Sophie: Filha De Traidores
26 Treino
Notas iniciais
A cara que Hermione fez foi hilária. Ao mesmo tempo em que fiquei preocupada com o que poderia acontecer, também mal pude segurar o riso.
Seu rosto era uma mistura de horror, choque, nojo e compaixão, o que, impressionantemente, acabou por sendo uma das expressões mais engraçadas que já havia visto e também uma das mais tristes para mim. Ela fazia lembrar-me de um cachorro perdido. Meu cachorro perdido. Meu pai.
Ela estava lembrando-me absurdamente dele, no dia em que ele foi embora para eu nunca mais vê-lo.
Seus olhos estavam arregalados e sua boca aberta em um pequeno “o”, assim como ela estava agora. Ofegante, testa vincada. A única diferença é que em minha última lembrança de Sirius Black, ele estava com olhos marejados.
Afastei a lembrança, isso não poderia me fazer bem algum agora.
Observei Draco para me distrair.
Ele, em compensação, era o oposto de Hermione. Estava calmo e sorria tranquilamente, parecia confiante embora eu percebesse uma leve hesitação no seu andar. Ele não sabia como seria recebido pela “sangue-ruim Granger” e ele não iria querer causar mal algum a ela. Não na minha frente. Principalmente na minha frente.
Ele sabia o que aconteceria e, certamente, não seria nada de bom para ele.
– Olá, Granger – seu tom de voz era educado, mas levemente irônico.
Havia certa mágica ao vê-lo tentar atuar. Tentar ser uma coisa que ele nunca fora. Tentar por mim. Eu estava absurdamente grata por ele se esforçar, as coisas já estavam difíceis sem meus amigos brigando com namorado.
Draco olhou para mim e lutei para dar um olhar desdenhoso ao invés de um perdidamente apaixonado. Funcionou. Seus olhos se iluminaram e sua boca se abriu num sorriso discreto, porém, sua testa vincou-se, como que para me dizer: “Quieta, só porque você me conhece tanto, não tem o direito de acabar com a brincadeira”.
Tinha quase certeza que era isso que ele queria me transmitir por pensamento. E eu, com certeza, não estragaria esse momento, provavelmente seria o único em que teria oportunidade de ver Hermione tão absurdamente surpresa.
– Olá, Malfoy – suas palavras saíram educadas, mas ainda meio esganiçadas. Disfarcei um riso com um pequeno acesso de tosse.
Decidi que já era hora de começarmos com a tortura, antes que eu prolongasse o momento para que nunca, jamais, pensasse na tarefa que me aguardava.
– Bom, por onde começamos? – Eu estava nervosa com a perspectiva de saber menos sobre feitiços que eles. Beauxbatons tinha uma educação boa, mas a aprendizagem sobre magia ofensiva era limitada. Todos aqui eram considerados delicados demais para atacar alguém, exceto em caso de extrema necessidade.
– Que tal por um feitiço simples? – Sugeriu Hermione. Ela ainda estava levemente nervosa, mas dava para perceber que estava ganhando foco e, com ele, confiança. – Todos precisamos começar por algum lugar e um feitiço muito útil é o Feitiço do Desarmamento. Sabe, o Expelliarmus.
Eu sabia. Draco aparentemente também.
– Ah, fala sério. Esse feitiço é dos N.O.M.s, não existe coisa mais fácil.
– Dar um soco na sua cara é bem mais fácil, quer que eu demonstre para você novamente, já que você certamente esqueceu-se da sensação? Eu não me incomodaria nem um pouco, aliás, ficaria grata por me proporcionar mais um momento desses.
Draco ficou branco como neve. Uau, acho que em um passado não muito distante o rosto dele deve ter se encontrado com o punho de Hermione, não tão amigavelmente assim. Eu pagaria para ver essa cena. Mas preferia que ela não acontecesse agora.
– Tudo bem – intervi antes que fosse tarde demais, – eu topo. – Ergui minha varinha na direção de Draco e pronunciei a palavra mentalmente. Expelliarmus. Eu não daria vantagens a ele.
Sua varinha veio voando em minha direção. Quando ele virou-se para ver o que tinha acontecido e viu minha varinha levantada em direção a ele, sua expressão mudou. Uh-oh, Draco queria vingança. Draco teria que comê-la bem fria.
Ele era rápido, isso eu tinha que admitir. Pulou para pegar sua varinha enquanto ela ainda dirigia-se para minha mão estendida, mas...
– Petrificus Totalus – disse eu, calmamente.
Que bela estátua eu possuía no meu quarto e nunca havia percebido.
Hermione começou a rir descontroladamente. Eu também.
A posição de Draco era ridícula. Quando o atingi com o feitiço ele ainda não havia saído totalmente do chão, estava na ponta de um dos pés, com o outro para cima, como se dançasse. Os braços estendidos para pegar uma varinha que àquela altura já estava na minha mão. Apenas seus olhos se mexiam. E eles diziam que eu iria pagar por aquilo mais tarde. Quem sabe?
Seu olhar fez-me rir ainda mais, mas mesmo assim retirei o feitiço dele. Por um momento, ele estava sem equilíbrio, mas logo recuperou-se e alisou seu cabelo loiro enquanto Hermione e eu estávamos às gargalhadas.
– Há-há, muito engraçadas vocês duas – ele agora estava com as mãos na cintura, claramente irritado. Ele não aguentava uma brincadeira. Pior para ele que eu fosse parecida demais com meu pai.
– Pelo menos... descobrimos... o jeito como Soph... pode se livrar... de um bicho-papão... – Hermione ofegava e ainda estava tendo ataques de risos ocasionais ao finalmente conseguir falar uma frase quase completa.
Eu também ainda ria.
– Exato... posso pensar... em Draco Bailarina Não-Tão-Feliz... – era difícil respirar e eu segurava minha barriga por causa da dor que sentia ali por tanto rir.
Draco nos olhava com olhos solenes. Parecia o enterro de alguém. Provavelmente era o enterro de sua dignidade masculina, mas naquele momento eu estava ocupada demais tentando parar um acesso de risos para me importar realmente.
Hermione recuperou-se um pouco mais rápido:
– Podemos treinar mais se você quiser, mas pelo modo como você derrotou Draco em cinco segundos, duvido que eu tenha algo a ensinar a você. – Ela estava sorridente, mais do que jamais a havia visto. Ela ficava ainda mais bonita assim.
– Ah, tenho certeza de que vou precisar de mais ajuda, mas amanhã. Hoje estou sem condições psicológicas para tanto.
Nos olhamos e começamos a rir novamente. Dessa vez o acesso teve uma duração menor, então Hermione logo veio despedir-se de mim com um beijo na testa, deu um breve aceno de cabeça para Draco e saiu porta afora. Ela lembrou-me de minha mãe fazendo isso numa certa ocasião. Ela nunca havia sido muito fã de meu primo, seu sobrinho, também.
Enquanto Draco ainda olhava para mim com cara feia, fui ao espelho mais próximo. Merlin. Como rir podia acabar com o cabelo e com o rosto de alguém desse jeito? Comecei a arrumar o estrago quando Draco apareceu ao lado de meu reflexo.
Ao ver meu estado até ele deu uma breve risadinha e disse:
– Quase vale a pena fazer papel de ridículo para ver você rindo assim.
Eu sabia que ele tinha só pose de mau. Sempre soube, como sempre saberia tudo sobre ele, mesmo quando ele quisesse esconder algo de mim.
Era o que ele estava fazendo.
Percebi no instante em que encontrei seu olhar, naquele momento antes do beijo.
Aquele momento que pode ser tanto um pequeno milagre, como uma grande maldição.
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