Sophies Gaiden
4 Sonho ou realidade?
Dois anos se passaram desde aquela situação. Sophie voltava para Prontera depois de viajar por quase toda Rune-Midgard. Na cabeça, a criança carregava um par de Chifres Majestosos. Nas costas, a velha Claymore, já toda dentada e mal cuidada. Voltava para lá para finalmente tornar-se uma cavaleira.
Mas novamente encontrou a barreira da idade, não podendo prestar o teste. Já corriam rumores sobre a existência de um espadachim-monstro. Porém, todos achavam que era um homem, e não uma garotinha que nem sequer tinha entrado na puberdade ainda.
- Eu quero prestar o teste! – Sophie choramingou para o cavaleiro mestre.
- Ora minha jovem, mas você mal deve ter se graduado na academia. Volte quando ficar mais fortinha tá? Senão seu pai vai ficar bravo se ver a filhinha machucada viu? Ser Cavaleiro não deveria ser trabalho para uma mulher, ainda mais tão jovem.
— Meu pai ficaria muito orgulhoso. Ele, como o Lorde Seyren Windsor ficaria mais do que satisfeito! – A menor bateu o pé, causando risos nos cavaleiros que ouviam a discussão.
— Tudo bem então, Sophie Haineko “Windsor”... Façamos assim. Eu te deixo prestar o teste, mas se falhar, é bom pensar em como tornar-se uma Templária, pois aqui você não coloca mais os pés. – O mais velho sorriu. Era um sorriso convencido.
— Aceito o seu desafio. Vai ser mamão com açúcar. – Sophie empinou o nariz e caminhou até a sala do teste. Os espadachins e outros cavaleiros se entreolharam.
- Olhe o estado da espada dela... Não deve servir nem para cortar pão, mesmo sendo uma Claymore. É um desperdício... – Outro cavaleiro murmurou, observando a porta por onde a menina sumira.
— O senhor não vai ajudá-la? – Um dos cavaleiros perguntou para o mestre.
— Nah... Ela vai sair chorando depois de ver os Lobos do Deserto. – O mais velho riu. Porém, alguns poucos minutos depois, um ganido pôde ser ouvido. E a pequena despontou na porta.
— Fácil! E agora? Acabou? – A menor saiu da sala, com um largo sorriso. Não havia nem sequer um arranhão na pele da garota.
Houve um silêncio mortal na sala. Parecia até mesmo que os Cavaleiros não ousavam respirar na presença da garota.
A menina deu as costas, sem parar de sorrir.
— Virei aqui para treinar sempre!
~*~
— Vamos Modragor! Eu passei nesse teste umas 14 vezes! – A menina pulou em cima do banco, ao lado do espadachim.
— Ah! Mas você é você! – O outro falou, com um muxoxo. Sabia do potencial da garota. E sabia que era impossível ser tão bom quanto ela.
— Então fique aí choramingando! Suas lágrimas com certeza farão você passar no teste... – A menor ironizou. E saltou do banco novamente. – Vou procurar aquela belezinha de Armadura Metálica com slot. – Os olhos da menor brilharam. – Melhor do que ouvir o seu choro. – Com uma Asa de Borboleta, Sophie sumiu na frente do rapaz.
E, enquanto Modragor ainda pensava na morte da bezerra, Sophie conseguiu sua tão sonhada Armadura Metálicacom slot. E, claro, foi de um Doppelganger.
~*~
Alguns meses se passaram e finalmente deixaram Sophie passar no teste de Cavaleiro – isso com ajuda do Conselho, claro. Ficou pouco tempo como uma Cavaleira, partindo para Juno para virar uma transcendental. Sabia ser cedo. Mas também sabia que não iria aprender mais nada como uma simples Cavaleira. Só tivera o trabalho de conseguir o título, mas nada mudara. Os treinos, os monstros contra quem lutava, as habilidades. Tudo era igual.
Chegando na cidade dos sábios, a pequena foi direto para o Castelo dos Sábios ler o livro de Ymir. Ela demorou para entender ao certo o que lhe era pedido. Mas quando compreendeu, sentiu uma forte vertigem. O corpo moveu-se sozinho para os fundos do aposento. Lá era possível ver uma escada, que parecia descer até o subsolo. Sophie não queria descer, seria invasão de propriedade, mas suas pernas não a obedeceram. Quando terminou o lance de degraus, a menor viu-se perdida em um labirinto. Não um labirinto de paredes ou estantes, mas sim de caminhos altos e baixos. O cômodo só possuía as quatro paredes, teto e o emaranhado de caminhos que até confundiam a pequena. Novamente suas pernas tornaram a levá-la para um local desconhecido. Não sabia para onde era, mas algo lhe dizia que não era para as inúmeras portas do local, e sim para o centro do recinto, onde jazia uma estranha máquina. Depois de minutos, quem sabe até mesmo horas, Sophie chegou até o centro e observou melhor o objeto. Reconheceu aquilo como sendo o Coração de Ymir. Curiosamente tocou no vidro do objeto e outra vertigem tomou conta da garota de cabelos lilases. O corpo agora ficou leve e sua visão apagou-se por alguns segundos. Quando a mesma voltou a si, não conseguia enxergar muita coisa. Deu um passo a frente e seu corpo quase caiu por causa de um forte vento. A visão foi melhorando e Sophie sentiu um arrepio. O próximo passo seria o último.
