Sophia
1 Capítulo 1
1-Sophia.
Meu despertador tocou e me tirou do mundo do sono, me trazendo para a realidade, avisando que se eu não levantasse dentro de um minuto, me atrasaria para a escola. Abri meus olhos e olhei em volta, meu quarto estava exatamente do mesmo jeito que eu o tinha deixado antes de capotar na cama. Meu violão preto pendurado na parede, tinha roupas espalhadas pelo chão, minha mochila jogada em um canto, isolada, o espelho grande de três lados do lado do meu pequeno guarda-roupa. Levantei tropeçando e batendo nas coisas, abri meu armário e tirei meu "uniforme", uma calça jeans clara e uma camiseta com o desenho do Bart dos Simpsons. Peguei minha mochila sem me dar o trabalho de conferir se todos os livros estavam lá.
Eu moro com meus pais, em uma casa meio grande, ela não era enorme, mas tinha espaço suficiente para nós três. Meu pai se chama Carlos, ele da aula no centro da cidade, minha mãe, Ana, era gerente em uma empresa importante, os dois são pais maravilhosos e sempre muito presentes, nunca deixaram faltar nada aqui em casa. Desci a escada pulando de dois em dois degraus, olhei para a mesa da cozinha, e vi minha mãe andando de um lado pro outro arrumando o café da manhã, meu pai já deve ter ido trabalhar. O cheiro do café fresco me atingiu e eu fechei meus olhos desejando tomar uma garrafa inteira dele , eu era viciada em café, eu tomava igual as pessoas bebem água ou coca-cola, ao invés de levar uma garrafinha de água como todo mundo na escola, eu levava uma garrafa de café.
—Bom dia Dona Ana.
—Bom dia Dona Sophi!
Meu nome é Sophia, mas todo mundo me chama de Sophi, meu pai me deu esse nome por causa da matéria que ele ensina, Filosofia, e parece que Sophia é um nome muito importante nesse meio, significa sabedoria.
—Seu café.
—Obrigada.
—Sabe o que eu achei hoje de manhã?
—Não faço idéia.
—Eu estava procurando uns documentos no meu armário e encontrei um álbum de fotos antigo e tem várias fotos de você pequena, sabe uns seis ou sete anos.
—E isso é antigo? Mãe eu só tenho quinze anos! Não sou tão velha assim! — dei risada enquanto colocava uma colherada de cereal na boca — mas foi isso que você achou?
—Eu achei uma foto em especial e eu pensei que você ia querer vê-la.
—Por que está me mostrando isso?Ela deslizou a foto pela mesa e deu ela pra mim, eu a virei e demorei um pouco para perceber do que se tratava. Uma menina com cabelos castanhos encaracolados e com um dente faltando na frente estava sorrindo para a câmera, eu reconheci o vestido rosa da Bela Adormecida que eu usava quase sempre, do meu lado tinha um garoto, provavelmente tínhamos a mesma idade, sete anos, a época em que nos conhecemos, ele tinha cabelos loiros e olhos de um castanho super claro, seus sorriso era encantador, sua pele era bronzeada, como se ele tivesse ficado o dia inteiro na praia. Eu o reconheceria em qualquer lugar, Fernando, que naquela época era o meu melhor amigo, depois passou a ser meu namorado e agora é o meu ex.
—Ele ligou aqui em casa ontem, e disse que sentia sua falta e pediu para você perdoá-lo...
—Eu já perdoei, eu só não quero mais nada com ele, porque eu não confio mais.
—Pelo menos tente ser amiga dele, vocês eram tão próximos nessa época. Ele realmente pareceu sincero. Por que não passa na casa dele antes de ir para a escola? São só algumas casas de distância.
—Já é ruim o suficiente morarmos na mesma rua, eu sou obrigada a olhar para cara dele todos os dias, até quando ele falta na escola. Eu não confio mais nele. Você sabe muito bem o que aconteceu mãe.
—Ele pisou muito feio na bola, mas já passou, não estou falando para vocês voltarem a ser um casal, nem quero isso, mas não ignore ele, desde aquele dia o telefone não para e é a voz dele que está do outro lado da linha na maioria das vezes.
—Ele me traiu mãe! Ele ficou com outra menina! E ele sabia que eu poderia perdoar tudo menos uma traição, ele me perdeu quando embarcou naquela aventura. E nunca mais vai conseguir me recuperar. Queima essa foto. Não quero mais saber.
—Tudo bem, mas e se ele ligar de novo?
—Vamos fazer o que sempre fizemos, ignorar e falar que eu não posso atender agora.
