Sophie: Filha De Traidores
9 Encontro
Notas iniciais
Burra. Burra. Burra. Burra. Se me pegassem fora da cama a essa hora eu estaria muito encrencada.
Eu descia rápida e silenciosamente cada lance de escada que aparecia em meu caminho para a porta secreta que dava acesso aos jardins.
Não havia muita gente que conhecesse as passagens secretas do Beauxbatons Palace. Mas eu era uma Black, no fim das contas. Estava meio que no sangue meter-me em coisas que não deveria.
Passos. Droga. Minha respiração acelerou drasticamente e meu coração palpitou mais rapidamente em meu peito, mas não me permiti entrar no pânico paralisante que certamente seria meu fim. Escondi-me atrás de uma das várias esculturas de ninfas que preenchiam cada nicho nos corredores da escola.
Os passos se aproximaram. Era a professora Nice, fazendo sua ronda noturna.
Ela foi afastando-se, o som de seus passos ia morrendo aos poucos, ao longe. Quando não pude mais ouvir um ruído de movimento sequer, retomei meu caminho.
Cheguei a um nicho específico na parte sul do palácio, perto da porta de uma das salas de aula do térreo que eram pouco utilizadas. Puxei minha varinha, encostei a ponta no pergaminho que fazia parte da escultura presente no nicho, uma das poucas que retratava uma bela bruxa, com semblante altivo e sábio, e murmurei:
– Ouvert!
Com um ruído surdo, quase inaudível, a estátua moveu-se para frente, juntamente com a parede atrás dela, fazendo com que um buraco, suficientemente grande para uma pessoa magra passar, surgisse.
Esgueirei-me por ele, encontrando o corredor familiar que conduzia para fora. Costumava passar por ali quando me sentia extremamente claustrofóbica devido às paredes sufocantes da Academia. Caminhei por uns cinco minutos até chegar na outra extremidade do corredor estreito onde havia uma porta que, por dentro, parecia normal, mas por fora, eu sabia, pareceria como uma parte qualquer da parede. Uma passagem camuflada perfeita.
Saí por ela e respirei fundo o ar fresco e puro que havia nos jardins. O luar era intenso. Uma lua crescente, muito brilhante e um pouco maior que o normal, estava alta no céu e muitas estrelas, incontáveis estrelas, lhe faziam companhia.
Varria a propriedade com o olhar, tentando encontrá-lo o mais rápido possível.
Lá. Perto de uma das muitas fontes de pedra que preenchiam o jardim. Seu cabelo parecia prata líquida ao luar e seus olhos focalizavam algo distante, indiscernível de onde eu estava.
Fui me aproximando vagarosamente. Ele não estava muito longe, por isso logo ouviu meus passos contra a grama coberta por orvalho e virou-se para mim.
Seus olhos eram inescrutáveis, mais para cinza-tempestuosos que nunca.
Fui logo ao assunto, assim que cheguei a cerca de um metro de distância.
– O que você quer, Malfoy? – tentei transparecer indiferença, mas eu estava magoada e, pior ainda, meu orgulho estava ferido. Eu havia sido rejeitada, afinal.
– Nossa, Black, para que tanta agressividade? – perguntou, tentando fazer graça.
Ele sorriu. Eu estreitei meus olhos.
– Se é para ficar fazendo piadinhas, eu vou voltar para a cama, antes que eu seja pega e expulsa – virei-me, prestes a começar a caminhar de volta ao palácio.
Ele puxou-me pelo braço, virando-me para ele e, pelos olhos assustados, percebi que ele viu as lágrimas nos meus. Não falou nada, somente ficou encarando-me.
– O que você quer? – tentei inferir às palavras todo o ódio e mágoa que eu estava sentindo naquele momento.
Na verdade, desde aquele momento no dia anterior.
– Merlim, o que deu em você hoje? – ele realmente parecia confuso. Idiota.
– Bom, se você não sabe, não sou eu quem vai te explicar – dei um sorriso duro.
– Ah – ele finalmente tinha entendido, mas continuou sem falar mais nada.
A verdade, eu tinha que admitir, é que eu era a mais idiota dessa história. Concordei em me encontrar com ele. Saí da segurança e conforto de minha cama, arrisquei meu pescoço, e ainda estava arriscando, por ele.
Respirei fundo e tentei de novo.
– O. Quê. Você. Quer? – falei cada palavra lentamente, imprimindo nelas, mais uma vez, o ódio que sentia. Mesmo que boa parte do ódio se voltasse para mim mesma.
Ele somente me olhava. Não falou nada, não respondeu, encarava-me apenas. Tudo bem. Chega.
Virei-me novamente, decidida a voltar para a cama e passar a ignorar meu antes-querido-primo-Malfoy. Estava determinada a fazer isso.
– Você.
Paralisei. Não olhei para trás, não queria ser enganada novamente por aqueles olhos, aquele rosto. Mas meu coração já havia sido enganado, era por isso que eu estava parada, estática, ali. Ele acelerou novamente, minhas mãos começaram a suar frio. Mas era uma sensação muito diferente do medo que sentira antes, ao quase ser pega fora da cama.
Meus olhos arregalaram-se e minha boca se entreabriu. Então senti ele pegando em minha mão e me girando lentamente para que meu rosto ficasse de frente a ele.
– É você que eu quero, Black – ele deu um sorriso triste. – Eu amo você. Sempre amei. Espero que isso seja suficiente para superar todas as barreiras impostas a nós, embora que tenha certeza de que não é.
Seus olhos estavam atormentados enquanto puxava-me para seus braços, aos poucos. Eu sentia que ele estava me dando uma escolha. Eu poderia escolher sair dali, deixá-lo sozinho. Abandoná-lo.
Mas como eu poderia? Eu o amava também. O bastante para ficar, para tentar confortá-lo da melhor maneira possível. Ficando. Embora o certo fosse eu partir.
Fechei meus olhos quando seu rosto estava próximo o suficiente para sentir sua respiração em meu rosto. Após um breve momento de hesitação, ele me beijou.
Desesperadamente. Perfeitamente. Apaixonadamente. E, por um instante, tudo estava mais do que bem.
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