Sophia

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Quatro anos parada... Espero não ter perdido o jeito. Capítulo introdutório para explicar o ambiente da personagem principal.

Era uma vez...

Uma secretária muito eficiente e qualificada. Fazia bem seu trabalho e recebia o suficiente para manter suas necessidades pessoais — o que aqui inclui pequenos excessos em artigos de papelaria.

Tinha sorte de obedecer a rotina que mantinha o corpo saudável e a beleza natural. Só passava batom porque o chefe era um homem importante de negócios e não perderia o bom emprego para uma daquelas moças que se fantasiavam de palhaças no dia-a-dia da empresa.

Em sua casa não havia rádio ou televisão. Ela tinha medo de suprir sua carga diária de vida social com vozes virtuais e nunca mais ter um motivo para ir ao shopping ou ao cinema. Quando percebia a mente mais silenciosa que o normal, ia ao parque beber água de coco e ver as pessoas passando. Ouvia aquelas baboseiras cotidianas e voltava pra casa com a mente cheia. Cheia de comentários e opiniões tolas que ninguém gostaria de investir tempo ouvindo... Ou talvez não entenderiam o que ela queria dizer.

No trabalho as colegas se abriam. Falavam sem parar sobre suas vidas pessoais, seus problemas familiares, namorados, langeries e, estranhamente, o sentimento de depreciação que alcançava cada uma delas. Questionavam-na sobre as frequentes recusas ao receber convites de encontros no escritório.

A resposta era sempre a mesma: O silêncio acompanhado de um pequeno sorriso. A solidão não seria um problema se não viesse acompanhada da opinião alheia. Ela ouvia da família, dos amigos e até do chefe que sua solidão estava alcançando o nível de mantê-la calada por todo o dia — se não fosse necessário fazer ligações ou dar um recado.

O silêncio que exalava de seu corpo calmo contrastava com o ardor da mente ativa. A atenção que punha nos detalhes quase a fazia sentir o choque dos neurônios. Era assim sua ansiedade: Primeiro tremia violentamente balbuciando algumas palavras baixas, depois, quando a tormenta cessava, a mente parava, estagnada, no confortável e caloroso silêncio amigo.

Decidiu buscar, então, ajuda profissional.

O primeiro psicólogo que visitou era um homem muito simpático. E problemático na mesma proporção. A secretária começava o discurso com uma frase generalizada, encaminhando-se para a parte específica para logo depois montar os argumentos exatamente como havia aprendido na escola, como as pessoas entendiam, ao contrário de como pensava. Era assim que se fazia uma redação, não era?

Mas era um trabalho difícil. Falar, ordenar as ideias que surgiam disparadas... Mas, antes que avançasse o primeiro parágrafo, digo, os primeiros dez minutos de sessão, o psicólogo começava a dar exemplos de sua própria vida e de como enfrentou seus problemas.

A secretária se comoveu com sua história, decidiu permanecer calada e ouvir quem precisava bem mais de atenção. Claro, ele sempre tinha que aguentar as lamúrias dos outros e não tinha ninguém para fazer o mesmo. Esperou algumas semanas para que o psicólogo "passasse a vez de falar", mas isso não aconteceu.

Manter uma falsa amizade, baseada em pagamentos de horários, era, de fato, inadmissível.

— Então, quando a minha avó se operou uma nuvem cinza e espessa tomou conta da minha casa. Minha mãe já não cozinhava e meu pai estava sempre de mau humor...

— Senhor Eurípedes, por favor, um minuto. — Interrompeu

— Sim? Você está fazendo confusão com os nomes. São muitos tios, não é? Mas eu desenho a árvore genealógica no quadro branco. Quer desenhar para mim? Ali, sobre a cômoda, estão as canetinhas...

— Não... Não será necessário desenhar a árvore.

— Você não é boa desenhando? Não há problema. Tenho certeza de que tem outros dons...

— Senhor Eurípedes. — Interrompeu novamente — Eu não vou desenhar a árvore. Preciso esclarecer que há semanas venho lhe cedendo os ouvidos como uma boa pessoa deve fazer quando encontra uma boca e uma alma desesperada. Mas preciso lhe dizer que, infelizmente, não venho todas as quintas ao seu consultório para ouvir seus problemas nem para falar dos meus. Na verdade, eu o procurei para conseguir entender porque não consigo me comunicar normalmente com as pessoas. Minha Diferença. — Parou por um segundo e olhou o relógio de pulso — E eu tenho certeza que essa é a primeira vez na vida que eu consigo falar com o senhor por mais de trinta segundos sem ser interrompida. Gostaria de agradecer agora, pagar essa consulta e me retirar. E também espero que isso não tenha parecido muito grosseiro, só tentei ser sincera.

"Pela primeira vez o Senhor Eurípedes não encontrou uma situação em sua vida que pudesse relacionar às minhas palavras. Seus olhos se transformaram em vidro e dele escorria um pouco de sua viscosa essência, como se a temperatura fosse insuportável e a estrutura cristalina daquele vidro azul quisesse se fundir novamente com o cosmos." — Escreveu a secretária minutos mais tarde, em seu bloquinho de camurça verde.

Fez algumas ligações e, com um sócio do chefe, conseguiu o telefone e endereço de um analista. Não poderia desistir de entender sua diferença para com as outras pessoas. Até que antes de dormir sentiu uma ponta de felicidade por conseguir falar as frases na ordem numa situação de tensão como foi com o psicólogo. Sentiu-se boba mais uma vez por comemorar algo que todo resto do mundo deve ter nascido sabendo, mas também se permitiu ser boba e aproveitar aquele sentimento bom.

Logo no dia seguinte marcou uma sessão com o analista. Doutor Narciso. Dentro de duas semanas conheceria mais um homem que tentaria diagnosticar sua Diferença.

Duas semanas era o tempo necessário para ficar ansiosa e se acalmar. Construir textos, treinar na frente do espelho e se dar conta de que ensaiar não é o melhor caminho para ser sincera. No dia da consulta, estava apressada para sair da empresa, encerrou os relatórios em menos tempo que o habitual, enviou por e-mail a carta de agradecimento de um estagiário para o chefe que, quando ela estava a ponto de sair, chamou-a em sua sala.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.