A pequena estava sobre uma passarela suspensa de pedras toscas e marrons. Não havia paredes no local e nem mesmo teto. Ela olhou para os lados e não viu nada além de nuvens e o céu azul. Mas logo algo surgiu na sua frente. Tinha um olho vermelho sangue e o outro azul safira. Os louros cabelos eram soprados pelo vento. A armadura brilhante e bem polida parecia a veste de um Paladino, mas daquela moça era bem mais colorida e ornamentada. A voz serena pôde ser ouvida, fazendo a menor arrepiar-se.
— O que fazer aqui, monstro? Até aqui conseguistes invadir? – A Valquíria proferiu calmamente.
— Meu pai é um monstro, mas eu sou perfeitamente humana, obrigada! – Sophie não tremeu ao enfrentar aquela que poderia fazê-la transcender. É claro que seu gênio ruim e sua língua indomada eram uma combinação ruim em lugares e ocasiões como aquelas.
— Oh? Tens coragem, Sophie Haineko, mas essa sua coragem não irá durar tanto assim. Prepare-se para ser purificada! – A loira invocou sua lança Gungnir, apontando-a para o pescoço da cavaleira. Teria decapitado a criança, mas a pequena jogara-se no chão, perdendo boa parte de sua vasta cabeleira lilás.
— Na achas que é muita covardia atacar alguém desarmado? – Sophie sorriu cinicamente, fazendo a Valquíria amarrar a cara. Outro ser surgiu atrás da moça, com sua basta barba castanha cobrindo um sorriso.
— Por ser um monstro, será uma ótima lutadora contra as forças que caem sobre nós em Midgard, não acha Brynhild? Sophie Haineko, aceitarás ser meus braços na guerra que travas todos os dias contra os monstros? – O ser barbado perguntou, olhando fixamente para a menor à sua frente.
A menor baixou a cabeça e pensou. Se negasse, não transcenderia. Se aceitasse, teria uma missão que não a agradava: simplesmente eliminar monstros. Claro que isso era o seu trabalho, mas vários monstros eram inocentes, como seu pai e vários outros que conhecera.
— Não posso aceitar... Prefiro morrer aqui ou nunca transcender do que matar monstros inocentes. – Sophie encarou Tyr firmemente.
— Como ousas negar um pedido que muitos se matariam para aceitá-lo?
— Eu sou humana e não sou como todo mundo! Não vou matar um Poring só porque o senhor deseja! Nem mesmo enfrentar meu pai só porque tens medo de uma revolta em Midgard!
— Traidora! – A Valquíria exclamou apavorada.
— E você também não é inocente! Meu pai não veio para Valhalla, por que? Aposto que ele foi um guerreiro muito poderoso, já que é capaz de derrotar um clã inteiro sem ajuda!
— Aquele Lorde afundou-se em tramas por pura curiosidade! Não diga algo que não saiba! Ele foi frac...
A Valquíria não pôde terminar. Sophie avançou na loira, derrubando-a no chão, enchendo-a de tabefes.
— Não ouse chamá-lo de fraco, sua covarde! Eu posso muito bem amassar o seu crânio com os punhos!
— Já chega! – Tyr interveio, erguendo a menor pela blusa. A pequena debatia-se como um cão raivoso, tentando chutar e socar a loira ainda caída.
— Acho que ela passou, não é? – A Valquíria levantou-se, um pouco descabelada e meio atordoada ainda. Voltou a erguer a Gungnir, que brilhava fracamente.
— Passei? Passei no quê?
— Você tem o sangue humano misturado com o de um monstro e seu futuro será sinuoso e difícil. Mas não deverás fraquejar! Lorde Seyren foi muito fiel à mim, mas caiu em desgraça depois do acontecido onde ele mesmo se envolveu. Não sigas o mesmo caminho que ele! Acredito que serás forte e ainda mais poderosa e conhecida que Thanatos! Seu caminho é longo... E ele reiniciará agora! Brynhild transcenda-a!
Um forte clarão cegou a criança e logo a total escuridão.
~*~
Acordou no chão duro e com uma dor de cabeça terrível. Estava encostada no muro que circundava a cidade da magia de Geffen. Talvez sua vontade de transcender lhe subira à cabeça e provavelmente sonhara com aquilo. Suspirou pesadamente e esticou a mão para o lado, buscando sua fiel Katzbalger e os Chifres Majestosos. No entanto, não encontrou o que queria. Desesperada, procurou os equipamentos em volta, não os encontrando. Ergueu-se rapidamente, sentindo-se extremamente leve. Olhou-se e quase voltou a sentar. Estava novamente trajando a roupa de aprendiz, porém esta possuía um tom levemente azulado. Não era um sonho. Era finalmente uma Aprendiz T.
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