Sophia
12 Capítulo 12
Tomei o cuidado de andar sempre de cabeça baixa o máximo que era permitido e bem perto de Peter. Mas era mais fácil, porque ali existiam muitas pessoas estranhas que andavam de cabeça baixa. Qualquer sinal de movimentação excessiva nós fugiríamos juntos.
Eu estava criando um imenso sentimento de gratidão por Peter, não me importava que ele estivesse ali por obrigação. Eu não estava sozinha e isso me deixava feliz.
Chegamos em uma aparente livraria, nós entramos no lugar quase deserto e seguimos reto, nos abaixamos para passar em uma porta feita ao que parecia para anões. Havia vários livros empilhados e encaixados nas paredes, mas talvez perdesse para a quantidade de poeira e teias de aranha que havia no lugar. Parecia abandonado.
- Onde é que você esta me levando garoto? – falei horrorizada com a sujeira, enquanto olhava uma aranha descer pela sua teia perto de nós.
- Hator? Tod?Hator Tod? Peter? – soou uma voz aguda e falha. – É você mesmo?
- Huni Nebré? – falou Peter, sua voz nunca esteve tão feliz desde que eu havia chegado, e eu sabia disso. Ele estava animado, irônico e seu antigo charme de garoto malvado transparecendo em seu rosto.
Os dois garotos se abraçaram brevemente e riram um pouco falando de como haviam mudado em pouco tempo. O garoto de cabelos loiros, baixo, com aqueles óculos horríveis, e uma barba mal feita ao redor do rosto, lembrava muito Steve, um garoto risonho que eu a vários anos atrás atazanava na escola por ele ser amigo de Peter. No ultimo ano ele havia desaparecido da escola, e eu já nem lembrava dele. Foi ao me olhar que a expressão de Steve mudou.
- Vejo que não foi por minha causa que ganhei essa visita – disse ele desapontado com Peter, mas com um pequeno sorriso no canto da boca. Ele não evitou me olhar da cabeça aos pés como sempre fazia, e ainda fez cara de nojo para as partes sujas e rasgadas do meu vestido.
— Eu... Bem... Queria ter vindo antes – murmurou Peter constrangido.
- Ele só não teve coragem de descer até aqui – grunhi irritada enquanto me virava para dar uma olhada dos livros.
- Vejo que você não mudou nada, Beteenford – retorquiu Steve, pela primeira fez se dirigido a mim.
- Vai dizer por que me trouxe aqui Peter? – desafiei.
Ele suspirou enraivecidamente – Steve poderá nos ajudar, Sophia – disse ele com amargura e me fuzilando com os olhos.
- Achei que só estava passando para dar um “olá” para o seu cachorrinho de estimação, ou como você mesmo chamava seu melhor amigo – resmunguei enquanto me apoiava em um balcão atulhado de livros para ler um livro em uma prateleira mais alta.
- Não vou me dar o trabalho de lhe responder – falou Peter para mim – Steve, por favor, você sabe onde mora o membro da família Sanakht na cidade? Ouvimos falar que ainda há um aqui. E temos que entrar em contato o mais breve possível.
Steve sacudiu a cabeça dizendo que não – As coisas não mudaram desde a última vez que nos vimos Peter. Ninguém mais vê os nobres, eles sumiram. Nem ao menos os Mumianos, foram outros que desapareceram. Só sabemos que Hórus está no controle por causa dos guardas.
- Mumianos? – perguntei surpresa
- Sim, foram eles que ajudaram o Conde Hórus a invadir o castelo da sua família, mas Kanope já havia escapado. E foram eles que botaram lenha na fogueira quando começou essa história de quem tem mais terra é mais poderoso no nosso povo. Sempre procuraram guerra.
- Como reconhecemos um Mumiano? – perguntei sentindo um arrepio subir pela coluna.
- Eles tem alguma parte do corpo como múmias, enfaixadas e em alguns casos podres. Eles andam como muçulmanos, a roupa. Andam de burca. – respondeu Peter como se estivesse falando de uma espécie de cachorro.
- Ótimo, adorei saber que foram cadáveres que sequestraram meus amigos querendo minha cabeça de decoração em cima da lareira – resmunguei enraivecida novamente. Por um momento achei que seria uma boa eles estarem com os Mumianos do que com os soldados de Hórus, mas ai lembrei que eles estavam juntos nisso. Eu entendia a lógica de Peter, encontrar meu pai biológico para pedir ajuda e então irmos atrás de meus amigos. Até porque fazia anos que ele estava afastado daquele lugar cuidando de mim.
Steve ergueu as sobrancelhas com a minha agressividade.
- E você não tem mais nem uma informação que possa ser útil? – Peter já estava começando a ficar frustrado mais uma vez.
- Bem... Lembra-se de Jude Jones? – Peter acentiu com a cabeça e eu não deixei de notar o sorriso entusiasmado no canto da boca do garoto. – Ela veio me visitar a alguns dias e em meio de conversa me contou que viu um homem com um Ankh marcado na mão. Mas não falou o lugar, depois mudou de assunto. Infelizmente. – Terminou Steve, era visível o esforço mental que ele fazia para lembrar de qualquer coisa que pudesse nos ajudar.
- Você pelo menos sabe onde ela mora? – perguntei desconfiada com o jeito generoso do garoto.
Steve estalou os dedos e de uma bola de fogo saiu um papel com o endereço diretamente na minha mão.
- Te devemos uma, foi bom te ver – disse Peter apressado. Ele arrumou nossas capas e com um aceno se despediu de Steve. E saiu me puxando pelo braço enquanto eu resmungava aos tropeços.
- Porque saímos de lá assim? – Perguntei. E eu que achava que teria que implorar para ir embora.
- O clima mudou, é melhor nós saímos daqui rápido – disse ele com irritação. Peter tinha percebido algo, eu tinha certeza, mas eu também sabia que ele não ia me contar.
Nós apressamos o passo e dobramos a esquerda em uma rua, depois a direita e continuamos, optamos por andar pelas sombras. Onde era mais seguro não ser reconhecido.
- Por que você não sussurrou para Steve sobre o que estávamos fazendo? Alguém poderia ter escutado. – sussurrei a ele.
- As paredes daquela sala são protegidas e isso inclui a porta, ou o arco que sobrou dela. Não podiam nos escutado.
- Acha prudente nós irmos agora à casa da Jude? – falei fazendo cara de nojo ao pronunciar o nome da garota. Eu também a conhecia.
- Vamos logo e não reclame – murmurou ele enquanto olhava vigiando para todos os lados.
Continuei andando com relutância. Odiava ter que me submeter a Peter. Mas eu estava percebendo que meu orgulho havia na calçada da loja Marie, agora ele não salvaria a vida dos meus amigos, mas Peter sim.
Chegamos a uma porta solitária em vários metros de parede. Peter ficou observando com curiosidade por um longo tempo. Tinha que ser ali.
- O que você está fazendo? – sussurrei preocupada, estava escurecendo rápido e mal havia passado das duas da tarde.
- Shiii – sibilou ele. O meu estomago grunhiu de fome, mas o ignorei totalmente.
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