Sonolento
1 A garota & o Lobo
Notas iniciais
Ela passou por aquelas ruas incontáveis vezes, escutou aquele choramingar incontáveis mais. Esmé fazia o mesmo caminho todo dia, de sua casa até seu trabalho – de seu trabalho até sua casa; uma rotina certeira e cruel. E, de rotina, ao passar ao lado de uma decrepita casa escutava de novo e de novo a mesma sinfonia.
Garras se arrastando ferozmente contra o chão, desenhando sem parar em madeira podre; mandíbulas se fechando brutalmente, estalando com o som de presas se chocando; o choramingar incessante de alguém – ou algo.
Esmé podia jurar que o som a acompanhava, que ela o ouvia em cada passo que dava naquela rua, que ela o ouvia enquanto praticamente se escravizava em seu trabalho, que ela o ouvia quando voltava para casa – mesmo com os travesseiros contra as orelhas tentando inutilmente abafar o choro.
E cá estava ela, no maldito dia das bruxas, os cobertores jogados para o lado, um pé balançando para fora da cama, a insônia como companheira enquanto ela gritava em suas almofadas – e mesmo seus brados ainda lhe soavam mais baixos do que o choramingar.
Ela estava cansada – cansada demais de conviver com isso, com esse sentimento ruim inexplicável que não era culpa dela, mas, de alguma forma, era parte dela. Parte de cada pensamento de seu dia, parte de cada respirar que ela cedia aos seus pulmões.
Esmé não sabia onde ela terminava e o choro começava.
Mas sabia que não podia continuar vivendo assim – se é que podia considerar isso “viver”.
Sempre que ela fechava os olhos, o choramingo continuava no escuro de sua mente – um nevoeiro mental em que sua única estrela guia também era sua maior maldição. Sozinha, cansada, com o peso do mundo nas costas – mas se sentia inútil demais para continuar com toda essa responsabilidade.
Era culpa dela – ela que escolheu aquele trajeto a primeira vez, ela que insistiu em passar por ali, ela que focou demais em um som aleatório, ela que não consegue controlar os próprios pensamentos vazios ao ponto de se apegar ao único companheiro em sua vida.
É fácil se apegar aos seus medos quando eles parecem ser os únicos que se importam com você.
Mas agora – com outra noite de sono perdida, depois de encharcar as fronhas de seus travesseiros com o próprio choro enquanto amaldiçoa o choramingar alheio –, Esmé decidiu que precisava erguer a cabeça, engolir sua angustia e enfrentar o choro.
Esmé ergueu o rosto molhado das almofadas, sua garganta ardia e seu corpo tremia com uma mistura amargurada de medo e exaustão – sentimentos que já lhe eram tão rotina quando comer, trabalhar, dormir. Se é que dormir ainda fazia parte de sua vida.
A rua, sua casa, seus pensamentos estavam silenciosos como um tumulo – e, mesmo assim, ela ainda ouvia o distante choramingar. Lamurias soluçadas, gemidos abafados e uivos sufocados – vinham de dentro dela, vinham de fora dela, vinham de todos os lugares.
Ela se sentou em sua cama vagarosamente – com medo que um movimento em falso lhe desestabiliza-se ainda mais –, passou a mão pelo rosto enquanto jurava para si mesma que ainda tinha equilíbrio. Respirou fundo tirando aqueles longos segundos para reorganizar o caos de seu peito – escondido atrás dos pulmões.
Colocou os pés contra o chão gelado quando finalmente de decidiu.
Esmé engoliu seco; não queria ir – não queria enfrentar seja qual besta que assombra sua rua ou seus pensamentos. Mas ficar ali – encolhida, tremendo, só – ouvindo aquele monstro lhe devorar toda noite por dentro era muito pior.
Fechou os dedos ao redor de um casaco qualquer que tinha pendurado em uma cadeira e saiu para a madrugada. As lâmpadas da rua tremulavam como se compartilhassem de seu cansaço – tão próximo da desistência –, e o vento era fino, cortante, quase que a desafiando a tremer mais ainda.
Medo, sono, exaustão e frio.
Seus passos contra os paralelepípedos da rua davam um novo instrumento para a melodia da noite – percussão para o choro das cordas e soluços do sopro. Cada passo uma nota, cada passo mais perto do choramingar.
Quando atravessou o fim da rua principal, chegou finalmente ao beco que levava à velha casa. O lugar era quase parte da cidade – ninguém lembrava quem já morou ali, ninguém sequer se importava. Era uma estrutura torta, paredes escuras por mofo e umidade, e janelas quebradas como olhos vazios.
Aquela casa sempre esteve ali. Aquele som também.
Nada havia mudado, nada estava diferente – só Esmé.
