Sophie: Filha De Traidores
23 Realeza
Notas iniciais
Eu sentia, mais do que via, todos os olhos convergindo para nós enquanto cruzávamos o Salão. Eu estava concentrada, olhando somente em frente, cabeça erguida e postura impecável, tentando evitar encontrar olhares ou me distrair com qualquer outra coisa e acabar caindo.
Por “qualquer outra coisa” entenda Draco Malfoy.
Desde a ala hospitalar eu somente o via de longe, isso quando o via. Ele parecia misteriosamente ausente das atividades na Academia.
Mas eu estava deixando-me vagar com minha mente, propiciando a mim mesma uma chance muito maior de dar vexame. Concentrei-me novamente em olhar para a frente.
Mesmo assim, toda a concentração do mundo não teria conseguido impedir que eu reparasse na reação das pessoas à minha volta.
Eram reações muito evidentes para que até um cego não conseguisse notar.
E parecia que a maior parte delas dirigia-se a mim, pois era quando eu passava, com Miguel ao meu lado, que os cochichos, olhares e suspiros cresciam em volume e tornavam-se notáveis. “Princesa gótica vai ao baile” estava fazendo sucesso.
Senti, como se emanando dos corpos à minha volta, inveja e cobiça. Eu estava oprimida, lutava contra meus instintos que me diziam para encolher e fugir para as montanhas, o que não seria difícil já que Beauxbatons Pallace era rodeado por elas.
Eu estava pesando os prós e os contras de sair correndo quando chegamos à pista de dança vazia.
Respirei fundo enquanto os outros casais posicionavam-se para começar a dançar. Segui o exemplo e, assim, encontrei o olhar de meu par. Ele sorriu para mim de um modo contagiante. Não havia como não retribuir.
Então a música começou e, de repente, estávamos nos movendo junto com seu ritmo, tão facilmente como respirávamos. A primeira música seria somente dos campeões. Reconheci uma canção trouxa. Yesterday, dos The Beatles.
*
Yesterday
All my problems seem so far away
Now it looks as though they’re here to stay
Oh, I believe
In yesterday…
*
Deslizávamos pelo Salão, como se estivéssemos levitando. Por um momento decidi personificar a princesa de meu vestido, esqueci meus problemas e fingi ser ela. Uma linda donzela em sua corte, em sua festa. Em sua casa.
Fingir era melhor que a alternativa.
*
...Yesterday
Love was such an easy game to play
Now I need a place to hide away
Oh, I believe
In yesterday
*
Então a música parou. Nós paramos também, ao mesmo tempo que a pista era invadida por outros casais. Por um momento, vislumbrei cabelos loiro-claros, mas desviei o olhar. Eu realmente não precisava, não queria, estragar minha noite, minha fantasia, meu primeiro baile.
– Vou pegar uma bebida e já volto, tudo bem? – Miguel havia me puxado até a beira da pista de dança e agora falava em meu ouvido, quase gritando para sobrepor todos os sons e a nova música mais agitada que tocava.
– Tudo bem! – Gritei de volta, acenando positivamente com a cabeça.
Fiquei lá, parada, tentando não procurar ninguém no meio da multidão enquanto Miguel se afastava.
Eu estava analisando os babados de meu vestido quando senti uma mão em minha cintura. Meu coração disparou.
– Posso ter o prazer desta dança? – Essa era a voz errada. Não era a voz dele. Virei-me somente para ver que eu estava certa. Era Dino Thomas.
Imediatamente fiquei mal humorada. Decidi ser somente educada e não dar um chute entre o meio de suas pernas, como era minha vontade.
– Sinto muito, mas não posso. Estou esperando Miguel voltar com as bebidas. Prometi o esperar aqui – era melhor mentir, pelo menos quanto à promessa, do que ter que aguentar qualquer tipo de estratégia insistente da parte dele.
Ele pareceu decepcionado.
– Ah, tudo bem, eu entendo – seu rosto passou a se abrir em um sorriso malicioso. Isso não podia ser bom sinal. – Mas se quiser, estou às ordens. Para qualquer coisa – piscou para mim e foi em direção ao centro do Salão.
Meu bom Deus, pobre coitada da garota que ele havia levado ao baile.
Alguns minutos passaram-se e eu estava pensando seriamente em mudar de lugar, para não dar a impressão de que eu era uma pobre moça abandonada por seu par, digna de piedade e consolo, quando Miguel reapareceu, segurando dois copos cheios de Uísque de Fogo, pelo que me pareceu.
Ao mesmo tempo, sem querer, avistei Draco, com uma loira escultural. Certamente Gabrielle Delacour. Eu vi vermelho.
– Desculpe a demora, isso aqui está uma loucura... – mas mal ouvi suas desculpas.
Somente agarrei os dois copos, puxando-os de suas mãos e virei o conteúdo de uma e logo depois da outra direto em minha boca. Coloquei os copos vazios em cima de uma mesa próxima, ao mesmo tempo que tentava me reequilibrar depois da tontura repentina, então puxei Miguel para o meio dos corpos que dançavam.
– Vamos dançar!
E realmente dancei. Dancei como nunca, com Miguel me acompanhando de um jeito inacreditável. Parecia que ele previa cada movimento meu e sabia o que fazer para seguir-me.
Quando ele me beijou não foi surpresa. O beijo era bom, experiente e tinha certa urgência. Mas os lábios eram errados. Não eram os lábios dele.
Senti ódio de mim mesma por me permitir pensar nisso. Certamente Draquinho estava divertindo-se muito mais com a Srta. Gabrielle “Perfeita” Delacour.
O ódio borbulhava dentro de mim como um poço de lava fervente, mas, antes que transbordasse diretamente para meus olhos, a música foi interrompida, Kingsley Shacklebolt subiu ao pequeno palco que estava ali perto e tratou de matar a curiosidade que emanava de todos os jovens.
– Chegou a hora de anunciar o Rei e a Rainha do baile – silêncio chocado seguido de gritinhos excitados. Típico. – Eu sei que ninguém havia comentado nada disso antes, mas achamos que essa pequena surpresa seria boa para vocês – ele riu levemente. Era estranho, eu nunca o ouvira rir e o riso, com sua voz amplificada por feitiço como estava, tornava-se levemente macabra, mas várias pessoas o acompanharam, rindo também. – Bom, vamos ao resultado?
Ele puxou sua varinha, fez um floreio e, de sua ponta, saiu um envelope lacrado. A expectativa era tangível à minha volta, mas eu absolutamente não compartilhava dela.
– Os métodos usados para a escolha da “realeza” do baile são muito mais confiáveis e precisos que o voto e – o ministro estava prolongando o momento, aumentando a ansiedade em todos, menos em mim, claro, que não poderia estar menos interessada no título – os vencedores terão que dançar uma música inteira sozinhos, sendo assistidos por todos – dava para ver que ele estava satisfeito por botar terror nos estudantes tão ansiosos. Quase tive vontade de rir. – E o Rei e a Rainha do baile são...
Um momento de silêncio. Nem um suspiro era audível.
– Draco Malfoy e Sophie Malfoy Black!
Palmas e mais palmas eclodiram à minha volta.
Mas eu estava em choque demais para apreender qualquer outra coisa a não ser um fato.
Eu dançaria com Draco no baile, afinal.
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