meio do caminho. O jovem não estava sendo atacado.

Imediatamente lembrou-se das histórias de Ann. Aquele era o famoso Doppelganger, o espadachim fantasma da Torre. Apesar da classe, o monstro podia muito bem derrubar um grupo de cavaleiros sem nenhuma dificuldade.

A criança congelou. Não conseguia fugir e nem avançar. Entretanto, também já não adiantava nada. O espadachim percebera a sua presença. O corpo de Sophie paralisou na hora. Um sorriso diabólico surgiu na face do rapaz, que começava a aproximar-se lentamente, seguido de perto de seus lacaios.

N-Não tenho medo de vo-você!... – A criança gaguejou. Aos poucos conseguia dar curtos passos para trás, mas não conseguia correr.

Com um comando mudo, o Doppelganger ordenou que os Pesadelos cercassem a garota e fora atendido com eficiência.

O próximo passo do monstro fora atacar Sophie. O movimento do espadachim foi direto no rosto da pequena, que por pouco não desviou ao jogar-se no chão. A garota sentiu o rosto arder e um líquido viscoso e quente escorrer pelo lado esquerdo da face.

Repentinamente, um sorriso também diabólico surgiu nos lábios de Sophie. A adrenalina misturava-se ao medo e ao cheiro de sangue. Voltou a empunhar sua Claymore Flamejante com uma aura de coragem. Parecia a energia de seu pai, Lorde Seyren, que a protegia.

Eu avisei que não tinha medo de você, monstrinho nojento... – Sophie sibilou perigosa, balançando sua espada na direção do rosto do Doppelganger. Por pouco também não lhe arranhou o rosto, apenas cortou um pouco seus cabelos.

Os Pesadelos tentaram deter a garota, atacando-a com os cascos, mas os movimentos foram inúteis. As patas dos monstros foram ao chão, cortadas. Agora, os lacaios do Doppelganger eram completamente inúteis.

Sophie não tinha mais medo. Seu pai a lembrara quem ela era. Uma criança que podia derrotar Creamys e Poporings no soco, sem machucar-se. Aquela que não sentiu medo ao adentrar na Torre de Geffen. A garota que agora queria mais do que nunca... Uma Armadura Metálica com slot!

Com precisão, Sophie desferia golpes no Doppelganger. No início ela mantinha um ritmo, descendo a lâmina na vertical e diagonal, o que causava alguns cortes no espadachim. Quando o rapaz percebia a repetição dos golpes da garota e começava a desviar, a criança mudava completamente o ritmo da batalha. Claro que a jovem de cabelos compridos e lilases também recebia diversos cortes, mas eram feridas superficiais, algumas nem sequer sangravam. No meio do embate, o Doppelganger usou uma de suas habilidades especiais: o Martelo de Thor. A espada do monstro brilhou e o rapaz desceu a arma na cabeça de Sophie, mas não para golpeá-la e sim para atordoá-la com o barulho da habilidade. A garota parou de atacar quando, literalmente, viu estrelas. Os ouvidos latejavam e ela se sentia tonta. Porém, para a surpresa do monstro, o efeito do Martelo de Thor durou pouco. Tão pouco que o demônio apenas causara um corte um pouco mais profundo que os outros no braço esquerdo da criança, antes da mesma recobrar a consciência.

... Tentou matar a pessoa errada... – Sophie sibilou, segurando a Claymore Flamejante com a mão direita. O braço lesado não fazia muita diferença para ela. Ainda com o sorriso diabólico, ela avançou em cima do Doppelganger. Aquela noite foi uma chacina na Torre de Geffen, pois o poderoso MvP estava morto e a sua assassina dormia despreocupadamente em cima de duas espadas: uma Claymore e uma Zweihander.

~*~

Sophie acordou em um lugar quente e agradável. Imediatamente pensou que o seu príncipe viera resgatá-la, assim como Seyren fizera com sua mãe.

Preguiçosamente abriu os olhos, ficando desapontada logo em seguida. Estava no quarto que ela e suas irmãs dividiam. Reconhecia o teto do cômodo perfeitamente. Levantou da cama e olhou em volta. As irmãs deveriam estar tomando café. Estranhou a ausência delas e estranhava ainda mais o fato de estar em casa. Será que tudo não passava de um sonho?

Saiu do quarto como fazia todas as manhãs, sem nem trocar a camisola que usava para dormir. Desceu a escada e dirigiu-se para a cozinha. Lá, todas tomavam café em silêncio, mas uma Bruxa de cabelos verdes chamativos também estava presente. Todas voltaram seu olhar para a pequena que acabara de entrar.

Sophie... Sabia que é muito feio pegar a arma dos outros sem pedir permissão? – Konan falou calmamente, enquanto bebia o seu Chá de Ervas e Mel.

Ahn... Eu não sei do que você ‘tá falando... – Sophie tentou disfarçar, sentando-se em seu devido lugar, que, por muito azar, era bem ao lado da Bruxa. Pelo menos agora conseguia reparar melhor nela.

Tinha olhos de um azul tão mórbido que podia ser confundido com cinza. A pele era de alabastro e os cabelos eram longos, lisos e bem penteados.

Sophie... O que você foi fazer de madrugada na Torre de Geffen? – Konan voltou a falar, sem perder a postura.

Não fui a lugar nenhum! Como pode ver, eu estava na minha cam...

Porque a Kayt-san lhe trouxe até aqui Sophie. – A ninja elevou o tom de voz e baixou a xícara.

Quando eu crescer, quero ser igual a Kayt-san. – Morgana, uma das primas de Sophie, suspirou.

Você poderia ter morrido, So-chan... Ainda bem que Kayt-san espantou os Esporos Venenosos. – Ann pronunciou-se, achando que a mais nova não passara do primeiro calabouço e sorrindo para Kayt, que permaneceu em silêncio.

Esporos Venenosos nada! Eu derrotei o Doppelganger! – Sophie bradou, levantando-se da mesa em um pulo.

O olhar de todas voltou a pairar sobre a mais nova. Logo, caíram na risada, menos Kayt, Ary, Ann e Konan – estas duas últimas apenas tentavam não rir. A menor não ria por acreditava no potencial daquela que vivia protegendo-a. E Kayt... Essa sabia da verdade.

O que ela falou não é mentira... – A Bruxa bebericou o chá com calma. Sophie arrepiou-se com o tom de voz aveludado da moça.

Um silêncio mórbido pairou no cômodo, até que Ann se pronunciou.

Kayt-san... É impossível para uma criança como Sophie derrotar o Doppelganger. Aliás, acho que seria impossível para todas nós juntas derrotarmos esse monstro! Quero dizer... Pelo menos no nosso estado atual claro...

Pois ela conseguiu, até tem a Zweihander do monstro para provar sua história. Eu também vi tudo... Cada golpe, cada fala...

— Bom, se Kayt-san estava lá, Sophie teve ajuda então... – Ann murmurou pensativa. Porém, a Bruxa balançou a cabeça para os lados veementemente.

Sozinha. – Kayt pontuou. E o silêncio pareceu ainda mais prolongado.

Você é um monstro Sophie! – Ashley, de olhos arregalados, foi a primeira a pronunciar-se após o longo silêncio. A Aprendiz até mesmo tremia de leve.

Literalmente eu sou um monstro! – A pequena bateu com a mão no peito, orgulhosa de si mesma.