Sophie: Filha De Traidores
28 Pressão
Notas iniciais
Andei a passos firmes pelo Salão. Todos viravam suas cabeças para me olhar, mas quase nem reparei nos cochichos. Estava extremamente cansada disso tudo. Dos olhares, dos rumores que eram espalhados como se todos fossem os portadores de todas as verdades.
Minha vontade era de gritar a todos para que parassem, para que simplesmente esquecessem minha existência, assim como eu agora ignorava a existência da maior parte dos presentes ali. Mas obviamente eu não podia fazer isso. Só seria mais um motivo para as fofocas aquecerem-se como palha no fogo.
Portanto, apenas andei por entre as mesas olhando sempre em frente, até chegar a meu lugar, onde sentei e rapidamente comecei a tomar meu café da manhã. Não tinha muito tempo e não podia adiar o evento que logo começaria.
Draco somente me acompanhara até a porta do Grande Salão e depois sob um pretexto que não pude distinguir em sua fraca voz, sumiu por entre as portas abertas que levavam ao jardim, somente me dera um beijo na testa e desejara boa sorte em meia voz, como se algo o torturasse. Certamente algo me torturava.
Meus próprios pensamentos se movendo a mil eram meus carrascos.
— Hey.
Olho para o lado, para a dona da voz trêmula que havia se aproximado. Lola.
— Olá – limpei a garganta para tentar me livrar da rouquidão. Não acreditava que funcionaria.
— Então, como está? – seu tom era hesitante, como se tivesse medo da resposta. Se eu estivesse no lugar dela também estaria, por isso tentei eliminar a tensão.
— Maravilhosa, acho até que poderia comer um pouco se o bolo no meu estômago já não fosse tão grande e preenchesse todo o espaço – ri fracamente enquanto recebia um sorriso torto em resposta.
— Soph, você é uma das pessoas mais corajosas que conheci, sei que o nervosismo toma conta, eu também estou uma pilha de nervos, mas você precisa saber: eu acredito em você, sei bem do que você é capaz e espero que você volte para mim ao final da tarefa. Assim poderemos comemorar a noite toda e fazer o que sempre fazemos quando superamos um obstáculo: rir dele.
Suas palavras me emocionaram e fizeram-me lembrar do bilhete de minha mãe. Não pude deixar de sorrir com os olhos marejados.
— Obrigada.
Era tudo o que eu podia oferecer naquele momento. Dei um abraço apertado em minha eterna companheira e assim que a soltei avistei Hermione andando em nossa direção, sorrindo, mas também nervosa.
— Vim desejar boa sorte! – anunciou ela. – Espero que tudo corra bem, Soph, ainda mais com seu nervosismo. Convivi praticamente um ano letivo inteiro com um campeão Tribruxo, sei bem como deve estar se sentindo – o sorriso dela foi tenso, mas mesmo assim conseguiu fazer com que me sentisse melhor.
Sorri de volta, pensando na sorte que eu tinha por ter aquelas duas me dando apoio.
***
Minhas pernas pesavam tanto que tive que olhar para meus pés a fim de conferir se não havia chumbo em meus sapatos. Meu estômago parecia de pedra e minha cabeça era uma rocha. Estava carregando nas costas o peso de uma montanha inteira, minha respiração era irregular pelo esforço de me manter em pé.
Olhei ao redor, para o público inquieto à beira do lago e da floresta que a circundava. Olhei para o pico que assomava um pouco além das primeiras árvores. Bugarach. Os trouxas achavam que o lugar era mágico, acreditavam nisso com fervor, e tinham razão. Embora não do jeito que imaginavam.
Eles creem que a montanha é sagrada, visitam-na como se visitassem um de seus templos, mas ao invés de irem em busca de Deus, saem à procura de extraterrestres e coisas do gênero, até o Santo Graal acreditam que esteja lá, mal sabem eles que a única mágica que provém do lugar são as barreiras de proteção mantidas ali para evitar justamente que trouxas exotéricos e também curiosos quaisquer se aproximassem demais do Palácio de Beauxbatons. Quase sinto pena de sua ingenuidade.
