Sons do Luar
1 Sons do Luar
Notas iniciais
A história se passa depois do arco "Sky is Over".
Caminhar durante a noite não era um hábito seu, porém, ao fim de exaustivo dia de trabalho, parecia ser a maneira mais prática de relaxamento, uma vez que não estava com cabeça para ficar em casa, mas também não queria ir para a guilda ou qualquer outro ambiente onde poderia ser encontrada.
“Escolha estranha para ficar sozinha” Pensou contendo um riso, afastando-se do centro da cidade sem perceber; a magia a permitia escutar alguns murmúrios de pessoas se perguntando quem se era realmente Lightning que estava ali andando entre eles. Felizmente não tiveram coragem de se aproximar e ela também não fez questão de ir até os fãs, fingindo não escutar ou ver nada referente a sua pessoa, deixando que suas pernas a guiassem livremente pela cidade que conhecia tão pouco, apesar de ter crescido nela.
Andou por ruas, becos, árvores e grandes jardins que possuíam uma beleza quase sobrenatural quando iluminados pela luz do luar. Quanto mais para longe de casa ia, mais familiarizada se sentia, porém não lembrava de ter percorrido aquele caminho, pelo menos não depois que saiu de casa.
Mas algo dentro de si despertou quando viu uma caixa de areia num espaço quase oculto por árvores e moitas.
Parou ao reconhecer, surpresa, um lugar onde não ia há anos: Uma pequena praça, afastada até demais do centro da cidade e das mansões que a cercavam, quase na fronteira de Crocus, aparentemente sem nenhum atrativo além de brinquedos velhos e justamente por isso pouco visitada.
“Eu cantava aqui quando era criança” Pensou, aproximando-se de um dos balanços e deixando seus dedos percorrerem a estrutura um pouco enferrujada. Se fechasse os olhos, ainda podia ver a pequena garota de cabelos roxos que as vezes corria até ali buscando um refúgio, algo que a tirasse da vida de cobranças e pressões sufocante na qual estava presa “E aqui eu o encontrei pela primeira vez”.
Pensar em Jared já não trazia mais nenhum sentimento ao seu coração e isso a deixava aliviada, era o sinal de que definitivamente havia deixado tudo aquilo para trás.
Movida por uma nostalgia infantil, sentou-se num balanço depois de confirmar que a estrutura comportava o seu peso. Um riso bobo escapou de seus lábios enquanto movia as pernas fazendo o brinquedo ir para frente e para trás, divertindo-se como poucas vezes naquele ato tão simples.
Havia algo reconfortante em estar sozinha, mas não se sentir solitária.
Continuou se balançando de forma despreocupada até que o farfalhar das folhas chamou a sua atenção. Intrigada por saber que poucos iam ali, se perguntava quem, naquela hora da noite, estaria numa praça esquecida e isolada que era iluminada apenas pela luz natural da lua que, justiça seja feita, estava cumprindo belamente o seu papel.
Pôs os pés delicadamente no chão e esperou até que alguém aparecesse. Escutava os sons de uma alma e aquela voz de alguma forma lhe era conhecida, mas nada a teria preparado para o baque que levou quando pôde ver quem estava ali.
Os anos mudaram muito sua aparência, é verdade, e pelo jeito mudaram um pouco sua voz também, afinal, a cantora praticamente não havia associado nada até aquele momento.
“Dara?”.
A pele continuava perfeita e sem nenhuma mancha, os cabelos tão lisos e macios que fariam inveja a mais bela das modelos, o corpo proporcionalmente perfeito coberto por um modesto (e caríssimo) vestido de renda que contrastava com os fios claros e os olhos cor-de-rosa herdados do lado paterno da família, claro, como ela poderia esquecer?
Como ela poderia não reconhecer a própria irmã que, por algum motivo, estava bem na sua frente?
Sandara ergueu os olhos, igualmente perturbada com aquele encontro e, sem saber o que fazer, baixou a cabeça, sentando-se num balanço ao lado do seu, silenciosamente.
Tentou escutar a alma da irmã e se surpreendeu com o que viu. Ao contrário do que sempre pensou, não havia ódio contra si, havia um pouco de rancor, é verdade, e a mulher também discordava de muitas das ações que a caçula havia tomado, mas sondando um pouco mais a fundo, era possível encontrar dúvida.
Sandara as vezes se perguntava se realmente estava fazendo a coisa certa em ignorar a irmã.
Algo nisso tudo fazia Kayles se sentir um pouco melhor.
—Sinto muito por Jared — Murmurou, depois de minutos de silêncio, sem olhar nos olhos da mais velha. Cada uma encarava o chão, Kayles balançando-se devagar, Sandara, com os pés firmes no solo.
—Eu quem deveria dizer isso, você sempre gostou dele mais do que eu — A voz calma a surpreendeu e, por um pequeno segundo, a cantora sorriu — Obrigada, Kayles.
Se não tivesse magia de som, provavelmente não teria escutado o murmúrio, tão baixo ele foi. Pouco tempo depois de ter dito isso, Sandara ergueu-se e caminhou para fora do local, mas não sem antes virar-se e trocar um rápido olhar com a irmã mais nova, que sorriu tranquila, mostrando que, da parte dela, não havia rancor.
Um pouco transtornada por aquilo, a mais velha saiu em silêncio.
Kayles ainda escutou sua alma, e acabou sorrindo enquanto olhava para a lua. Se nem salvando a própria família de um traidor infiltrado havia amolecido o coração de seus pais para perdoá-la, paciência, não seria ela que ficaria correndo atrás, mas pelo jeito sua irmã não era tão indiferente ao seu gesto quanto queria deixar parecer.
De repente, sonhar em ter uma vida normal com a sua irmã não parecia exagero.
“Um dia, talvez”.
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