Thiago acordou assustado com o seu telefone vibrando em seu bolso e com uma incrível dor na garganta. Com a visão ainda turva ele viu um nome da sua lista de contatos que queria a muito ter se livrado, mas nunca tivera coragem.

— Alô – disse uma voz estranha em um número de telefone tão familiar.

— Quem está falando? – Perguntou Thiago, intrigado por aquela situação tão ímpar.

— Aqui é do Hospital São Marcos, nós encontramos esse telefone no bolsa de uma vítima de um acidente e o seu número estava salvo como contato de emergência.

— Puta que pariu!!! Ela está bem?!

— Calma, senhor, primeiro o senhor pode me informar o seu nome?

— Eu me chamo Thiago. – Naquele momento Thiago percebeu perplexo que havia perdido a sua descida enquanto dormia, e que não estava indo mais para o mesmo lugar agora que recebera tal telefonema, qual a rota teria que...

— Sua amiga está fora de risco, Sr. Thiago, mas ela está sob observação, se o senhor puder passar aqui para responder algumas perguntas sobre ela como histórico familiar, alergias entre outras coisas.

— Eu já estou a caminho daí, certifique-se de que vocês não a percam, apenas!! – E nesse momento o ônibus parou para que ele pudesse descer e tomar a sua nova rota.

Com o telefone na mão e os fones de ouvindo pendendo da gola da sua camiseta ainda tocando as músicas que ele usara para embalar o seu sono Thiago agora corria em direção a parada de ônibus mais próxima que pudesse o deixar no centro da cidade, onde poderia alcançar o hospital com mais apenas uns cinco minutos de corrida.

Durante o percurso Thiago não pode deixar de lembrar de última vez em que encontrara Sofia, eles tiveram uma briga tão feia que ele achou que nunca mais ouviria falar dela. Já tinham seis meses que eles haviam terminado o namoro e agora estavam investindo em uma relação de amizade pois ambos gostavam muito um do outro e no fundo só queriam estar bem, e estar próximos. Mas o de ciúmes de Sofia havia pesava cada vez mais no relacionamento e a falta de tempo de Thiago desgastava cada vez mais o caminho em direção aos braços um do outro, e então a partir de uma decisão unilateral Thiago resolvera romper o relacionamento alegando que isso seria o melhor para ambos.

Muitas manhãs acordando sozinho e poucas noites de sono boas depois lá estava ele, indo atrás de Sofia mais uma vez porque ela continuava na sua rotina de fazer todas as coisas perigosas que encontrava pela frente. Depois de cinco meses sofrendo e com a ajuda da sua melhor amiga Júlia, ela decidira parar de sofrer pelo passado e viver no presente. Fatos incríveis e assustadores se seguiram após essa decisão. Alguns arranhões e fraturas, mas o espírito de Sofia estava cada vez mais vivo dentro dela e cada vez mais livre de Thiago.

Eventualmente os dois se encontraram em uma reunião de amigos e conversaram bastante, o que deu início a essa nova amizade alimentada por carinho e uma promessa. De que iriam cuidar um do outro, independente do que acontecesse. O novo espírito flamejante de Sofia agora tinha alguém para olhar por ele, e isso as vezes gerava conflitos. Duas semanas atrás a ideia de participar de um racha clandestino fez com que os dois discutissem acaloradamente a ponto de desenterrarem o relacionamento passado e expor as raízes das dores de cada um. Houveram lágrimas e gritos, um bater de porta e nenhum bater de coração antes de Thiago observar pela janela Sofia se afastando pela rua com a cabeça baixa para evitar que as pessoas a vissem chorando e empurrando quem estivesse pelo seu caminho.

Agora no balcão de recepção do hospital Thiago assinava todos os papeis que lhes eram requeridos e batia o pé repetidamente no chão impaciente com toda aquela situação burocrática enquanto sua amiga estava ferida dentro de um quarto de leito público. Logo que foi liberado e depois de se perder duas vezes nos corredores do Hospital ele encontrou o quarto que lhe foi dito onde estaria a paciente A42. Para a não surpresa de Thiago o quarto estava vazio e com a janela aberta. Olhou mais uma vez ao seu redor e viu alguns itens pessoais de Sofia em cima de uma cômoda. Ela não sairia sem eles.

— Com licença, enfermeira! – Chamou Thiago por uma funcionária que passava pelo corredor naquele instante. – Você poderia me dizer onde se encontra a paciente A42?