—Está bem. Agora vai para a escola, se não vai se atrasar. Cuidado.
—Eu te amo.
—Eu também te amo.
Assim que pisei na calçada coloquei meus fones de ouvido e apertei o play no meu celular, cantei baixinho ao som de Miley Cyrus.
—" You're my fink i'm crazier.....Maybe You're right.
Quando me dou conta já cheguei na escola. Era um prédio verde e branco, com muros que tinham desenhos de pessoas lendo e crianças brincando e tinha frases como " Ler é uma brincadeira" e " Educação em primeiro lugar!".Minha escola não era muito longe de casa, então eu poderia ir andando tranquilamente e ficar perdida em meus pensamentos. Quando passei em frente a casa do Fernando não pude controlar minhas lembranças, se eu fechasse os olhos conseguiria sentir o cheiro do perfume que eu dei pra ele, conseguia sentir seus braços fortes me confortando e me protegendo, o som de sua risada, tão bom. Acho que é melhor eu lembrar dele assim, lembrar da nossa história assim, deixar de fora os pontos ruins, não posso negar que ele era muito atencioso comigo. Quando eu não conseguia dormir e passava madrugadas acordada por conta de meus pesadelos ele aparecia em minha janela, subia na escada que ficava nos fundos e se deitava comigo, ele sempre me respeitou, nunca fizemos nada de mais, apenas ficávamos deitados, nos abraçando e ele prometia pra mim que não deixaria nada e nem ninguém me machucar, e ironicamente, foi ele a pessoa que mais me machucou.
—Sophi!
Olhei em volta tentando ver quem tinha me chamado. Ângela veio em minha direção com os braços abertos. Seus óculos com hastes roxas estavam tortos, seu cabelo encaracolado estava preso em coque bonito e alto.
—Oi! Faz tempo que você chegou?
—Não, Caio e eu chegamos juntos.
—Hummmm....
—Para com isso! Somos apenas amigos!
—Eu sei! Só estou brincando com você... Cadê ele?
—Onde você acha? Na cantina comprando o "lanchinho da manhã".
Entramos na escola e fomos direto para a cantina, encontrar o comilão do Caio.
—Oi Sophi!
—Oi Vitor.
Eu não era "popular" na escola, mas eu falava com todos e todos falavam comigo, mas não sou boba e sei que eles não são meus amigos de verdade, apenas na Ângela e no Caio eu confio aqui.
—Olha ele lá! — apontei para um garoto magrelo com luzes loiras e óculos com as hastes pretas, Caio meu melhor amigo, estava cheio de pacotes de bolachas na mão e sucos. Corri até ele e dei um abraço, quando nos soltamos eu falei — Veio fazer a compra do mês?
—Hahaha muito engraçado Sophi. Eu estou em fase de crescimento, preciso comer e repor energias.
—Você fala isso desde a quarta série.
—Não enche Ângela.
—Com licença.
Pedro, um garoto que tinha se mudado para nossa escola no inicio do ano, pediu um suco de laranja para a tia da cantina. Ele era lindo. Eu não pude desviar meu olhar dele, seus olhos azuis profundos me hipnotizavam, ele era pálido, mas muito atraente, sua camiseta branca não escondia seu corpo atlético, tive que resistir a vontade que eu tinha de passar minha mão em seus cabelos pretos.
—Oi Sophi.
—Oi Pedro.
Eu o abracei e ele me deu um beijo na bochecha. Eu o conhecia desde criança, ele ia brincar todos os dias em um parquinho que era perto da minha casa. Não éramos exatamente amigos muito próximos, mas eu era uma das poucas pessoas que falava com ele.
—Eu achei aquela música que ouvimos outro dia no rádio, se você quiser depois eu te passo.
—Claro! Ela era tão linda! A melodia não saiu da minha cabeça. Você se lembra da letra.
Ao invés de falar sim ou não ele começou a cantar baixinho, o suficiente apenas para eu ouvir.
—" E foi assim que eu vi que a vida colocou ela pra mim....ali naquela terça feira de dezembro..."
—"Por isso eu sei de cada luz, de cada cor de cor, pode me perguntar qualquer coisa, eu me lembro." — continuei cantando. Caio fez um sinal, como se fosse vomitar, mas eu apenas mostrei a língua para ele. Pedro riu envergonhado
—A gente se vê depois.
—Combinado.
Ele se afastou e murmurou um "até logo" para Ângela e Caio.
—Só eu que acho que ficamos de tochas humanas? — disse meu amigo comilão.
—Nada a vê.
Mas eu não pude conter um sorriso, pensando por um momento que Pedro poderia ser o cara.
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