Tirei meus olhos da montanha e varri a multidão com o olhar novamente. Nada de Draco, ele havia sumido e por isso minha coragem se esvaía. O que estava acontecendo? Minha visão atingiu Hermione e Lola, lado a lado, e elas sorriram e acenaram para mim, claramente um gesto de encorajamento. Meu estômago deu uma cambalhota e voltou ao lugar com um solavanco.
Voltei meu olhar para frente, fixei meu olhar ao longe.
Os diretores das escolas e o Ministro da Magia se aproximavam e chamavam todos os campeões para que também chegassem mais perto. Obriguei-me a andar.
— Bom, quero que prestem muita atenção no pronunciamento – a voz de Shacklebolt parecia mais profunda que nunca, — é de crucial importância que vocês se lembrem exatamente das instruções, entendido?
Todos acenamos com a cabeça em concordância. Parecia que eu nunca mais conseguiria parar de tremer.
— Ótimo – virou-se para a multidão que a tudo assistia, cada vez mais inquieta, de seus confortáveis bancos nas arquibancadas montadas especialmente para o evento. Quase sentia inveja. Mas eu havia escolhido aquilo e não me arrependia. Não me arrependeria. E continuaria viva para isso. – O Ministro apontou a varinha para a própria garganta como havia feito no dia da chegada dos estudantes e exclamou: – Sonorus!
A plateia se aquietou lentamente. A expectativa era extrema.
— Acho que todos sabemos porque estamos aqui, é um dia importante – a voz de Shacklebolt ressoou pelo espaço aberto, mais do que normalmente fazia, parecendo ser levada pelo vento por todos os Pirineus. – É um dia que marcará mais de uma vida, esperamos que para o bem.
Ouvia-se até o som dos pássaros batendo as asas no alto quando as falas eram interrompidas.
— Agora, darei as instruções e as informações sobre como a primeira tarefa do Torneio Tribruxo funcionará, peço silêncio absoluto a todos – mais uma pausa, mas os pássaros não se calavam. Fora isso não havia sequer um som, além de meus batimentos cardíacos desenfreados. Sequei minhas mãos na calça que vestia. – Os campeões entrarão na floresta... – pausa – sem as suas varinhas, que já foram tomadas deles sem que o percebessem.
Os murmúrios começaram, eram como o zumbido que agora atingia meus ouvidos de dentro para fora de minha cabeça. Eu latejava inteira enquanto apalpava minhas finas vestes em busca da varinha, mas claro que ela não estava lá. Todo meu treinamento tinha sido em vão. Lancei um olhar para Hermione, ela parecia aterrorizada. Desviei o olhar. Não queria ter de pensar nas criaturas que teria que enfrentar dentro da floresta sem uma varinha para me defender.
O Ministro ergueu a mão e o murmúrio cessou tão rapidamente quanto havia começado.
— Sim, é exatamente isso que acontecerá. Os campeões deverão entrar na floresta sem suas varinhas e enfrentar os perigos que os aguardam somente com seu raciocínio e inteligência. Qualidades também necessárias em todos, bruxos e trouxas. Haverá vigias entre as árvores que nos ajudarão quando algum dos campeões estiver incapacitado de continuar e, se algum dos campeões quiser desistir, haverá em posse de cada um, um dos Fogos Espontâneos Weasley que, quando acionados apenas pressionando um botão lateral, nos informará de sua localização para resgate. Seu objetivo, campeões – falou olhando diretamente para nós enquanto os diretores de nossas respectivas escolas nos entregavam os fogos, – é chegar até onde estão suas varinhas, a partir do momento que vocês entrarem na floresta saberão que caminho tomar, e quando estiverem em posse delas, lancem faíscas verdes entre as árvores. Uma equipe estará no local para nos informar qual a ordem de chegada de todos. Podem começar.
Um eco surgiu ao fim das palavras, os gritos recomeçaram e todos viramos de frente para a orla da floresta. Olhamos por entre as árvores, imaginando o que nos aconteceria lá dentro, pelo menos era nisso que eu pensava. Então houve um barulho contínuo de algo subindo aos céus, um estouro, uma luz.
Era hora de começar realmente.
Trocamos olhares rápidos, nos desejamos boa sorte, Santaro beijou minha testa e então corremos para o meio das árvores.
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