Ela parou diante do portão caído – o ar parecia mais pesado ali, mais frio, mais denso, o choramingar mais grave... Até o som cessar por completo pela primeira vez em dias, meses, anos. E sua ausência era ensurdecedora.
“Alô...?” Ela sussurrou, sentindo-se ridícula por tentar conversar com o nada. “Sei que tem alguém aí... Eu consigo te ouvir.” Seu próprio eco foi a única resposta que recebeu: “Vir, vir”.
Ela contornou os decrépitos portões e levou suas pantufas contra a grama acinzentada – antes de pisar no primeiro degrau até a porta da frente da casa, hesitou ao ouvir um farfalhar. Algo se movia, lento, arrastado – algo se aproximava.
Esmé conseguia ouvir o batimento de seu coração em seus ouvidos, acompanhando o som de cada tentativa miserável de passo do outro lado daquela parede. O barulho veio até a soleira da porta quebrada e parou.
A garota se sentia observada, como se olhos enormes e famintos tivessem decidido que sua silhueta tremula era entretenimento.
“Eu...” Sua voz falhou. “Eu vim porque você não me deixa dormir – não me deixa viver.” Diz tremula, suplicante. “Porque eu não aguento mais.” Engoliu o choro. “E porque acho que você não aguenta mais também.”
Um estalo seco ecoou de dentro da casa – madeira cedendo sob o peso de algo que não queria ser visto, mas que já não tinha mais forças para se esconder. O farfalhar virou arrastar, o arrastar virou o som de garras arranhando contra o chão como se marcassem o caminho até ela.
Ela prendeu a respiração e ele surgiu dentre os vãos da porta quebrada.
Primeiro, só sombra passando entre frestas, só escuridão – mas não a escuridão comum do breu. Aquilo era uma sombra espessa, quase sólida, que ondulava como se respirasse. Da sombra surgiram patas – esqueléticas, longas demais, peludas de um modo desigual, falhos como uma noite de sono mal dormida.
O corpo veio logo atrás – magro, retorcido, com ossos salientando pela sombra como tortas lanças. O pelo falho eriçado cobrindo toda a expansão até a cabeça – um focinho comprido, olhos brancos como vidro trincado fundos na face, e uma boca com presas longas demais para caber ali.
A sombra de um lobo – ou, a sombra do que já foi um lobo.
Ele parou na frente da porta, o peito subindo e descendo em um arfar silencioso de um vulto que mal se sustentava, mas que ainda tentava parecer maior, mais forte, mais feroz do que era.
Esmé respirou fundo – tentou ignorar o medo como fazia com a desesperança ou com a solidão, tentou organizar seus pensamentos como fazia toda noite antes de tentar dormir. Ela não sabia o que estava acontecendo, não sabia o que era aquilo, não sabia o que fazer.
“Por que você estava chorando?” Pergunta tremula, sem pensar, sem saber o que pensar.
A sombra encolhida, feita de breu mastigado e cuspido pareceu erguer o queixo – orgulhoso mesmo enquanto arfava como se cada respiração pudesse ser a última –, seus olhos neblinosos queimavam em teimoso desafio mesmo assim.
“Eu não-“ Ele rosna, cuspindo as palavras. “-estava chorando.”
Esmé piscou surpresa. “Você fala?” Ela hesita em perguntar em um sussurro.
A besta ergueu mais o focinho – menos por orgulho verdadeiro, mas sim por hábito, reflexo. Por tentar parecer algo que não acredita ser. Esmé viu um espelho. Viu o mesmo cansaço que a consumia todo dia, o mesmo latente sono, a mesma necessidade de alívio.
“Falo. Rosno. Reajo.” Ele disse, com um desprezo que soava mais cansado do que agressivo. “E o faço desde muito antes de você nascer, humana.” Um passo À frente, mancando, mas cheio de uma arrogância quase patética.
Aquela pose, aquele ataque eram mentira. Ela sabia – e ele sabia que ela sabia. E o lobo, irritado por ser tão transparente em sua fraqueza, rosnou baixo – uma tentativa falha de esconder sua vergonha, sem real ameaça. Esmé deu um passo para frente também, lhe espelhando.
“E chora.” Concluiu a garota erguendo o próprio queixo. “Por que estava chorando?” Perguntou de novo com uma coragem que nem sabia ter.
Os pelos eriçados do lobo estremeceram, o breu nas bordas se seu corpo vacilou como uma sombra prestes a sumir em um clarão. Ele virou o rosto para o lado, não queria responder – não queria admitir.
“Por que você foi abandonado?” Ela arriscou.
O lobo se tornou ainda mais escuro de alguma forma, como se a escuridão da noite não fosse páreo para sua própria. Ele enrijeceu inteiro, firmou as patas ao chão ao ponto da madeira estalar sobre suas garras. O breu encarou Esmé de volta.