— A42 – Repetiu a enfermeira e começou a procurar por algo em sua prancheta. – Ela acabou de ser levada para a tomografia, pode ser que ainda demore um tempo para ela retornar.

— Ah, okay, muito obrigado. – Um pouco mais aliviado Thiago resolveu ir até a cantina do hospital para comer alguma coisa enquanto tinha tempo. Pediu o lanche mais barato que tinha e se sentou em uma mesa com vista para a o pátio do hospital e ficou a observar os pacientes e médicos transitando em suas vestes brancas de um lado para o outro.

— Quando bate um vento as vezes você consegue ver umas bundinhas. – Thiago tinha a péssima mania de não perceber as pessoas se aproximando dele por trás. Ao seu lado agora sentava uma garota com uma atadura ao redor de metade da sua cabeça e da outra pendiam cabelos ondulados como o mar e escuros como a noite. Seu único olho que podia ser visto era cor de mel e cintilava junto com o buraco que havia agora no seu sorriso graças ao acidente.

— Você não deveria estar em uma tomografia???

— Eu estava com fome, então convenci uma das minhas colegas de quarto de que a minha cama era muito mais confortável que a dela, nem foi tão difícil. – Disse Sofia se sentando ao lado de Thiago fazendo um barulho com um canudo enquanto tomava algo e com um sanduiche na mão.

— Você é maluca, olha o que fez consigo mesma, você sequer deveria estar de pé!

— Foi só um acidente de carro, eles nem descobriram que a gente estava correndo, então o único registro que vai ficar é a cicatriz. Como está o seu lanche? – E então Sofia pegou o sanduiche que ele havia comprado e lhe deu uma mordida. – Você e esses seus lanches saudáveis, arg. Então, o que anda aprontando?

— Estou procurando pelos meus pais biológicos, na verdade. – Sofia conhecia a história. – Sobre a nossa briga...

— Não quero falar mais disso, acho que ambos ouvimos verdades suficientemente dolorosas naquela noite, mas ainda assim verdades. Podemos nos magoar com isso ou aceitar elas e continuar crescendo, o que acha? – Agora o sorriso havia abandonado o seu rosto e um ar de melancolia tomou seu espírito enquanto se voltava para a janela para assistir a vida lá fora.

— Eu queria me desculpar do mesmo jeito, eu sei o quanto dói em você falar sobre ele.

— Desculpas aceitas, agora que tal nós....

— Então aí está você!!! – Gritava a enfermeira com a qual Thiago tinha se encontrado antes enquanto adentrava a cantina com o seu jaleco esvoaçante e sua caneta aponta para o rosto novamente iluminado de Sofia. – Muito engraçadinha, não é mesmo? Você sabia que esses procedimentos custam caro? Agora teremos que fazer dois deles!

— É, parece que essa é a minha deixa, você pode me aguardar no quarto até eles me liberarem? Nós ainda precisamos falar sobre algumas coisas.

— Você promete que não vai fugir de novo?

— Eu prometo.

Então a enfermeira pode finalmente levar Sofia para realizar seu exame e Thiago as observou se afastando enquanto terminava o seu sanduiche e o que havia restado do sanduiche e do suco de Sofia. Se dirigiu ao quarto para aguardar o retorno de Sofia e da Conversa enquanto pensava nas coisas que haviam discutido durante a última briga e as coisas que ela lhe falara naquele breve encontro. Embora os machucados, Sofia parecia mais calma do que nunca, e não sabia se isso lhe era reconfortante ou assustador.

Pegou então seu celular e decidiu usar o wifi do hospital para checar o seu email e a lista de possíveis pais que houvera recebido mais cedo. Lá estavam sete nomes, três deles em pares e quatro solitários. Tentou pensar em como iria procurar tais nomes, qual a ordem que ele procuraria, o quanto trabalho isso daria, se realmente valeria a pena. Quando a sombra da dúvida assomava os pensamentos de Thiago ele resolvia que passaria tais problemas mais tarde na sua peneira mental, queria ir até o final com as coisas, precisava de um encerramento pessoal para que pudesse continuar seguindo em frente.

Quando chegou no quarto de Sofia a primeira coisa que Thiago fez foi encontrar uma poltrona para sentar e lá afundou todo o seu corpo e os seus problemas, sua mente pesava e seus pés agora livre da pressão do seu corpo contra o solo flutuavam junto com a sua mente. Aceitar as verdades parecia tão difícil quanto aceitar um soco, um soco farpado e pesado cheio de realidade, diferente do soco de sono que o atingia agora e tirava dele todo o peso dessa realidade.