“Eu não fui abandonado.” Sua voz saiu firme, mas quebrada nas bordas – exatamente como ele parecia por trás de toda sua bravata. “Minha bruxa irá voltar.”
A resposta caiu pesada entre eles – o lobo não tinha convicção em sua voz, mas tinha necessidade. Era o tipo de esperança que não é escolha, é mais pura compulsão. A esperança que é sempre a última que morre – mas que nada a impede de doer cada segundo até seu final respirar.
E doía – doía como o cansaço gritante em seus ombros, como o frio de uma cama sem cobertas, como seus olhos após outra noite de insônia, como acordar de um pesadelo, doía como viver sonolento. Os olhos fundos, a postura desiquilibrada, a voz rouca – o lobo doía sonolento.
Esmé queria questionar o lobo vivendo no meio da cidade, queria questionar sobre a bruxa – mas ela não questionaria sobre sono. Ela sentiu a garganta fechar. “Há quanto tempo você espera?” Esmé perguntou.
Desta vez, o silêncio dele foi resposta o suficiente. Tempo demais – tempo o bastante para que a espera virasse identidade, tempo o suficiente para que a fome fosse rotina. Como deitar na cama mesmo sabendo que não vai conseguir dormir.
“Não importa.” Ele disse. “Não importa quanto tempo – quantos dias, quantas noites.” Rosnou vagaroso como um bocejo. “É isso que eu faço, é isso que eu sou. Eu espero. Eu aguento. Eu fico.”
Parecia que ele arrancava cada palavra do peito com as próprias garras. Esmé se ajoelhou, devagar, quase que com medo de que ele lhe machucasse, quase que com medo de que ela o machucasse.
“Você está mal.” Ela disse em um sussurro.
Ele mostrou as presas – não em ameaça, mas em autoproteção. “Estou cumprindo meu papel.” Retrucou entre dentes. “Servir dói. Esperar dói. Ser inútil dói. Mas é isso que resta quando já não se é nada além de dor e sono.”
A frase o surpreendeu, como se tivesse dito mais do que pretendia. Como se tivesse exposto algo que deveria permanecer enterrado – dormindo à seis palmos do chão.
Esmé viu o instante exato em que o lobo percebeu o próprio deslize: seus ombros sombrios se eriçaram, sua sombra vacilou, o focinho se voltou para longe – como se virar o resto lhe permitisse recolher as palavras já ditas. Como se esconder os olhos resolvesse a súbita vulnerabilidade.
“Não fale nada.” Ele rosnou baixo – mas não havia força no ato. “Eu não falei nada.”
“Falou sim.” Esmé respondeu teimosa, mas sem erguer a voz. “E não há problema algum em falar.”
O lobo virou-se para ela de novo, devagar, em falsa serenidade enquanto cada movimento seu puxava espinhos de dentro das frágeis costelas, espinhos atrás dos cansados olhos. Seu olhar esbranquiçado lhe fitou longamente, avaliando, desconfiando, recusando-se a baixar a guarda ou o orgulho.
“Você não entende nada, humana.” Cuspiu. “Nada.” Repetiu como se a palavra fosse uma mordida. “Você não sabe o que é existir assim – arrastado, pesado, exausto. Sem conseguir levantar, sem conseguir dormir, sem conseguir fazer algo ou me desfazer.”
As últimas palavras dele escaparam como um soluço escondido por detrás do rosnado e Esmé se assustou – não com o rosnado, não com o lobo –, mas sim com a amaldiçoada semelhança.
“Eu entendo.” Ela disse em uma franzina voz. “Mais do que deveria.”
O lobo estalou as presas em um reflexo nervoso, orelhas baixas, pescoço protegido – um instinto de vida ou morte, um ataque contra tudo que ele acreditava. “Não, não entende.” Rosnou. “Se entendesse, teria medo.”
Esmé segurou a respiração.
“Eu sou isso.” Ele relaxou os ombros num gesto de rendição, deu um passo à frente em direção da noite. “Eu sou o que sobra – o resto da magia. Sou essa coisa que pesa, que dói. Que enche a cabeça de murmúrios e, ao mesmo tempo, que deixa o mundo mudo.” Seu corpo pareceu ainda menor, como se a luz da lua o diminuísse.
O lobo fechou os olhos contra o gentil e branco clarão do luar.
“Eu sou essa coisa que não dorme; e que não deixa dormir.”
Esmé sentiu um arrepio correr pelas suas costas, por baixo da jaqueta e do pijama. “Você está falando de mim.”
Ele parou inteiramente – como se pela primeira vez em incontáveis anos, de repente, ele fosse o observado e não o observador. “Eu...” Ele hesitou. “Eu estava falando de mim.”
“E qual é a diferença?” Esmé pergunta chacoalhando a cabeça em negação, mais firme do que pretendia, finalmente sem estremecer.
A besta avançou em um rosnado, suas patas tocando a grama cinza pela primeira vez em muito tempo, seu pelo escuro tal qual breu coberto pela luz da lua por inteiro, seus olhos vazios como papel em branco encaravam Esmé – tão perto de que a garota não teria como fugir se o lobo resolvesse atacar sua jugular.
“Você não entende.” Repetiu em um rosnado agitado – como se a frase fosse uma afronta. A sombra dele dançava inquieta, como fumaça que se contorce com a vontade do vento. “Se entendesse teria ido embora assim como minha bruxa. Teria me deixado aqui para apodrecer em paz.”
Esmé inclinou a cabeça para o lado como se o sentimento pesasse em sua mente, seus olhos franziram. “Mas eu não quero.” Disse firme – mesmo se cada palavra que saia de sua boca era instintiva, reflexo, sem pensar.
“Você não precisa querer – muito menos me querer.” Ele disse, e agora havia medo real na voz. “Ninguém precisa. Minha bruxa precisava – e ainda precisa, porque ela vai voltar. Vai voltar.” Disse rápido demais, como se ensaiado ou repetido várias vezes. “Então vá embora; eu não sou igual a você.”
O silêncio da noite pesava sobre os ombros de menina e fera, nenhum estalo de madeira ou cantar de grilo para quebrar a calmaria – até Esmé erguer a mão aos lábios com urgência, em uma tentativa falha de abafar o riso que lhe escapou.
“Mesmo que eu vá embora você vai me acompanhar.” A garota promete em um sorriso, como se aquilo não fosse uma maldição por si só.
O lobo estremece com a mera ideia.
“Eu não escolho te acompanhar, eu só existo, eu só aconteço.” Ele novamente vira o rosto, os olhos brancos fixos na distante lua. “Eu só estou aqui. Sou o último pensamento ruim na sua mente antes que finalmente pega no sono, sou o peso no seu peito quando você acorda, sou o cansaço atado em você independente de duas ou doze horas de sono.”
Ele não sabia mais como receber carinho, e ela não tinha certeza como oferecer – mas Esmé ergueu uma mão mesmo assim, hesitando apenas um segundo antes de gentilmente tocar no pelo da fera em sua frente, bem onde o pescoço encontra os ombros.
Quem diria que a escuridão era tão macia.
“Eu sou um familiar de uma bruxa que nunca vai voltar – um monstro sem bruxa, sem sono, sem esperança. Sou a eterna espera e o choramingo deixado para trás.” O lobo concluiu tremulo.
As mãos de Esmé desfaziam nós no seu pelo enquanto ela lhe ouvia. “Eu te ouço chorar a tanto tempo – sua dor e seu sono me são tão familiares que não tenho certeza se não são meus.” A garota diz em um gentil sussurro, mesmo que seja uma gritante admissão. “Então deixe eu esperar com você.”
O lobo virou-se para ela subitamente, aos infernos com suas dores e cansaço – ele lhe olhava hesitante, como se nunca esperasse tal oferta, como se nunca esperasse um sorriso em sua direção, como se nunca esperasse singela companhia.
“Não quero que fique chorando sozinho.” Concluiu Esmé em um sorriso pequeno, mas tão genuíno quanto o brilho da lua.
O lobo fecha os olhos esbranquiçados antes de pressionar a própria cabeça felpuda contra as mãos da garota, quase um cão pedindo carinho. “Eu não estava chorando.” Ele repete teimoso em um rosnado – só ladrando, sem qualquer intenção de morder.
Esmé afundou os dedos mais fundo na pelagem desigual, sentindo a respiração da criatura estremecer com cada toque, sentindo a sombra lhe acolher mais e mais com cada carícia. O lobo não disse nada antes de se desvencilhar pesarosamente do carinho para se acomodar aos pés dela – como um véu negro desistindo de fingir ter forma.
“Você não deveria ficar.” O familiar diz, dando a Esmé uma última chance de fugir daquilo tudo.
“Eu já fiquei.” Ela lhe responde simples, e era verdade – ela ficara com ele desde a primeira noite que o ouviu.
Esmé sentou-se junto a ele nos degraus da varanda – pedaços de madeira quebrada pressionando contra o pijama, o ar úmido saindo da grama cinzenta lhe sujando. Ela deitou delicadamente contra ele, e ele repousou a cabeça cansada sobre as pernas dela. Nenhum dos dois comentou sobre os gestos.
Ela escorou sua cabeça contra o mais escuro pelo, um travesseiro por si só; ele sentiu o calor de um outro alguém pela primeira vez em um milênio.
Garota e lobo – bruxa e familiar – fecharam os olhos.
E, finalmente, a espera terminou e o sono os venceu.
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